UM VOCABULÁRIO PAULINO



EVANGELHO: Significa boa notícia. Em documentos e monumentos antigos da Ásia menor se fala em Evangelhos ou boas novas que são a chegada ou manifestação do Im-perador, o nascimento de César Augusto, que trouxe a paz e a segurança (o domínio de Roma). A Boa Notícia ou Evangelho que Paulo anuncia se resume em duas palavras: Jesus Cristo.

JESUS: É aquele galileu pobre, das classes populares, trabalhador braçal, que se fez pregador popular e que terminou crucificado, como um maldito de Deus (Dt 21,22-23), um Fora-da-lei.

CRISTO: É palavra grega que significa ungido, em hebraico, messias. Ungidos eram os reis. Os judeus esperavam a vinda de um rei, filho de Davi, enviado por Deus, um mes-sias, cristo ou ungido, que resolveria todos os problemas deles. Aliás, sempre que o po-vo está sofrendo, a situação difícil, um beco sem saída, surge a esperança de um messi-as. Para Saulo, fariseu, a vinda do Messias não tinha grande importância. Importante era observar a Lei escrita e oral, sem se preocupar com o momento de Deus. Mas para o Paulo cristão, o Cristo ou o Messias que é Jesus realiza as melhores esperanças de to-dos, é a salvação que Deus enviou para a humanidade toda, não apenas para o povo ju-deu. Assim Jesus, o último dos homens, é a esperança da humanidade.

SENHOR: Era título do Imperador Romano. Ele era o senhor absoluto. Quando chega-va a uma cidade a multidão devia saudá-lo aclamando: "Kyrie eleison!", Senhor, tem piedade! Ele era todo-poderoso, podia fazer o que quisesse sem ter de prestar contas a ninguém, por isso era preciso pedir que tivesse piedade. SENHOR na tradução grega da Bíblia Hebraica substitui o nome próprio de Deus (Javé), que o ser humano não tem di-reito de pronunciar. Assim, a palavra Senhor em Paulo lembra também o nome próprio de Deus.

FILHO DE DEUS: Tem três lados: Era um outro título do Messias ou Cristo esperado, pois os reis de Judá eram chamados de filhos de Deus, como acontece no salmo 2. Se-gundo lado: Filho de verdade é obediente ao Pai, faz tudo o que o Pai quer, é um bom filho. Terceiro: Filho na Bíblia significa muitas vezes um indivíduo daquele grupo ou daquela espécie, assim, como filho do homem é um ser humano, filho de Deus é um ser divino, é alguém de Deus.

PAI: César, o imperador romano, era o pai da pátria. Ele era a autoridade máxima e o pai, padrinho ou patrono de todos. O sistema era esse de patrono e cliente, protetor e dependente, padrinho e afilhado. Ninguém tinha direito a nada. Os mais fracos recebiam favores dos mais fortes e cada qual defendia e apoiava o seu patrono. O pai ou patrono de todos era César. Quando Paulo chama Deus de Pai, de único Pai, está dizendo que o pai de todos não é o Imperador, é Deus. Só ele é a autoridade, só ele é o protetor. Entre nós somos todos.

IRMÃOS: A relação entre os discípulos não é vertical, de protetor e dependente, patro-no e cliente, superior e inferior, como era o sistema do Império, a relação é horizontal, todos somos irmãos. Paulo sempre chama os discípulos de irmãos, nunca de filhos, afi-lhados, súditos ou dependentes.

SANTOS: Santo significa consagrado ou separado, escolhido. Santos somos nós, cha-mados, escolhidos, separados, consagrados pelo Batismo. Frequentemente, porém, a pa-lavra se refere mais propriamente aos cristãos de Jerusalém ou da Judéia, como "os san-tos que estão na pobreza".

IGREJA: É um grupo de cristãos que costuma se reunir numa casa. No âmbito do Im-pério Romano, especialmente nas cidades gregas, ekklesia era a Assembléia Legislativa da cidade, um reduzido grupo de homens poderosos, os patronos mais importantes do lugar, que decidiam algumas questões, autorizados e aprovados por Roma. Era a reunião da elite do lugar. Em Paulo ekklesia ou igreja é uma reunião de trabalhadores braçais em Tessalônica, de pequenos comerciantes em Filipos, de escravos como maioria em Co-rinto, que tem Deus por Pai e Jesus por Senhor. Não é assembléia da elite, é encontro dos pequenos animados pela fé. Essa palavra expressava também na Bíblia grega utili-zada por Paulo a assembléia dos hebreus no deserto, o conjunto do Povo de Deus no Primeiro Testamento. Quando dá o nome de ekklesia ao agrupamento dos discípulos de Jesus, Paulo lembra também essa ekklesia do deserto.

FÉ: É aceitar, confiar, assumir, mergulhar de ponta cabeça em que a salvação da huma-nidade se acha no crucificado Jesus. É se amarrar em Jesus como salvador da humani-dade, assumindo todas as conseqüências disso. Um "maldito de Deus" é a libertação que Deus oferece à humanidade. Não é o poder e a riqueza que salvam, é a fraqueza e a po-breza. Isso basta. A Fé nos faz livres, dá-nos o espírito, leva a descobrir os apelos de Deus a cada momento, é ouvir, obedecer, estar atentos aos apelos dos fatos, de antenas ligadas, com isso é criativa, é bênção, é alegria, faz-nos filhos, não escravos medrosos, faz-nos adultos, capazes de encontrar e construir nosso próprio caminho, Fé é encontro com o Deus vivo que sempre nos fala.

LEI: Tem vários sentidos, conforme o contexto. Quando Paulo diz em Rm 7,1 "estou falando a quem entende de leis" quer dizer a mesma coisa que para nós, qualquer lei ou sistema legal. Quando diz: "sinto em meus membros uma outra lei", está falando de uma tendência (no caso, má) no interior da pessoa. Outras vezes é a Lei de Moisés, seja o Pentateuco todo, sejam as legislações que aí se encontram. Outras vezes se inclui aí também a Lei Oral, os 603 mandamentos conhecidos e transmitidos pelos mestres fari-seus. Por oposição à Fé, porém, Lei é a mentalidade ou ideologia da salvação pela ob-servância da Lei escrita e oral. Essa Lei escraviza, enfeitiça, mistifica, não traz novida-des, está tudo previsto, leva à observância escrupulosa e ao pavor da menor falha, é co-mo trilho dos trens de ferro, dos quais sair é desastre na certa, é maldição, ameaça ("maldito quem não observar tudo o que está prescrito"), faz escravos medrosos, crian-ças que, sozinhas não sabem trocar um passo, essa Lei torna-se uma idolatria (diviniza os meios), tem um deus mudo.

OBRAS DA LEI: Consistem na prática minuciosa de tudo o que a Lei escrita e a Lei oral determinam como as leis alimentares, o calendário, etc..

OBSERVÂNCIA: É a prática escrupulosa de tudo o que é previsto pela Lei.

OBEDIÊNCIA: É ouvir, estar atentos e responder aos apelos de Deus nos aconteci-mentos do dia a dia. A Fé é obediência.