
CURSO DE BÍBLIA PARA INICIANTES
AULA 13 - A QUESTÃO JOANINA.
A chamada, “Questão Joanina”, trata sobre a autoria de cinco textos que fazem parte do Novo Testamento.
São eles:
- O Evangelho segundo João;
- As três epístolas de João e o
- Apocalipse de João.
Alfred Lappe:
"Entre os possíveis autores do conjunto dos escritos são referidos os seguintes: o Apóstolo João,
João, o presbítero (João de Éfeso? ), um secretário anônimo do Apóstolo João, um cristão helenista como redator.”
( As Origens da Bíblia - Alfred Lappe - Ed.Vozes -1973 – Pág.139)
A razão de tanta discussão a respeito desse assunto é que a Questão Joanina envolve a pessoa de um apóstolo
das “primeiras horas”, a saber, João, filho de Zebedeu, irmão de Tiago. Eram os mais novos dos discípulos e chamados
por Jesus de “Boanerges” que significa “Filhos do Trovão”, devido ao temperamento altivo e zeloso de ambos.
O menor dos dois era João e durante muito tempo considerado por vários estudiosos (inclusive Padres da Igreja)
errôneamente, como sendo o Discípulo Amado ou o discípulo preferido do Mestre
Como já vimos no Evangelho de João, a Questão Joanina discute se João apóstolo seria o autor destes cinco textos
e se ele seria o Discípulo Amado.
Com relação ao Evangelho segundo João, o assunto já foi tratado de maneira adequada na AULA 11.
Na AULA 14 veremos as três Epístolas de João e na AULA 15 o Apocalipse de João.
Agora, um resumo antes de seguirmos em frente:
Analisando todas as teorias, antigas e modernas podemos afirmar que o Evangelho teve uma primeira versão sobre
a qual foram feitas correções, inserções, etc. Este processo demorou pelo menos duas décadas.
Há estudiosos que consideram que este primeiro escrito fundamental pode ter sido criado ainda nos anos 70 do
primeiro século.
Não há indícios de que este escrito inicial tenha sofrido influência de um apóstolo que fazia parte dos Doze, mas há
sim influência que remonta a alguma “testemunha das primeiras horas”. O Discípulo Amado ?
Toda a influência que podemos perceber no texto é de uma comunidade que tinha predileção pela figura do Discípulo
Amado , o qual não devemos associar a João apóstolo, filho de Zebedeu.
João apóstolo não era o Discípulo Amado.
Tudo indica que nesta comunidade havia uma escola ou corrente teológica bastante diferente da dos apóstolos,
que desenvolveu uma cristologia diferente da dos Doze.
R.E.Brown:
"Uma escola joanina de escritores que tinham em comum uma posição teológica e um estilo, à qual o evangelista,
o redator e o autor das epístolas pertenciam.”
( A Comunidade do Discípulo Amado. - Raymond Edward Brown - Ed.Paulus -2013 - Pág.100)
Alfred Lappe:
"A redação final dos escritos joânicos (Evangelho, as três cartas e o
Apocalipse) parece, entretanto, ter sido obra
de uma escola ou corrente teológica e
helenista, que, de um lado, em razão da grande distância cronológica,
introduziu nos
conceitos primitivos muita coisa imprecisa, porém de outro, imprimiu à sua obra
matizes teológicos
bastante precisos......
A pessoa do Apóstolo João acha-se, sem dúvida alguma, por detrás destes cinco
escritos que vêm sempre
associados ao seu nome pela Tradição. É, entretanto,
extremamente difícil decidir, no texto atual, onde está a
contribuição primitiva e
genuinamente joânica e onde assinalar as complementações e acréscimos posteriores.”
( As Origens da Bíblia - Alfred Lappe - Ed.Vozes -1973 – Pág.139-140)
A COMUNIDADE JOANINA
A comunidade joanina apresentada no evangelho segundo João tem interesses e crenças
até certo ponto muito
diferentes das comunidades apostólicas. De tal forma que alguns
estudiosos chegaram a discutir se ela não seria
uma seita separada das igrejas apostólicas
no final do primeiro século.
R.E.Brown, considerado uma das maiores autoridades na QUESTÃO JOANINA traçou
dois quadros:
o primeiro sobre a evolução da comunidade joanina e o segundo sobre a
relação desta comunidade com aqueles que
acreditavam em Jesus e com aqueles que não
criam Nele.

( A Comunidade do Discípulo Amado. - Raymond Edward Brown - Ed.Paulus -2013 - Pág.173-175)
I. O mundo
Os que preferem as trevas à luz de Jesus porque suas ações são más. Por esta opção
eles já estão condenados;
estão debaixo do poder do satânico “Princípe deste mundo”
e odeiam Jesus e seus discípulos, que não são deste
mundo. Jesus se recusa a orar
pelo mundo. Ao contrário, ele venceu o mundo. “O mundo” é um conceito mais
amplo
do que os “judeus”(II), mas os inclui. Esta oposição deu à comunidade joanina
um senso alienado de serem estranhos
no mundo.
II. “Os Judeus”
Os que estão dentro da sinagoga, não acreditaram em Jesus e decidiram que qualquer
pessoa que recebesse
Jesus como o Messias seria expulsa da sinagoga. Os pontos
principais da sua disputa com os cristãos joaninos
envolvem:
a) Afirmações a respeito da unidade de Jesus com o Pai – o Jesus joanino “falava de
Deus como seu pai,
tornando-se assim igual a Deus”;
b) Afirmações segundo as quais entender Jesus como a presença de Deus na terra
privava o Templo e as festas
judaicas de seu significado.
Condenaram os cristãos joaninos à morte pela perseguição e pensavam que assim
estavam servindo a Deus.
Segundo o pensamento de João, eles eram filhos do diabo.
III. Os adeptos de João Batista
Embora alguns dos adeptos de João Batista se juntassem a Jesus ou se tornassem
cristãos (incluindo os cristãos
joaninos), outros se recusaram, afirmando que João
Batista e não Jesus era o emissário primário de Deus.
O quarto evangelho nega
energicamente que João Batista seja o Messias, Elias, o Profeta, a luz, ou o esposo.
Insiste que João Batista deve diminuir enquanto Jesus deve crescer. Entretanto os
adeptos de João Batista são
descritos como pessoas que entendem mal a Jesus mas
não o odeiam. Parece que há esperança de que eles se
convertam.
IV. Os criptocristãos
Os judeus cristãos que permaneceram dentro das sinagogas, recusando-se a admitir
publicamente que criam
em Jesus. “Eles preferiam o louvor dos homens mais que a glória
de Deus”. Possivelmente pensavam que podiam
conservar sua fé particular em Jesus sem
romper com a herança judaica. Mas aos olhos dos cristãos joaninos,
preferiam ser
conhecidos como discípulos de Moisés e não de Jesus. Praticamente poderiam ser
julgados do lado
dos “judeus” (II), embora João estivesse implicitamente tentando
persuadi-los a confessar sua fé publicamente.
V. Os cristãos judeus
Cristãos que tinham deixado a sinagoga, mas cuja fé em Jesus era inadequada segundo os
padrões joaninos.
Eles podem ter-se considerado como herdeiros de um cristianismo que
existiu em Jerusalém liderado por Tiago,
o irmão do Senhor. Possivelmente sua baixa
cristologia que se baseava em sinais miraculosos era meio caminho
entre as cristologias
dos grupos IV e V. Não aceitaram a divindade de Cristo. Não entenderam a eucaristia
como
a verdadeira carne e sangue de Jesus. Segundo o pensar de João, eles tinham
deixado de ser verdadeiros crentes.
VI. Cristãos das Igrejas apostólicas
Inteiramente separados das sinagogas, comunidades mistas de judeus e gentios, se
consideravam herdeiros
do cristianismo de Pedro e dos Doze. A cristologia deles era
moderadamente elevada. Confessavam que Jesus
era o Messias nascido em Belém, de
descendência davídica e assim Filho de Deus desde a concepção, mas sem
uma visão
clara de sua vinda do alto em termos de preexistência antes da criação. Na sua
eclesiologia Jesus
pode ter sido visto como o patriarca que instituiu os sacramentos; mas
a igreja agora tem sua vida própria com
pastores que continuam a doutrinação
apostólica e o cuidado pastoral. No modo de ver de João, eles não
entenderam
plenamente a Jesus nem a função de ensinar do Paráclito, mas os cristãos joaninos
rezavam pela
unidade com deles.
( A Comunidade do Discípulo Amado. - Raymond Edward Brown - Ed.Paulus -2013 - Pág.176-177)
Bibliografia:
- Biblia de Jerusalém – NT – Edições Paulinas - 1973
- Biblia de Jerusalém – Editora Paulus - 2014
- Biblia do Peregrino- NT - Editora Paulus - 2005
- Alfred Lappe – As Origens da Bíblia – Vozes 1973
- Alfred Lappe – Interpretação Atualizada e Catequese – Vol.03 – N.T. – Paulinas -1980
- J.Auneau – F.Bovon – M.Gougues E.Charpentier-J.Radermakers –Evangelhos Sinóticos e Atos dos Apóstolos- Ed. Paulinas – 1985
- Jesus de Nazaré - Do Batismo no Jordão à Transfiguração. - Joseph Ratzinger - Bento XVI - Ed.Planeta -2017-
- A Comunidade do Discípulo Amado. - Raymond Edward Brown - Ed.Paulus -2013