CURSO DE BÍBLIA PARA INICIANTES

AULA 17 - APOCALIPSE DE JOÃO.

Sete visões referentes à consumação. (Ap 19,6 -22,5)

COMO FOI DIVIDIDO?

XX – Introdução às Visões referentes à consumação. (Ap 19,6-10)

O vidente diz que ouviu um rumor como de uma grande multidão, como o barulho de águas torrenciais ou de
fortes trovões aclamando:

“Aleluia! Porque o Senhor, o Deus todo-poderoso passou a reinar! Alegremo-nos e exultemos, demos glória
a Deus, porque chegou o tempo das núpcias do Cordeiro, e sua esposa já está pronta: concederam-lhe vestir-se
com linho puro, resplandecente. Pois o linho representa a conduta justa dos santos.”
(Ap 19,6-8).

Em todo o Novo Testamento a aclamação litúrgica “ALELUIA!” aparece apenas no Apocalipse de João,
em 19,1.3.4.6.

No Antigo Testamento a figura de Israel como esposa de Deus aparece em diversas passagens:
Oséias 2,16.19.20 ; Isaías 54,5 ; 62,4ss ; Ezequiel 16,6ss e outras.

Na nova aliança (Novo Testamento) o Noivo é Cristo e a esposa é a Igreja cristã nascente.
Estas núpcias messiânicas e escatológicas entre Cristo e a Sua Igreja trazem a característica fundamental de
perenidade; são para toda a eternidade.

Jesus, nos evangelhos, falou sobre estas núpcias em: Mt 9,15 ; Mt 22,1ss ; Jo 3,29 ; Mc 14,25 e em Lc 14,16ss.

À esposa é permitido usar linho puro, símbolo de pureza.

“....Pois o linho representa a conduta justa dos santos.” (Ap 19,8).

Ela, que está de veste simples contrasta com as vestes suntuosas da meretriz, Babilônia.

“...Estes são os que vêm da grande tribulação: lavaram suas vestes e alvejaram-nas no sangue do
Cordeiro.” (Ap 7,14).

A Igreja é a esposa de Cristo. Teve sua roupa lavada e alvejada pela Graça advinda do sacrifício do Cordeiro
Pascal: Jesus, o Cristo esperado.

São Paulo em 2 Coríntios já apresentava a Igreja como esposa virgem e pura de Cristo:

“...porque vos tenho preparado para vos apresentar como uma virgem pura a um marido, a saber,
a Cristo.” (2Cor 11,2).

Em seguida, o vidente informa que recebeu ordem de alguém não nominado:

“Escreve: felizes aqueles que foram convidados para o banquete das núpcias do Cordeiro. E acrescentou:
Estas são as verdadeiras palavras de Deus.” (Ap 19,9-10).

O texto parece apresentar uma lacuna porque ninguém falava neste momento com João e de repente surge
a descrição :
“A seguir, disse-me:”
Quem? O texto não diz quem é, mas provavelmente é uma das vozes de Anjos, como em 17,1 e 18,1.

João diz que diante destas palavras caiu aos seus pés para adorá-lo, mas que ele o impediu dizendo:

“Não! Não o faças! Sou servo como tu e como teus irmãos que têm o testemunho de Jesus.
É a Deus que deves adorar!” (Ap 19,10b).

Não podemos esquecer que, assim como outros livros da Bíblia, o Apocalipse também foi organizado pelo
redator ou redatores finais a partir de partes originalmente separadas. O texto acima, Ap 19,10, que
mostra João querendo adorar ao Anjo que fala com ele é semelhante ao texto de Ap 22,8-9.
Este tipo de repetição pode ser pelo fato dos redatores usarem o mesmo original em dois locais diferentes
por acaso, ou insistência em mostrar que se nem a um anjo se deve adorar, MUITO MENOS SE DEVE ADORAR
A UM SER HUMANO , como o imperador romano que se arrogava o título de DÍVINO.

Pode ser também um alerta contra o culto às potências celestiais, cuja existência é relatada em:
Cl 2,18 e Hb 1,14 ; 2,5

O anjo termina dizendo:

“Com efeito, o espírito da profecia é o testemunho de Jesus.” (Ap 19,10c).

Uma pequena parte de um versículo repleta de significado:

O testemunho de Jesus é a PALAVRA DE DEUS, atestada por Ele na sua vida terrena e que todo cristão possui,
pois no batismo nos tornamos Sacerdotes, Reis e Profetas.

A palavra de Deus que, portanto, está em todo cristão é a mesma que inspirou os profetas do AT e agora inspira
os do Novo Testamento: todo cristão de acordo com o seu carisma.

O profeta não é um adivinho com poderes mágicos. Ele compreende o presente e assim pode prever o futuro.

Não era diferente no começo de nossa Igreja e não é diferente agora.
O espírito do Apocalipse é o mesmo também hoje, sempre que o cristão é chamado a transformar o mundo
que o cerca:
somos profetas para alertar;
devemos ser sinal de contradição;
sal da terra e luz do mundo.

“...mas se o sal perder o gosto, com que se há de salgar?” (Lc 14,34).

XXI – Sete Visões referentes à consumação. (Ap 19,11-22,5)

Alfred Lappe:

"Enquanto apresentamos as sete visões sobre a queda de Babilônia como uma sinfonia, na qual
predomina a audição (caracterizada pelas acumulação de palavras:
‘Disse-me’( Ap 17,1.7.15 ; 18,2.21);
‘ouvi’ (18,4 ; 19,1); ou
‘gritam’; 18,10.16.18.19),

as visões atinentes à consumação não se destinam à audição, mas à visão direta, voltando continuamente:

‘eu vi’ (Ap 19,11.17.19 ; 20,1.4.11; 21,1) ) ou:
‘mostrou-me’(Ap 21,10 ; 22,1 .”

(Alfred Lappe –A Mensagem do Apocalipse para o Nosso Tempo – Ed.Paulinas -1971 – Pág.195)

Primeira Visão: (Ap 19,11-16) – O vencedor num cavalo branco. –

O vidente diz que viu o céu aberto e nele apareceu um cavaleiro num cavalo branco. O nome do cavaleiro
é FIEL e VERDADEIRO. Ele julga e combate com justiça, seus olhos são chama de fogo, sobre sua cabeça há
muitos diademas, traz um nome que ninguém conhece, exceto ele. Veste um manto ensopado em sangue
e o nome com que é chamado é VERBO DE DEUS.

Estamos no FIM DOS TEMPOS:

Com a queda de Babilônia, profetizada e realizada, Cristo fiel cumpre o DIA DE IAHWEH (Am 5,18ss),
exterminando os inimigos da Igreja.
É chamado de fiel e verdadeiro em contraste e oposição a Satanás que é o pai da mentira.
O Cavaleiro é Cristo e o cavalo é branco porque símbolo de vitória e pureza.
Os olhos são chamas de fogo, ou seja, tudo vê.
As muitas diademas são símbolo da sua realeza. Ele tem muitas diademas porque ele é o REI DOS REIS.
É estranho que o texto diga que Ele tem um nome que ninguém conhece e logo em seguida diz que seu nome
é VERBO DE DEUS.
Trazer um nome que ninguém conhece fala muito sobre o seu mistério transcendente:
Só Deus Pai e Deus Espírito Santo são capazes de conhecer e se relacionar totalmente com o Cristo.

Alfred Lappe:

“...pois Deus só pode ser conhecido completamente por Deus......Unicamente o Pai eterno e o Espírito Santo
podem sustentar o verdadeiro e substancial diálogo com Cristo.”

(Alfred Lappe –A Mensagem do Apocalipse para o Nosso Tempo – Ed.Paulinas -1971 – Pág.198)

No entanto, a todos nós é dado conhecer seu nome: verbo de Deus.
Na concepção oriental conhecer o nome de alguém significa que você pode travar diálogo com este alguém.
Assim, a nós é dado o nome de Cristo para que também possamos dialogar com Ele.

O vidente continua dizendo que os exércitos do céu o acompanham, todos em cavalos brancos e vestidos de
linho de brancura resplandecente.

Os exércitos celestes só podem vestir branco: cor da vitória e da pureza.

Da sua boca sai uma espada afiada para ferir as nações. Ele é aquele que apascentará com um cetro de ferro.
Ele é quem pisa o lagar do vinho do furor da ira de Deus, o Todo-poderoso.

A espada afiada é a Palavra de Deus. Aqui aparece de forma clara a mensagem do evangelho de João sobre a
função de juiz assumida pelo Cristo e que governa com poder e força.

“O Pai não julga ninguém, mas entregou ao Filho todo julgamento.” (Jo 5,22).

Esta colossal batalha ainda hoje é travada no mais profundo dos homens e de suas sociedades.

Um nome está escrito sobre o manto que o cobre:

REI DOS REIS E SENHOR DOS SENHORES.

Ele está acima de tudo e de todos.

“...de modo que , ao nome de Jesus, se dobre todo joelho nos céus, na terra, e sob a terra.” (Fl 2,10).

Segunda Visão: (Ap 19,17-18) – O Anjo de pé no sol. –

Carlos Mesters:

"Aqui começa a parte mais difícil do Apocalipse. São visões obscuras, cujos detalhes não tem interpretação
certa. Não podem ser tomados ao pé da letra, palavra por palavra. São símbolos. Mas o sentido geral do
conjunto fica claro. João quer ensinar que, no fim, o mal será derrotado totalmente. A vitória será do bem
e da justiça.”

(O Apocalipse de São João- Uma Chave de Leitura –Carlos Mesters - Ed.Paulinas – Pág.71)

O vidente diz que viu um Anjo de pé no sol e ele gritou em alta voz para todas as aves que voavam no meio do céu:

O fato do Anjo estar de pé sobre o sol indica que a ordem foi restaurada e esta ordem vem de Deus.

“Vinde, reuni-vos para o grande banquete de Deus, para comer carnes de reis, carnes de capitães, carnes de
poderosos, carnes de cavalos e cavaleiros, carnes de todos os homens, livres e escravos, pequenos e grandes.”
(Ap 19,17-18).

Apesar de estarmos falando sobre as núpcias do Cordeiro às quais se supõe um banquete de festa; aqui o banquete
é das aves necrófagas, os urubus, que se alimentam dos inimigos da Igreja.

A cena se inspira em Ez 39,17-20.

Terceira Visão: (Ap 19,19-21) – O triunfo sobre a Besta e o falso profeta. –

João diz que viu então a Besta reunida com os reis da terra e seus exércitos para guerrear contra o Cavaleiro e
seu exército.
A Besta e o falso profeta são capturados e lançados vivos no lago de fogo que arde com enxofre. Os seus seguidores
são mortos pela espada que saía da boca do Cavaleiro e as aves se fartaram com as suas carnes.

À exemplo da segunda visão aos inimigos só restará o destino de serem devorados pelas aves. O poder do Cordeiro
é sem fim. Nada escapa à Sua justiça: o império romano (Besta) e seus arautos e sacerdotes (Falso Profeta) são
totalmente derrotados.

Quarta Visão: (Ap 20,1-3) – Acorrentamento de Satanás por mil anos. –

O vidente viu então um Anjo descer do céu, trazendo na mão a chave do abismo e uma grande corrente.
Ele agarrou o Dragão, a antiga serpente, que é Satanás e acorrentou-o por mil anos e o atirou dentro do
Abismo, fechando e lacrando-o com um selo para que não seduzisse mais as nações até que os mil anos
estivessem terminados. Depois disso ele deverá ser solto por pouco tempo.

Só faltava o inimigo maior: O MAL cujo nome é Satanás, ou seja, o adversário. Este deverá ser impedido de agir por
mil anos, um tempo indeterminado, mas longo.

Alguns pensadores da Igreja primitiva (Irineu, Justino e Lactâncio, entre outros) acreditaram nestes mil anos de forma
literal, ao pé da letra. Daí surgiu o milenarismo, também chamado de milenialismo ou quiliasmo.

Esta doutrina viria se juntar a uma mais antiga, pré-cristã, que concebia a história do mundo em paralelo com a criação
do mundo em seis dias, como está no Gênesis:

Alfred Lappe:

“No pensamento extra bíblico do período pré-cristão adquiriu ampla divulgação a concepção de ser a história
do mundo modelada sobre a obra da criação em seis dias, abrangendo, por conseguinte, uma semana universal
de seis milênios, seguida do grande e eterno Sabbat. Entre o quinto e o sexto dias da semana do mundo
(era messiânica) é inserido amiúde o INTERMEZZO de um acorrentamento temporário de satanás, entreato
cuja duração é prognosticada de modo variado (40, 400, 1000, 2000 anos) e é mencionado igualmente
nos apocalipses extrabíblicos (4 Esdr 7,28s; Livro de Henoc 93 e 91,12-19; Apocalipse de Baruc 40,3)”

(Alfred Lappe –A Mensagem do Apocalipse para o Nosso Tempo – Ed.Paulinas -1971 – Pág.202)

CONCEPÇÃO JUDAICA DA HISTÓRIA UNIVERSAL NO PRIMEIRO SÉCULO

1º. e 2º. dias do mundo - 2.000 anos sem a lei (Período antes de Abraão).

3º. e 4º. dias do mundo - 2.000 anos sob a lei (A começar do 52º. ano de Abraão até 240 d.C.)

5º. e 6º. dias do mundo -
Quinto dia do mundo: 1.000 anos. Pelos fins deste período: acorrentamento de satanás e primeira ressurreição.
Sexto dia do mundo: 1.000 anos. Era messiânica
Pelos fins desta época: queda definitiva de satanás, ressurreição geral e juízo universal.

7º. dia da eternidade - Sabbat do mundo (novo céu, nova terra e nova Jerusalém).

(Alfred Lappe –A Mensagem do Apocalipse para o Nosso Tempo – Ed.Paulinas -1971 – Pág.203)

Esta doutrina pregava que o Mal (Satanás) estaria preso por mil anos e depois seria solto por um tempo, etc.
Quando da conversão de Constantino e depois, com Teodósio e a declaração de religião oficial do império
e a consequente integração Igreja – Estado, esta visão milenarista perdeu-se na poeira do tempo.
A Igreja, antes perseguida, era agora parte do império romano, ou vice-versa, com todos os prós e contras.
Mas não podemos deixar de declarar que também aqui agiu o Espírito Santo. Não?

Quinta Visão: (Ap 20,4-10) – O reino milenar e a queda definitiva de Satanás. –

O vidente então viu tronos, e aos que neles se sentaram foi dado o poder de julgar. Viu também as vidas daqueles
que foram decapitados por causa do Testemunho de Jesus e da Palavra de Deus.
Eles voltaram à vida e reinaram com Cristo durante mil anos.
Os outros mortos, no entanto, não voltaram à vida até o término dos mil anos. Essa é a primeira ressurreição.

“Feliz e santo aquele que participa da primeira ressurreição! Sobre estes a segunda morte não tem poder: eles
serão sacerdotes de Deus e de Cristo, e com ele reinarão durante mil anos.” (Ap 20,6).

Pode causar estranheza que mais alguém possa julgar além do Cristo, mas o versículo 4 indica claramente que os
que se sentaram nos tronos também tem o poder de julgar.
Quem são?

A Bíblia do Peregrino:

"Com sua morte e ressurreição, Jesus Cristo, que é o mais forte, derrotou Satanás. Os que são fiéis a Cristo
reduzem o Diabo à impotência. Os mártires inclusive participam do julgamento que o condena. Os fiéis a
Cristo já participam da nova vida do Senhor, já gozam da ‘primeira ressurreição’, já reinam e oficiam
como sacerdotes com o Messias.”

( Biblia do Peregrino- NT –Comentário a Ap 20,1-10 - Editora Paulus – 2005-Pág. 669 )

Carlos Mesters:

"A primeira ressurreição é daqueles que deram testemunho de Jesus e resistiram contra a besta-fera (20,4).
O seu testemunho deixou semente e ressuscitou na Igreja que agora cresce e se espalha pelo mundo inteiro.
Isto vai durar mil anos (20,4). Os outros mortos não participam desta primeira ressurreição (20,5), porque
a vida deles não valeu para nada e não deixou semente no chão da vida do povo.”

(O Apocalipse de São João- Uma Chave de Leitura –Carlos Mesters - Ed.Paulinas – Pág.73)

João afirma que os mártires julgarão junto com Cristo. Julgarão a Satanás.
Nada mais natural, uma vez que suas vidas já são o próprio julgamento contra Satanás, que não os conseguiu
seduzir.
Os mártires, imunes ao Mal, levam Satanás à total impotência. Ele não é capaz de influenciar as vidas daqueles
que são fiéis ao Cristo.

Há citações em Mateus e em São Paulo que provam ser antiga esta doutrina sobre os que deixaram tudo para
seguir a Cristo:

“...Em verdade vos digo que, quando as coisas forem renovadas, e o Filho do Homem se assentar no seu
trono de glória, também vós, que me seguistes, vos sentarei em doze tronos para julgar as doze tribos de
Israel.” (Mt 19,29).

“Então não sabeis que os santos julgarão o mundo?” (1Cor 6,2).

Sobre os mil anos:

Biblia de Jerusalém:

"Desde a Igreja antiga, uma corrente da Tradição interpretou literalmente este versículo:
após uma primeira ressurreição real, a dos mártires, Cristo voltaria sobre a terra para um reino feliz de mil
anos, em companhia de seus fiéis. Este milenarismo literal nunca foi favorecido na Igreja.”

(Bíiblia de Jerusalém- NT –Comentário a Ap 20,4-Edições Paulinas -1973-Pág.697 )

O milenarismo não prosperou junto ao magistério da Igreja. Assim, como a maioria da simbologia no apocalipse,
aqui também é preciso ter discernimento. Mil anos, como já vimos em aulas anteriores, é símbolo de um tempo
bem longo, incontável. Não é 999+1.

Biblia de Jerusalém:

"Esta “ressurreição” dos mártires (cf. Is 26,19 ; Ez 37) é simbólica:
é a renovação da igreja depois do término da perseguição romana, com a mesma duração que o cativeiro
do Dragão. Os mártires que esperam sob o altar (6,9-11) estão desde agora felizes com Cristo.
O “Reino de mil anos” é, portanto, a fase terrestre do Reino de Deus, desde a queda de Roma até a vinda
de Cristo (20,11ss).”

(Bíiblia de Jerusalém- NT –Comentário a Ap 20,4-Edições Paulinas -1973-Pág.697 )

Carlos Mesters:

"Os mil anos indicam o tempo que vai desde o fim da perseguição do Império Romano até o fim do mundo.
É o tempo completo marcado por Deus. Não pode ser tomado ao pé da letra. Pois, a respeito do fim do
mundo, ninguém sabe nada. Só o Pai (Mc 13,32 ; At 1,7) !”

(O Apocalipse de São João- Uma Chave de Leitura –Carlos Mesters - Ed.Paulinas – Pág.73)

O vidente continua dizendo que quando se completarem os mil anos Satanás será solto:

“...Satanás será solto e sairá para seduzir as nações dos quatro cantos da terra, Gog e Magog, reunindo-os
para o combate; seu número é como a areia do mar...” (Ap 20,7).

O vidente diz que eles cercaram o acampamento dos santos e a Cidade amada (Jerusalém), porém um fogo desceu
do céu e os devorou. O Diabo foi lançado no lago de fogo e de enxofre, onde já estavam a Besta e o falso profeta
e ali serão atormentados dia de noite pelos séculos dos séculos.

Esta parte do Apocalipse se baseia no livro de Ezequiel:

Em Ez 38-39 trata-se de “Gog, rei de Magog”.

Alfred Lappe:

“A ordem observada na aparição de Gog e Magog foi transposta do Livro de Ezequiel para o Apocalipse
joânico.

EZEQUIEL                                                  APOCALIPSE

Reino Messiânico (Ez 37)                       Reino Milenar (Ap 20,4-6)

Gog e Magog (Ez 38-39)                         Gog e Magog (Ap 20,7-10)

A nova Jerusalém (Ez 40ss)                   Novo céu, nova terra e nova Jerusalém (Ap 21,1ss)”

(Alfred Lappe –A Mensagem do Apocalipse para o Nosso Tempo – Ed.Paulinas -1971 – Pág.202)

Gog e Magog simbolizam todas as nações pagãs.
Elas por mais que combatam contra a Igreja acabam derrotadas junto com Satanás, o símbolo do Mal.
Finalmente o Mal é lançado ao lago de fogo junto com a Besta e o Falso Profeta.
Desta vez para sempre.

Sexta Visão: (Ap 20,11-15) – A ressurreição geral e o Juízo Universal. –

O vidente viu então um grande trono branco e aquele que nele se assenta. O céu e a terra fugiram da sua presença
sem deixar vestígios.

O autor descreve o julgador de maneira misteriosa. Afinal, quem assenta ao trono?
Deus Pai ou Jesus, a quem foi dado o poder de julgar?
Tudo isso é apenas recurso literário e de estilo para mostrar que quem julga é infinitamente poderoso.
De tal forma que até mesmo o céu e a terra fogem da sua presença.

O vidente viu mortos, grandes e pequenos, todos de pé diante do trono e ali abriram-se livros.Também foi aberto
o Livro da Vida.

Os primeiros livros contêm as ações boas e más dos homens. O livro da Vida tem os nomes dos predestinados.

Os mortos foram julgados, cada um conforme a sua conduta, de acordo com o que estava escrito nos livros.

Todos são iguais perante o juiz. Tanto faz se é rico ou pobre, forte ou fraco, todos caminham para um mesmo
julgamento de acordo com suas ações durante a vida.

É claro que o texto do Apocalipse reflete a noção de justiça da comunidade joanina, que era a da recompensa de
acordo com a ação praticada. Só mais tarde, na convivência com as comunidades apostólicas esta mensagem
escatológica seria amenizada.

Afinal o juiz que está julgando é o mesmo que ensinou a parábola da vinha como está em Mt 20,1-16.

O mar, a Morte e o Hades devolveram os mortos que estavam com eles e todos foram julgados conforme sua
conduta.

O mar e o Hades (na cosmovisão da época) eram lugares onde ficavam os mortos após suas vidas na terra.

A Morte e o Hades foram lançados então no lago de fogo.

A ressurreição de Cristo é a vitória final sobre a Morte. Agora já existe o Novo Reino onde a morte não tem mais
poder. Já vivemos, a partir da ressurreição de Cristo, o Reino de Deus na terra. Para aqueles que seguem os preceitos
de Jesus em suas vidas o Reino de Deus já é realidade e o mundo já está se transformando.

“Esta é a segunda morte: o lago de fogo. E quem não se achava inscrito no livro da vida foi também lançado
no lago de fogo.” (Ap 20, 14-15).

Este versículo fala sobre a doutrina da predestinação. Conceito problemático que já criou divisões na Igreja.
Segundo esta doutrina os nomes daqueles que serão salvos já são do conhecimento de Deus.

Que Deus sabe tudo não temos dúvidas. Então Ele sempre soube todos os nomes dos que serão salvos.

A confusão começa quando, maliciosamente, alguém pergunta:
“Bem. Se Deus sempre soube todos os nomes dos que seriam salvos para que Jesus veio até aqui?”
Um dos padres da Igreja nos socorrerá nesta hora:

Eusébio de Cesaréia :

“O conhecimento prévio dos eventos não é a causa de que tenham ocorrido. As coisas não ocorrem porque
Deus sabe. Quando as coisas estão para ocorrer, Deus o sabe. Logo, Deus, apesar de saber previamente
os acontecimentos futuros, dá, ao Homem, a possibilidade de modificá-los e de criar uma nova versão do
futuro, que, aliás, Deus também já consegue prever. Contudo, o homem não pode interferir na vontade de Deus."

(Demonstração do Evangelho, VI,11) Eusébio de Cesaréia citado em : "The Faith of the Early Fathers", Volume I. William A. Jurgens. Liturgical
Press, Collegeville Minnesota, 1970; pág. 296.

Por outro lado, o versículo 12 diz claramente que "serão julgados de acordo com suas condutas", o que descarta
a predestinação no sentido de algo absoluto e que não pode ser alterado. Pode ser alterado e Deus já sabe os
que alterarão seus futuros, para o bem ou para o mal.

Sétima Visão: (Ap 21,1-22,5) – A nova criação: Novo céu, Nova Terra, Nova Jerusalém. –

O vidente informa que viu um novo céu e uma nova terra e o mar já não mais existe. Viu descer do céu, de
junto de Deus, a Cidade Santa, a Nova Jerusalém, pronta como uma esposa que se preparou para o marido.
João diz então que ouviu uma voz forte que vinha do trono:

“Eis a tenda de Deus com os homens. Ele habitará com eles, eles serão o seu povo, e ele será o seu Deus.
Ele enxugará toda lágrima dos seus olhos, pois nunca mais haverá morte, nem luto, nem clamor, e nem dor
haverá mais. Sim! As coisas antigas se foram!” (Ap 21,3-4).

Como São Paulo disse em Rm 8,19ss, toda a criação será renovada. O mar, símbolo do mal, desapareceu para
sempre. É a realização das núpcias de Deus e sua Igreja.

O vidente disse que ouviu a voz daquele que estava sentado no trono:

“Eis que eu faço novas todas as coisas.” E continuou: ”Escreve, porque estas palavras são fiéis e verdadeiras.”
E disse-me ainda: “Elas se realizaram! Eu sou o Alfa e o Ômega, o Principio e o Fim; a quem tem sede eu
darei gratuitamente da fonte de água viva. O vencedor receberá esta herança, e eu serei seu Deus e ele será
meu filho.” (Ap 21,5-8).

O título de filho de Deus que deveria ser conferido ao Rei Messias (2Sm 7,14+), sucessor de Davi, Jesus o recebe
em virtude de sua ressurreição (At 2,36 ; Rm 1,4 ; Hb 1,5). E nós também podemos ser chamados FILHOS DE DEUS,
pois Jesus estendeu este título a todos que nele crêem (Jo 1,12+ ; 1Jo 3,1).

O vidente ouviu ainda que quanto aos preguiçosos, infiéis, corruptos, assassinos, impudicos, mágicos, idólatras
e mentirosos, a sua porção se encontra no lago ardente de fogo e enxofre. Esta é a segunda morte.

O Apocalipse fala da segunda morte, ou seja, a morte eterna. Reservada para aqueles que disserem não a Deus.
Deus oferece a todos o seu AMOR. Mas a resposta é nossa.
Todo aquele que escolher ficar eternamente longe de Deus terá sua decisão respeitada por Ele.
Este é o pecado contra o Espírito Santo: trata-se da rejeição da graça de Deus, da recusa da salvação.
É o pecado IMPERDOÁVEL porque é o próprio pecador quem impede Deus de perdoá-lo.

João diz então que um dos Anjos foi até ele e o convidou:

“Vem! Vou mostrar-te a Noiva, a Esposa do Cordeiro!. (Ap 21,9).

A nova Igreja. A nascente Igreja de Cristo.

O vidente informa que foi arrebatado em espírito e viu a Cidade santa que descia do céu. Ela era cercada por
muralha grossa e alta , com doze portas.

“Sobre as portas há doze Anjos e nomes inscritos, os nomes das doze tribos de Israel: três portas para o lado
do oriente; três portas para o norte; três portas para o sul, e três portas para o ocidente. A muralha da cidade
tem doze alicerces, sobre os quais estão os nomes dos doze Apóstolos do Cordeiro.” (Ap 21,12-14).

Aqui começa uma longa narração sobre a Nova Jerusalém, símbolo da Igreja, onde a simbologia dos números
é apresentada ao extremo. Mas estes números já foram explicados anteriormente.

O vidente informa que o Anjo trazia uma medida para medir a cidade.

A cidade é quadrangular (perfeição), comprimento igual à largura, medindo doze mil estádios.

A altura também é igual ao comprimento e a largura.

Mediu a muralha e deu cento e quarenta e quatro côvados.

O material da muralha era de jaspe, a cidade de ouro puro.

Os doze alicerces da cidade são de : jaspe, safira, calcedônia, esmeralda, sardônica, cornalina, crisólito, berilo,
topázio, crisopraso, jacinto e ametista.

A praça da cidade era de ouro puro e não havia nenhum templo na cidade, pois o seu templo é o Senhor, o Deus
todo-poderoso e o Cordeiro.
A cidade não precisa de iluminação pois a sua luz é a glória de Deus. Sua lâmpada é o Cordeiro.

“As nações caminharão à sua luz, e os reis da terra trarão a ela a sua glória; suas portas nunca se fecharão
de dia – pois ali já não haverá noite- , e lhe trarão a glória e o tesouro das nações. Nela jamais entrará algo
imundo, e nem os que praticam abominação e mentira. Entrarão somente os que estão inscritos no livro da
vida do Cordeiro.” (Ap 21,24-27).

A perfeição da nova cidade supera em tudo a antiga. Ou seja, a nova Igreja, o novo povo de Deus, supera totalmente
o povo antigo.

Em seguida o Anjo mostrou ao vidente um rio de água da vida, que saía do trono de Deus e do Cordeiro. Mostrou
ainda que no meio da praça, de um lado e do outro do rio, havia árvores da Vida que dão frutos doze vezes,
frutificando a cada mês. Suas folhas serviam para curar as nações.

“Nunca mais haverá maldições. Nela estará o trono de Deus e do Cordeiro, e seus servos lhes prestarão culto;
verão sua face, e seu nome estará sobre suas frontes. Já não haverá mais noite: ninguém mais precisará da
luz da lâmpada, nem da luz do sol, porque o Senhor Deus brilhará sobre eles, e eles reinarão pelos séculos
dos séculos." Ap(22,3-5).

Os versículos de 3 a 5 estão no futuro prometendo o Reino de Deus a todos que crêem no Cordeiro.

Bibliografia:

- Biblia de Jerusalém – NT – Edições Paulinas - 1973

- Biblia de Jerusalém – Editora Paulus - 2014

- Biblia do Peregrino- NT - Editora Paulus - 2005

- Alfred Lappe –A Mensagem do Apocalipse para o Nosso Tempo – Ed.Paulinas -1971

- Alfred Lappe – Interpretação Atualizada e Catequese – Vol.04 – N.T. – Paulinas -1980

- A Comunidade do Discípulo Amado. - Raymond Edward Brown - Ed.Paulus -2013

- O Apocalipse de São João-Uma Chave de Leitura –Esperança de Um Povo que Luta- Frei Carlos Mesters-Edições Paulinas.

- Agora Entendo o Apocalipse – Antônio Guilherme Grings - Ed.La Salle -1976 -

- "The Faith of the Early Fathers", Volume I. William A. Jurgens. Liturgical Press, Collegeville Minnesota, 1970;

Voltar ao Menu