CURSO DE BÍBLIA PARA INICIANTES

AULA 11 - O EVANGELHO DE JOÃO.

QUEM ESCREVEU ?

O texto final do quarto evangelho é o resultado do trabalho de mais de uma pessoa. Um texto que os estudiosos
chamam de "escrito fundamental" deu início e depois foram feitas correções, inserções, etc. A Bíblia de Jerusalém diz
o seguinte sobre este desenvolvimento:

"Todos estes textos foram redigidos na mesma época e pela mesma mão? Hoje há muitas dúvidas a esse respeito.
Tal como o possuímos hoje, o evangelho oferece numerosas dificuldades.
É impossível conciliar textos como 13,36 e 16,5.
A sequência normal de 14,31 se lê em 18,1.....
É provável que tal anomalias provenham do modo como o evangelho foi composto e editado:
ele seria o resultado de lenta elaboração, compreendendo elementos de épocas diferentes, de retoques,
de adições;
de redações diversas, de um mesmo ensinamento, visto que o todo teria sido publicado, não pelo próprio João,
mas, depois de sua morte, por seus discípulos (21,14);
assim na trama primitiva do evangelho, estes teriam inserido fragmentos joaninos que não queriam deixar
perder e cujo lugar não era rigorosamente determinado."

( Biblia de Jerusalém – Editora Paulus - 2014 - Introdução ao Evangelho de João. Pág.1838)

A Bíblia de Jerusalém (1973):

"A tradição, quase unanimemente afirma ser João, o apóstolo, filho de Zebedeu. Desde a primeira metade do
século II muitos autores conhecem e utilizam o quarto evangelho: Sto.Inácio de Antioquia, Papias, S. Justino e
talvez mesmo S.Clemente de Roma. Tudo isso prova que este evangelho já gozava de autoridade apostólica.
O primeiro testemunho explícito é o de Sto. Irineu, pelo ano 180: "Depois João, o discípulo do Senhor, o mesmo
que repousou sobre seu peito, publicou também o evangelho durante sua estada em Éfeso."

( Biblia de Jerusalém – NT – Edições Paulinas - 1973 )

Observe que Sto. Irineu afirma que João, o apóstolo, filho de Zebedeu, é o autor do evangelho e também é o
Discípulo Amado.

A Bíblia do Peregrino:

"Uma tradição antiga identificou o autor com o apóstolo João. Hoje é muito difícil manter essa opinião. A maioria
dos comentaristas considera esse evangelho como obra de um discípulo de João, uma geração mais tarde.
Por sua familiaridade com o AT e o sabor semítico do seu estilo, deve ter sido judeu."

( Biblia do Peregrino- NT - Editora Paulus - 2005 )

C.H.Dodd:

"Não é impossível imaginar-se que algum pescador da Galiléia se tenha transformado no perfeito teólogo
que encontramos no quarto evangelho. Acho isto, entretanto,difícil.”

( As Origens da Bíblia - Alfred Lappe - Ed.Vozes -1973 – Citado Pág.139)

Alfred Lappe:

"A redação final dos escritos joânicos (Evangelho, as três cartas e o Apocalipse) parece, entretanto, ter sido obra
de uma escola ou corrente teológica e helenista, que, de um lado, em razão da grande distância cronológica,
introduziu nos conceitos primitivosmuita coisa imprecisa, porém de outro, imprimiu à sua obra matizes teológicos
bastante precisos......
A pessoa do Apóstolo João acha-se, sem dúvida alguma, por detrás destes cinco escritos que vêm sempre
associados ao seu nome pela Tradição. É, entretanto, extremamente difícil decidir, no texto atual, onde está
a contribuição primitiva e genuinamente joânica e onde assinalar as complementações e acréscimos posteriores.”

( As Origens da Bíblia - Alfred Lappe - Ed.Vozes -1973 – Pág.139-140)

R.E.Brown:

"Pressuponho que o evangelista era um cristão desconhecido que vivia no final do século primeiro numa
comunidade para a qual o Discípulo Amado, já falecido então, continuava a ser uma grande autoridade.”

( A Comunidade do Discípulo Amado. - Raymond Edward Brown - Ed.Paulus -2013 - Pág.196)

A Bíblia de Jerusalém(2014):

"Qual é o autor do quarto evangelho? Ou, antes, quais são os autores, uma vez que esse evangelho provavelmente
se formou em etapas sucessivas? É difícil responder.
O nome daquele que fez a última redação nos é desconhecido.
É possível, todavia, determinar sua personalidade: era judeu-cristão que se esforçou para rejudaizar o evangelho
por meio de retoques que se referem sobretudo à escatologia....
Pode-se manter um laço estreito entre o quarto evangelho e o apóstolo João?
De fato, o evangelho se apresenta sob a garantia de um discípulo "que Jesus Amava", testemunha ocular dos
fatos que relata (21,20-24;cf.13,23), porém tal identificação com João, o apóstolo apresenta dificuldades:
Seria verossímil que, ao escrever seu evangelho, João apóstolo omitisse o relato de certas cenas às quais
havia assistido, cenas tão importantes como a ressurreição da filha de Jairo (Mc 5,37), a transfiguração (Mc 9,2),
a instituição da Eucaristia (Mc 14,17s), a agonia de Jesus no Getsêmani (Mc 14,33) ?....

Tudo isso indica que João, o apóstolo, filho de Zebedeu, não é o autor do evangelho.

QUANDO E ONDE ESCREVEU ?

A Bíblia do Peregrino:

"Várias notícias do relato parecem referir-se à expulsão dos cristãos da sinagoga (ver 9,22; 12,42 e 16,2).
Propõe-se como data provável de composição a última década do século I, e Éfeso como lugar razoável."

( Biblia do Peregrino- NT - Editora Paulus - 2005 )

A Bíblia de Jerusalém:

"Em que data foi composto o quarto evangelho? Seu testemunho mais antigo é um fragmento de papiro
(Rylands 457) escrito por volta de 125, que apresenta Jo 18,31-34.37-38 sob a forma que hoje conhecemos.
O papiro Egerton 2, que lhe é muito pouco posterior, cita diversas passagens. Estes dois documentos foram
encontrados no Egito. Devemos concluir a partir disso que o quarto evangelho teria sido publicado em Éfeso
ou em Antioquia, no mais tardar pelos últimos anos do século I ....Não antes do ano 80.""

( Biblia de Jerusalém – Editora Paulus - 2014 - Introdução ao Evangelho de João. Pág.1839-1840)

A maioria dos especialistas concorda que do ano 90 até o final do primeiro século. Porém há comentaristas
que acreditam que o texto inicial pode ter sido criado na década de 70. Sofreu alterações e acréscimos desde então
e a redação final aconteceu na última década do primeiro século.

PARA QUEM FOI ESCRITO ?

O texto final deste evangelho mostra uma comunidade de não judeus. Podemos deduzir isto pelo fato de expressões
hebraicas serem traduzidas para melhor entendimento, como em 1,38 ; 1,41 ; 1,42 ; 9,7 ; 20,16:

"Voltando-se Jesus e vendo que o seguiam, perguntou-lhes: Que procurais? Disseram-lhe: Rabi (que quer
dizer Mestre), onde moras?..." (Jo 1,38).

"Foi ele então logo à procura de seu irmão e disse-lhe: Achamos o Messias (que quer dizer o Cristo)." (Jo 1,41).

"Levou-o a Jesus, e Jesus, fixando nele o olhar, disse: Tu és Simão, filho de João; serás chamado Cefas (que quer
dizer pedra)." (Jo 1,42).

"....Vai lavar-te na piscina de Siloé -- que quer dizer "enviado"...." (Jo 9,7).

"Disse-lhe Jesus: Maria! Voltando-se ela, exclamou em hebraico: Rabôni! (que quer dizer Mestre)." (Jo 20,16).

No entanto, R.E.Brown, na sua obra "A Comunidade do Discípulo Amado" não está sozinho ao afirmar que:

"No período primitivo a comunidade joanina constava de judeus, cuja fé em Jesus envolvia uma cristologia
relativamente baixa. Mais tarde, surgiu uma cristologia mais alta que levou a comunidade joanina a declarado
conflito com os judeus, que a consideravam como uma blasfêmia, e este litígio impeliu o grupo joanino a
afirmações cada vez mais arrojadas. Estas duas fases da evolução joanina fazem parte de minha reconstituição
da história pré-evangélica, juntamente com uma terceira fase que envolve a entrada de numerosos gentios."

( A Comunidade do Discípulo Amado. - Raymond Edward Brown - Ed.Paulus -2013 - Pág.25-26)

COMO FOI DIVIDIDO ESTE EVANGELHO ?

Prólogo - (Jo 1,1-18)

O evangelho de João já começa apresentando a encarnação do verbo. Diferentemente dos sinóticos, onde o
ministério de Jesus antecede qualquer referência à Sua divindade, João inicia seu evangelho antes do início dos
tempos :

"No início era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus....Tudo foi feito por meio dele e sem ele
nada foi feito de tudo o que existe. Nele estava a vida e a vida era a luz dos homens e a luz brilha nas trevas,
mas as trevas não a apreenderam." (Jo 1,1-5).

Depois de uma rápida referência à João Batista, João continua:

"Veio para o que era seu e os seus não o receberam. Mas a todos que o receberam deu o poder de se tornarem
filhos de Deus....E o Verbo se fez carne e habitou entre nós..." (Jo 1,11-14).

João não perde tempo, apresenta Jesus como o novo Moisés e a evolução da Lei para a Graça:

"Porque a Lei foi dada por meio de Moisés; a graça e a verdade nos vieram por Jesus Cristo." (Jo 1,17).

I – Início do Ministério de Jesus. (Jo 1,19 – 4,54)

O evangelho se inicia dizendo que os judeus enviaram sacerdotes e levitas para perguntarem a João Batista se ele
era o Messias, Elias ou o profeta.

Os judeus baseados em Dt 18,15 esperavam pelo Messias como um novo Moisés, O profeta por excelência:

"O Senhor, teu Deus, te suscitará dentre os teus irmãos um profeta como eu: é a ele que devereis ouvir." (Dt 18,15).

João deixa claro que não é nenhum deles. Eles dizem que precisam levar uma resposta aos que os enviaram:

"Quem és para darmos uma resposta aos que nos enviaram? Que dizes de ti mesmo? Disse ele: "Sou a voz
que clama no deserto: Aplanai o caminho do Senhor, como disse o profeta Isaías.." Perguntaram-lhe ainda:
"E por que, então, batizas, se não és o Cristo nem Elias nem o profeta?" João lhes respondeu:"Eu batizo com água.
No meio de vós, está alguém que não conheceis, aquele que vem depois de mim, do qual não sou digno de desatar
a correia da sandália."" (Jo 1,22-27).

Em seguida, o evangelista narra, que no dia seguinte Jesus se aproximou de João Batista, enquanto ele batizava e
João exclamou:

"Eis o cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo....Eu não o conhecia, mas, para que ele fosse manifestado
a Israel, vim batizar com água.....E eu vi e atesto que ele é o Filho de Deus." (Jo 1,29-34).

O batismo de Jesus não é narrado.
Lembre-se que, em Mateus, João Batista diz que ele é que deveria ser batizado por Jesus.
Em Marcos, João Batista batiza Jesus sem qualquer questionamento.
Em Lucas, o batismo de Jesus é narrado, mas após a prisão de João Batista.
Segundo R. E. Brown, o evangelho de João é de um período no qual havia uma certa rivalidade entre os discípulos
de João Batista e os discípulos de Jesus.

Natural então que o evangelho não mostre Jesus sendo batizado por João Batista.

Brown considera que na época do evangelho os obstáculos da comunidade joanina eram:

O mundo (os inimigos dos cristãos em geral), os judeus, os adeptos de João Batista, os judeus cristãos que
continuavam nas sinagogas e os cristãos de fé inadequada, os primeiros hereges.

"O evangelista retrata os primeiros seguidores de Jesus como discípulos de João Batista, e o próprio movimento
joanino pode ter tido suas raízes entre estes discípulos, (especialmente o Discípulo Amado). É surpreendente
encontrar no quarto evangelho tão grande número de afirmações negativas referentes a João Batista.
Ele não é a luz....não é o Messias, nem Elias, nem o Profeta...deve diminuir...não operou nenhum milagre...
Tudo isso pode ser entendido quando ouvimos em 3,22-26 que alguns discípulos de João Batista não seguiram
Jesus e invejosamente se opunham ao número de pessoas que o estavam seguindo....
A cena em 3,22-26 atribui aos discípulos de João Batista não-crentes certa inveja de Jesus e uma consideração
ciumenta das prerrogativas de seu mestre, mas não os retrata como odiando a Jesus do modo como "os judeus"
e "o mundo" o odeiam. Talvez suas próprias origens no movimento de João Batista tornavam os cristãos joaninos
menos severos com seus antigos irmãos que não preferiram as trevas à luz, mas simplesmente confundiram
uma lâmpada com a luz do mundo."

( A Comunidade do Discípulo Amado. - Raymond Edward Brown - Ed.Paulus -2013 – Pág.72-74)

Em seguida Jesus escolhe os primeiros discípulos, André , Pedro, Filipe e Natanael. Seguem-se as bodas de Caná,
o primeiro milagre de Jesus e a primeira participação de sua mãe, Maria.

O evangelho narra, em seguida, a primeira Páscoa em Jerusalém, onde ocorre o episódio da purificação do templo,
com Jesus expulsando os vendedores e cambistas. Os judeus exigem que Jesus mostre um sinal que justifique
sua autoridade para fazer aquilo. Jesus diz :

"Destruí este templo, e em três dias eu o levantarei." (Jo 2,19).

Jesus permanece em Jerusalém, encontra com Nicodemos, um membro do Sinédrio. Jesus faz o primeiro longo
discurso sobre nascer de novo:

"Em verdade, em verdade te digo: quem não nasce do alto não pode ver o Reino de Deus....quem não nasce da
água e do Espírito, não pode entrar no Reino de Deus....O vento sopra onde quer e ouves o seu ruído mas não
sabes de onde vem nem para onde vai. Assim acontece com todo aquele que nasceu do Espírito.Ninguém subiu
ao céu, a não ser aquele que desceu do céu, o Filho do Homem....Deus amou tanto o mundo que entregou
o seu Filho único....não enviou o seu Filho para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele...
a luz veio ao mundo mas os homens preferiram as trevas à luz...." (Jo 3,3-21).

Perceba a diferença deste evangelho para os sinóticos: desde o princípio Jesus fala de sua proximidade com o Pai.
Nos sinóticos Jesus fala por parábolas. Aqui Jesus fala com clareza quem Ele é e qual é sua missão.
Enquanto nos sinóticos, pouco a pouco os discípulos vão tomando consciência de quem é Jesus, aqui não há espaço
para dúvidas.

Jesus vai para a Judéia e batiza assim como João Batista. Acontece o episódio da inveja dos seguidores do Batista
que percebem que é maior o número de pessoas batizadas por Jesus. De volta para a Galiléia, Jesus passa pela
Samaria e conversa com uma samaritana no poço de Jacó. Jesus pede de beber à samaritana que estranha que Ele
lhe dirija a palavra, pois os judeus e os samaritanos eram inimigos:

"Se conhecesses o dom de Deus e quem é que te diz: Dá-me de beber, tu é que lhe pedirias e ele te daria água
viva!...Aquele que bebe desta água terá sede novamente; mas quem beber da água que eu lhe darei, nunca mais
terá sede...vem a hora em que nem neste monte nem em Jerusalém adorareis o Pai...Mas vem a hora - e é agora-
em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade...A mulher disse:"Sei que o Messias está
para vir. Quando ele vier, nos anunciará tudo." Disse-lhe Jesus:"Sou eu, que falo contigo."" (Jo 4,10-26).

Muitos samaritanos acreditaram. Jesus chega à Galiléia onde cura o filho de um funcionário real.Segundo sinal de
Jesus.

Resumo: João Batista, os primeiros discípulos, as bodas de Caná, a primeira páscoa e a purificação do templo,
encontro com Nicodemos e o primeiro discurso, a inveja dos discípulos de João, Jesus e a samaritana, Jesus na
Galiléia cura o filho de um funcionário de Herodes.

II - Segunda Festa em Jerusalém. (Jo 5,1- 6,71)

Jesus cura um doente na piscina de Betesda no sábado. Os judeus discutem com Jesus e tramam matá-lo. Jesus
faz o segundo discurso:

"Em verdade, em verdade, vos digo: o Filho, por si mesmo, nada pode fazer mas só aquilo que vê o Pai fazer;
...Porque o Pai ama o Filho e lhe revela tudo o que faz....Porque o Pai a ninguém julga mas confiou ao Filho
todo julgamento....quem escuta a minha palavra e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna....meu
julgamento é justo, porque não procuro a minha vontade, mas a vontade de quem me enviou....João foi o facho
que arde e ilumina e vós vos quisestes alegrar, por um momento, com sua luz. Eu, porém, tenho um testemunho
maior que o de João....Vim em nome de meu Pai mas não me acolheis; Não penseis que vos acusarei diante do
Pai; Moisés é quem vos acusará, ele, em quem pusestes a vossa esperança...Mas se não acreditais em seus
escritos,como acreditareis em minhas palavras?" (Jo 5,19-47).

Jesus faz a multiplicação dos pães, caminha sobre o mar, discursa na sinagoga de Cafarnaum, o chamado discurso
eucarístico:

"....Trabalhai, não pelo alimento que se perde, mas pelo alimento que perdura até a vida eterna....Eu sou o pão
da vida. Quem vem a mim, nunca mais terá fome e o que crê em mim nunca mais terá sede....quem vê o Filho e
nele crê tem a vida eterna e eu o ressuscitarei no último dia.....Não murmureis entre vós.Ninguém pode vir a mim
se o Pai, que me enviou, não o atrair.....Eu sou o pão da vida.....Este pão é o que desce do céu....Eu sou o pão
vivo descido do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. O pão que eu darei é a minha carne para a vida
do mundo.....se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em
vós.....a minha carne é verdadeira comida e o meu sangue, verdadeira bebida....quem come este pão viverá
para sempre." (Jo 6,26-66).

O evangelho diz que após este discurso, muitos discípulos não andavam mais com Ele. Jesus questiona também
os Doze:

"Não quereis também partir? Simão Pedro respondeu-lhe:"Senhor,a quem iremos? Só tu tens palavras de vida
eterna e nós cremos e reconhecemos que és o Santo de Deus." (Jo 6,67-69).

Jesus sobe outra vez a Jerusalém para a Festa das Tendas ou do Tabernáculo. O evangelho diz que nem seus irmãos
acreditavam Nele e O orientaram a partir da Galiléia para a Judéia para se tornar conhecido. Jesus sobe para
Jerusalém, mas às escondidas. Quando a festa estava no meio Jesus subiu ao Templo e começou a ensinar:

"Minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou.....Vós me conheceis e sabeis de onde eu sou; no
entanto,não vim por minha própria vontade, mas é verdadeiro aquele que me enviou e que não conheceis.
Eu, porém, o conheço porque dele procedo e ele foi quem me enviou." (Jo 7,16-29).

Jesus anuncia a sua próxima partida, promete a água viva, os judeus discutem entre si, uns acreditando e outros
tramando sua morte. Nicodemos defende Jesus.

Em seguida o evangelho narra o caso da mulher adúltera:

"Mestre, esta mulher foi surpreendida em flagrante delito de adultério. Na Lei, Moisés nos ordena lapidar
tais mulheres. Tu, porém, que dizes?"....."Quem dentre vós que não tem pecado, seja o primeiro a lhe atirar
uma pedra!"....Eles ,ouvindo isso, saíram , um após o outro....Ele ficou sozinho e a mulher permanecia lá,
no meio....."Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?" Disse ela: "Ninguém, Senhor" Disse, então,
Jesus: "Nem eu te condeno. Vai, e de agora em diante não pequeis mais." (Jo 8,1-11).

Este episódio, como já vimos na AULA 04, Item 149 , provavelmente é de Lucas e não do evangelho segundo João.
Vá até a aula 04 e veja a observação a respeito do tema, feita pelo Pe. José Luiz do Prado.

Discussão sobre o testemunho que Jesus dá de si mesmo:

"Eu dou testemunho de mim mesmo; meu testemunho é válido porque sei de onde venho e para onde vou.
Vós, porém, não sabeis.....mas comigo está o Pai que me enviou.....Não conheceis nem a mim nem ao Pai;
se me conhecêsseis, conheceríeis também o Pai.....Vós sois daqui de baixo e eu sou do alto. Vós sois deste
mundo, eu não sou deste mundo.....porque se não crerdes que EU SOU, morrereis em vossos pecados...
Quando tiverdes elevado o Filho do Homem, então sabereis que EU SOU ....." (Jo 8,14-28).

Jesus continua ensinando aos que tinham acreditado:

"Se permanecerdes na minha palavra, sereis, em verdade, meus discípulos e conhecereis a verdade e a verdade
vos libertará.....Se sois filhos de Abraão, praticais as obras de Abraão.....Se Deus fosse vosso pai, amar-me-íeis,
porque saí de Deus e dele venho.....Vós sois do diabo, vosso pai, ....Em verdade, em verdade, vos digo: se alguém
guardar a minha palavra jamais verá a morte...Abraão, vosso pai, exultou por ver o meu Dia....antes que Abraão
nascesse, EU SOU....Então apanharam pedras para atirar Nele.Jesus, porém, ocultou-se e saiu do Templo."
(Jo 8,31-59).

Os judeus apanharam pedras para lapidar Jesus porque ao dizer "antes que Abraão nascesse EU SOU..." Jesus estava
falando como Deus falou a Moisés no episódio da sarça ardente (Ex 3,14). Ou seja Jesus se declara Deus.

Jesus cura um cego de nascença na piscina de Siloé, fala de si mesmo como o Bom Pastor:

"Em verdade, em verdade vos digo: eu sou a porta das ovelhas....Eu vim para que tenham a vida e a tenham
em abundância. Eu sou o bom pastor: o bom pastor dá sua vida por suas ovelhas....Eu sou o bom pastor; conheço
as minhas ovelhas e elas me conhecem...Mas tenho outras ovelhas que não são deste aprisco...Por isto o Pai me
ama, porque dou a minha vida para retomá-la...este é o preceito que recebi do Pai." (Jo 10,7-18).

Resumo: Cura na piscina de Betesda, a multiplicação dos pães, Jesus caminha sobre o mar, o discurso eucarístico,
a festa das tendas, Jesus anuncia sua partida, Nicodemos, a mulher adúltera, o cego da piscina de Siloé, o bom pastor.

III - Festa da Dedicação. (Jo 10,22-11,54)

Durante a festa da Dedicação, novamente em Jerusalém, os judeus insistem com Jesus para que Ele seja claro e
afirme se é ou não o Messias (em grego Cristo). Como é tipico do quarto evangelho, Jesus responde através de
outro discurso:

"Já vo-lo disse mas não acreditais.....mas vós não credes porque não sois de minhas ovelhas...Meu Pai, que me
deu tudo é maior que todos e ninguém pode arrebatá-las da mão do Pai. Eu e o Pai somos um....mesmo que não
acrediteis em mim, crede nas obras, a fim de conhecerdes sempre mais que o Pai está em mim e eu no Pai.
Procuravam novamente prendê-lo." (Jo 10,25-39).

O evangelho conta em seguida a ressurreição de Lázaro em Betânia. Jesus recebe a noticia de que seu amigo
Lázaro,irmão de Marta e Maria, estava doente mas permanece ainda dois dias onde estava e só depois segue
viagem para Betânia. Os discípulos o seguem com medo pois temiam que os judeus o matassem.

"Ao chegar, Jesus encontrou Lázaro já sepultado havia quatro dias. ....Marta disse a Jesus:"Senhor, se estivesses
aqui, meu irmão não teria morrido."... Jesus disse:"Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que
morra, viverá.".... E disse: "Onde o colocastes?" ....Jesus chorou. Diziam então os judeus: "Vede como ele o amava."
Jesus disse: "Retirai a pedra!" Marta disse-lhe "Senhor, já cheira mal: é o quarto dia!" Disse-lhe Jesus:"Não te
disse que, se creres, verás a glória de Deus?" Ergueu os olhos para o alto e disse: "Pai, dou-te graças porque
me ouviste. Eu sabia que sempre me ouves; mas digo isto por causa da multidão que me cerca, para que creiam
que me enviaste." E gritou em alta voz: "Lázaro, vem para fora!" O morto saiu, com os pés e as mãos enfaixados
e o rosto recoberto com o sudário." (Jo 11,17-44).

O evangelho diz ainda que alguns acreditaram, mas outros correram a alertar os fariseus, que por sua vez
juntamente com os sacerdotes reuniram o Conselho para falar do perigo que Jesus representava (por causa da
agitação do povo) e que temiam os romanos. E o Sumo Sacerdote daquele ano, Caifás diz:

"Vós de nada entendeis. Não compreendeis que é de vosso interesse que um só homem morra pelo povo e não
pereça a nação toda?" (Jo 11,49-50).

E resolveram matá-lo. Jesus retirou-se para o deserto com seus discípulos.

Resumo: A festa da Dedicação, a descrença dos judeus, a ressurreição de Lázaro, A reunião do Conselho e a decisão
de matar Jesus.

IV – Fim do Ministério Público. (Jo 11,55 - 12,50)

Aproximava-se a Páscoa dos judeus e Jesus também sobe para Jerusalém com seus discípulos. O evangelho narra
a unção em Betânia e a entrada messiânica em Jerusalém.

Para estes dois episódios, sugerimos ao leitor voltar à Aula 09, onde ambos foram muito bem detalhados e
enriquecidos de detalhes interessantes. Aqui, destacamos que o evangelho segundo João é o único que
identifica a mulher que unge os pés de Jesus.

"Então Maria, tendo tomado uma libra de um perfume de puro nardo, muito caro, ungiu os pés de Jesus..."
(Jo 12,3).

Nardo é uma planta natural do Nepal, usada para fazer perfume e que também tem propriedades medicinais.

Jesus anuncia sua glorificação :

"É chegada a hora em que será glorificado o Filho do Homem. Em verdade, em verdade vos digo: Se o grão de
trigo que cai na terra não morrer permanecerá só; mas se morrer produzirá muito fruto. Quem ama sua vida
a perde e quem odeia a sua vida neste mundo guarda-la-á para a vida eterna....é agora o julgamento deste
mundo, agora o príncipe deste mundo será lançado fora e, quando eu for elevado da terra, atrairei todos
a mim.....crede na luz, para vos tornardes filhos da luz....Quem crê em mim não é em mim que crê, mas em
quem me enviou....não vim para julgar o mundo, mas para salvar o mundo....O que digo,portanto, eu o digo
como o Pai me disse." (Jo 12,23-50).

Resumo: Subida para Jerusalém, unção em Betânia, entrada messiânica em Jerusalém, Jesus anuncia sua glorificação.

V – A Terceira e Última Páscoa. (Jo 13,1 – 17,26)

A última ceia se inicia com a cerimônia do Lava-pés. Pedro não aceita ter os pés lavados por Jesus, mas muda de
idéia quando Jesus diz:

"Se eu não te lavar, não terás parte comigo.” (Jo 13,8).

Ao terminar de lavar os pés dos discípulos, Jesus diz:

"Compreendeis o que vos fiz? Vós me chamais de Mestre e de Senhor e dizeis bem, pois eu o sou. Se, portanto,
eu, o Mestre e o Senhor vos lavei os pés, também deveis lavar-vos os pés uns dos outros.Dei-vos o exemplo
para que, como eu vos fiz, também vós o façais.” (Jo 13,12-15).

Jesus anuncia que será traído e assim que Judas sai da sala, faz o discurso da despedida:

"Agora o Filho do Homem foi glorificado e Deus foi glorificado nele....Filhinhos, por pouco tempo ainda
estou convosco. Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros.Como eu vos amei, amai-vos
também uns aos outros....Não se perturbe o vosso coração! Credes em Deus, crede também em mim....
Eu sou a caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vem ao Pai a não ser por mim....Crede-me: eu estou no Pai e o
Pai em mim....quem crê em mim fará as obras que faço e fará até maiores que elas....rogarei ao Pai e ele vos
dará outro Paráclito para que convosco permaneça para sempre, o Espírito da Verdade.....Não vos deixarei órfãos.
Eu virei a vós......Quem tem meus mandamentos e os observa é que me ama; e quem me ama, será amado por
meu Pai. Eu o amarei e a ele me manifestarei.....Se alguém me ama, guardará minha palavra e meu Pai o amará
e a ele viremos e nele estabeleceremos morada.....Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como
o mundo a dá. Não se perturbe nem se intimide o vosso coração....Já não vos falarei muito, pois o príncipe
do mundo vem; contra mim, ele nada pode, mas o mundo saberá que amo o Pai e faço como o Pai me ordenou.”
(Jo 13,31-14,31).

Em seguida, o discurso da verdadeira videira:

"Eu sou a verdadeira videira e meu Pai é o agricultor. Todo ramo em mim que não produz fruto ele o corta,
e todo o que produz fruto ele o poda, para que produza mais fruto ainda....Eu sou a videira e vós os ramos.
Aquele que permanece em mim e eu nele produz muito fruto; porque, sem mim, nada podeis fazer.....Assim
como o Pai me amou também eu vos amei. Permanecei no meu amor....Eu vos digo isto para que a minha
alegria esteja em vós e vossa alegria seja plena....amai-vos uns aos outros como eu vos amei. Ninguém tem
maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos....Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu
que vos escolhi e vos designei para irdes e produzirdes fruto e para que o vosso fruto permaneça.....Isto vos
ordeno: amai-vos uns aos outros. Se o mundo vos odeia, sabei que , primeiro, me odiou a mim. Se fosseis
do mundo, o mundo amaria o que era seu; mas porque não sois do mundo e minha escolha vos separou do
mundo, o mundo, por isso, vos odeia......Quem me odeia, odeia também meu Pai.....Expulsar-vos-ão das
sinagogas. E mais ainda: virá a hora em que aquele que vos matar julgará realizar um ato de culto a Deus.....
vou para aquele que me enviou...a tristeza encheu os vossos corações.No entanto, eu vos digo a verdade: é
de vosso interesse que eu parta, pois, seu não for, o Paráclito não virá a vós.....Quando vier o Espírito da
Verdade, ele vos conduzirá à verdade plena.....Tudo que o Pai tem é meu. Por isso vo-lo disse: ele receberá do
que é meu e vos anunciará.....Em verdade, em verdade vos digo: chorareis e lamentareis, mas o mundo se
alegrará. Vós vos entristecereis, mas a vossa tristeza se transformará em alegria.....agora, estais tristes; mas eu
vos verei de novo e vosso coração se alegrará e ninguém vos tirará a vossa alegria.....Saí do Pai e vim ao mundo;
de novo deixo o mundo e vou para o Pai....No mundo tereis tribulações, mas tende coragem: eu venci o mundo!”
(Jo 15,1 – 16,33).

Ao sentir que se aproxima o momento da Paixão, Jesus ora ao Pai:

“Pai, chegou a hora: glorifica teu filho.....Manifestei o teu nome aos homens que do mundo me deste.....não rogo
pelo mundo, mas pelos que me deste, porque são teus.....Eu lhes dei a tua palavra, mas o mundo os odiou,
porque não são do mundo......Não rogo somente por eles, mas pelos que, por meio da sua palavra, crerão
em mim.....Eu lhes dei a conhecer o teu nome e lhes darei a conhecer ainda mais, a fim de que o amor com
que me amaste esteja neles e eu neles.” (Jo 17,1 - 26).

Resumo: A última ceia, o lava-pés , anúncio da traição, a despedida , a verdadeira videira, a oração antes da prisão.

VI – A Paixão (Jo 18,1 – 19,42)

Judas, o destacamento romano e os guardas do templo se aproximam e prendem Jesus. Ele é levado diante de
Anás e Caifás. Pedro nega a Jesus.

Um outro discípulo é quem introduz Pedro ao pátio do Sumo Sacerdote e o evangelho diz que ele era conhecido
do Sumo Sacerdote. Seria o discípulo amado ? Veremos mais ao estudarmos a teologia deste evangelho.

Jesus é agredido diante do sumo sacerdote por um dos seus guardas. Jesus é levado a Pilatos. Pilatos não encontra
culpa alguma mas os judeus insistem na condenação à morte. Pilatos manda que escolham entre soltar Jesus
ou Barrabás. Eles escolhem Barrabás. Depois de castigar Jesus e colocar nele uma coroa de espinhos, os guardas
O levam de volta a Pilatos, que mais uma vez diz não encontrar culpa alguma nele.

“Eis que eu vo-lo trago aqui fora, para saberdes que não encontro nele motivo algum de condenação.....
Eis o homem!....os sumos sacerdotes e os guardas vociferaram: “Crucifica-o! Crucifica-o!”.....
Pilatos disse: “Tomai-o vós e crucificai-o, porque eu não encontro culpa nele”....os judeus responderam: “Nós
temos uma Lei e, conforme a Lei, ele deve morrer, porque se fez Filho de Deus.” Quando ouviu isto, Pilatos
ficou aterrado e voltando ao pretório perguntou a Jesus: “De onde és tu?” Mas Jesus não lhe deu resposta.
Pilatos disse: “Não me respondes? Não sabes que eu tenho poder para te libertar e poder para te crucificar?”
Jesus respondeu: “Não terias poder algum sobre mim, se não te houvesse sido dado do alto; por isso, quem a ti
me entregou tem maior pecado.” Pilatos procurava libertá-lo....os judeus vociferavam: “Se o soltas, não és amigo
de César. Todo aquele que se faz rei, opõe-se a César!” Pilatos mostra Jesus aos judeus e diz: “Eis o vosso rei!”
Eles gritavam: “À morte! À morte! Crucifica-o!” Disse-lhes Pilatos: “Crucificarei o vosso rei?” Os sumos sacerdotes
responderam: “Não temos outro rei a não ser César!” Então Pilatos o entregou para ser crucificado.
(Jo 18,28 – 19,16 ).

Jesus carrega a cruz até o local da crucificação, suas vestes são sorteadas.

O evangelho de João é o único que mostra Maria, mãe de Jesus, perto da cruz. O Discípulo Amado está com ela:

“Perto da cruz de Jesus, permaneciam de pé sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Clopas
e Maria Madalena. Jesus, então, vendo a sua mãe e, perto dela, o discípulo a quem amava, disse à sua mãe:
“Mulher, eis o teu filho!” Depois disse ao discípulo: “Eis a tua mãe!” E a partir dessa hora, o discípulo a recebeu
em sua casa.....Depois, sabendo Jesus que tudo estava consumado, disse, para que se cumprisse a Escritura
até o fim: “Tenho sede!” Estava ali um vaso cheio de vinagre. Fixando, então, uma esponja embebida em vinagre
numa vara, levaram-na à sua boca. Quando Jesus tomou o vinagre, disse: “Está consumado!” E, inclinando a
cabeça, entregou o espírito.” (Jo 19,25-30).

Em seguida, Jesus é golpeado pela lança e do seu lado saem sangue e água.

Aqui se manifesta a testemunha ocular do evangelho:

“...um dos soldados traspassou-lhe o lado com a lança e imediatamente saiu sangue e água. Aquele que viu
dá testemunho e seu testemunho é verdadeiro; e ele sabe que diz a verdade, para que vós creiais, pois isto
sucedeu para que se cumprisse a Escritura...” (Jo 19,34-36).

José de Arimatéia pede o corpo de Jesus a Pilatos e depois de envolvê-lo em lençóis de linho com aromas e perfume,
como era costume, o colocaram num sepulcro novo, onde ninguém fora ainda colocado.

Resumo: Jesus é preso, levado a Anás e Caifás. Depois a Pilatos, é castigado, recebe a coroa de espinhos, Pilatos
tenta salvá-lo. Jesus é condenado, carrega a cruz, conversa com sua mãe e o discípulo amado, morre na cruz e
é sepultado.

VII – A Ressurreição (Jo 20,1-31)

Maria Madalena vai no domingo de madrugada , ainda escuro, até o sepulcro e vê que a pedra que fechava a
entrada fora retirada. Ela corre e vai até Pedro e o Discípulo Amado e diz:

“Retiraram o Senhor do sepulcro e não sabemos onde o colocaram." (Jo 20,2).

O evangelho conta que Pedro e o Discípulo Amado correm até o sepulcro, mas, o Discípulo Amado é mais rápido
e chega antes. Ele olha, vê os panos de linho no chão, mas não entra.Chega então Pedro, entra, vê os panos no chão,
o sudário que cobria a cabeça de Jesus, dobrado à parte.

“Então, entrou também o outro discípulo que chegara primeiro ao sepulcro; e viu e creu. Pois ainda não tinham
compreendido que, conforme a Escritura, ele devia ressuscitar dos mortos. Os discípulos, então voltaram
para casa." (Jo 20,8-10).

Observe que o Discípulo Amado é apresentado como aquele que creu antes de todos os outros discípulos,
inclusive antes de Pedro.

Mais tarde, ainda no domingo, Jesus aparece a Maria Madalena e posteriormente, de tarde, aos discípulos que
estavam em um local fechado. Jesus veio e, pondo-se no meio deles, disse:

“Paz a vós!....Como o Pai me enviou também eu vos envio." Dizendo isto, soprou sobre eles e lhes disse:
"Recebei o Espírito Santo. Aqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhe-ão perdoados; aqueles aos quais
não perdoardes ser-lhes-ão retidos." (Jo 20,19-23).

O evangelho conta ainda que Tomé, uns dos Doze, não estava lá quando Jesus surgiu no meio deles e ao saber
do acontecimento disse:

“Se eu não vir em suas mãos o lugar dos cravos e se não puser o meu dedo no lugar dos cravos e minha mão
no seu lado, não acreditarei." (Jo 20,25).

Mais uma semana se passa. É novamente domingo:

“....achavam-se os discípulos de novo, dentro da casa, e Tomé com eles. Jesus veio, estando as portas fechadas,
pô-se no meio deles e disse: "Paz a vós!" Disse depois a Tomé: "Põe o teu dedo aqui e vê minhas mãos! Estende
a tua mão e põe no meu lado e não sejas incrédulo, mas acredita!" Tomé respondeu: "Meu Senhor e meu
Deus!" Jesus lhe diz: "Porque viste, creste. Felizes os que não viram e creram!" (Jo 20,26-29).

Isto vale também para você , leitor , que não viu e creu.

O autor termina o evangelho dizendo:

“Jesus fez, diante de seus discípulos, muitos outros sinais ainda, que não se acham escritos neste livro. Estes,
porém, foram escritos para crerdes que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais a vida
eterna em seu nome." (Jo 20,30-31).

Resumo: Maria Madalena vai ao sepulcro e não encontra o corpo de Jesus. Avisa Pedro e o Discípulo Amado;
Jesus aparece para Madalena e para os discípulos. Tomé duvida. Jesus, no domingo seguinte, aparece, outra vez,
para seus discípulos e chama a atenção de Tomé. Jesus louva aqueles que não viram mas creram.

O ACRÉSCIMO

A exemplo do evangelho de Marcos, aqui é o final do evangelho segundo João. Porém, posteriormente, mais um
capítulo foi acrescentado e com um objetivo claro: aproximar a comunidade joanina do restante da Igreja.

Vamos lembrar o que já explicamos na AULA 4 , item 203:

O evangelho de João termina no Cap.20.
O Cap 21 é um inserção feita posteriormente . Porque ? Por quem ?

Segundo a Biblia de Jerusalém:

“ foi acrescentado pelo próprio evangelista ou por um dos seus discípulos.”

A Bíblia do Peregrino diz:

"Esse capítulo é acréscimo evidente: provavelmente acrescentado por um membro da escola de João, e muito
cedo, pois consta em todos manuscritos. Não obstante é canônico como o resto."

Raymond E. Brown (1928-1998), no livro A COMUNIDADE DO DISCÍPULO AMADO – Editora Paulus, afirma que este
capítulo 21 foi acrescentado para afirmar e validar a pessoa de São Pedro, uma vez que o Evangelho de João dá
maior destaque à figura do DISCÍPULO AMADO do que à Pedro.

Comentário do Pe. José Luiz do Prado:

“... acompanhando o americano Brown, vou mais além, foi escrito para salvar as comunidades do IV Evangelho,
unindo-as às comunidades dos Apóstolos e também o próprio Evangelho, que não ficou na mão dos primeiros
hereges.”

VIII – Acréscimo (Jo 21)

Jesus aparece novamente aos discípulos às margens do lago de Genesaré. Eles haviam pescado a noite inteira sem
nada conseguir. Jesus disse:

“Jovens, tendes algo para comer?” Responderam-lhe: “Não!” Disse-lhes: “Lançai a rede á direita do barco e
achareis.” Lançaram, então, e não tinham força para puxá-la, por causa da quantidade de peixes. (Jo 21,5-6).

O evangelista escreve que o Discipulo Amado é o primeiro a reconhecer Jesus e dizer a Pedro:

“É o Senhor!” (Jo 21,7).

O evangelho diz que foram apanhados 153 peixes. Jesus come com os discípulos e nenhum deles ousava perguntar
quem Ele era, pois sabiam que era o Senhor. Depois disso Jesus se dirige a Pedro e diz:

“Simão, filho de João, tu me amas mais do que estes?”
“Sim, Senhor”, lhe disse, “tu sabes que te amo”.
Jesus lhe disse: “Apascenta os meus cordeiros.”
Uma segunda vez lhe disse:“Simão, filho de João, tu me amas?”
“Sim, Senhor”, lhe disse, “tu sabes que te amo”.
Jesus lhe disse: “Apascenta as minhas ovelhas.”
Pela terceira vez lhe disse ele: “Simão, filho de João, tu me amas?”
Entristeceu-se Pedro porque pela terceira vez lhe perguntara: “Tu me amas?”
e lhe disse: “Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que te amo.”
Jesus lhe disse: “Apascenta as minhas ovelhas.” (Jo 21,15-17)).

Pedro se entristeceu porque vê na repetição da mesma pergunta por três vezes, uma alusão à sua tríplice negação.

(Biblia de Jerusalém – NT – Edições Paulinas)

“Em verdade, em verdade, te digo: quando eras jovem tu te cingias e andavas por onde querias; quando fores
velho estenderás as mãos e outro te cingirá e te conduzirá aonde não queres.” (Jo 21,18).

Jesus diz a Pedro que o siga. Pedro vê que o Discípulo Amado também o segue e diz:

“Senhor, e este?” Jesus lhe disse: “Se eu quero que ele permaneça até que eu venha, que te importa? Segue-me
tu.” Divulgou-se, então, entre os irmãos, a notícia de que aquele discípulo não morreria. Mas Jesus não disse que
ele não morreria, mas: “Se quero que ele permaneça até que eu venha, que te importa?” (Jo 21,21-23).

Este texto é uma forma delicada de dizer que o Discípulo Amado, mentor da comunidade joanina, já morrera quando
da redação desta parte do evangelho, mas o seu espírito permanece na comunidade que ele liderava.

A comunidade encerra este acréscimo chamando a autoridade do seu mentor ou o seu herói, como preferia
R. E. Brown (A Comunidade do Discípulo Amado. - Raymond Edward Brown - Ed.Paulus -2013) :

“Este é o discípulo que dá testemunho dessas coisas e foi quem as escreveu; e sabemos que o seu testemunho
é verdadeiro.” (Jo 21,24).

Depois, um encerramento semelhante ao original do capítulo 20:

“Há, porém, muitas outras coisas que Jesus fez e que, se fossem escritas uma por uma, creio que o mundo
não poderia conter os livros que se escreveriam.” (Jo 21,25).

TEOLOGIA DO EVANGELHO DE JOÃO

O evangelho segundo João, como já explicamos na AULA 05 ("A Questão Sinótica"), é muito diferente dos outros
três evangelhos quanto à estrutura e a forma de apresentar o conteúdo teológico e a imagem de Jesus.
Em vez de parábolas, como nos sinóticos, Jesus profere longos discursos simbólicos e o campo de ação não é a
Galiléia; quase tudo se passa em Jerusalém. Outra característica do quarto evangelho é que ele desenvolve o
que os exegetas chamam de Alta Cristologia.

Como nos ensina R.E.Brown:

"Na linguagem dos comentaristas "baixa" cristologia envolve a aplicação a Jesus de títulos derivados do A.T.
ou expectativas intertestamentárias (por exemplo, Messias, profeta, servo, senhor, Filho de Deus) - títulos que
em si não implicam divindade.... "Alta","Elevada" cristologia envolve uma apreciação de Jesus que o coloca na
esfera da divindade, expressa, por exemplo, num emprego mais exaltado de Senhor e Filho de Deus, assim como
a designação "Deus".

( A Comunidade do Discípulo Amado. - Raymond Edward Brown - Ed.Paulus -2013 - Nota 33 - Pág.25)

Como podemos ver, logo no prólogo do evangelho segundo João, Jesus é o Verbo de Deus encarnado. A ênfase
desde o início é na natureza divina de Jesus. Os evangelhos sinóticos, mais antigos, são de uma época em que
a cristologia não era ainda tão desenvolvida e profunda como na época do quarto evangelho.
Assim como sabemos que Deus é imutável e o que muda é nosso entendimento sobre Ele, podemos dizer que
o entendimento de quem é Jesus foi se desenvolvendo dentro da Igreja, nas diversas comunidades; partindo da
figura do homem de Nazaré, do Messias (Cristo), do Filho de Deus até Jesus se tornar Deus, na Trindade Santa.
Isto levou muito tempo, muita discussão e surgiram muitas heresias.

A Bíblia de Jerusalém na introdução ao evangelho de João diz:

"...a obra joanina apresenta traços que lhe são próprios e a distinguem claramente dos evangelhos sinóticos.
Seu autor parece ter sofrido influência bastante forte duma corrente de pensamento amplamente difundida
em certos círculos do judaísmo, cuja expressão se redescobriu recentemente nos documentos essênios de Qumrã.
Neles se atribuía importância especial ao conhecimento, dando ao vocabulário um colorido que anunciava o da
gnose; exprimia-se um certo dualismo por meio de antinomias: luz-trevas, verdade-mentira, anjo da luz-anjo das
trevas."

O evangelho de João, depois do prólogo, a exemplo dos evangelhos sinóticos, também começa pelo testemunho
de João Batista, depois narra episódios da vida de Jesus e termina com os relatos da paixão e ressurreição. No
entanto a cristologia joanina é mais desenvolvida e profunda. Como já informado na introdução desta aula, se trata
de alta cristologia. Aqui não há mais dúvidas sobre quem é Jesus. Jesus é o Verbo encarnado. Maior que João Batista,
maior que Moisés, é o Filho de Deus, é Deus.

Após o prólogo (1,1-18) a linha mestra do evangelho é a realização da promessa contida em (Dt 18,15.18-19):

“Iahweh teu Deus suscitará um profeta como eu no meio de ti, dentre os teus irmãos, e vós o ouvireis....Vou
suscitar para eles um profeta como tu, do meio dos seus irmãos. Colocarei as minhas palavras em sua boca
e ele lhes comunicará tudo o que eu lhe ordenar." (Dt 18,15.18-19).

Para João, Jesus não é um profeta qualquer; Ele é o profeta por excelência; O profeta!

Esta teologia começa por mostrar João Batista apenas como um anunciador e não como o profeta por
excelência; a excelência pertence a Jesus. O evangelista coloca na boca de Jesus palavras que se referiam a Moisés
no AT. Jesus não é apenas o novo Moisés; Jesus substitui Moisés. Os judeus devem agora escolher entre Moisés
e Jesus.

Enquanto que, Moisés não falava por si mesmo , mas apenas transmitia as palavras de Deus, Jesus fala por Deus.
Ele e Deus(Pai) são um.

TEOLOGIA DA PAIXÃO

A teologia da paixão também é diferente dos sinóticos. Lá, Jesus parece ser levado pelos acontecimentos enquanto
que, em João, Ele tem o domínio das ações:

No Getsêmani: Nos evangelhos sinóticos Jesus quase não fala. No evangelho de João Jesus é senhor da ação; é Ele
que conduz o diálogo com os soldados. É Ele que se identifica duas vezes e dá ordem aos soldados para deixarem
em paz os que o seguem.

Diante de Anás e Caifás: Novamente, no evangelho de João, Jesus discute com Anás , não permanece calado, como
nos sinóticos. Ele se expressa com tal autoridade que chega a ser esbofeteado por um dos servos de Anás.

Diante de Pilatos: Em Mateus e Marcos, Jesus só responde a Pilatos se Ele era o rei dos judeus. Em Lucas nem isso.
Mas em João, Jesus fala com autoridade:

“Meu reino não é deste mundo. Se meu reino fosse deste mundo, meus súditos teriam combatido para eu não
ser entregue aos judeus. Mas meu reino não é daqui." Pilatos lhe disse: "Então tu és rei?" Respondeu Jesus:
"Tu o dizes: eu sou rei. Para isto nasci e para isto vim ao mundo:para dar testemunho da verdade....."
(Jo 18,36-37).

E em seguida o evangelho diz que Pilatos fica aterrado quando os Judeus dizem que Jesus se fez Filho de Deus.
O prefeito romano não é quem domina as ações no pretório, ele é conduzido pela postura soberana de Jesus:

“Quando Pilatos ouviu esta palavra, ficou ainda mais aterrado. Tornando a entrar no Pretório, disse a Jesus:
"De onde és tu?" Mas Jesus não lhe deu resposta. Disse-lhe , então, Pilatos: "Não me respondes? Não sabes que
eu tenho poder para te libertar e poder para te crucificar?" Respondeu-lhe Jesus: "Não terias poder algum
sobre mim, se não houvesse sido dado do alto; por isso, quem a ti me entregou tem maior pecado."
(Jo 19,8-11).

Na cruz: Em Mateus e Marcos Jesus clama:

“Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste." (Mt 27,46 ; Mc 15,34).

Em Lucas, o evangelho da misericórdia, Jesus pede ao Pai:

“Pai, perdoai-lhes: não sabem o que fazem." (Lc 23,34).

Em Lucas, Jesus ainda protagoniza o episódio maravilhoso do Bom Ladrão.

Mas em João, Jesus está tão tranquilo que conversa com sua mãe e o Discípulo Amado, entregando ao discípulo
a responsabilidade sobre sua mãe e vice-versa. Depois, Jesus apenas diz:

“Tenho sede! Estava ali um vaso cheio de vinagre. Fixando, então, uma esponja embebida de vinagre numa
vara, levaram-na à sua boca. Quando Jesus tomou o vinagre, disse: "Está consumado!" E, inclinando a
cabeça, entregou o espírito." (Jo 19,28-30).

Até o fim, Jesus é Senhor da situação, ninguém lhe tira a vida, Ele a dá livremente, como havia dito antes, no sermão
do Bom Pastor :

“....Eu sou o bom pastor: o bom pastor dá sua vida por suas ovelhas....porque dou a minha vida para retomá-la.
Ninguém ma arrebata, MAS EU A DOU LIVREMENTE. Tenho poder de entregá-la e poder de retomá-la; este
é o preceito que recebi do Pai." (Jo 10,11-18).

Bibliografia:

- Biblia de Jerusalém – NT – Edições Paulinas - 1973
- Biblia de Jerusalém – Editora Paulus - 2014
- Biblia do Peregrino- NT - Editora Paulus - 2005
- Alfred Lappe – As Origens da Bíblia – Vozes 1973
- Alfred Lappe – Interpretação Atualizada e Catequese – Vol.03 – N.T. – Paulinas -1980
- J.Auneau – F.Bovon – M.Gougues E.Charpentier-J.Radermakers –Evangelhos Sinóticos e Atos dos Apóstolos- Ed. Paulinas – 1985
- Jesus de Nazaré - Do Batismo no Jordão à Transfiguração. - Joseph Ratzinger - Bento XVI - Ed.Planeta -2017-
- A Comunidade do Discípulo Amado. - Raymond Edward Brown - Ed.Paulus -2013

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