Esta carta atribuída a São Pedro é mandada de Roma, "Babilônia" (5,13) para cristãos que estavam em vários lugares que fazem parte da Turquia de hoje. Eram escravos, empregadas domésticas, trabalhadores braçais, etc., todos pobres. Na epístola não há um só conselho para ricos. E eram migrantes, estranhos, sem direito de cidadania, o que era uma grande limitação do que a pessoa poderia fazer ou conseguir no lugar. Qualquer falha, por menor que fosse, praticada por um migrante, poderia causar até pena de morte. Muitos tinham sido batizados fazia pouco, ainda estavam em "lua de mel" com a comunidade cristã.
Essas comunidades tinham sido iniciadas por Pedro ou algum companheiro dele. Pedro, entretanto, tinha morrido como principal herói da Igreja de Roma. Era natural que viesse de lá e com a autoridade dele, uma carta para animar os membros dessas comunidades.
Jesus Cristo nos salvou pelo seu sangue, a morte humilhante com seus sofrimentos. Vocês sofrem injustamente, Jesus também sofreu. A resistência dele é que há de dar forças a vocês. Como ele venceu pela firmeza diante das perseguições, vocês hão de vencer. Sua Aparição ou Segunda Vinda será o momento dessa vitória.
Vocês não têm casa, são peregrinos, estranhos, excluídos, um entulho neste lugar, mas não devem perder a auto-estima, o lar de vocês é a comunidade. Igreja são vocês, o povo de Deus, povo de Deus pobre, humilhado. Vocês são gente santa, raça escolhida por Deus etc.. O Povo de Deus do Primeiro Testamento, bando de escravos do Faraó, que fez a Aliança com Deus e se tornou Comunidade consagrada, é o grande modelo da Igreja de hoje, que são vocês. Jesus foi a pedra que os "construtores", os que mandavam, deixaram de lado, mas Deus o escolheu para ser ele a pedra principal, a que fecha o arco. Assim também vocês, excluídos na sociedade onde vivem, são as pedras vivas da construção de Deus, são o sacerdócio santo cujo culto não acontece nos templos, onde talvez vocês nem possam entrar, acontece na própria vida de vocês, no seu dia-a-dia.
Igreja é povo, mas povo organizado. Os presbíteros (os mais velhos, os chefes de família que dirigiam as tribos quando o povo do Primeiro Testamento não tinha rei) apascentam (guiam para a pastagem boa) o povo de Deus. Mas devem fazer isso não para cumprir obrigação, nem para ganhar dinheiro, nem para ter poder de mando, mas para servir (cap. 5).
DESTINATÁRIOS: A expressão "as doze tribos da Diáspora" poderia dar a entender que a epístola se dirige a judeus que moram fora da Palestina. Dirige-se, sem dúvida, a cristãos de origem judaica que se afastaram de Jerusalém e da Judéia. Em vez de doze patriarcas, pais das doze tribos, Doze são agora os Apóstolos, considerados os pais de todas as comunidades cristãs. Elas estão dispersas, perdidas pelo mundo, estranhas, "no mundo, sem ser do mundo". Deve ser4 dessas comunidades também que nos veio o Evangelho segundo Mateus.
O autor usa o nome de Tiago, muito comum entre os judeus, nome, além disso, de um personagem muito importante para os cristãos de origem judaica, Tiago "irmão do Senhor", que defendia a permanência das leis judaicas para os cristãos, coisa que Paulo não aceitava.
O nome de Tiago serve para corrigir ou questionar interpretações exageradas das cartas de Paulo. Ele dizia que as obras da Lei judaica (observar escrupulosamente os 613 mandamentos) não salvam ninguém sem a fé (o compromisso) em Jesus Cristo. Havia quem concluísse que não era preciso praticar coisa alguma, nem mesmo ser honesto, que bastaria acreditar em Jesus, para a pessoa conseguir a salvação. Por isso Tg insiste: "A fé sem as obras é morta!".
Nessas comunidades havia uma maioria de pobres e alguns ricos. Os pobres só conseguiam sobreviver na dependência dos ricos, seus benfeitores. O pobre era chamado de cliente, ou dependente. Prestava vários serviços ao rico, defendia-o em todas as circunstâncias, enquanto que o rico lhe conseguia algumas coisas e protegia quando necessário.
Havia uma certa organização nas comunidades, havia pelo menos ocasiões marcadas quando todos se reuniam.
A FIGURA DE JESUS E/OU DA IGREJA: Jesus Cristo só é citado duas vezes neste escrito. Uma outra vez se fala na Vinda do Senhor, expectativa da vitória final que dá resistência a quem tem de suportar sofrimentos por causa da fé.
Não há também nesta carta uma visão de Igreja. Apenas diz que Deus chama os cristãos para serem ricos na fé e herdeiros do Reino.
É aqui que se encontra uma palavra sobre a Unção dos doentes. Vê-se que havia uma organização semelhante à do povo do Primeiro Testamento. Eram os anciãos ou presbíteros, grupo de pessoas mais respeitáveis, que dirigiam a comunidade. Esses é que vão ungir o doente e rezar para que possa sarar, ser perdoado dos seus pecados e voltar ao convívio dos irmãos na comunidade.
No mais, a epístola está repleta de conselhos práticos, cheios de sabedoria e muito próximos das palavras que se encontram no Sermão da Montanha (Mt cps. 5 a 7).
CONQUISTAS E LIMITES
CONQUISTAS: Em termos de compreensão de Jesus Cristo ou da Igreja este escrito nada acrescenta. Está, porém, cheio de orientações de "saber-viver" e de conselhos práticos. Concretamente supõe a existência de comunidades cristãs onde convivem ricos e pobres. Traz conselhos para os ricos, até mesmo ameaças para quem só pensa em enriquecer, e mostra como eles devem ser justos com seus empregados e como se devem sentir e posicionar diante da maioria pobre da comunidade cristã.
LIMITES: Os conselhos que aqui se encontram são ótimos, mas apontam para uma visão um pouco individualista da vida cristã. Falta uma motivação maior em Jesus Cristo e sentido mais profundo de compromisso com ele e com a comunidade, a Igreja.
HERANÇA DOS JUDEU-CRISTÃOS
A EPÍSTOLA AOS HEBREUS
DESTINATÁRIOS: A epístola parece ter sido escrita em função dos judeus cristãos de Roma. Eles sempre foram muito discriminados e perseguidos. Eram muito pobres. Juvenal, um escritor romano da época, dizia que a mudança deles não passava de um saco de capim seco. Foram expulsos de Roma pelo Imperador Cláudio, depois Nero permitiu que voltassem, mas continuaram sendo mal vistos e perseguidos.
Na Palestina rebentou mesmo a revolução contra o Império. Roma venceu e destruiu tudo, especialmente o Templo de Jerusalém. Que saudades do tempo quando podiam ir a Jerusalém nas grandes festas e ver aquelas cerimônias bonitas no Templo, oferecer os sacrifícios, etc.! Agora, tudo acabado! Templo e Sacerdotes já não existem.
Muitos se sentiam frustrados como cristãos. Pensavam em abandonar a fé. Suas tradições, todas destruídas, as esperanças, mortas. E ainda teriam de sofrer por serem cristãos... Não seria melhor abandonar tudo? Esquecer que um dia tinham sido discípulos de Jesus? Continuar cristãos iria devolver-lhes as esperanças que tinham perdido como judeus?
A FIGURA DE CRISTO E/OU DA IGREJA: Jesus é agora o único sacerdote. Aquelas cerimônias que se celebravam no Templo são mais antigas do que o Templo, são de quando não havia Templo, apenas a tenda sagrada no deserto. Tudo aquilo não passa de figura do que acontece agora. Agora nós somos o verdadeiro povo de Deus, caminhando pelo deserto em busca da Terra Prometida. O Templo de Jerusalém, agora destruído, era construído de pedras. Dava a entender que tínhamos chegado ao repouso definitivo, o paraíso. Não chegou! Ainda estamos caminhando no deserto. Não é hora de abandonar a caminhada.
Cristo é o sacerdote, muito acima daqueles outros, muito mais santo, e é também o sacrifício. Agora o sacrifício não é com morte e sangue de animais, nem se realiza no Templo ou na Tenda sagrada. É um só. Realizado uma vez só. Fora do Templo, fora de Jerusalém. Em lugar profano e até amaldiçoado. Agora o único sacrifício que realmente liberta do pecado é a morte humilhante de Jesus. Podemos esquecer o que era só sombra.
Jesus é o Filho de Deus, seu herdeiro, muito superior a todos os anjos que, segundo a tradição, entregaram a Lei de Deus a Moisés. Ele se fez igual a nós em tudo, menos no pecado, e não se envergonha de nos chamar de irmãos. Somos, também nós, superiores aos anjos.
A história de Moisés, dos pecados dos israelitas no deserto, da perda da Terra Prometida por parte de muitos deles serve para dizer aos cristãos judeus que não abandonem a fé.
CONQUISTAS E LIMITES
CONQUISTAS: Essa epístola aprofunda muito a compreensão sobre Jesus. Ele é filho de Deus, da mesma natureza de Deus! Sua morte vergonhosa realizou a libertação do pecado e acabou com todos os outros sacrifícios. Ele acabou com o culto, com os sacrifícios. A partir dele o verdadeiro culto é a doação da própria vida pelos outros. Oferecer uma vítima a Deus, derramar o sangue de qualquer animal em cima do altar, isso tudo não tem mais sentido. A Missa é memória da morte de Cristo, para que a gente possa tomar consciência de que está oferecendo a própria vida junto com a de Jesus. Só. É o mesmo e único sacrifício de Cristo ao qual unimos nossos sacrifícios de hoje. O verdadeiro culto, verdadeiro sacrifício é a nossa vida.
LIMITES: A epístola aos hebreus, ao contrário do que pretendia, acabou colocando na tradição cristã muitos elementos próprios do judaísmo e que o cristianismo primitivo abominava. Exemplo: chamar o ministro que preside à celebração da Eucaristia de "sacerdote", quando os sacerdotes foram os grandes inimigos de Jesus. A Epístola pretendia fazer com que os cristãos judeus esquecessem o antigo culto do Templo, suas figuras e rituais. No decorrer do tempo, porém, por causa da leitura de versículos isolados, ajudou a introduzir no cristianismo muita coisa da mentalidade e do culto judaico.
OS ÚLTIMOS ESCRITOS DO NOVO TESTAMENTO
JUDAS E 2PEDRO
DESTINATÁRIOS: Dirige-se aos cristãos do seu tempo de maneira genérica. São epístolas e não cartas. Os autores procuram fazer tudo para parecerem figuras importantes da tradição cristã como Pedro, o Chefe dos Apóstolos e Judas, irmão de Tiago, "irmão do Senhor". Mas não conseguem esconder que já faz tempo que essas pessoas morreram e que hoje são veneradas como Os fundadores do cristianismo (Judas vers. 17; 2Pd 3,3-4) e que até já existe uma coleção das Cartas de São Paulo consideradas como Bíblia e tidas como difíceis de se entender (2Pd 3,15-16).
Muito tempo tinha passado. Estamos depois do ano 100 (Pedro e Paulo foram mortos por Nero há 36 anos ou bem mais). Agora o perigo que havia eram as novas teorias que por toda a parte iam entrando. A moda era discutirem-se novas religiões, novas filosofias que circulavam por todo o Império Romano.
Os gnósticos achavam que bastava entrar em comunhão com Deus através da experiência religiosa e não precisava observar mais nenhuma lei moral. Entre os cristãos, o tempo tinha passado e a Segunda Vinda de Cristo, tão anunciada no tempo de Pedro e de Paulo, não aconteceu e nem parece que vai acontecer. Muitos já não acreditavam, e até criticavam essa esperança, abandonando o cristianismo.
FIGURA DE CRISTO E/OU DA IGREJA: São escritos pequenos. A 2Pd praticamente copiou toda a epístola de Judas. Por isso não trazem uma linha de pensamento sobre Jesus, a não ser a repetição das fórmulas de fé tradicionais. Não há qualquer perspectiva de comunidade ou de Igreja. A preocupação dos escritos era evitar que os cristãos aderissem aos erros doutrinais e principalmente práticos dos gnósticos e talvez outros espiritualistas exaltados, que se julgavam definitivamente unidos a Deus e dispensados de observar qualquer regra de moral.
CONQUISTAS E LIMITES: Como outros, esses escritos do NT surgiram depois da morte dos Apóstolos e de outros personagens respeitáveis que tinham sido discípulos de Jesus. Como aqueles, esses escritos procuram corrigir os erros, prevenir contra a imoralidade, buscando apoio na autoridade de figuras importantes do cristianismo nascente.
A necessidade de se ter um comportamento moral digno, coerente com a fé que a pessoa diz professar pode ser apontado como o grande valor da Epistola de Judas e da Segunda de Pedro. O Cristianismo não é uma filosofia ou uma religião desligada da vida. Não se reduz a discutir teorias, participar de orações, cultos, celebrações, rezar muito, fazer até milagres, mas depois ser ladrão, safado, sem vergonha, imoral, explorador, etc. etc..
Como limite a própria intenção e tamanho dos escritos.