CURSO DE BÍBLIA PARA INICIANTES

AULA 14 - AS EPÍSTOLAS DE JOÃO.

QUEM ESCREVEU ?

Durante muito tempo, enquanto se discutia se João apóstolo, filho de Zebedeu e irmão de Tiago, era o autor
do Evangelho de João, das três epístolas de João e do Apocalipse de João, testemunhos de pessoas importantes
avaliavam se João teria vivido tanto tempo para poder ter escrito todos estes textos:

Eusébio de Cesaréia:

“...Domiciano demonstrou grande crueldade em relação a muitos. Mandou matar considerável número de
patrícios e importantes personagens de Roma,... Nesta ocasião, conforme se refere, o apóstolo e evangelista
João, que ainda vivia, por causa do testemunho acerca do verbo divino, fora condenado ao exílio na ilha de
Patmos. “

(História Eclesiástica. –Eusébio de Cesaréia – Livro III- Cap.18-17,1)

Domiciano foi imperador de 81 a 96.

Irineu de Lion:

“....Era nesta idade que nosso Senhor ensinava, como o atesta o Evangelho e todos os presbíteros da Ásia que
se reuniram em volta de João, o discípulo do Senhor, que ficou com eles até os tempos de Trajano.”

(Contra as Heresias. –Irineu de Lion – Livro III – 22,5)

Trajano foi imperador de 98 a 117.
Irineu e Eusébio afirmam que João viveu pelo menos até o último decênio do século I.

Pápias (citado por Eusébio):

“5. Neste ponto, seria oportuno notar que Pápias enumera duas vezes o nome de João, a primeira das quais
entre Pedro, Tiago, Mateus e os outros apóstolos, e indica evidentemente o evangelista; quanto ao outro João,
ele interrompe a enumeração e entre outros coloca-o, fora do número dos apóstolos. Aristion o precede e ele
é designado claramente como presbítero.
6. Por conseguinte, as próprias palavras demonstram ser verdadeira a opinião de ter havido na Ásia dois
homens com este nome, e existem, efetivamente, em Éfeso, dois túmulos que ainda agora são ditos túmulos
de João.
Importa dar atenção ao fato, pois é verossímil ter sido o segundo João, se não se quiser admitir que foi o primeiro,
o vidente da revelação transmitida sob o nome de João.”

(História Eclesiástica. –Eusébio de Cesaréia – Livro III - Cap.39,5-6)

Seriam os túmulos: de João, o apóstolo e de João, o presbítero da Segunda e da Terceira Epístolas?

O Papa Bento XVI cita também Eusébio de Cesaréia, sobre ele conhecer uma obra de Pápias, Bispo de Hierápolis,
na qual Pápias diz não ter conhecido nem visto o apóstolo João, mas recebido a doutrina da fé daqueles que
teriam estado perto dos apóstolos. Ele cita os nomes de Aristion e de um presbítero João.

Bento XVI:

"Importante agora ele distinguir o apóstolo e evangelista João, por um lado, e o presbítero João, por outro.
Não conheceu pessoalmente o primeiro, mas ele mesmo se encontrou com o segundo.....em Éfeso havia algo
como uma escola de João, que se reportava ao discípulo amado, na qual, porém um "presbítero João" gozava
de uma determinada autoridade...

...Este presbítero João aparece na segunda e na terceira carta de João(1,1), como remetente e autor da carta
simplesmente sob o título de "o presbítero" (sem informação do nome João). É totalmente claro que não é
o apóstolo, de modo que nos encontramos com a figura misteriosa do presbítero....

Agora , Bento XVI sugere uma explicação para a confusão entre João, o apóstolo e João, o presbítero:

... Depois da morte do apóstolo, o presbítero foi considerado o portador da sua herança; na recordação,
ambas as figuras acabaram por confluir uma na outra.

Então, para Bento XVI, João, o apóstolo, foi com o tempo confundido com o presbítero João. Este presbítero foi
figura importante da comunidade joanina e participou da redação final do evangelho. E continua:

Em todo caso podemos atribuir ao "presbítero João" uma função essencial na formação final do texto do
evangelho, em que ele tinha a consciência de ser procurador fiel da tradição recebida de João, o Zebedeu.....
O autor do Evangelho de João é por assim dizer o administrador da herança do discípulo amado."

(Jesus de Nazaré - Do Batismo no Jordão à Transfiguração. - Joseph Ratzinger - Bento XVI -Ed.Planeta -2017- Pág.199-198 )

Como já dito, antigamente se acreditava que o apóstolo João era o autor do Evangelho de João, das três epístolas
de João e do Apocalipse de João. Hoje em dia não é mais admitida esta tese.

Alfred Lappe:

"A redação final dos escritos joânicos (Evangelho, as três cartas e o Apocalipse) parece, entretanto, ter sido obra
de uma escola ou corrente teológica e helenista, que, de um lado, em razão da grande distância cronológica,
introduziu nos conceitos primitivos muita coisa imprecisa, porém de outro, imprimiu à sua obra matizes
teológicos bastante precisos......
A pessoa do Apóstolo João acha-se, sem dúvida alguma, por detrás destes cinco escritos que vêm sempre
associados ao seu nome pela Tradição. É, entretanto, extremamente difícil decidir, no texto atual, onde está
a contribuição primitiva e genuinamente joânica e onde assinalar as complementações e acréscimos posteriores.”

( As Origens da Bíblia - Alfred Lappe - Ed.Vozes -1973 – Pág.139-140)

A Bíblia do Peregrino: "

"Desde o início, a tradição considerou este escrito como obra de João, o apóstolo e evangelista. Hoje continuamos
a chamá-las de cartas de João e muitos comentaristas críticos continuam mantendo a opinião tradicional.
Seja carta ou tratado, seu autor é João. Mas há muitos exegetas que as atribuem a outro João, ou a outro
autor, diferente do evangelista.”

( Biblia do Peregrino- NT –Introdução ás Cartas de João - Editora Paulus - 2005 )

A SEGUNDA E A TERCEIRA EPÍSTOLAS

A Segunda e a Terceira Epístolas tem um mesmo autor, que no primeiro versículo de cada epístola se autodenomina
o Ancião ou o Presbítero, sem indicar seu nome:

“Do Ancião para a Senhora escolhida e seus filhos a quem amo de verdade...” (2Jo,1).

“Do Ancião ao querido Gaio, a quem amo de verdade....” (3Jo,1).

Em nenhum momento ele diz que seu nome é João, como por exemplo acontece com o autor do Apocalipse.
Outro detalhe que indica que ambas as epístolas são de um mesmo autor é o modo de finalizá-las usando a mesma
forma peculiar:“não com papel e tinta..”

“Embora tenha, muitas coisas para escrever, não quis fazê-lo com papel e tinta...” (2Jo,12).

“Embora tenha, muitas coisas para te escrever, não quero fazê-lo com a pena e a tinta...” (3Jo,13).

A PRIMEIRA EPÍSTOLA

O autor da Primeira Epístola não indica seu nome nem se apresenta como o Ancião ou o Presbítero.
O conteúdo desta epístola apresenta semelhanças com o Evangelho de João, principalmente no prólogo, porém
há diferenças teológicas principalmente com relação à escatologia.
A escatologia do Evangelho de João é a escatologia do presente, ou seja , a salvação ou condenação já está feita.
Quem aceitou Jesus está salvo, quem não aceitou está condenado. Veja: Jo 3,18 ou Jo 5,24 entre outros exemplos.

Não se fala, no Evangelho, de um tempo futuro onde serão separados os que se salvarão dos que serão condenados.
Já na Primeira Epístola aparece uma escatologia do futuro, pois o autor fala da chegada da última hora, a vinda
definitiva de Jesus.

Veja: 1Jo 2,18-28.

Se o autor ou autores do evangelho também escreveram a Primeira Epístola foi em épocas distantes uma da
outra. Como este intervalo de tempo entre a versão final do Evangelho e a provável data das Epístolas não seria
maior do que uma década, devemos acreditar que os autores são distintos para cada texto.

Como já vimos, foram diversos autores que escreveram os escritos joaninos. A atribuição ao apóstolo visava
garantir autoridade ao texto e porque o conteúdo original era baseado no aprendizado obtido junto ao apóstolo.
Era comum no primeiro e no segundo século, que um discípulo ou grupo de discípulos, colocasse no papel
o que aprendeu com seu mestre e depois colocasse o nome do mestre como autor.
Com os escritos joaninos não foi diferente.

R.E.Brown:"Quando o autor da primeira epístola escreve:

“O que existia desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com nossos olhos, o que contemplamos e nossas
mãos apalparam...” (1Jo,1).

não quer dizer que ele tenha sido uma testemunha ocular dos fatos , mas que ele faz parte da tradição do
apóstolo , da tradição do discípulo amado, e como numa reação em cadeia ele participa daquela tradição como
se ele estivesse mesmo lá."

( A Comunidade do Discípulo Amado. - Raymond Edward Brown - Ed.Paulus -2013 - Pág.107)

MAS !!! Não nos esqueçamos que um dos critérios (senão o mais importante) usados pelos Padres da Igreja para
definir a canonicidade de um livro, era a autoria por parte de um dos Apóstolos, ou de alguém que conheceu
Jesus, como Paulo.

Não seria, então, uma falsificação, o fato de um discípulo de João usar seu nome para dar importância e credibilidade
a algum texto escrito, na verdade, pelo discípulo?

Isto é um erro comum: julgar as pessoas daquela época pelos critérios éticos do nosso tempo.
Agindo assim, julgamos fora do contexto da época.

Quando alguém acompanhava um dos apóstolos, se tornando um discípulo dele, e depois colocava no papel aquilo
que o apóstolo havia ensinado, quem era o verdadeiro autor do texto? O apóstolo ou o discípulo?
Para o discípulo não havia nenhuma dúvida: o autor era o apóstolo.

Por isso, não devemos imaginar que quem escreveu queria fazer uma falsificação. Ainda que falsificações existissem
(Veremos isso na aula sobre os textos apócrifos). O discípulo, colocava no papel o que o apóstolo escreveria, se
tivesse tido talento literário, oportunidade e tempo para isso.

Mas as três epístolas foram aceitas como canônicas desde o início ?

Orígenes, falando sobre João e citado por Eusébio:

"...Legou-nos também uma Carta de muito poucas linhas e talvez outra e ainda uma terceira, pois nem
todos admitem que sejam autênticas, aliás, as duas juntas não abrangem cem linhas.”

(História Eclesiástica. –Eusébio de Cesaréia – Livro VI- Cap.25,10)

Bíblia do Peregrino NT, falando da Segunda e da Terceira Epístolas:

“Tem-se discutido a autenticidade destas duas breves cartas. Na Antiguidade duvidou-se por algum tempo
da sua canonicidade. Hoje em dia os críticos vacilam diante da questão. É indubitável que as três cartas
ou duas delas têm elementos comuns. A brevidade de ambas e a economia alusiva da mensagem deixam
amplo campo à especulação, e as desqualificam.”

( Biblia do Peregrino- NT –Introdução à Segunda e Terceira Epístola de João - Editora Paulus - 2005 )

Eusébio de Cesaréia:

“17.Dos escritos de João além do evangelho, a primeira das cartas não sofre contestação nem da parte de
nossos contemporâneos, nem dos antigos. As duas outras são contestadas.
18.Quanto ao Apocalipse, sua autenticidade é ainda discutível para muitos. De novo há de ser ponderada,
a seu tempo, segundo o testemunho dos antigos.”

(História Eclesiástica. –Eusébio de Cesaréia – Livro III- Cap.24,17-18)

Veremos na próxima aula, o Apocalipse de João, que a primeira geração de cristãos vivia sob a expectativa da volta
de Jesus para muito breve.

Quem está esperando a nova vinda de Jesus PARA AMANHÃ, não está preocupado em escrever livros e sim em
preparar a todos para a volta iminente do Senhor. Veja as cartas de Paulo às primeiras comunidades cristãs.
São exortações e conselhos para o bem viver e preparar-se para a vinda definitiva de Jesus.

Então, não devemos estranhar o fato dos Evangelhos terem sido escritos tanto tempo depois das cartas de Paulo.
Se Jesus tivesse voltado no tempo que os primeiros cristãos esperavam, os Evangelhos não teriam sido escritos
porque a parusia já teria acontecido.

Acontece que o tempo foi passando e Jesus não voltava. Os homens e as mulheres que andaram com Jesus estavam
envelhecendo, alguns já haviam morrido. A preocupação de que as palavras de Jesus se perdessem para sempre é
que gerou nos cristãos da época a iniciativa de por tudo no papel.
A cristologia daquelas comunidades foi mudando forçosamente, uma vez que a volta gloriosa de Jesus não acontecia.
Na próxima aula, O Apocalipse, veremos como isso aconteceu e por que.

QUANDO E ONDE ESCREVEU ?

Quanto à data e o local não há dúvidas entre os estudiosos :
A data é o final do século I e o local é a região de Éfeso.
As epístolas são posteriores ao Evangelho.

Acreditamos que a Terceira Epístola foi a primeira a ser escrita.
Para essa afirmação nos baseamos nos textos das Três Epístolas.
Enquanto as duas primeiras falam de uma comunidade já dividida, a terceira apresenta o início dos problemas
internos, que o Ancião acredita poder resolver.

R.E.Brown:

"O ponto realmente decisivo na questão da data é que, enquanto o evangelho reflete o relacionamento
da comunidade joanina com os de fora, as epístolas se ocupam com os de dentro........
Se as epístolas tivessem sido escritas antes do evangelho, teria sido uma comunidade joanina já dividida e
dizimada que estava lutando com os de fora quando o evangelho era escrito; e não temos nenhuma indicação
disto .....
Se este escrito (o evangelho) foi datado aproximadamente de 90 dC. , as epístolas podem ser datadas
aproximadamente de 100 dC..”

( A Comunidade do Discípulo Amado. - Raymond Edward Brown - Ed.Paulus -2013 - Pág.101)

A primeira e a segunda epístolas apresentam uma comunidade já dividida, com grupos separados apresentando
um entendimento diferente sobre Jesus Cristo, cristologias diferentes, o que não aparece no texto do Evangelho.

PARA QUEM FOI ESCRITO?

Como vimos na AULA 13, no princípio era uma comunidade de judeus-cristãos à qual se juntaram judeus da
Samaria, contrários ao templo e depois os gentios. A helenização da comunidade (gentios gregos) fez com que
a comunidade joanina se afastasse dos judeus que consideravam como “cegos”.
A rejeição por parte dos judeus-cristãos da alta cristologia da comunidade joanina levou ao rompimento.
Foi para esta comunidade dividida que as três epístolas foram escritas.

COMO FORAM DIVIDIDAS AS EPÍSTOLAS ?

A Segunda e a Terceira são realmente epístolas, com apenas uma página cada, mas a Primeira é (para usarmos
termos modernos) uma exortação pastoral ou “uma carta encíclica dirigida a todos os fiéis.” (Werner Georg Kummel)

Para entendermos melhor o conteúdo das Três Epístolas devemos destacar que os cristãos se reuniam nas casas
uns dos outros para celebrar a Palavra e a Eucaristia. Normalmente as pessoas mais abastadas cediam suas
casas (maiores) para estas reuniões.

Em cada uma dessas Casas-Igreja não se devia reunir muitas pessoas para não chamar a atenção, pois naquela
época a perseguição aos cristãos era a dura realidade do dia a dia. Em pequenas cidades poderia existir apenas
uma Casa-Igreja, mas em cidades maiores, como em Éfeso, provavelmente existiriam várias Casas-Igreja.

TERCEIRA EPÍSTOLA

É dirigida pelo Ancião ou Presbítero a Gaio, que deve ser um líder de uma Casa-Igreja de alguma localidade diferente
da cidade do Ancião. O Ancião elogia Gaio pela sua conduta ao ter recebido missionários estrangeiros, provavelmente
da igreja do Ancião.

O Ancião pede a Gaio que providencie o necessário para os missionários que enviou.
O Ancião alerta Gaio de que: “Diótrefes, que gosta de mandar, não os recebe..”

Diótrefes devia ser o líder de outra Casa-Igreja da mesma localidade de Gaio.
Ele provavelmente divergia das ideias da comunidade do Ancião e por isso não aceitou os missionários enviados
por ele. O Ancião então recorreu a Gaio.
O Ancião promete visitar Gaio e denunciar a atitude de Diótrefes. Cita ainda uma outra pessoa, Demétrio, elogiando-o.
Demétrio devia ser algum membro importante da comunidade ou até mesmo um dos missionários enviados
pelo Ancião.

Depois se despede.

SEGUNDA EPÍSTOLA

É dirigida pelo Ancião a outra Casa-Igreja, que ele chama de “Senhora escolhida”.
O Ancião manifesta seu amor pela comunidade:

“Foi para mim uma grande alegria encontrar entre seus filhos alguns que caminham segundo a verdade,
segundo o mandamento recebido do Pai.” (2Jo,4).

O Ancião lembra a comunidade de viver no amor. Alerta sobre os impostores que negam a ENCARNAÇÃO.
Chama-os de anticristos. Ordena que não recebam tais pessoas e se despede de forma semelhante à Terceira
Epístola.

Podemos ver claramente que o Ancião também quer impedir que missionários com ideias diferentes das dele,
sejam recebidos pela Igreja à qual se dirige.
Esta é uma fotografia clara da divisão das comunidades joaninas daquela época.

PRIMEIRA EPÍSTOLA

I – Introdução ou prólogo. (1Jo 1,1-4)

Este prólogo lembra um pouco o prólogo do Evangelho de João. Aqui o autor lembra que ele escreve sobre o que
ele e outros viram e ouviram: O verbo encarnado e a comunhão com o Pai e o Filho.

“O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com nossos olhos, o que contemplamos, e nossas
mãos apalparam.....” (1Jo 1,1).

II- O Caminho de Deus é Luz. (1Jo 1,5-2,29)

O autor explica que Deus é Luz e que devemos andar na LUZ, que devemos romper com o pecado, mas se alguém
pecar , temos Jesus como advogado junto do Pai.

“Ele é a vítima de expiação pelos nossos pecados. E não somente pelos nossos, mas também pelos
de todo o mundo.” (1Jo 2,2).

Sabemos que alguém conhece a Jesus pelo seu comportamento. Se observa os mandamentos, principalmente
a CARIDADE:

“Aquele que diz que está na luz, mas odeia seu irmão, ainda está nas trevas até agora. O que ama o seu
irmão permanece na luz e nele não há ocasião de queda.” (1Jo 2,9-10).

Quem diz que ama a Deus, que não vê, e não ama seu irmão é mentiroso. O autor ainda destaca que o verdadeiro
cristão deve preservar-se do mundo (afirmativa tipicamente joanina):

“Se alguém ama o mundo, não está nele o amor do Pai.” (1Jo 2,15).

e manter distância dos anticristos, que são os que não acreditam na encarnação do verbo de Deus.

Com certeza são os líderes de outras Casas-Igreja que tem um entendimento diferente da doutrina e não concordam
com a forma de pensar da comunidade do autor:

“Eles saíram de entre nós, mas não eram dos nossos. Se tivessem sido dos nossos, teriam permanecido
conosco.” (1Jo 2,19).

“Quem é o mentiroso senão o que nega que Jesus é o Cristo? Eis o Anticristo, o que nega o Pai e o Filho.”
(1Jo 2,22).

III- Somos Filhos de Deus. (1Jo 3,1-4,6)

Aqui, o autor nos lembra do grande amor do Pai que nos permite sermos chamados de filhos de Deus. E se somos
filhos de Deus, devemos viver como Jesus viveu.

“Vede que prova de amor nos deu o Pai, que sejamos chamados filhos de Deus.
E nós o somos de fato.” (1Jo 3,1).

Diante deste Amor, devemos, repete-se o autor, romper com o pecado, praticar os mandamentos e preservar-nos
do mundo e dos anticristos.

“Porque esta é mensagem que ouvistes desde o início: que nos amemos uns aos outros,...” (1Jo 3,11).

“Se alguém, possuindo os bens deste mundo, vê o seu irmão na necessidade e lhe fecha o coração, como
permanecerá nele o amor de Deus? Filhinhos, não amemos de palavras nem de língua, mas por ações
e em verdade.” (1Jo 3,17-18).

IV- Buscar a Caridade. (1Jo 4,7-21)

O autor mostra, numa teologia tipicamente joanina, o que devemos fazer para viver a verdadeira caridade:

“Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, pois o amor é de Deus e todo aquele que ama nasceu de Deus
e conhece a Deus. Aquele que não ama não conheceu a Deus porque Deus é amor.” (1Jo 4,7-8).

“Deus é amor: aquele que permanece no amor permanece em Deus e Deus permanece nele.” (1Jo,16).

“Se alguém disser: “Amo a Deus”, mas odeia o seu irmão, é um mentiroso: pois quem não ama seu irmão,
a quem vê, a Deus que não vê, não poderá amar.” (1Jo 4,20).

V- Buscar a Fé. (1Jo 5,1-13)

Qual é fonte de nossa fé? Onde vamos buscar o testemunho que dá valor à nossa fé?

“Esta é a vitória que venceu o mundo: a nossa fé.” (1Jo 5,4).

“Quem é o vencedor do mundo, senão aquele que crê que Jesus é o Filho de Deus?” (1Jo 5,5).

“Se recebemos o testemunho dos homens, o testemunho de Deus é maior. Pois este é o testemunho de Deus:
ele testemunhou sobre o seu filho.” (1Jo 5,9).

VI-Apêndice. (1Jo 5,14-21)

Assim, como no Evangelho de João, alguém acrescentou mais alguns versículos à carta original.

Este acréscimo fala sobre orar pelos pecadores e que aquele que nasceu de Deus não pode ser atingido pelo mal.

O conteúdo repete a fórmula joanina do “nós e eles” , de se separar do “mundo” , luz e trevas,etc.

“Nós sabemos que somos de Deus e que o mundo inteiro está sob o poder do Maligno.” (1Jo 5,19).

Que Deus nos deu a inteligência para conhecermos o Verdadeiro, Seu Filho, Jesus Cristo.

“Nós sabemos que veio o Filho de Deus e nos deu a inteligência para conhecermos o Verdadeiro. E nós estamos
no Verdadeiro, no seu Filho Jesus Cristo. Este é o Deus verdadeiro e a vida eterna.” (1Jo 5,20).

TEOLOGIA DA PRIMEIRA EPÍSTOLA DE JOÃO

A teologia desta carta de João se assemelha à teologia do Evangelho de João, com exceção à escatologia, como
explicado acima.

O autor lida com uma comunidade dividida pelas divergências internas, o que não aparece no texto do Evangelho

O texto da epístola é como uma resposta aos adversários gnósticos e docetistas. Os gnósticos-docetistas, além
de grupos judaizantes e adeptos dos cultos de mistério dos helenistas, não acreditavam na encarnação do
verbo, negando qualquer valor expiatório ao sacrifício de Jesus.

Os gnósticos acreditavam que Jesus não veio salvar a humanidade. Ele veio comunicar aos seus discípulos
conhecimento (gnose), o qual permitiria a cada um, usando este conhecimento, salvar a si mesmo.

Alfred Lappe:

"A gnose, a mais perigosa rival do cristianismo, procurava com a sua doutrina dualista negar a historicidade
e a humanidade de Jesus; por isso mesmo, o redator da primeira Epístola de João se apresenta como o
próprio apóstolo João, testemunha do Jesus histórico....” Ver: 1Jo 1,1-4

(Bíblia - Interpretação Atualizada e Catequese-Volume 3 - Alfred Lappe - Ed.Paulinas-1980 – Pág.245)

O autor então se lança contra a propaganda gnóstica, reafirmando as verdades cristãs:

“...todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio na carne é de Deus; e todo espírito que não confessa Jesus
não é de Deus; é este o espírito do Anticristo.” (1Jo 4,2-3).

“Todo aquele que nega o Filho, também não possui o Pai. O que confessa o Filho também possui o Pai.” (1Jo 2,23).

A comunhão com Deus e com a comunidade dos redimidos:

“...o que vimos e ouvimos vo-lo anunciamos para que estejais também em comunhão conosco.E a nossa
comunhão é com o Pai e com o seu Filho Jesus Cristo.” (1Jo 1,3).

A caridade:

“E este mandamento dele recebemos: aquele que ama a Deus, ame também o seu irmão.” (1 Jo 4,21).

O poder do sacrifício de Jesus:

“...Jesus Cristo, o justo. Ele é a vítima de expiação, pelos nossos pecados. E não somente pelos nossos, mas
também pelos de todo o mundo.” (1Jo 2,2).

Bibliografia:

- Biblia de Jerusalém – NT – Edições Paulinas - 1973

- Biblia de Jerusalém – Editora Paulus - 2014

- Biblia do Peregrino- NT - Editora Paulus - 2005

- Alfred Lappe – As Origens da Bíblia – Vozes 1973

- Alfred Lappe – Interpretação Atualizada e Catequese – Vol.03 – N.T. – Paulinas -1980

- J.Auneau – F.Bovon – M.Gougues E.Charpentier-J.Radermakers –Evangelhos Sinóticos e Atos dos Apóstolos- Ed. Paulinas – 1985

-Jesus de Nazaré - Do Batismo no Jordão à Transfiguração. - Joseph Ratzinger - Bento XVI - Ed.Planeta -2017-

- A Comunidade do Discípulo Amado. - Raymond Edward Brown - Ed.Paulus -2013

Voltar ao Menu