CURSO DE BÍBLIA PARA INICIANTES

AULA 18 - APOCALIPSE DE JOÃO.

Teologia do Apocalipse

O Apocalipse não é um tratado de teologia onde tudo aparece de maneira clara e concisa. Seu conteúdo teológico
está espalhado pelo texto, mais nas entrelinhas do que em declarações explicitas.

A cristologia apresentada pelo Apocalipse nunca é a do Cristo sozinho e isolado. Não é a pessoa de Jesus que
interessa. Cristo sempre aparece em relação com sua obra redentora em favor da humanidade.
O tema central do Apocalipse é a volta de Cristo e o estabelecimento do seu Reino.

Alfred Lappe:

"A cristologia (doutrina sobre Cristo) é sempre vista juntamente com a soteriologia (doutrina da salvação) e
com a escatologia (doutrina sobre o cumprimento).”

( Biblia - Interpretação Atualizada e Catequese- Vol.04 – Edição Paulinas - 1980 - Pág.347)

O que importa não é a pessoa ou a biografia de Jesus, mas a ação do Cristo na comunidade redimida e chamada
para o juízo e o final dos tempos que já se avizinha e se faz reconhecer no dia a dia da comunidade cristã:

O confronto com os donos do mundo, o império romano, e a ameaça constante de perseguição e até mesmo
de extermínio


É claro que o Apocalise fala da vitória final de Cristo. Porém, a vitória que só virá no final.
No momento em que escreve, o autor e a comunidade vivem uma realidade bem diferente.
O vidente fala sobre o futuro imediato da Igreja e avisa que as perseguições serão ainda piores do que já são,
mas a Igreja de Cristo não deve duvidar da fidelidade de Deus, pois o Senhor virá em breve. (Ap. 22,20)

De um lado temos a figura do Cristo exaltada como:

Senhor, Rei dos reis, pantocrator, Kyrios, a testemunha fiel, o Verdadeiro, o Santo, o Amém, o leão da tribo
de Judá, o alfa e o ômega, aquele que julga e combate com justiça, etc.

De outro lado temos a figura do Império Romano, diante da qual o Cristo parece sem ação.
O que o vidente esclarece é que o mundo escolheu as trevas em vez da luz.
Cristo redimiu o mundo, mas o mundo não quer ser redimido.
Apesar de Jesus ser o Cristo esperado, o Apocalipse mostra uma teologia do afastamento de Cristo, da ausência
de Cristo.
Diante do poder da perseguição ordenada pelo imperador Domiciano, o poder de Jesus mais parece uma
piedosa miragem. O imperador pode tudo contra os seguidores do Cristo.

O Apocalipse fala de dor e fracasso:

O mundo não quis e não quer o Cristo.
De que forma a morte e a ressurreição de Cristo mudou o mundo?
Que mudanças reais aconteceram neste mundo após a ressurreição e ascensão de Cristo?

Alfred Lappe:

"Inegávelmente, Cristo é o Cordeiro que tirou o pecado do mundo.
"Mas o mundo não o conheceu. Veio para a sua casa, e os seus não o receberam." (Jo 1,10-11)”

(A Mensagem do Apocalipse para o nosso tempo.– Edição Paulinas - 1971 - Pág.231)

A realidade do dia a dia dos cristãos do Apocalipse desmente qualquer ideia de que Cristo redimiu o mundo.
Tudo indica a inutilidade, o fracasso e o insucesso da obra salvífica de Jesus Cristo.
O espaço de tempo entre a morte, ressurreição e glorificação de Cristo e sua volta definitiva era completamente
diferente daquilo que os cristãos esperavam.
A Igreja prega a mensagem da redenção de todo o cosmos através de Cristo, mas o mundo não quer esta salvação,
razão pela qual Cristo é condenado à inação.

Deus não pode salvar quem não quer ser salvo.

Esta realidade e a longa espera pela volta de Cristo que nunca acontecia, levou a um amadurecimento da teologia
das comunidades do Apocalipse.
Esta ausência de Cristo levou a um fortalecimento da noção de comunidade e de comunhão cristãs.

Nas comunidades Paulinas a parusia era esperada para muito breve.
Paulo acreditava que alguns dos que viviam, ainda em vida veriam a volta de Jesus.

A teologia do Apocalipse mostra o vidente tentando animar uma comunidade onde a parusia já não é mais esperada
para amanhã.
Parece que nunca virá.
Há uma crise de fé.
Consequentemente houve um amadurecimento desta fé:

O entendimento de que a vitória do Cristo não acontece durante a história, mas no final da história.

Enquanto isso era preciso crer que até mesmo toda a perseguição e todas as ações do Inimigo faziam parte dos
planos de Deus:

“Deram-lhe permissão para guerrear contra os santos e vencê-los." (Ap 13,7).

O Apocalipse causa confusão e dificuldades de entendimento a todos nós, cristãos de todos os tempos.
Ele mostra a ação e o poder do Mal (Satanás) sobre a história.
É a hora do Malígno.

Alfred Lappe:

"Uma das realidades misteriosas e obscuras mais inquietantes do desígnio divino é que o último dia, o estágio
final da história, será confiado ao Demônio, que verdadeiramente, com todas as artes e baixezas de sua sedução,
quer destruir a obra salvífica de Cristo.
Como é difícil crer que Cristo tenha podido e possa (permitir) tudo isso, causando de tal modo gravíssimas
dificuldades de fé a muitos cristãos.
Nada é poupado aos cristãos. As futuras perseguições serão ainda mais duras do que as passadas.

( Biblia - Interpretação Atualizada e Catequese- Vol.04 – Edição Paulinas - 1980 - Pág.351)

Por isso, já que não se via a vitória de Cristo neste mundo, se ansiava pelo fim deste mundo e pelo juízo final de Deus.
O castigo a ser aplicado ao mundo que se mostrava rebelde à oferta de salvação:

Os homens separados de Deus são presa fácil para as forças demoníacas e são destinados ao julgamento segundo
as suas obras. O império romano, representado pelas "bestas" também será derrotado.

À comunidade dos crentes que manteve e defendeu a fé, mesmo diante da morte, está reservada a salvação e a
morada na Jerusalém celeste. Eles, que ligados a Cristo, tornaram ineficazes as ações dos demônios, receberão
com justiça seu lugar no Reino de Deus.

Alfred Lappe:

"As comunidades cristãs das origens tiveram que aprender a glorificar Cristo, por assim dizer, às custas de
posições perdidas e na condição de igrejas banhadas pelo sangue dos mártires.”

( Biblia - Interpretação Atualizada e Catequese- Vol.04 – Edição Paulinas - 1980 - Pág.349)

A teologia do Apocalipse não tem uma visão otimista sobre o papel do Mal na história do mundo.
A partir do momento em que se realiza a obra redentora do Cristo, em paralelo a ela a presença do Mal também
tem seu papel revelado.
O Mal não desapareceu com a glorificação de Jesus Cristo.

Ele vai perseguir a Igreja até volta definitiva de Jesus.
A teologia do Apocalipse fala de uma Igreja peregrina, cujos pés estão na Terra mas busca o Reino dos Céus.

A Igreja carrega no seu corpo as mesmas marcas de Jesus. (Gl 6,17)

O Apocalipse procura mostrar qual é o lugar da Igreja na história.
A teologia do Apocalipse mostra que a vida da Igreja não será diferente da do seu Mestre.
O caminho da Igreja é o mesmo de Jesus.
As visões infantis sobre Jesus cedem lugar à realidade brutal da perseguição.
A Igreja também deve caminhar sob o peso da cruz rumo ao seu calvário.
Deve cair e levantar.

Alfred Lappe:

"Por isso, quem desde já se refugia na harmonia e na paz da aurora da Páscoa não compreendeu , ou então
não quer compreender, o Apocalipse. Também se pode deixar de encontrar Cristo e sua salvação fugindo
da imitação e da co-participação na sua Paixão.”

( Biblia - Interpretação Atualizada e Catequese- Vol.04 – Edição Paulinas - 1980 - Pág.352)

A mensagem do autor do Apocalipse é uma mensagem consoladora:

Mesmo que o mal pareça vencer, mesmo que a presença de Jesus pareça só ausência e as ações dos demônios
se façam sentir por toda parte, O SENHOR ESTÁ SEMPRE AO SEU LADO.
Quanto mais difícil for o caminho imposto à Sua Igreja , tanto mais próximo se encontra Cristo.

E a vitória final, deste o início dos tempos, Lhe está reservada.

Bibliografia:

- Biblia de Jerusalém – NT – Edições Paulinas - 1973

- Biblia de Jerusalém – Editora Paulus - 2014

- Biblia do Peregrino- NT - Editora Paulus - 2005

- Alfred Lappe –A Mensagem do Apocalipse para o Nosso Tempo – Ed.Paulinas -1971

- Alfred Lappe – Interpretação Atualizada e Catequese – Vol.04 – N.T. – Paulinas -1980

- A Comunidade do Discípulo Amado. - Raymond Edward Brown - Ed.Paulus -2013

- O Apocalipse de São João-Uma Chave de Leitura –Esperança de Um Povo que Luta- Frei Carlos Mesters-Edições Paulinas.

- Agora Entendo o Apocalipse – Antônio Guilherme Grings - Ed.La Salle -1976 -

- "The Faith of the Early Fathers", Volume I. William A. Jurgens. Liturgical Press, Collegeville Minnesota, 1970;

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