ANTROPOLOGIA E REVELAÇÃO



TEOLOGIA DA REVELAÇÃO


"O Cristo ressuscitou para fazer desta terra um
céu. Percebe isso pelos olhos da fé e
caminha na vida como se cotidianamente
morasses no céu"
(S. João Crisóstomo)


A) Revelação

1) Conceito de Revelação
Revelação é o mostrar-se de Deus. Esta manifestação, este mostrar-se de Deus não deve ser entendido de modo intelectualista, como um tratado, mas de modo vivencial. "Deus levado por grande amor aos homens, fala com eles como a amigos, e com eles se entretêm para os convidar à sua comunhão e nela os receber" 1 . O Cristianismo é uma religião de revelação e Do Livro. Fundamenta-se na manifestação de Deus na história, através do povo de Israel e, de maneira última e definitiva, em Jesus Cristo. Este dado revelado foi transmitido oralmente e consignado por escrito por uma comunidade que reconheceu nessa tradição e escritos uma comunicação única e original de Deus 2. Há, portanto um "diálogo" que leva à percepção viva de uma palavra de ordem sobrenatural que se forma no íntimo do homem. Este diálogo entre Deus e o homem, como se apresenta nas Sagradas Escrituras vai se diferenciando dos demais de maneira original, genial e inconfundível. Não se trata de abstração intelectualista (filosofia grega), nem de toda a confusão panteísta (asiática), mas de uma manifestação amorosa de Deus que tem por fim estabelecer relações de amizade com os homens e mulheres e para o bem destes, como claramente se expressa o termo da Aliança 3.
Por amor e unicamente por amor Deus se revela, se autocomunica ao homem. Na obra da criação, Deus primeiro dá-se a conhecer por suas obras exteriores, depois por sua Palavra interior. Nos diz São Paulo em Rm 1,20 ..."pois desde a criação do mundo as perfeições invisíveis de Deus tornaram-se visíveis pelas coisas criadas". Igualmente os homens, ao entrarem em comunicação entre si, primeiro se dão a conhecer por sua atividade exterior e aos poucos revelam sua Palavra interior pela manifestação de seus pensamentos e sentimentos. O Vaticano II afirma: "Aprouve a Deus, em sua bondade e sabedoria, revelar-se a si mesmo e tornar conhecido o mistério de sua vontade, pelo qual os homens, por intermédio de Cristo, Verbo feito carne, e no Espírito Santo, têm acesso ao Pai e se tornam participantes da natureza divina. Mediante esta revelação, portanto, o Deus invisível, levado por seu grande amor, fala aos homens como a amigos e com eles se entretêm para os convidar à comunhão consigo e nela os receber. Este plano de revelação se concretiza através de acontecimentos e palavras, intimamente conexos entre si, de forma que as obras realizadas por Deus na História da Salvação manifestam e corroboram os ensinamentos e as realidades significadas pelas palavras. Estas, por sua vez, proclamam as obras e elucidam o mistério nelas contido" 4.
É importante ainda ressaltar que não estamos diante de um certo número de frases ou definições mas sim diante de acontecimentos históricos e vivenciais nos quais gradativamente o homem percebe os planos e propostas de Deus. É uma caminhada na qual quem intercepta o homem é Deus e este lhe responde. O termo usado para designar a revelação divina é a expressão "Palavra de Deus". Exprime a iniciativa livre e voluntária de Deus que inicia um diálogo, apresenta um convite ao homem que lhe responderá também livremente pela fé; a "palavra" é um meio e um sinal de comunicação e ainda a expressão da amizade. Falar é sempre buscar entendimento, união.
A Revelação de Deus é progressiva, manifesta diferentes modos e graus. Na carta aos Hb 1,1-2 expressa-se bem esta experiência: "Depois de ter, por muitas vezes e de muitos modos, falado outrora aos pais nos profetas, Deus, no período final em que estamos, falou-nos a nós num Filho a quem estabeleceu herdeiro de tudo, por quem outrossim criou os mundos".

2) Estágios da Revelação
Podemos falar em estágios da Revelação de Deus:
a) Revelação natural - "os céus narram a glória de Deus"(Sl 18,1). Não é só pela palavra falada, mas também pela palavra transmitida por gestos, obras, que os homens se comunicam entre si. É a revelação cósmica, Deus se revela no universo inteiro, em toda a criação. Assim como a criança aprende quem são seus pais pelos carinhos que deles recebe, o homem aprende quem é Deus pelas obras da criação, ainda que de modo vago e imperfeito (Rm 1,20).
b) Revelação bíblica ou pela eleição de Israel ou profética - É o Deus da história que rompe o anonimato das coisas criadas, escolhe um povo (Israel) e o torna num “campo de cultura” onde faz germinar a mensagem da salvação como planta preciosa, que depois transplantou na humanidade inteira. Não só pela Lei (o Sinai é o bloco central), mas pela Providência com que Deus amparou o povo eleito. Os profetas são suas testemunhas privilegiadas que vão aprofundar e desenvolver a prática do que Deus tinha falado no Sinai. Surge aqui, da transmissão dessa Palavra de Deus, a Escritura.
c) Revelação pela Encarnação do Verbo ou Revelação em Jesus - Eis a “Palavra de Deus” que fala aos homens pela voz de um homem: Jesus Cristo (Jo 1,1; Hb 1,1). A revelação bíblica atinge seu ponto máximo e é também a fase final da revelação. Jesus Cristo como Filho do Pai é o melhor revelador pois é Filho de Deus e o próprio Deus. Conteúdo central do Novo Testamento, a salvação oferecida por Deus através de Jesus e nele revelada, supera, completa todo o Antigo Testamento, mas não o elimina.
d) Revelação na escatologia final ou revelação na glória, corresponde a plenitude do viver - O futuro do mundo consiste em ele poder revelar Deus de forma perfeita e transparente. O Filho é a expressão cabal de Deus. Jesus Cristo, o Filho encarnado, revelou o caráter filial de todas as coisas e em especial de cada um de nós. Ainda não se manifestou o que seremos (1Jo3,2). Em Jesus Cristo Ressuscitado temos um modelo que nos permite vislumbrar a realidade futura da matéria. Ele está acima do espaço e do tempo, presente a todas as coisas, penetra toda a realidade criada. Ele é a cabeça de cada um dos seres (Ef 1,10), a plenitude do cosmos (Ef 1,23; Col 1,19). Está fermentado dentro de toda a realidade, conduzindo-a ao seu futuro que é semelhante ao futuro de Jesus Cristo: total realização e revelação da bondade e da divindade das coisas. Quando Cristo, que já veio, aparecer “em grande poder e glória” (Mc 13,26) a consumação e total finalização do mundo se dará. Então emergirá o novo céu e a nova terra 5.

3) Características da Revelação
A Palavra de Deus não tem por fim “afirmar” alguma coisa mas sim relacionar as pessoas. Deus fala e quer ser ouvido. Quer disponibilidade para ouvi-Lo, exige resposta de todos. Ele cobra, Ele chama. A nossa única posição diante da Palavra de Deus é “fala Senhor, teu servo escuta”.
A Revelação tem como características:
- Ser interpessoal: Deus fala, alguém escuta;
- Ser uma iniciativa de Deus: a própria criação já é um ato de revelação;
- Ser feita preferencialmente pela palavra e não preferencialmente pelas visões, sonhos, etc.
- Exigir resposta e fé;
- No Antigo Testamento encaminha o povo para a salvação que há de vir;
- Deus revela-se salvando, salva revelando-se 6.

4) A Escritura
Pela fé temos acesso a Livros Santos que contém a “Palavra” que Deus nos quis revelar. Esses livros foram escritos por homens e para homens como nos diz S. Agostinho “Deus fala por meio do homem na linguagem do homem 7. Os escritos portanto, apresentam aspecto humano de estilo, cultura e mentalidade; muitas passagens estão escritas em gêneros literários estranhos ao homem atual que por vezes levam à incertezas sobre o seu verdadeiro significado. Os próprios judeus, ainda em tempo do Antigo Testamento já se preocupavam em dar novas e sucessivas redações às suas tradições religiosas certamente para isto gozando das luzes do Espírito Santo e por isso chamados de autores “inspirados”. Igualmente o fez a Igreja, pelo seu Magistério ordinário na catequese, pregação dominical, em cursos, em publicações, etc. De fato, com alguma formação bíblica, qualquer cristão poderá ler com muito proveito a Bíblia, embora uma ou outra passagem permaneça obscura. Quando lemos um poema, certamente não compreendemos tudo o que o poeta nos quis dizer, mas compreendemos sim, o poema. Compete aos especialistas encontrar os critérios para a interpretação e uso conveniente destas passagens mais obscuras; precisar corretamente qual sua natureza e seu significado, para concluir como se deve interpretar a Palavra de Deus expressa no Livro Sagrado 8.
A Igreja sempre teve convicção de possuir Escrituras Sagradas, nas quais ouve a Palavra de Deus, regra de sua fé e de seu comportamento. Inicialmente recebeu da sinagoga os livros adotados como sagrados (Mt 22,29 – Rm 1,2), depois estendeu este conceito para seus próprios escritos, para os Evangelhos, as cartas dos apóstolos e para o Apocalipse. Tais livros são atribuídos à influência do Espírito Santo (2 Pd1, 2). São Paulo até emprega o termo “theopneustos”(inspirado por Deus) em 2Tim3,16. A negação sobre essa inspiração surgiria só muito mais tarde de modo que apenas no Vaticano I se declara algo sobre a natureza dessa inspiração: "Os livros inteiros do Antigo e do Novo Testamento, em todas as suas partes, tais como são enumerados pelo decreto do mesmo Concílio de Trento, e tais como são contidos na antiga edição vulgata em latim, devem ser considerados como sagrados e canônicos. Tem-nos a Igreja por sagrados e canônicos, não porque redigidos só pela ciência humana, foram em seguida aprovados pela autoridade da dita Igreja, não porque só encerram a verdade sem erro, mas porque, escritos sob a inspiração do Espírito Santo, têm a Deus por autor".
Portanto, aqui se fala na peculiaridade dessa "autoria divina" que tem natureza própria e superior. S. Tomás expressará que Deus é o "autor principal" da Bíblia. O Concílio de Trento usará a expressão "ditado de Deus". Leão XIII em Providentissimus Deus, dirá: "A Igreja os tem (os livros admitidos em seu cânon) por sagrados e canônicos, não porque, tendo sido escritos só pela indústria humana, foram depois aprovados por sua autoridade, nem só porque não contenham a revelação sem erro, mas porque tendo sido escritos por inspiração do Espírito Santo, têm a Deus por autor".
Bento XV na Spiritus Paraclitus repete definindo a natureza da inspiração como luz para conceber as verdades, moção para escrever, assistência para não errar. O Vaticano II retoma, confirma e aperfeiçoa os conceitos anteriores. A inspiração é uma ação especial de Deus (gratia gratis data) nas faculdades do autor humano. "A Santa Mãe Igreja, segundo fé apostólica, tem como sagrados e canônicos os livros completos, tanto os do Antigo como os do Novo Testamento, com todas as partes, porque escritos sob a inspiração do Espírito Santo, eles têm a Deus como autor e nesta sua qualidade foram confiados à mesma Igreja. Na redação dos Livros Sagrados Deus escolheu homens, dos quais se serviu fazendo-os usar suas próprias faculdades e capacidades, a fim de que, agindo ele próprio neles e por eles, escrevessem, como verdadeiros autores, tudo e só aquilo que ele próprio quisesse."
A inerrância bíblica é, pois a primeira consequência da inspiração divina. O objeto da inerrância é só aquilo que o autor bíblico, como instrumento inspirado por Deus, afirma ser realmente a sua convicção. A Escritura, pois não pode falhar, não pode ser desprezada ou como diz Jo10,35 não pode ser anulada. Conclui a Dei Verbum nº 11: "portanto, já que tudo o que afirmam os autores inspirados ou hagiógrafos deve ser tido como afirmado pelo Espírito Santo, deve-se professar que os livros da Escritura ensinam com certeza, fielmente e sem erro, a verdade que Deus, em vista de nossa salvação, quis fosse consignada nas Sagradas Escrituras".

Resumindo: A inspiração é fundamentalmente uma “presença” especial do Espírito Santo nos autores sagrados, com a finalidade de produzir, por meio deles, um Livro Santo. Inspirar significa “insuflar” o fôlego da vida (Gn 2,7; Sb 15,11; At 17,25...)
- É luz intelectual que faz o escritor sagrado conhecer a verdade que deve escrever;
- É moção diretiva que o impele a escrever o que Deus quer que ele escreva;
- É assistência contínua neste ato de escrever;
- É ação diretiva e não coativa que faz com que ele escreva um livro realmente em seu nome;
- Ao mesmo tempo esta ação diretiva torna Deus responsável pelo Livro composto, por isso Ele é o autor principal;
- Deus move o autor inspirado por meio de uma graça especial, de um “carisma”.
Afirma-se que tudo o que está na Bíblia é realmente inspirado por Deus (2Tm3,16). Jesus e os apóstolos receberam e adotaram o cânon completo do Antigo Testamento (46 livros) como inspirados por Deus. Posteriormente somaram-se ao Antigo os escritos do Novo Testamento, lidos e reconhecidos com o mesmo valor e autoridade de Palavra inspirada. Os Padres da Igreja, que vieram logo após os Apóstolos, consideraram inspirados todos os livros do cânon bíblico. O mesmo aconteceu com os Santos Padres, que confirmaram esta convicção nos sínodos regionais e, nos séculos seguintes, os Concílios Ecumênicos corroboraram esta Tradição.
Cânon vem de “cana”, uma vara de caniço usada para medir (Ez 40,3.5). Também significa norma de vida ou de ”doutrina” (Gl 6,16). Assumiu depois o significado de “relação”, enumeração, lista dos livros do Antigo Testamento e Novo Testamento que a Igreja católica considera como inspirados e que servem de “norma, de medida da fé, de base e critério para o ministério da pregação e do ensino no caminho da justiça (2Tm3, 14-16).
A tradição bíblica não esclarece a respeito das etapas da formação dos livros sagrados. Há indícios de que bem cedo os livros sagrados começaram a ser unidos em coleções. Conforme a Tradição dos judeus da Palestina a coleção dos “livros sagrados” ficou definitivamente completa no tempo de Esdras e Neemias (alusão em 2Mc2, 13-15). A Tradição judaica só se pronunciou oficialmente sobre o cânon no Sínodo dos Rabinos em Jâmnia, no ano de 100 dC. Outra tradição sobre o cânon do Antigo Testamento se originou em Alexandria com os judeus da diáspora. Ptolomeu II Filadelfo requisita uma tradução para o grego dos textos sagrados hebraicos. É a Bíblia dos LXX ou Septuaginta feita entre 250-130 aC.
Jesus e os apóstolos adotaram este cânon alexandrino. A Igreja o faz igualmente quando determina: "estes livros devem ser aceitos como sagrados e canônicos na sua integridade total e em suas partes" 9.
O Evangelho, por ordem expressa de Jesus, foi primeiramente pregado (Mt 28, 19-20; Mc 16, 15-16; At 5, 28-29...). Do ano 30, quando da Morte e Ressurreição de Jesus , até o ano 51, o que existia do Novo Testamento era somente a pregação viva da Igreja. O que dinamiza as diversas igrejas de Jerusalém, da Samaria, de Damasco, de Antioquia, Corinto, Éfeso, Roma, Tessalônica era a TRADIÇÃO, que continua até hoje.
Somente duas décadas após a Morte e Ressurreição de Jesus é que surgiu o primeiro escrito (Primeira Carta aos Tessalonicenses), que juntamente com as demais cartas e os quatro evangelhos viriam a formar o livro do Novo Testamento. Entre os anos de 51 e 100 dC foram redigidos todos os textos do Novo Testamento.

5) A Tradição
Toda a herança bíblico-religiosa de Jesus, com todo o conteúdo que Ele revelou (Jo15, 15b), aperfeiçoando a Lei e os Profetas (Mt5, 17), confiou-o (depositou-o) aos Apóstolos e, naturalmente à Igreja. Podemos dizer que o DEPÓSITO é o conteúdo da revelação, seu conteúdo é o da fé ou da tradição. O sentido da palavra “depósito” é de origem jurídica e acentua, no depositário, o dever de conservar e em seguida entregar ou transmitir intácto o conteúdo que lhe foi confiado (Ap2,25; 3.11) 10.
Há pois dois modos por excelência dessa transmissão do Depósito. A primeira que chamamos de Tradição e a Segunda é a própria Bíblia ou Sagrada Escritura.
Em 1Ts2, 13, ou "... recebestes a palavra de Deus, que de nós ouvistes, e a acolhestes..." temos a descrição concentrada da Tradição apostólica. A Palavra de Deus é antes de tudo ouvida (Rm10,17); Ef 1,13; At15,7), recebida (1Ts1,6; 4,1-2.6; 2Ts3,6; 1Cor11,23; 15,1.3; Gl1,9; Fl4,9; Cl2,6), depois, penetrando no coração, é acolhida (1Ts1,6; 2Ts2,10; 1Cor11,2; 2Cor11,4; At8,14; Mc4,20) de forma que o ouvinte reconhece que Deus falou por meio de seu enviado (1Ts4,1-2; 2Cor3,5; 13,3). Finalmente essa Palavra de Deus é transmitida aos que ainda não a conhecem com viva voz (At15, 27.36) e nos decretos (At16, 4-5)
Esta instrução ou transmissão, cujo agente importante é o Espírito Santo segundo São Paulo em 1Ts 1,5 deverá ser sucessiva, contínua e continuada. A Tradição como a chamamos é afirmada explicitamente:
- Na exposição conciosa do Evangelho (1 Cor 11,2);
- Na instituição da Eucaristia (1 Cor11, 23-26);
- Mais geral na doutrina paulina (1 Cor15, 1-2).
O israelita sempre esteve ligado, desde a sua origem como clã semita e mais ainda como Povo Eleito, às “tradições fechadas”, que garantiam a sua sobrevivência em um meio hostil às suas tendências monoteístas e ascéticas. A começar pela “tradição das bênçãos patriarcais”, prosseguindo com a “tradição das leis mosaicas” e ainda a “tradição messiânica”, a fé de Israel foi preservada e transmitida nos círculos rabínicos e judaicos.
As tradições de Jesus no Novo Testamento igualmente foram preservadas e transmitidas ,e na “tradição apostólica” encontra-se certamente a chave para compreender a formação dos Evangelhos e de todo o Novo Testamento. Tanto o testemunho deste, como o dos escritos dos Padres apostólicos, nos sugere que a tradição de Jesus e acerca dele foi tratada a princípio como uma “Torá” oral, continuando o Antigo Testamento a ser a Torá escrita oficialmente. Enquanto a Torá oral de Jesus é ainda utilizada com certa liberdade pelos Padres apostólicos até cerca do ano 150 dC, a sua autenticidade está garantida por uma sucessão cuidadosamente definida de testemunhas e transmissores oficiais que recuam até o próprio Jesus 11. Ele mesmo, o empolgante Jesus de Nazaré preparou uma “tradição” própria, agrupando discípulos fiéis, dando-lhes normas de vida, preparando-os para a continuação de sua obra. Portanto, o próprio método de pregação de Jesus visava fixar um tipo de ensinamento que pudesse ser memorizado e repetido. Ele deve ter repetido as mesmas sentenças e adaptado seus ensinamentos nos diversos lugares por onde andou o que viria a transformar em uma “tradição própria” do tipo messiânico, escatológico e ascético, seu seguimento e suas normas de vida.
Esta mesma “comunidade de vida” ali nascida sobrevive à Morte de Jesus e depois se constitui na Igreja de Jerusalém, tão importante na difusão e fiel conservação do cristianismo primitivo. São os Atos dos Apóstolos e as cartas de São Paulo que nos dão conta de como foi decisiva para o cristianismo nascente a formação em Jerusalém de uma “santa tradição de Jesus”. Ali os apóstolos velam pela boa “tradição” da nova fé, doutrinando pessoalmente os judeus batizados (At2,42), precedendo à escolha de seus auxiliares diretos (At6,1ss), fiscalizando a fé que se expandia (At8,14ss), enviando delegados para instruir os cristãos da Diáspora (At11,22). Ali tem início a comemoração do 1º dia da semana em memória da Ressurreição, a celebração do jejum semanal na 6ª-feira em memória da Paixão do Senhor, São Paulo vai a Jerusalém falar com Cefas (Gl 1, 18) no início de seu apostolado e quatorze anos depois conferir seu Evangelho com o das “colunas” da Igreja (Gl2,1ss).
Além disso, a importância da tradição apostólica de Jesus se exalta sobremaneira na formação dos quatro Evangelhos que gozaram de tamanha autoridade nas igrejas cristãs espalhadas por todo o Império Romano, pois que elas representavam a “verdadeira tradição apostólica” de Jesus conforme nos revela Sto. Irineu.
Principalmente porém, no segundo século, quando já caladas as vozes dos que ouviram e viram o Senhor, se faziam ouvir os ecos de tais vozes nas “tradições das igrejas” fundadas pelos apóstolos e discípulos, tradições estas registradas fielmente nos Evangelhos. Todas elas fundadas na “tradição apostólica de Jerusalém”, mas adquirindo feições próprias em conformidade com as vivências do ambiente onde foram pregadas: Evangelho segundo Marcos em Roma pela pregação de Pedro; segundo Mateus no meio cristão-judeu da Palestina (talvez na Galiléia); segundo João na Ásia Menor (possivelmente em Éfeso); segundo Lucas que se valeu de Marcos e Mateus nos meios paulinos. Enfim, o que realmente confere aos Evangelhos seu valor e autenticidade é sua fidelidade a uma “tradição apostólica de Jesus” que tem suas raízes na convivência dos apóstolos com o mesmo Jesus e se apura e firma na catequese posterior à Ressurreição, na Igreja primitiva de Jerusalém sob a assistência dos mesmos apóstolos. Esse critério foi decisivo na formação do cânon católico e em tudo isso naturalmente devemos ver a ação do Espírito Santo.
Portanto a Tradição precedeu a Escritura. A Revelação chega até nós mediante a Tradição e a Escritura, ambas estreitamente unidas e interdependentes, derivadas da mesma fonte divina, para o mesmo fim, a salvação da humanidade inteira. Ambas são Palavra de Deus: uma foi escrita sob a inspiração do Espírito Santo; outra confiada por Cristo aos apóstolos e por eles transmitida a seus sucessores 12.

6) O Magistério
O Depósito da Revelação foi confiado à Igreja toda, isto é, ao povo cristão unido a seus sacerdotes, para que ela viva desse depósito e entre todos os fiéis haja união na profissão e exercício da fé transmitida 13.
Jesus na sua sabedoria divina confiou à Igreja a missão de transmitir e guardar, interpretar e ensinar autenticamente as Sagradas Escrituras. Para tal incumbência assegurou ao MAGISTÉRIO da Igreja a sua assistência infalível, garantia de genuína interpretação do texto sagrado (Mt16, 16-19; Lc22, 31-32...). O Magistério não é uma terceira instância ao lado da Bíblia e da Tradição, que transmita as verdades da fé, mas é a Tradição oral que continua a falar através dos séculos. A Igreja não é “domina”(dona) mas “ancilla”(serva) da Palavra 14.
A função do Magistério:
- Conservar o depósito – guardá-lo íntegro. Nada deve ser esquecido, acrescentado ou inventado;
- Defender o depósito – protegê-lo de desvios ou erros, respondendo dúvidas;
- Explicar, isto é, esclarecer explicitamente o que se encontra implícito na Tradição e Escritura.
Cabe unicamente ao Magistério da Igreja interpretar a Bíblia “segundo o unânime consentimento (sentir com) dos Padres apostólicos e o sentir da Igreja”
Vejamos o que a Igreja ensina:
- "ninguém ouse interpretar a Bíblia, em matéria de fé e costumes, conforme o próprio sentir, contrariando aquele sentido que sustentou e sustenta a Santa Mãe Igreja, a quem pertence julgar o verdadeiro sentido e interpretação das Escrituras Santas, ou contra o unânime sentir dos Padres apostólicos" (Concilio De Trento, sessão IV, 08/04/1546) 15.
- Repetido no Concílio Vaticano I, na sessão III, de 24/04/1870 16.
- "Os Santos Padres, que, depois dos Apóstolos plantaram, regaram, edificaram, apascentaram e alimentaram a Igreja por cuja ação ela cresceu, têm autoridade suma, sempre que todos explicam de modo unânime um texto bíblico, como pertencente à doutrina da fé e dos costumes" (Papa Leão XIII, Providentissimus Deus) 17.
- "A Igreja foi constituída por Cristo Senhor, guardiã e intérprete de todo o depósito da verdade divinamente revelada" 18.
- "Tudo o que concerne à maneira de interpretar a Escritura, está sujeito em última instância ao juízo da Igreja, que exerce o mandato e ministério divino de guardar e interpretar a palavra de Deus" 19 . A nossa fé, como a inspiração nos textos sagrados são dons divinos concedidos ao homem individualmente. Mas ambos não podem prescindir da coletividade, isto é, de um sentido eclesial. A Igreja está na origem das Sagradas Escrituras e mesmo de toda a Revelação: como economia da salvação (Deus criou os homens em comunidade), como princípio de origem (instituição em Pentecostes e seio de onde se originaram os Evangelhos), como ensino apostólico (autoridade de Pedro e dos apóstolos).
Podemos pois repetir do Vaticano II, na Lumen Gentium No.18: "... Jesus Cristo, Pastor Eterno, fundou a Santa Igreja, enviando os apóstolos a pregar, assim como ele mesmo fora enviado pelo Pai. E quis que os sucessores dos apóstolos, isto é, os bispos, fossem em sua Igreja os pastores até a consumação dos séculos. E para que o próprio Episcopado fosse uno e indiviso, prepôs aos demais apóstolos o bem-aventurado Pedro e nele instituiu o perpétuo e visível princípio e fundamento da unidade de fé e de comunhão".
Portanto, mesmo sendo múltipla a função do Magistério com relação à Palavra de Deus a quem está servindo, a Igreja com seu Magistério não pretende declarar tudo o que sabe sobre um assunto, Jamais o Magistério esgota a Escritura e a Tradição e nem a elas se sobrepõe. Cada documento do Magistério nasce num contexto histórico especial 20 e definido. Apenas o conjunto dos seus documentos nos insere na doutrina que vive no coração dessa Igreja.

7) Os Dogmas
A verdade revelada é única, diz Pe. H. de Lubac. O seu conteúdo, prossegue, em sua originalidade e integridade subsistente, não pode ser, nem exata nem suficientemente designada com uma série de enunciados. O mais importante é a ação redentora que Deus nos faz em seu Filho, a vocação de toda a humanidade à vida eterna pelo Cristo e no Cristo. Ele é ao mesmo tempo o mistério e a revelação do mistério, o Todo da Revelação. Igualmente, na terminologia atual, nos DOGMAS revelados pelo Magistério, podemos operar divisões e distinguir verdades particulares enunciadas em proposições separadas desse Todo Revelado. O Magistério coloca no dogma o ápice da interpretação e explicação eclesial da Sagrada Escritura em sua atividade transmissora. De modo algum o conteúdo dogmatizado fecha-se em si mesmo, ao contrário, é ocasião para um entendimento mais profundo e amoroso das verdades de fé ali enunciadas.
Pode-se dizer que o dogma não é senão o testemunho da Escritura em forma desenvolvida e que inicialmente muitos dogmas permaneciam “latentes na riqueza da percepção inicial” dos que aderem à Cristo. Aquilo que inicialmente se intui é conceitualizado no dogma; a percepção inicial e ainda global vai sendo detalhada em verdades particulares e fórmulas mais precisas pelo Magistério. A situação dos apóstolos nessa percepção é única e privilegiada pelo convívio e encontro com o próprio Cristo. E é através deles que a Igreja chega ao Cristo 21. Portanto o testemunho apostólico forma o ponto de partida do desenvolvimento dogmático. Esse desenvolvimento porém não é dedução puramente lógica ou intectualista e sim a ação do Espírito Santo que ilumina a Igreja toda no exercício de seu Magistério.
TRADIÇÃO, ESCRITURA e MAGISTÉRIO não se podem separar: os três juntos, cada qual a seu modo, revelam com eficácia o Projeto de Salvação Divino.

CONCLUSÃO

No Decreto 1335 do "Apostolicam Actuositatem", o Vaticano diz: Os leigos, por sua vez, participantes do múnus sacerdotal, profético e régio de Cristo, compartilham a missão de todo o povo de Deus na igreja e no mundo. Realizam verdadeiramente o apostolado quando se dedicam a evangelizar e santificar os homens e aperfeiçoar a ordem temporal com o espírito do Evangelho, de maneira a dar com a sua ação neste campo claro Testemunho de Cristo e ajudar à salvação dos homens. Para atender a esta vocação apostólica e ser capaz de evangelizar a família de hoje, o ambiente de trabalho, o mundo da comunicação, as escolas etc. é fundamental obter formação competente e orientada pela nossa Igreja. Deus se revela a nós por Jesus Cristo seu filho Unigênito, revelemo-No por meio de uma vida autenticamente cristã, com atitudes, gestos e palavras.



1 Constituição Dogmática Dei Verbum n. 2. Voltar

2 Libanio, João Batista, Teologia da revelação a partir da Modernidade, Ed. Loyola, SP, 1992 p. 17. Voltar

3 Piazza, Waldomiro O. Teologia Fundamental para Leigos, Petrópolis: Vozes, 1972. Voltar

4 DV N.2 Voltar

5 Boff, Leonardo, “Vida para além da Morte”, Ed. Vozes, Petrópolis-RJ, 1973. Voltar

6 Libânio, João Batista, “Teologia da revelação a partir da Modernidade”, Ed. Loyola, SP, 1992. Voltar

7 De Civ. Dei – Sto. Agostinho. Voltar

8 Piazza, Waldomiro O. Idem. Voltar

9 Denzinger, E. – “Enchiridion Symbolorum”, (Manual dos símbolos da fé) Barcelona, 1.965. Voltar

10 “Curso Fé e Doutrina”, Série 5, Ed. Pelicano, Brasília-DF, 1.994. Voltar

11 idem. Voltar

12 Latourelle, René Teologia da Revelação, São Paulo: Paulinas, 1972 p. 92. Voltar

13 DV N.10. Voltar

14 “Por que Crer? A Fé e a Revelação”, Ave Maria, p. 171. Voltar

15 Denz. 786. Voltar

16 Denz. 1788. Voltar

17 Denz. 1944. Voltar

18 Denz. 2315. Voltar

19 DV N. 12. Voltar

20 Cf. “Teologia da Revelação”. Voltar

21 Cf. “Teologia da Revelação” Voltar