CURSO DE BÍBLIA PARA INICIANTES

AULA 20-F - ATOS DOS APÓSTOLOS.

Paulo - Jerusalém e Roma.

COMO FOI DIVIDIDO?

V – Paulo, prisioneiro de Cristo. Jerusalém e Roma. (At 19,21-28,31)

Éfeso : O motim dos ourives. (At 19,21-40)

Os Atos, em seguida, nos conta que Paulo tomara a decisão de ir para Jerusalém:

“Depois de lá chegar, é preciso igualmente que eu veja Roma.” (At 19,21).

Mas antes que Paulo partisse ocorreu um tumulto bastante grave sobre a doutrina do Caminho, ou seja, a doutrina
cristã de Paulo. Um ourives, de nome Demétrio, alertou os seus companheiros de profissão sobre a queda nas vendas
de suas estátuas da deusa Ártemis por causa da pregação de Paulo:

“Amigos, sabeis que é deste ganho que provém o nosso bem estar. Entretanto, vedes e ouvis que não somente
em Éfeso, mas em quase toda a Ásia, este Paulo desencaminhou, com suas persuasões, uma multidão
considerável: pois diz que não são deuses os que são feitos por mãos humanas. Isto não só traz o perigo de a
nossa profissão cair em descrédito, mas também o próprio templo da grande deusa Ártemis perderá todo
o seu prestígio, sendo logo despojada de sua majestade aquela que toda a Ásia e o mundo veneram.”
(At 19,25-27).

Após estas palavras a multidão se enfureceu e gritando se lançaram sobre dois companheiros de Paulo, Gaio e
Aristarco e os arrastaram para o teatro. Paulo queria enfrentar o povo, mas foi impedido pelos discípulos que
rogavam para que ele se mantivesse distante da turba.

A confusão era tão grande na assembléia que haviam até aqueles que nem sabiam porque estavam reunidos.
Mas o escrivão da cidade tomando a palavra disse:

“Cidadãos de Éfeso! Quem há, dentre os homens, que não saiba que a cidade de Éfeso é a guardiã do templo
da grande Ártemis e de sua estátua caída do céu? Sendo indubitáveis estas coisas, é preciso que vos porteis
calmamente e nada façais de precipitado. Trouxestes aqui estes homens: não são culpados de sacrilégio,
nem de blasfêmia, contra a nossa deusa. Se, pois, Demétrio e os artesãos que estão com ele, têm alguma
coisa contra alguém, há audiências e há procônsules: que apresentem queixa!
E se tiverdes ainda outras questões além desta, serão resolvidas em assembléia geral.
De mais a mais, estamos correndo risco de ser acusados de sedição pelo que hoje aconteceu, não havendo
causa alguma que possamos alegar, para justificar esta aglomeração.” (At 19,35-40).

E com estas palavras dissolveu a assembleia.

Templo de Ártemis.

O Templo de Ártemis era uma das Sete Maravilhas do Mundo Antigo.

As outras eram:

A Grande Pirâmide de Gizé, Os Jardins Suspensos da Babilônia, A Estátua de Zeus, O Mausoléu de Halicarnasso,
O Colosso de Hodes e O Farol de Alexandria.

Resumo: Paulo decide que é hora de ir até Jerusalém. Antes disso, estoura a revolta dos ourives. Paulo quer enfrentar
o povo mas os discípulos o impedem. O escrivão de Éfeso acalma a multidão e com bom senso e ameaças dissolve
a multidão.

Paulo deixa Éfeso. (At 20,1-38)

Paulo resolveu deixar Éfeso e seguiu viagem pela Macedônia até a Grécia. Ali permaneceu por três meses.
Pouco antes de sua viagem para a Síria houve uma conspiração dos judeus contra ele. Paulo então resolveu
voltar pela Macedônia. Eram seus companheiros de viagem: Sópatro, Aristarco, Segundo , Gaio, Timóteo,
Tíquico e Trófimo.

Nenhuma menção a Lucas ou Marcos.

Aqui o livro dos Atos volta a ser narrado na primeira pessoa do plural:

“Estes seguiram à frente, e nos aguardaram em Trôade. Quanto a nós, deixamos Filipos por mar após
os dias dos Pães sem fermento. Cinco dias depois, fomos encontrá-los em Trôade, onde permanecemos
uma semana .” (At 20,5-6).

Quem narra não é nenhum dos sete acima citados.

Biblia de Jerusalém:

“Narração na primeira pessoa do plural; em Filipos, Paulo reencontrou o autor do Diário da viagem,
que o acompanhará daí em diante (cf.16,10+)."

(Bíblia de Jerusalém - Comentário a Atos 20,5 - Pag.1939)

Em Trôade, durante a celebração da Eucarístia, um jovem, de nome Êutico, adormeceu ouvindo Paulo e caiu
de uma grande altura, já que escolhera como acento o peitoril de uma janela, e foi dado como morto.
Mas Paulo se aproximou dele, tomou-o nos braços e disse:

“Não vos perturbeis:a sua alma está nele!” (At 20,10).

Paulo continuou com a sua explanação e o jovem, para grande consolo de todos estava vivo.

Depois, os Atos nos contam que Paulo seguiu viagem passando por Assos, Mitilene, Quio, Samos, Trogílio e Mileto.
Paulo queria estar em Jerusalém até o dia de Pentecostes.

De Mileto, Paulo mandou chamar os anciãos de Éfeso para se despedir deles.

Quando chegaram Paulo proferiu o seguinte discurso:

“Vós bem sabeis como procedi para convosco todo o tempo, desde o primeiro dia em que cheguei à Ásia.
Servi ao Senhor com toda humildade, com lágrimas, e no meio das provações que me sobrevieram pelas ciladas
dos judeus. E nada do que vos pudesse ser útil eu negligenciei de anunciar-vos e ensinar-vos, em público e
pelas casas, conjurando judeus e gregos ao arrependimento diante de Deus e à fé em Jesus, nosso Senhor.

Agora, acorrentado pelo Espírito, dirijo-me a Jerusalém, sem saber o que lá me sucederá. Senão que, de cidade
em cidade, o Espírito Santo me adverte dizendo que aguardam cadeias e tribulações. Mas de forma alguma
considero minha vida preciosa a mim mesmo, contanto que leve a bom termo a minha carreira e o ministério
que recebi do Senhor Jesus: dar testemunho do Evangelho da graça de Deus.

Agora, porém, estou certo de que não mais vereis minha face, vós todos entre os quais passei proclamando
o Reino. Eis por que eu o atesto, hoje, diante de vós: estou puro do sangue de todos, pois não me esquivei
de vos anunciar todo o desígnio de Deus para vós.
Estais atentos a vós mesmos e a todo o rebanho: nele o Espírito Santo vos constituiu guardiães, para apascentar
a Igreja de Deus, que ele adquiriu para si pelo sangue de seu próprio Filho.

Bem sei que, depois de minha partida, introduzir-se-ão entre vós, lobos vorazes que não pouparão o rebanho.
Mesmo do meio de vós surgirão alguns falando coisas pervertidas, para arrastarem atrás de si os discípulos.

Vigiai, portanto, lembrados de que, durante três anos, dia e noite, não cessei de admoestar com lágrimas a cada
um de vós.

Agora, pois, recomendo-vos a Deus e à palavra de sua graça, que tem o poder de edificar e de vos dar a herança
entre todos os santificados.
De resto, não cobicei prata, ouro, ou vestes de ninguém: vós mesmos sabeis que, às minhas precisões e às de
meus companheiros, proveram estas mãos. Em tudo vos mostrei que é afadigando-nos assim que devemos
ajudar os fracos, tendo presente as palavras do Senhor Jesus, que disse:

'Há mais felicidade em dar que em receber.' ” (At 20,18-38).

Estas palavras de Jesus não foram preservadas em nenhum dos quatro evangelhos.

“O terceiro grande discurso de Paulo nos Atos. O primeiro apresentava sua pregação aos judeus (13);
o segundo, sua pregação aos gentios (17); este constitui o seu testamento pastoral.
Paulo dirige-se aos chefes da principal igreja fundada por ele."

(Bíblia de Jerusalém - Comentário a Atos 20,18 - Pag.1940)

Depois disso, Paulo ajoelhou-se e orou com todos. Todos choravam e se lançavam ao seu pescoço e beijavam-no,
aflitos pelas palavras que Paulo dissera: que não mais veriam a sua face. Depois o acompanharam até o navio.

Resumo: Paulo deixa Éfeso, indo para a Grécia através da Macedônia. Em Trôade, Paulo salva um jovem, dado
como morto, durante a celebração da Eucaristia. Paulo manda chamar os anciãos de Éfeso e se despede deles
com um discurso emocionado.

Paulo sobe para Jerusalém. (At 21,1-26)

Lucas fará uma descrição da subida de Paulo em tudo semelhante à subida de Jesus a Jerusalém narrada
no seu evangelho. À paixão de Jesus segue a paixão de Paulo.

O narrador diz que viajaram em linha reta passando por Cós, Rodes e Pátara. Lá embarcaram em outro navio que
seguia para a Fenícia. Passaram por Chipre e aportaram em Tiro, onde o navio ia descarregar.
Encontrando os discípulos ficaram ali por sete dias. Paulo foi alertado para que não subisse a Jerusalém.
Completados os dias de permanência em Tiro todos foram se despedir de Paulo e seus companheiros que
embarcaram e seguiram para Ptolemaida onde ficaram por um dia com os irmãos dali. Em seguida foram para
Cesaréia e se hospedaram na Casa de Filipe, um dos sete diáconos.

Enquanto estavam hospedados ali, desceu da Judéia um profeta, chamado Àgabo. Ele tomou o cinto de Paulo
e amarrando-se de pés e mãos declarou:

“Isto diz o Espírito Santo: Assim os judeus prenderão, em Jerusalém, o homem a quem pertence este cinto,
e o entregarão às mãos dos gentios.” (At 21,11).

Ao ouvirem a profecia, todos suplicaram a Paulo que não subisse a Jerusalém. Mas ele respondeu:

“Que fazeis, chorando e afligindo meu coração? Pois estou pronto, não somente a ser preso, mas até morrer
em Jerusalém, pelo nome do Senhor Jesus.” (At 21,13).

Como Paulo não se deixasse persuadir, todos se aquietaram dizendo:

“Seja feita a vontade do Senhor!” (At 21,14).

Depois desses dias subiram a Jerusalém onde foram recebidos pelos irmãos com alegria.

“No dia seguinte, Paulo foi conosco à casa de Tiago, onde os anciãos se reuniram.” (At 21,18).

A narrativa na primeira pessoa do plural só será retomada em 27,1, quando da partida para Roma.

Biblia de Jerusalém:

“Último “nós” antes de 27,1 (partida para Roma)."

(Bíblia de Jerusalém - Comentário a Atos 21,18 - Pag.1942)

Diante dos anciãos, Paulo descreveu minuciosamente o que Deus fizera entre os gentios por seu ministério
e todos deram glória a Deus. Porém disseram:

“Tu vês, irmão, quantos milhares de judeus há que abraçaram a fé, e todos são zeladores da Lei!
Ora, foram informados, a teu respeito, que ensinas todos os judeus, que vivem no meio dos gentios, a
apostatarem de Moisés, dizendo-lhes que não circuncidem mais seus filhos nem continuem a seguir suas
tradições. Que fazer? Certamente há de aglomerar-se a multidão, ao saberem que chegaste. Faze, pois,
o que te vamos dizer. Estão aqui quatro homens que têm a sua promessa a cumprir. Leva-os contigo, purifica-te
com eles, e encarrega-te das despesas para que possam mandar cortar os cabelos. Assim todos saberão
que nada existe do que se propala a teu respeito, mas que andas firme, tu também, na observância
da Lei.” (At 21,20-24).

Esta atitude covarde dos anciãos demonstra que a liderança da Igreja cristã de Jerusalém jamais imaginara
uma separação do judaísmo. Eles apresentam os judeus convertidos como fiéis zeladores da Lei. Nada mais
longe da Doutrina Paulina da ineficiência da Lei e da justificação pela fé. A depender de Jerusalém o cristianismo
seria só mais uma SEITA JUDAICA, como os fariseus, os saduceus, os zelotas e os essênios.

Paulo, então, levou os homens consigo e fez como sugerido pelos anciãos.

Resumo: Paulo segue viagem para Tiro e depois Cesaréia, onde se hospeda na casa de Filipe. O profeta Ágabo
prevê a prisão de Paulo. Paulo insiste em subir a Jerusalém. Chegando lá é recebido com alegria pela Igreja, na
casa de Tiago, mas os anciãos preocupados com a má fama que o antecede sugerem que ele faça um sacrifício
público, tentando com isso evitar que a multidão se revolte contra ele. Paulo concorda.

Prisão de Paulo. (At 21,27 – 22,29)

Quando já quase terminavam os sete dias da purificação, alguns judeus da Ásia identificaram Paulo no
templo, amotinaram toda a multidão e o agarraram, gritando:

“Homens de Israel, socorro! Este é o indivíduo que fala a todos e por toda parte contra o nosso povo, a Lei
e este Lugar! Além disso, trouxe gregos para dentro do Templo, assim profanando este santo Lugar.”
(At 21,28).

De fato, viram à Trófimo, o efésio, junto com Paulo pela cidade e imaginaram que este o tivesse introduzido no>
Templo.

Era considerado um crime, digno de morte, um pagão ultrapassar a barreira do átrio externo do Templo.

Ato contínuo, agarraram Paulo, arrastaram-no para fora do Templo, fecharam as portas e passaram a agredi-lo.

Depois da covardia dos anciãos, Paulo enfrenta a covardia dos judeus:
Estes fecharam as portas do Templo para evitar que Paulo apelasse pelo direito de asilo.
O levaram para fora para não matá-lo dentro de um lugar sagrado e estavam tentando linchá-lo.

A confusão chamou a atenção da guarnição romana chefiada por um tribuno da corte. Este mandou que os
soldados arremetessem contra os judeus para retirarem Paulo do meio da multidão. Em seguida acorrentou a
Paulo e procurou, em vão, saber quem era e o que havia feito, já que os manifestantes não se entendiam, uns
gritando uma coisa e outros, outra. Não podendo obter informação segura, ordenou que o levassem para a
fortaleza chamada Antônia.
Ao chegarem aos degraus de acesso, Paulo se dirigiu ao tribuno pedindo que permitisse que falasse ao povo.
O tribuno, depois de uma breve conversa com Paulo, permitiu. Paulo, de pé sobre os degraus fez sinal com a
mão ao povo. Fez-se um grande silêncio e Paulo falou com eles em língua hebraica:

“Irmãos e pais, escutai a minha defesa, que tenho agora a vos apresentar. Tendo ouvido que lhes dirigia a
palavra em língua hebraica, fizeram mais silêncio ainda. Ele prosseguiu: Eu sou judeu. Nasci em Tarso,
da Cilícia, mas criei-me nesta cidade, educado aos pés de Gamaliel na observância exata da Lei de nossos pais,
cheio do zelo por Deus, como vós todos no dia de hoje.

Gamaliel, o mesmo de Atos 5, 34-39.

Persegui de morte este Caminho, prendendo e lançando à prisão homens e mulheres, como o podem
testemunhar o sumo sacerdote e todos os anciãos. Deles cheguei a receber cartas de recomendação para os
irmãos em Damasco e para lá me dirigi, a fim de trazer algemados para Jerusalém os que lá estivessem, para
serem aqui punidos. Aconteceu que, estando eu a caminho e aproximando-me de Damasco, de repente,
por volta do meio-dia, uma grande luz vinda do céu brilhou ao redor de mim.
Caí ao chão e ouvi uma voz que me dizia: ‘Saul, Saul, por que me persegues?’
Respondi: ‘Quem és, Senhor?’
Ele me disse: ‘ Eu sou Jesus, o Nazareno, a quem persegues.’
Os que estavam comigo viram a luz, mas não escutaram a voz de quem falava comigo.
Eu prossegui: ‘ Que devo fazer, Senhor.’
E o Senhor me disse: ‘ Levanta-te e entra em Damasco: lá te dirão tudo o que te é ordenado fazer.’
Como eu não enxergasse mais por causa do fulgor daquela luz, cheguei a Damasco levado pelas mãos dos
que estavam comigo. Certo Ananias, homem piedoso segundo a Lei, de quem davam bom testemunho
todos os judeus da cidade, veio ter comigo.
De pé, diante de mim, disse-me: ‘ Saul, meu irmão, recobra a vista.’ E eu, na mesma hora, pude vê-lo.
Ele disse então: ‘ O Deus de nossos pais te predestinou para conheceres a sua vontade, veres o Justo e ouvires
a voz saída de sua boca. Pois tu hás de ser sua testemunha, diante de todos os homens, do que viste e
ouviste.
E agora, que esperas? Recebe o batismo e lava-te dos teus pecados, invocando o seu nome!’
Depois, tendo eu voltado a Jerusalém, e orando no Templo, sucedeu-me entrar em êxtase.
E vi o Senhor, que me dizia: ‘ Apressa-te, sai logo de Jerusalém, porque não acolherão o teu testemunho
a meu respeito.’
Retruquei então: ‘Mas, Senhor, eles sabem que era eu quem andava prendendo e vergastando, de sinagoga
em sinagoga, os que criam em ti. E quando derramaram o sangue de Estevão, tua testemunha, eu próprio
estava presente, apoiando aqueles que o matavam e mesmo guardando suas vestes.’
Ele, contudo, me disse: ‘ Vai, porque é para os gentios, para longe, que quero enviar-te.’ ” (At 22,1-21).

Escutaram-no só até este ponto. A multidão começou a gritar palavras contra Paulo e a arremessar os mantos
e lançar poeira aos ares. O tribuno mandou recolhê-lo à fortaleza e ordenou que fosse interrogado sob os açoites,
a fim de averiguar o motivo por que gritavam tanto contra ele.
Quando o amarraram com correias, Paulo observou ao centurião presente:

“Ser-vos-á lícito açoitar um cidadão romano, ainda mais sem ter sido condenado?.” (At 22,25).

O centurião, diante destas palavras foi ter com o tribuno para preveni-lo:

“Que vais fazer? Este homem é cidadão romano.” (At 22,26).

Vindo então o tribuno, perguntou a Paulo:

“Dize-me: tu és cidadão romano?” (At 22,27).

Paulo respondeu:

“Sim.” (At 22,27).

O tribuno continuou:

“Precisei de muito dinheiro para comprar esta cidadania.” (At 22,28).

Paulo respondeu:

“Pois eu a tenho de nascença.” (At 22,29).

Imediatamente os que iam torturá-lo se afastaram dele e o próprio tribuno ficou com medo porque tinha acorrentado
um cidadão romano.

Resumo: Paulo é reconhecido, no Templo, por alguns judeus da Ásia, os quais iniciam uma grande confusão,
agarrando e agredindo a Paulo. Os romanos o salvam da multidão e levam-no para a fortaleza Antônia.
Paulo pede ao tribuno, chefe da guarnição romana, que lhe permita falar ao povo, o que lhe é permitido.
Paulo conta sua história desde o seu nascimento, juventude, passando pela estrada de Damasco até Jerusalém,
e de como passara de perseguidor a pregador do Caminho. E que Jesus é o Senhor.
Foi o bastante para os judeus retomarem sua fúria e gritarem contra ele, pedindo ao tribuno que ele fosse morto.
O tribuno ordena que seja interrogado sob açoites. Porém, ao tomar conhecimento que Paulo era cidadão romano,
todos se afastam dele e ficam com medo por terem tratado assim um cidadão romano.

Paulo diante do Sinédrio. (At 22,30 – 23,22)

No dia seguinte, o tribuno querendo entender com segurança porque motivo Paulo era acusado, soltou-o e
mandou chamar os chefes dos sacerdotes e todo o Sinédrio. Quando chegaram, fez descer Paulo e apresentou-o
perante eles. Paulo mal começara a se defender e o sumo sacerdote deu ordem para que um dos seus auxiliares
lhe batesse na boca. Paulo percebendo que uma parte dos presentes era formada de saduceus e outra de fariseus,
exclamou:

“Irmãos, eu sou fariseu, e filho de fariseus. É por nossa esperança, a ressurreição dos mortos, que estou
sendo julgado.” (At 23,6).

Paulo, percebendo que ali não haveria um interrogatório justo, usa de astúcia para dividir seus acusadores, uma vez
que era pública a divergência entre os dois grupos sobre a crença na ressurreição dos mortos.

Bíblia de Jerusalém:

“Os fariseus acreditavam que o indivíduo teria parte na vida do mundo futuro medianamente, ou seja, um
corpo glorificado, como um anjo.
(Cf.22,30p ; At 12,15 ; 1Cor 15,42-44), ou então uma alma imortal ('espírito'; cf.Lc 24,39).
Os saduceus, ao contrário, rejeitavam uma e outra crença, e, portanto, qualquer forma de ressurreição.
Sobre este ponto Paulo encontra, nos fariseus, aliados (cf. At 4,1s+)."

(Bíblia de Jerusalém - Comentário a Atos 23,8 - Pag.1945)

Ao ouvirem o que dissera Paulo, a assembleia se dividiu, com os dois grupos discutindo entre si, com tanta
violência, que o tribuno achou melhor retirar Paulo do meio deles e reconduzi-lo à fortaleza.

Na noite seguinte se aproximou dele o Senhor e lhe disse:

“Tem confiança! Assim como deste testemunho de mim em Jerusalém, é preciso que testemunhes também
em Roma!” (At 23,11).

Enquanto isso, um grupo de judeus se reuniu e juraram, sob anátema, não comer nem beber até que matassem
a Paulo.

Sob anátema significa que eles aceitavam ser expulsos, execrados do meio dos seus pares caso não cumprissem
com o juramento.

Os que fizeram o juramento procuraram os chefes dos sacerdotes e os anciãos e lhes pediram que solicitassem
ao tribuno nova audiência, sob o pretexto de analisar melhor o caso. Quando Paulo fosse conduzido para a
nova reunião, eles o matariam. Mas o sobrinho de Paulo, filho de sua irmã, ouviu tudo e contou a Paulo e ao tribuno.
O tribuno então tomou a decisão de tirar Paulo dali e conduzi-lo a Cesaréia, onde residia o governador Félix.

Resumo: Paulo é interrogado perante o Sinédrio. Ao ser agredido pelo auxiliar do sumo sacerdote,Paulo,
astuciosamente, alerta aos presentes que é fariseu e que estava sendo julgado pela sua crença na ressurreição
dos mortos. Intensa discussão se instala entre os judeus de tal forma que o tribuno resolve reconduzir Paulo à
fortaleza Antônia. No dia seguinte, um grupo de judeus com a anuência dos sacerdotes e anciãos resolvem matar
a Paulo. O tribuno, avisado pelo sobrinho de Paulo sobre as intenções dos judeus, toma a decisão de levá-lo
para Cesaréia, onde residia o procurador romano Félix.

Paulo transferido para Cesaréia. (At 23,23 –35)

O tribuno chamou dois centuriões e ordenou-lhes que tivessem de prontidão desde a terceira hora da noite,
duzentos soldados, setenta cavaleiros e duzentos lanceiros para irem até Cesaréia escoltando Paulo são e salvo
até ao governador Félix.

Antônio Félix, liberto, irmão de Palas, o favorito de Agripina, foi procurador da Judéia entre 52 e 60.
Agripina, imperatriz-consorte romana. Uma das mais poderosas mulheres da dinastia júlio-claudiana.
Era bisneta de Augusto, neta adotiva de Tibério, irmã de Calígula, sobrinha e quarta esposa de Cláudio e
mãe de Nero.

O tribuno enviou a seguinte carta endereçada a Félix:

“Cláudio Lísias, ao excelentíssimo governador Félix, saudações! Este homem, caído em poder dos judeus,
estava prestes a ser morto por eles, quando acorri com a tropa e lho arranquei das mãos, ao saber que era
cidadão romano. Querendo averiguar o motivo porque o acusavam, fi-lo conduzir ao Sinédrio deles.
Verifiquei que era incriminado por questões referentes à Lei que os rege, nenhum crime havendo que justificasse
morte ou prisão. Tendo-me sido denunciada uma emboscada contra a sua vida, tratei de enviá-lo prontamente
a ti, comunicando, porém, a seus acusadores que exponham diante de ti o que haja contra ele.” (At 23,25-30).

O tribuno mente dizendo que havia salvo Paulo ao saber que ele era cidadão romano. Faz isto para evitar ter de
explicar o tratamento dado a ele. O direito romano ainda é referência no mundo ocidental e na nossa época.

Quando o governador Félix recebeu a carta, comunicou a Paulo que o ouviria quando seus acusadores
tivessem chegado. Paulo permaneceu detido no pretório de Herodes.

Resumo: O tribuno enviou Paulo para o governador Félix, explicando numa carta toda a questão. Félix disse a Paulo
que o ouviria quando seus acusadores comparecessem à Cesaréia. Paulo permaneceu detido no pretório de
Herodes esperando pela audiência.

Paulo diante de Félix. (At 24,1-27)

Passados cinco dias, chegaram os acusadores com um advogado, chamado Tertulo que se manifestou com as
seguintes palavras:

“Verificamos que este homem é uma peste: ele suscita conflitos entre todos os judeus do mundo inteiro, e é um
dos líderes da seita dos nazarenos. Tentou mesmo profanar o Templo, e por isso o detivemos. É de sua boca
que poderás, tu mesmo, interrogando-o, certificar-te de todas as coisas de que nós o acusamos .” (At 24,5-8).

O cristianismo era visto pelos judeus como apenas mais uma seita judaica. E muitos cristãos pensavam assim
também.

Félix passou então a palavra a Paulo:

“Não há mais de doze dias que subi a Jerusalém em peregrinação. Ora, nem no Templo nem nas sinagogas,
nem pela cidade, viu-me alguém discutindo com outrem ou provocando motins entre a multidão. Eles não
podem provar-te aquilo de que agora me acusam. Isto, porém, confesso-te: é segundo o Caminho, a que
chamam de seita, que eu sirvo ao Deus de meus pais, crendo em tudo o que está conforme a Lei e se
encontra escrito nos profetas. E tenho em Deus a esperança, que também eles acalentam, de que há de
acontecer a ressurreição, tanto de justos como de injustos...... Alguns judeus da Ásia, porém... são
eles que deveriam apresentar-se a ti e acusar-me, caso tivessem algo contra mim.....É por causa da
ressurreição dos mortos que estou sendo julgado, hoje, diante de vós.” (At 24,11-21).

Mais uma vez, Paulo usa a doutrina da ressurreição para tentar atrair os fariseus.

O governador Félix, depois de ouvir as partes, informou que julgaria a questão após ouvir o tribuno Lísias,
quando este viesse de Jerusalém. Ele ordenou ao centurião que mantivesse Paulo, mas lhe desse bom tratamento
e que a nenhum dos seus impedisse de prestar-lhe assistência. Paulo permaneceu sem julgamento por dois anos
até que Félix foi substituído por Pórcio Festo.

Pórcio governou de 60 a 62 aproximadamente. Após sua morte e a demora em indicarem outro governador
deixou um vazio de poder. Em Jerusalém, se instalou a anarquia e sacerdotes rivais atacavam uns aos
outros pelo poder no Templo. Foi neste período que mataram Tiago, irmão de Jesus.

Resumo: Após a audiência Paulo permaneceu detido. Félix não deu sequência ao julgamento. Esperando obter
dinheiro de Paulo ou objetivando agradar aos judeus o fato é que o caso nunca foi encerrado. Paulo permaneceu
detido por pelo menos dois anos até a troca do governador por Pórcio Festo.

Paulo apela a César. (At 25,1-26,1)

Três dias após assumir seu cargo, Festo subiu a Jerusalém, onde os chefes dos sacerdotes e os judeus mais notáveis
se constituíram, diante dele, como acusadores de Paulo. Pediam a ele para que trouxesse Paulo até Jerusalém para
ser julgado ali. Na verdade o plano era o mesmo de antes, ou seja, emboscar Paulo e matá-lo.
Festo não concordou e disse que se apresentassem em Cesaréia aqueles que tinham motivos para acusá-lo.
Passados mais ou menos dez dias, desceu Festo a Cesaréia. No dia seguinte, sentando-se no tribunal, mandou
trazer Paulo.Os judeus logo o cercaram fazendo graves acusações que não podiam provar. Paulo se defendeu:

“Não cometi falta alguma contra a Lei dos judeus, nem contra o Templo, nem contra César.” (At 25,8).

Festo então, querendo agradar aos judeus, propôs a Paulo que subisse com ele a Jerusalém para ser julgado lá
na sua presença.

Uma proposta que feria o direito romano, uma vez que o réu já estava sendo julgado pelo tribunal da província.
Mas Paulo percebeu a manobra e só podia tomar uma decisão.

Paulo replicou:

“Estou perante o tribunal de César, e é aqui que devo ser julgado. Nenhum crime pratiquei contra os judeus,
como tu perfeitamente reconheces. Mas se de fato cometi injustiça, ou pratiquei algo que mereça a morte,
não recuso morrer. Se ao contrário, não há nada daquilo de que me acusam, ninguém pode entregar-me a eles.
Apelo a César.” (At 25,10-11).

Todo cidadão romano tinha o direito de apelar para a mais alta instância de julgamento, quando se julgasse
injustiçado. No caso do império romano, o próprio imperador em Roma. Assim Paulo, cumpre seu destino e faz
a vontade de Jesus: irá pregar no coração do império.

Festo, depois de conferenciar com o seu conselho, respondeu:

“Para César apelaste, perante César irás!” (At 25,12).

Passados alguns dias, o rei Agripa e sua irmã Berenice foram a Cesaréia saudar o novo governador.
Festo explicou todo o caso de Paulo ao rei, dizendo que não via nada que merecesse condenação ou morte;
mas que no entanto, diante da possibilidade de um julgamento em Jerusalém, o réu apelara a César.
Festo explicou que nem sabia o que escrever para o imperador e que esperava que depois de o próprio Agripa
ouvir a Paulo tivesse o que escrever sobre o caso. No dia seguinte, Paulo foi recebido em audiência por Festo,
Berenice e Agripa que lhe concedeu a palavra.

Resumo: O julgamento em Cesaréia tem início. Os judeus acusam sem provas. Festo tenta levar o tribunal
para Jerusalém. Paulo recusa e apela a César. Festo não tem mais o que fazer; deve enviar Paulo a Roma.
Aproveitando uma visita do rei Agripa, Festo o convida a ouvir Paulo, esperando com isto entender melhor
o caso, para poder redigir um texto explicando a questão ao Imperador.

Discurso de Paulo perante o rei Agripa. (At 26,2-32)

Paulo assim se expressou:

“Considero-me feliz, ó rei Agripa, por poder hoje, diante de ti, defender-me de todas as coisas de que pelos
judeus sou acusado. E isto porque, mais do que ninguém, estás a par de todos os costumes e controvérsias dos
judeus, razão pela qual te peço que me escutes com paciência.
O que foi o meu modo de viver, desde a mocidade, como transcorreu desde o início, no meio do meu povo
e em Jerusalém, sabem-no todos os judeus. Eles me conhecem de longa data e podem atestar, se quiserem,
que tenho vivido segundo a seita mais severa de nossa religião, como fariseu. E agora, estou sendo aqui julgado
por causa da esperança na promessa feita por Deus aos nossos pais.....É por causa dessa esperança que
pelos judeus sou acusado. Entretanto, por que se julga incrível, entre vós, que Deus ressuscite os mortos?
Quanto a mim, parecia-me necessário fazer muitas coisas contra o nome de Jesus, o nazareno.
Foi o que fiz em Jerusalém: a muitos dentro os santos eu mesmo encerrei nas prisões, recebida a autorização
dos chefes dos sacerdotes; e quando eram mortos, eu contribuía com meu voto.....Cheguei a persegui-los
até em cidades estrangeiras. Com este objetivo encaminhei-me a Damasco.....
No caminho, pelo meio dia, eu vi uma luz mais brilhante que o sol que me envolveu e aos meus companheiros.
Caímos todos por terra e ouvi uma voz que me falava em língua hebraica:

' Saul, Saul, por que me persegues? É duro para ti recalcitrar contra o aguilhão.'

Perguntei: ' Quem és, Senhor?'

Ele respondeu: 'Eu sou Jesus, a quem tu persegues. Mas levanta-te e fica firme em pé, pois, este é o motivo
porque te apareci: para constituir-te servo e testemunha da visão na qual me viste e daquelas nas quais
ainda te aparecerei......'

Quanto a mim, não me mostrei rebelde à visão celeste. Ao contrário,.....anunciei o arrependimento e a conversão
a Deus, com a prática de obras dignas desse arrependimento. É por causa disso que os judeus tentaram
matar-me.....Tendo porém o auxílio de Deus, continuo a dar testemunho, nada mais dizendo senão o que
Moisés e os Profetas disseram que havia de acontecer: que o Cristo devia sofrer e que, sendo o primeiro
a ressuscitar, dentre os mortos, anunciaria a luz ao povo e aos pagãos.” (At 26,2-23).

A esta altura, Festo o interrompeu:

“Estás louco, Paulo: teu enorme saber te levou à loucura.” (At 26,24).

Paulo retrucou:

“Não estou louco, excelentíssimo Festo, mas são palavras de verdade e de bom senso que profiro. Pois destas
coisas tem conhecimento o rei, ao qual me dirijo com toda a audácia, persuadido de que nada disto lhe é
estranho. Aliás, não foi num recanto remoto que isto aconteceu. Crês nos profetas, rei Agripa? Eu sei que
tu crês. ” (At 26,25-27).

Agripa respondeu:

“Ainda um pouco e, por teus raciocínios, fazes de mim um cristão.” (At 26,28).

Paulo finalizou:

“Eu pediria a Deus que, por pouco ou por muito, não só tu, mas todos os que me escutam hoje, vos tornásseis
tais como eu sou, com exceção destas correntes!” (At 26,29).

Levantou-se o rei, o governador e Berenice, além de todos que estavam com eles. Ao se retirarem diziam
uns aos outros:

“Um homem como este nada pode ter feito que mereça a morte ou a prisão.” (At 26,31).

Agripa disse a Festo:

“Este homem bem poderia ser solto, se não tivesse apelado para César.” (At 26,32).

O veredito final do julgamento sai da boca do rei Agripa, mas em particular. É a observação de quem não
enxerga os desígnios de Deus: A prisão de Paulo, um homem inocente, é o preço da passagem para Roma.
A vontade de Deus sempre se realiza: Paulo irá levar o cristianismo ao coração do império.

Resumo: Paulo se defende perante Agripa. Festo acha que ele está louco ao falar de mortos voltando à vida.
Agripa brinca com Paulo dizendo que se continuasse a ouví-lo mais um pouco, acabaria por se tornar cristão.
O rei Agripa, conversando em particular com o governador Festo, faz a observação que Paulo poderia ser solto
se não tivesse apelado a César.

Partida para Roma. Naufrágio em Malta (At 27,1-28,10)

Como observado anteriormente (At 21,18), aqui o autor retoma a narrativa na primeira pessoa do plural, narrando
como num diário de viagem, com riqueza de detalhes, indicando o nome de cada local por onde passaram.

Paulo é entregue a um centurião chamado Júlio, encarregado de levá-lo a Roma, juntamente com outros
prisioneiros. O narrador informa que além de Paulo e ele, junto também estava o macedônio, Aristarco.
Partiram das costas da Ásia, passando por Sidônia, Chipre, Cilícia, Panfília e Lícia, onde mudaram de
navio, embarcando num navio alexandrino que ia para a Itália.
A viagem ficava cada vez mais perigosa e Paulo tentou advertir o centurião e os responsáveis pelo navio:

“Amigos, vejo que a viagem está em vias de consumar-se em dano e prejuízo, não só da carga e do navio,
mas também de nossas vidas.” (At 27,10).

O centurião não deu atenção a Paulo, acreditando mais no piloto e no armador. Seguiram viagem, tentando
chegar a Creta onde poderiam ficar em segurança até que o tempo melhorasse. Porém, uma tempestade os
atingiu e já durava vários dias, sem verem sol ou estrelas. A esperança de todos estava se acabando, assim
como os alimentos, quando Paulo falou:

“Amigos, teria sido melhor terem-me escutado e não sair de Creta, para sermos poupados deste perigo e
prejuízo. Apesar de tudo, porém, exorto-vos a que tenhais ânimo: não haverá perda de vida alguma dentre
vós, a não ser a perda do navio. Pois esta noite apareceu-me um anjo do Deus ao qual pertenço e a quem adoro,
o qual me disse: ' Não temas, Paulo. Tu deves comparecer perante César, e Deus te concede a vida de todos
os que navegam contigo.' Por isso, reanimai-vos, amigos! Confio em Deus que as coisas ocorrerão segundo me
foi dito. É preciso, porém, que sejamos arremessados a uma ilha .” (At 27,21-26).

Passaram-se mais duas semanas, quando perceberam, por volta da meia noite, que se aproximavam de terra,
pois cada medida das sondas lançadas ficava menor. Quando as sondas já indicavam aproximadamente trinta
metros, lançaram âncoras na popa para estabilizar o navio e aguardar o dia nascer. Alguns marinheiros,
com o pretexto de ir lançar as âncoras de proa, baixaram o escaler ao mar, tentando fugir. Mas Paulo disse
ao centurião e aos soldados:

“Se eles não permanecerem a bordo, não podereis salvar-vos!” (At 27,31).

Então os soldados cortaram as cordas do escaler e deixaram-no cair. Paulo insistia com todos que comessem:

“Hoje é o décimo quarto dia em que, na expectativa, ficais em jejum, sem nada comer. Por isso, peço que vos
alimenteis, pois é necessário para a vossa saúde. Ora, não se perderá um só cabelo da cabeça de nenhum
de vós!” (At 27,33-34).

Dizendo isso, tomou o pão, deu graças a Deus diante de todos, partiu-o e pôs-se a comer. Então, todos mais
animados, começaram a comer. Eram duzentas e setenta e seis pessoas, que se alimentaram fartamente e depois
começaram a aliviar o navio, atirando a carga de trigo ao mar.
De manhã, percebendo uma enseada com uma praia, resolveram desprender as âncoras, içar a vela de proa e
dirigiram o navio para a praia. Porém, o navio encalhou num banco de areia, ficando coma proa presa e a popa
balançando violentamente com as força das ondas. Os soldados pensaram em matar os prisioneiros para evitar que
fugissem a nado. No entanto, o centurião, visando preservar a Paulo, os impediu e deu ordem para que os que
soubessem nadar se atirassem ao mar e buscassem a segurança da praia, e que os outros os seguissem se agarrando
nas pranchas e pedaços dos destroços do navio. Assim, todos chegaram são e salvos à terra.

Estando todos a salvo,souberam que estavam na ilha de Malta, onde os nativos os receberam com muita humanidade,
acolhendo a todos e acendendo fogueiras, onde todos se aqueceram.
Paulo estava recolhendo gravetos quando uma víbora se prendeu à sua mão. Os nativos vendo a cena comentaram
que aquele homem devia ser um assassino, pois mesmo escapando de um naufrágio, a justiça divina não o deixava
viver.
Paulo, no entanto, apenas sacudiu a mão, atirando a víbora ao fogo, e não sofreu mal algum. Quando os nativos
perceberam que Paulo nada sofrera e que o veneno não lhe causara mal , puseram-se a dizer que ele era um deus.

Nas vizinhanças da praia morava o Principal da ilha, de nome Públio, que os recebeu em sua casa. Paulo, sabendo
que o pai de Públio estava doente, acamado e ardendo em febre, orou, impôs-lhe as mãos e o curou. Diante disso,
outros doentes da ilha vieram ter com Paulo e todos foram curados.

Chegando a hora de partir, todos foram de extrema estima, provendo todo o necessário para a viagem.

De Malta a Roma. (At 28,11-31)

Depois de três meses em Malta, partiram em um navio de Alexandria, passando por Siracusa, Régio,
Putéoli e, finalmente, Roma.

Os cristãos de Roma, sabendo que Paulo havia chegado à cidade, foram ao seu encontro. Ao vê-los, Paulo deu
graças a Deus e sentiu-se encorajado.
Em Roma, foi permitido a Paulo morar em casa particular, junto com o soldado que o vigiava.

Três dias depois, Paulo convocou os principais dentre os judeus e assim falou-lhes:

“Meus irmãos, embora nada tenha feito contra nosso povo, nem contra os costumes dos nossos pais, desde
Jerusalém vim preso e como tal fui entregue às mãos dos romanos. Tendo-me interrogado judicialmente, eles
quiseram soltar-me, porque nada havia em mim que merecesse a morte. Como, porém, os judeus se opunham,
fui constrangido a apelar para César, não porém como se tivesse algo de que acusar minha nação. Por esse
motivo é que pedi para ver-vos e falar-vos, pois é por causa da esperança de Israel que estou carregado
com esta corrente.” (At 28,17-20).

Os judeus informaram a Paulo que nada sabiam sobre ele. Que não haviam recebido carta alguma da Judéia
e que os irmãos que ali chegaram nada disseram de mal sobre ele. Prosseguiram, dizendo que gostariam de
ouvir o que Paulo pensava sobre a seita cristã, pois era de conhecimento deles que esta encontrava
contradição por toda parte.

Palavras de bom senso que o autor dos Atos nos apresenta sobre os judeus de Roma.

Marcado o dia e a hora, vieram em maior número e Paulo lhes falou do Reino de Deus, tentando os convencer
a respeito de Jesus. Uns se deixaram convencer, outros não.

O narrador diz, então, que Paulo vendo a discordância entre eles encerrou:

“Bem falou o Espírito Santo a vossos pais, por meio do profeta Isaías, quando disse:

' Vai ter com este povo e dize-lhe:
em vão escutareis, pois não compreendereis;
em vão olhareis, pois não vereis.
É que o coração deste povo se endureceu:
eles taparam os ouvidos e vendaram os olhos,
para não verem com os olhos,
nem ouvirem com os ouvidos,
nem entenderem com o coração,
para que não se convertam,e eu os cure!
Ficai, pois, cientes: aos gentios é enviada esta salvação de Deus.
E eles a ouvirão. ” (At 27,31).

Paulo permaneceu em Roma por dois anos inteiros na moradia que havia alugado.
Recebia todos os que vinham visitá-lo, sempre proclamando o Reino de Deus e ensinando o que se refere ao
Senhor Jesus Cristo com toda intrepidez e sem impedimento.

Bíblia de Jerusalém:

"O NT não indica de modo claro o que aconteceu depois deste período. É geralmente suposto que Paulo
foi libertado, talvez devido a um dos atos de clemência aos quais Nero não era estranho.
Neste caso, ele teria podido realizar seu desejo de ir à Espanha (cf. Rm 15,24).
Uma boa tradição afirma que teve seu martírio em Roma sob Nero, em 64 ou 67."

(Bíblia de Jerusalém - Comentário a Atos 28,30 - Pag.1953)

Bíblia do Peregrino:

“Ponto final. Lucas não julgou oportuno narrar a perseguição e o martírio de Paulo. O último nome no
livro é o do Senhor Jesus Cristo."

(Bíblia do Peregrino-NT-- Comentário a Atos 28,30 - Pag.399)

O prazo de dois anos, provavelmente, se refere ao regime de "custodia militaris", findo o qual, caso não houvesse
julgamento o prisioneiro deveria ser libertado. Pode ser este o caso de Paulo, uma vez que não se apresentassem
acusadores para dar prosseguimento ao processo. Em Fm 22, Paulo se refere à sua possível libertação:

“Ao mesmo tempo, prepara-me também um alojamento, porque, graças às vossas orações, espero que
vos serei restituído.” (Fm 22).

Bibliografia:

- Biblia de Jerusalém – NT – Edições Paulinas - 2014

- Biblia do Peregrino – NT – Editora Paulus - 2005

- Alfred Lappe – As Origens da Bíblia – Vozes 1973

- Alfred Lappe – Interpretação Atualizada e Catequese V.04 – N.T. – Paulinas -1980

- J.Auneau – F.Bovon – M.Gougues E.Charpentier-J.Radermakers –Evangelhos Sinóticos e Atos dos Apóstolos- Ed. Paulinas – 1985

- Die Apostelgeschichte (Os Atos dos Apóstolos), Gottingen, 1959

- Antiguidades Judaicas – Flávio Josefo

- Uma Leitura dos Atos dos Apóstolos - Cadernos Bíblicos 19 - Paulus e Academia Cristã – 2014

- A Bíblia e nós – Andrew M.Greeley e Jacob Neusner- Siciliano - 1993

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