Primeira aula Eclesiologia Pastoral



Disciplina: Eclesiologia Pastoral e Mariologia
Assessor: Pe. Claiton Ramos
Curso de Iniciação Teológica
Diocese de Guaxupé - MG



Ementa: Estudar o fato IGREJA nas origens do CRISTIANISMO. A Igreja é necessária? A fé na Igreja e a fé da Igreja. Igreja "santa e pecadora". Evolução e autocompreensão da Igreja ao longo da história. A eclesiologia do Vaticano II e a estrutura ministerial da Igreja. Dentro da Igreja, estudar MARIA como modelo de fé e de discipulado. Analisar os dogmas marianos: MATERNIDADE DIVINA, IMACULADA CONCEIÇÃO, VIRGINDADE PERPÉTUA e ASSUNÇÃO. Ver ainda a questão da DEVOÇÃO MARIANA.


INTRODUÇÃO


O presente estudo pretende oferecer aos alunos uma visão geral sobre a realidade IGREJA. Para tanto, será oferecida uma visão histórica da compreensão e autocompreensão da Igreja ao longo destes dois milênios. Analisaremos os momentos marcantes da história da Igreja até a reviravolta ocasionada pelo Concílio Vaticano II.
Faremos uso das reflexões da Constituição Dogmática Lumen Gentium, do Documento Missão e Ministérios dos Cristãos Leigos e Leigas, e de contribuições de teólogos e pastoralistas, tais como: ANTONIAZZI, COMBLIN, LIBÂNIO, FORTE, RHANER e KUNG.
Após a exposição sumária dos períodos históricos, dos momentos marcantes da História da Igreja, faremos uma analise de conjuntura do momento atual e abordaremos o texto conciliar Lumem Gentium.
Em seguida, à luz do Docto. 62, refletiremos sobre os fundamentos teológicos da Igreja, abrindo perspectivas para as variadas experiências pastorais dos alunos. Faremos, ainda, uma leitura rápida do texto Cenários da Igreja e, em seguida, arremataremos com sinalizações e prospectivas das questões de maior volume.
A última parte será reservada para o estudo sobre Maria, mãe de Jesus, à luz da eclesiologia e da cristologia, bem como contribuições das ciências bíblicas e hermenêuticas. A reflexão sobre Maria, portanto, será o escopo da reflexão sobre a Igreja, porque olhando para a vida de Maria, sua docilidade aos desígnios de Deus, a Igreja se sente chamada a fazer o que ela fez. Ao mesmo tempo, não descuidaremos das questões relativas à devoção popular e ao devido culto mariano.


01. Abordagem histórico-dogmática 1


1.1 A Igreja dos primeiros séculos: Igreja como mistério da fé
Antes a Igreja sempre é entendida como parte de todo o plano salvífico de Deus manifestado em Jesus Cristo e agora proclamado no mundo inteiro. Na medida em que a atenção dos crentes dessa época se concentra sobre esse surpreendente evento, também a veiculação eclesial desse mistério da salvação de Deus é entendida como parte da atuação divina, da economia divina da salvação, isto é, como mistério de fé.
Nos primeiros séculos desenvolveram-se as formas essenciais da Igreja posterior: as normas básicas da fé (cânon da Escritura Sagrada, credo, regra de fé), as formas básicas do culto divino (batismo e Eucaristia), as formas básicas da constituição eclesial (ordem episcopal), as formas básicas da veiculação (pregação, catequese, teologia); isto ocorre em estreita conexão com essas condições históricas e sociais concretas.

1.2 A Igreja da Idade Média: Igreja como denominação espiritual
Na Igreja medieval, cujo início no Ocidente se costuma situar entre o século IV e o século VIII e qual se fragmentou no século XVI (Reforma), o entorno histórico altera-se radicalmente. Ele faz com que agora o aspecto profano, social, político e institucional da Igreja passe para o centro das atenções. Com esta autotematização crescente estão ligados também os primórdios de uma eclesiologia de cunho jurídico, cujo centro é ocupado pela hierarquia. Por isso a dominação espiritual é metáfora básica para a concepção medieval de Igreja.

1.3 A Igreja na Era Moderna: Igreja como denominação
Por razões sociais bem como intelectuais a idéia de ordo (ordem), que vigorava na Idade Média entra em crise. No seio do povo cristão o leigo começa a se livrar da tutela clerical. Toda a esfera secular e seu ordenamento adquirem independência cada vez maior.
A Igreja da Era Moderna apresenta estreita relação com esses acontecimentos modernos. Paralelamente à estatização da sociedade ocorre algo como uma eclesialização da religião (formação de uma esfera religiosa especial dentro da sociedade). Também a ramificação da Igreja em denominações corresponde de certa maneira à pluralização da sociedade. Mas também a eclesiologia da Era Moderna estão marcadas diretamente pelos mais importantes contextos e questões da evolução moderna: a teologia da Reforma; a eclesiologia da Contra-reforma; a Igreja na qual a Igreja de Jesus Cristo é a Igreja católico-romana concreta; Igreja no contexto de renovação ecumênica e litúrgica.



02. Desafios aos cristãos do século XXI 2


O momento atual
A presente análise considerará, fundamentalmente, o aspecto material, ou seja as dimensões sócio-político-econômicas. O aspecto eclesial será matizado posteriormente.
=>>> Os aspectos sócio-político-econômicos
O momento presente é marcado por profundas mudanças, acompanhadas de crises ou de profundas revisões, esboçadas em situações concretas que, em resumo, podem ser elencadas em três escalas, a saber:
a) Mundial
  • O medo da destruição planetária: os crimes ambientais e uma possível terceira guerra mundial. O medo gera a violência. A pandemia da AIDS na África.
  • A crise do LOGOS, o descrédito da PALAVRA (civilização grega e tradição judeu-cristã). O acento significativo na IMAGEM, especialmente a imagem construída pela mídia. Crise da razão e surgimento da desrazão camuflada no que se convencionou chamar de CORAÇÃO e EMOÇÃO.
  • O estresse do "corre-corre", das exigências do mundo globalizado e a ditadura do OPERACIONAL e da EFICIÊNCIA.
  • A fragilidade do POLÍTICO (do buscar soluções conjuntas para a cidade comum; a ausência de lideranças mundiais) em contraste com a exacerbação do ECONÔMICO/FINANCEIRO (a grande mola propulsora; o deus mamon que exige sacrifícios cruentos; o sucesso estampado no TER); em conseqüência a crise ÉTICA (as pessoas não mais se preocupam com o amanhã; uma leitura fundamentalista da Graça e seus congêneres, inclusive disseminada em canções como "é preciso amar as pessoas como se não houvesse o amanhã...").
  • As filosofias de sentido e as religiões, cada vez mais, se submetem às lógicas do PÓS-MODERNO: preocupadas em atender o INDIVÍDUO, isolado do conjunto, elas se convertem numa espécie de mercadoria, de droga para tornar os dias menos insuportáveis. As propostas das Grandes Tradições (Judeu-Cristã, especialmente) sofrem violentos impactos neste contexto. Disto decorre, em grande parte, no que diz respeito às ações evangelizadoras e pastorais, o descrédito das propostas mais a médio e longo prazos, que exigem paciência e humilde revisão e o aumento vertiginoso das propostas fundamentalistas e messiânicas. Há uma busca sôfrega pelo IMEDIATO, pelo mais FÁCIL; uma efetiva negação da CRUZ e, por isso mesmo, uma efetiva ALIENAÇÃO.
    b) Nacional
  • O flagelo do DESEMPREGO e da FOME.
  • A questão ecológica: no caso de Minas Gerais, o desafio da monocultura do eucalipto e da cana-de-açúcar.
  • A crise das instituições políticas.
  • A juventude: carente de projetos e de sonhos.
    c) Regional
  • Pelo efeito da globalização sofre os impactos das escalas anteriores.
  • Escassez de lideranças, de institutos e de mobilizações capazes de se colocarem como alternativas viáveis aos efeitos deletérios da ditadura do TER.


  • 03. A Igreja na perspectiva do Concílio Vaticano II 3


    Capítulo I: O Mistério da Igreja
    §2: O plano do Pai Eterno acerca da Salvação Universal: "O Pai Eterno, por libérrimo e arcano desígnio de sua sabedoria e bondade, criou todo o universo. Decretou elevar os homens à participação da vida divina. E, caídos em Adão, não os abandonou, oferecendo-lhes sempre os auxílios para a salvação, em vista de Cristo, o Redentor, 'que é a imagem de Deus, o primogênito de toda a criatura' (Col 1,15). A todos os eleitos o Pai, desde a eternidade, 'conheceu e predestinou a serem conformes à imagem de seu Filho, para que Ele fosse o primogênito entre muitos irmãos' (Rom 8,29). Assim estabeleceu congregar na santa Igreja os que crêem em Cristo. Desde a origem do mundo a Igreja foi prefigurada. Foi admiravelmente preparada na história do povo de Israel e na antiga aliança. Foi fundada nos últimos tempos. Foi manifesta pela efusão do Espírito. E no fim dos tempos será gloriosamente consumada, quando, segundo se vê nos Santos Padres, todos os justos desde Adão, 'do justo Abel até o último eleito' (Gregório Magno), serão congregados junto ao Pai na Igreja universal".
    §3: A missão e o múnus do Filho: "Veio portanto o Filho, enviado pelo Pai. Foi n'Ele que, antes da constituição do mundo, o Pai nos escolheu e predestinou a sermos filhos adotivos...(cf. Ef 1,4-5 e 10). Para cumprir a vontade do Pai, Cristo inaugurou na terra o Reino dos céus, revelou-nos Seu mistério e por Sua obediência realizou a redenção. A Igreja, ou seja, o Reino de Cristo já presente em mistério, pelo poder de Deus cresce visivelmente no mundo. Este começo e crescimento são ambos significados pelo sangue e pela água que manaram do lado aberto de Jesus crucificado (cf. Jo 19,34) e preanunciados pelas palavras do Senhor acerca de Sua morte na cruz: 'E Eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim' (Jo 12,32). Exerce-se a obra de nossa redenção sempre que o sacrifício da cruz, pelo qual Cristo nossa Páscoa foi imolado (1Cor 5,7), se celebra sobre o altar. Ao mesmo tempo a unidade dos fiéis que constituem um só corpo em Cristo (cf. 1Cor 10,17) é significada e realizada pelo sacramento do pão eucarístico. Todos os homens são chamados a esta união com Cristo, que é a luz do mundo, do Qual procedemos, por Quem vivemos e para Quem tendemos".
    §4. O Espírito Santificador da Igreja: "Consumada, pois, a obra que o Pai confiara ao Filho realizar na terra (cf. Jo 17,4), foi enviado o Espírito Santo no dia de Pentecostes a fim de santificar perenemente a Igreja para que assim os crentes pudessem aproximar-se do Pai por Cristo num mesmo Espírito (cf. Ef 2,18). Ele é o Espírito da vida ou a fonte de água que jorra para a vida eterna (cf. Jo 4,14; 7,38-39). Por Ele o Pai vivifica os homens mortos pelo pecado, até que em Cristo ressuscite seus corpos mortais (cf. Rom 8,10-11). O Espírito habita na Igreja e nos corações dos fiéis como num templo (cf. 1 Cor 3,16; 6,19). Neles ora e dá testemunho de que são filhos adotivos (cf. Gál 4,6; Rom 8,15-16 e 26). Leva a Igreja ao conhecimento da verdade total (cf. Jo 16,13). Unifica-a na comunhão e no ministério. Dota-a e dirige-a mediante os diversos dons hierárquicos e carismáticos. E adorna-a com Seus frutos (cf. Ef 4, 11-12; 1 Cor 12,4; Gál 5,22). Pela força do Evangelho Ele rejuvenesce a Igreja, renova-a perpetuamente e leva-a à união consumada com seu Esposo (Santo Irineu). Pois o Espírito e a Esposa dizem ao Senhor Jesus: 'Vem'(cf. Apoc 22,17).
    Desta maneira aparece a Igreja toda como 'o povo reunido na unidade do Pai e do Filho e do Espírito Santo' (S. Cipriano)”.
    §6: As várias Imagens da Igreja: "No Antigo Testamento a revelação do Reino se propõe muitas vezes sob figuras. Da mesma forma também agora nos é dado a conhecer a natureza íntima da Igreja por várias imagens. Tiradas quer da vida pastoril ou da agricultura, quer da construção ou também da família e dos esponsais, são preparadas nos livros dos profetas.
    A Igreja é um redil do qual Cristo é a única e necessária porta (Jo 10,1-10). É também a grei da qual o próprio Deus prenunciou ser o Pastor (cf. Is 40,11; Ez 34,11ss). Suas ovelhas, embora governadas por pastores humanos, são contudo incessantemente conduzidas e nutridas pelo próprio Cristo, o Bom Pastor e Príncipe dos Pastores (cf. Jo 10,11; 1 Pd 5,4), que deu Sua vida pelas ovelhas (cf. Jo 10,11-15).
    A Igreja é a lavoura ou o campo de Deus (1 Cor 3,9). Nesse campo cresce a oliveira antiga, cuja raiz santa foram os Patriarcas e na qual foi feita e se fará a reconciliação dos judeus e dos Gentios (Rom 11,13-26). Ela foi plantada pelo celeste Agricultor como vinha eleita (Mt 21,33-43; cf. Is 5,1ss). Cristo é a verdadeira vide, que dá vida e fecundidade aos ramos, quer dizer, a nós que pela Igreja permanecemos n'Ele e sem o Qual nada podemos fazer (Jo 15,1-5).
    Com freqüência a Igreja é chamada também de construção de Deus (1 Cor 3,9). A si mesmo o Senhor se comparou a uma pedra que os construtores rejeitaram, mas que se tornou a pedra angular (Mt 21,42; At 4,11; 1 Pd 2,7; Sl 117,22). Sobre esse fundamento a Igreja é construída pelos Apóstolos (cf. 1 Cor 3,11). Dele recebe firmeza e coesão. Esta construção recebe vários nomes: casa de Deus na qual habita a sua família, morada de Deus no Espírito (Ef 2,19-22), tenda de Deus entre os homens (Apoc 21,3) e principalmente templo santo, que, representado em santuários de pedra, é louvado pelos Santos Padres e, não sem razão, comparado na Liturgia com a Cidade santa, a nova Jerusalém (Orígenes). Pois nela quais pedras vivas somos edificados nesta terra (1 Ped 2,5). E João contempla esta cidade que, na renovação do mundo, desce do céu, de junto de Deus, adornada como uma esposa ataviada para o seu esposo (Apoc 21,1ss).
    A Igreja é chamada também Jerusalém Celeste e Nossa Mãe (Gál 4,26; Apoc 12,17). É ainda descrita como a Esposa Imaculada do Cordeiro Imaculado (Apoc 19,7; 21,2 e 9; 22,17). Cristo 'amou-a e por ela se entregou, para santificá-la' (Ef 5,26); associou-a a Si por uma aliança indissolúvel e incessantemente 'a nutre e dela cuida' (Ef 5,29); tendo-a purificado, a quis unida e sujeita a Si no amor e na fidelidade (cf. Ef 5,24); enfim cumulou-a para sempre de bens celestes para que compreendamos a caridade de Deus e de Cristo para conosco, que ultrapassa todo o conhecimento (cf. Ef 3,19). Enquanto, pois nesta terra a Igreja peregrina longe do Senhor (cf. 2 Cor 5,6), considera-se exilada e assim busque e saboreie as coisas lá do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus, onde a vida da Igreja está escondida com Cristo em Deus, até que apareça com seu Esposo na glória (cf. Col 3,1-4).
    §7: A Igreja, Corpo Místico de Cristo: "A Cabeça deste corpo é Cristo. Ele é a imagem de Deus invisível e n'Ele foram criadas todas as coisas, Ele é antes de todos. E todas as coisas n'Ele subsistem. Ele é a cabeça do corpo que é a Igreja. Ele é o princípio, o primogênito dentre os mortos, de maneira que tem a primazia em todas as coisas (cf. Col. 1,15-18). Pela grandeza de Seu poder domina as coisas do céu e da terra. E por Sua supereminente perfeição e operação enche todo o corpo das riquezas de Sua glória (cf. Ef 1,18-23).
    É necessário que todos os membros se conformem com Ele, até que Cristo seja formado neles (cf. Gál 4,19). Por isso somos inseridos nos mistérios de Sua vida, com Ele configurados, com Ele mortos e com Ele ressuscitados, até que com Ele reinemos (cf. Filip 3,21; 2 Tim 2,11; Ef 2,6; Col 2,12; etc.). Peregrinando ainda na terra, palmilhando em Seus vestígios na tribulação e na perseguição, associamo-nos às Suas dores como o corpo a Cabeça, para que, padecendo com Ele, sejamos com Ele também glorificados (cf. Rom 8,17).
    D'Ele 'todo o corpo, alimentado e ligado pelas juntas e ligaduras, aumenta no crescimento dado por Deus' (Col 2,19). Ele mesmo distribui continuamente os dons dos ministérios no seu corpo que é a Igreja, através dos quais, pela força derivada d'Ele, nos prestamos mutuamente os serviços para a salvação, de tal forma que, vivendo a verdade na caridade, em tudo cresçamos n'Ele que é nossa Cabeça (cf. Ef 4,11-16).
    §8: A Igreja simultaneamente visível e invisível: "... assim como Cristo consumou a obra da redenção na pobreza e na perseguição, assim a Igreja é chamada a seguir o mesmo caminho a fim de comunicar aos homens os frutos da salvação. (...) a Igreja, embora necessite dos bens humanos para executar sua missão, não foi instituída para buscar a glória terrestre, mas para proclamar, também pelo seu próprio exemplo, a humildade e a abnegação. Cristo foi enviado pelo Pai para 'evangelizar os pobres, sanar os contritos de coração'(Lc 4,18), 'procurar e salvar o que tinha perecido' (Lc 19,10): semelhantemente a Igreja cerca de amor todos os afligidos pela fraqueza humana, reconhece mesmo nos pobres e sofredores a imagem de seu Fundador pobre e sofredor. Faz o possível para mitigar-lhes a pobreza e neles procura servir a Cristo. Mas enquanto Cristo, 'santo, inocente, imaculado' (Heb 7,26), não conheceu o pecado (cf. 2 Cor 5,21), mas veio para expiar apenas os pecados do povo (cf. Heb 2,17), a Igreja, reunindo em seu próprio seio os pecadores, ao mesmo tempo santa e sempre na necessidade de purificar-se, busca sem cessar a penitência e a renovação".

    CAPÍTULO II: O POVO DE DEUS
    §9: Nova Aliança e Novo Povo: "... Escolheu por isso a Israel como o Seu povo. Estabeleceu com ele uma aliança. E instruiu-o passo a passo. Na história deste povo de Deus Se manifestou a si mesmo e os desígnios da Sua vontade. E santificou-o para Si. Tudo isso, porém, aconteceu em preparação para aquela nova e perfeita aliança que se estabeleceria em Cristo, e para transmitir uma revelação mais completa através do próprio Verbo de Deus feito carne. (...) Foi Cristo quem instituiu esta nova aliança(cf. 1 Cor 11,25), chamando de entre judeus e gentios um povo, que junto crescesse para a unidade, não segundo a carne, mas no Espírito, e fosse o novo Povo de Deus. Na verdade os que crêem em Cristo, os que renasceram não de semente corruptível mas incorruptível pela palavra do Deus vivo(cf. 1 Pd 1,23), não da carne mas da água e do Espírito Santo(cf. Jo 3,5-6), são finalmente constituídos 'em linhagem escolhida, sacerdócio régio, nação santa, povo adquirido... que outrora não eram, mas agora são povo de Deus' (1 Pd 2,9-10)".
    §10-11: O sacerdócio comum e seu exercício nos Sacramentos: "... todos os discípulos de Cristo, perseverando em oração e louvando juntos a Deus (cf. At 2,42-47), ofereçam-se como hóstia viva, santa, agradável a Deus (cf. Rom 12,1). Por toda a parte dêem testemunho de Cristo. E aos que pedirem dêem as razões da sua esperança da vida eterna (cf. 1 Pd 3,15).
    O sacerdócio comum dos fiéis e o sacerdócio ministerial ou hierárquico ordenam-se um ao outro, embora se diferenciem na essência e não apenas em grau. Pois ambos participam, cada qual a seu modo, do único sacerdócio de Cristo (Pio XII). O sacerdote ministerial, pelo poder sagrado de que goza, forma e rege o povo sacerdotal, realiza o sacrifício eucarístico na pessoa de Cristo e O oferece a Deus em nome de todo o povo. Os fiéis, no entanto, em virtude de seu sacerdócio régio, concorrem na oblação da Eucaristia e o exercem na recepção dos sacramentos, na oração e ação de graças, no testemunho de uma vida santa, na abnegação e na caridade ativa.
    (...) Incorporados à Igreja pelo batismo, os fiéis são delegados ao culto da religião cristã em virtude do caráter, e, regenerados para serem filhos de Deus, são obrigados a professar diante dos homens a fé que receberam de Deus pela Igreja (S. Tomás de Aquino). Pelo Sacramento da confirmação são vinculados mais perfeitamente à Igreja, enriquecidos de especial força do Espírito Santo, e assim mais estritamente obrigados à fé que, como verdadeiras testemunhas de Cristo, devem difundir e defender tanto por palavras como por obras. Participando do sacrifício eucarístico, fonte e ápice de toda a vida cristã, oferecem a Deus a Vítima divina e com Ela a si mesmos. Assim, quer pela oblação, quer pela sagrada comunhão, todos - cada um segundo a sua condição - exercem na ação litúrgica a parte que lhes é própria.
    Aqueles que se aproximam do Sacramento da penitência obtêm da misericórdia divina o perdão da ofensa feita a Deus e ao mesmo tempo são reconciliados com a Igreja que feriram pecando e a qual colabora para sua conversão com caridade, exemplo e orações. Pela sagrada unção dos enfermos e pela oração dos presbíteros, a Igreja toda entrega os doentes aos cuidados do Senhor sofredor e glorificado, para que os alivie e salve (cf. Tgo 5,14-16). Exorta os membros a que livremente se associem à paixão e morte de Cristo (cf. Rom 8,17; Col 1,24; 2 Tim 2,11-12; 1 Pd 4,13) e contribuam para o bem do Povo de Deus. São instituídos, ainda, em nome de Cristo aqueles dentre os fiéis que são assinalados pela Sagrada Ordem, a fim de apascentarem a Igreja pela palavra e pela graça de Deus. Os cônjuges cristãos, enfim, pela virtude do sacramento do Matrimônio, pelo qual significam e participam do mistério de unidade e fecundo amor entre Cristo e a Igreja (cf. Ef 5,32), ajudam-se a santificar-se um ao outro na vida conjugal bem como na aceitação e educação dos filhos...
    Munidos de tantos tão salutares meios, todos os cristãos de qualquer condição ou estado são chamados pelo Senhor, cada um por seu caminho, à perfeição da santidade pela qual é perfeito o próprio Pai.

    04. A MISSÃO DO POVO DE DEUS: FUNDAMENTOS TEOLÓGICOS 4


    1. A Missão5: A Igreja é chamada por Deus a realizar uma missão no mundo. Tal missão, prosseguimento da prática de Jesus Cristo, que "não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate de todos" (Mc 10,45), é o serviço que ela deve prestar. A compreensão da missão da Igreja vai aprofundando-se na medida em que a Igreja presta atenção aos "sinais dos tempos" e às mudanças na história humana. Podemos medir os passos dados pela Igreja na compreensão de si mesma e da sua missão, se considerarmos os avanços do Magistério e da reflexão eclesial desde o Concílio Vaticano II até hoje.
    A MISSÃO, OBRA DE DEUS. (...) A LG declara: "a Igreja é, em Cristo, como que sacramento, isto é, sinal e instrumento, da união íntima com Deus e da unidade de todo o gênero humano" (LG 1). A GS acrescenta que "a Igreja é o sacramento universal da salvação, manifestando e atuando simultaneamente o mistério do amor de Deus pelos homens"; ou seja, não é apenas sinal, mas já, de algum modo, realização do Reino de Deus (GS 45a).
    A MISSÃO, SERVIÇO DO REINO. Após o Concílio, a teologia cristã insistiu de forma enfática sobre a necessidade de assumir a missão não só como "implantação da Igreja", mas também como "serviço ao mundo", ou, mais propriamente, ao Reino de Deus e à "Paz" (shalon) que este traz à humanidade. Tal concepção encontrou ampla receptividade também na América Latina, onde foi destacado o empenho dos cristãos na luta pela justiça e pela libertação humana, o que, aliás, tinha sido reconhecido pelos Sínodos de 1971 e 1974 (EN).
    MISSÃO E DIÁLOGO. O Concílio Vaticano II e o Papa Paulo VI já haviam insistido sobre a necessidade do diálogo com a sociedade contemporânea e com as outras Igrejas Cristãs. Em particular, no contexto do tema da liberdade religiosa, o Concílio afirma: "A verdade deve ser buscada pelo modo que convém à dignidade da pessoa humana e da sua natureza social, i.é., por meio de uma busca livre, com a ajuda do magistério ou do ensino, da comunicação e do diálogo, com os quais os homens dão a conhecer uns aos outros a verdade que encontraram ou julgam ter encontrado, a fim de se ajudarem mutuamente"(DH).
    A NOVA EVANGELIZAÇÃO. Já Paulo VI considerava necessário retomar a evangelização para superar a ruptura entre o Evangelho e a Cultura, a Fé e a Vida. O papa João Paulo II (RM) julga-a necessária nos Países onde grupos inteiros de batizados perderam o sentido vivo da fé, não se reconhecendo já como membros da Igreja e conduzindo uma vida distante de Cristo e de seu Evangelho. Em nosso País, como em geral na América Latina, embora haja situações muito diversificadas, não há dúvida de que uma nova evangelização é imprescindível. Ela será inspirada pela consciência das exigências da evangelização que a Igreja adquiriu nas últimas décadas, mas deverá também prestar contínua atenção às mudanças que vão acontecendo e aos novos desafios que surgem.
    A COMPETÊNCIA DOS LEIGOS. Não há dúvida de que a tarefa de promover a justiça e a paz, de efetivamente prestar solidariedade e serviço aos irmãos, especialmente aos mais necessitados, é em primeiro lugar responsabilidade dos cristãos que têm competência na economia, na política, nas relações internacionais, no sindicato, nas organizações assistenciais, nos movimentos populares, nas pastorais sociais. (...) os leigos devem agir especialmente lá onde têm competência e preparo específico.
    Em nosso País, muitas vezes de forma humilde e escondida, outras vezes através de uma atuação pública e destemida, muitos leigos e leigas cristãos lutaram e lutam pela justiça e a paz, dando corajoso testemunho evangélico e contribuindo para o serviço do mundo, cuja responsabilidade última cabe a todo povo de Deus. Ao mesmo tempo, leigos e leigas contribuem para a edificação da comunidade eclesial, à qual prestam muitos serviços ou ministérios com generosidade e competência. Dessa forma, a missão evangelizadora da Igreja é realizada por todo o povo de Deus, com sua variedade de vocações e ministérios - ministros ordenados, consagrados e consagradas, leigos e leigas - que se harmonizam, sem confundir-se, na realização da tarefa comum.

    2. O Povo de Deus6
    IGREJA DA TRINDADE SANTA. A Igreja tem consciência de ser uma presença diferente no mundo. Ela sabe que está no mundo, mas não é do mundo(Jo 17,14). Sua raiz última é o mistério insondável do Pai, que, por Cristo e no Espírito, quer que todos os homens e mulheres participem de sua vida de infinita e eterna comunhão, na liberdade e no amor, vivendo como filhos e filhas, irmãos e irmãs.
    MISTÉRIO DE COMUNHÃO. A Igreja é, em primeiro lugar, um mistério de comunhão, que reflete, com as limitações de seus membros e os limites do tempo e do espaço, o mistério da comunhão trinitária. A comunhão trinitária torna-se, então, fonte da vida e da missão da Igreja, modelo de suas relações e meta última de sua peregrinação.
    POVO DE DEUS. O Concílio apresentou a Igreja como Mistério e em seguida como Povo de Deus. Estas duas noções não estão justapostas nem sobrepostas, mas intimamente relacionadas: se a primeira "fala da Igreja em toda a sua amplitude, desde o início da criação no desígnio de Deus, até à consumação celeste..., a outra trata do mesmo mistério, enquanto, no tempo intermédio entre a Ascensão do Senhor e a sua Parusia gloriosa, caminha para a meta bem-aventurada. O mistério de comunhão exprime-se no tempo - que está entre o primeiro e o segundo Advento do Filho - na comunhão articulada do Povo de Deus. Esta expressão evoca diferente aspectos da complexa realidade que é a Igreja.
    POVO LIVRE E FRATERNO. A expressão concreta do preceito central dito em Ex 20,1-11 é a solidariedade com o pobre. Javé é o Deus dos pobres! Justamente por isso, o significado do êxodo e da Aliança é ao mesmo tempo religioso (revela o rosto de Deus como sumamente próximo e soberanamente transcendente) e social (revela e tutela a dignidade de todo ser humano, sobretudo dos pobres, propondo o estatuto ideal de um povo livre e solidário). A posse da terra - dom de Deus a seus filhos - deve ser o "sacramento" a garantir a liberdade, a dignidade e a segurança conquistadas através do êxodo. O êxodo tinha por meta a liberdade e a fraternidade perfeitas entre os israelitas, filhos e filhas de Deus, que é Deus da Vida! A nova e perfeita Aliança, porém, só se dará em Cristo.
    POVO QUE ABRE CAMINHO PARA O SERVIÇO. Em segundo lugar, a expressão Povo de Deus recorda que a Igreja é uma realidade histórica, fruto da livre iniciativa de Deus e da livre resposta dos seres humanos. Por isso, ela não pode furtar-se, em nenhuma circunstância, sobretudo nas grandes crises históricas - aquelas que marcam as viradas de civilização e de cultura, como a que estamos vivendo hoje - ao dever de fazer escolhas e de abrir caminhos.
    MAIS IMPORTANTE É O QUE NOS UNE: A CONDIÇÃO CRISTÃ. A expressão Povo de Deus indica a Igreja "em sua totalidade", ou seja, naquilo que é comum a todos os seus membros. Esta foi, sem dúvida, uma das maiores aquisições do Vaticano II e deve fazer valer todo o seu peso quando se trata de refletir sobre missão da Igreja e ministérios dos cristãos e cristãs leigos. (...) A noção de Povo de Deus, com efeito, exprime a profunda unidade, a comum dignidade e a fundamental habilitação de todos os membros da Igreja à participação na vida da Igreja e à corresponsabilidade na missão. Antes e além de toda e qualquer diferenciação carismática e ministerial, está a condição cristã, que é comum a todos os membros da Igreja.

    EM RESUMO:
    Igreja: Povo de Deus
             1. A origem da Igreja está escondida no próprio Deus, no seu mais profundo.
             2. Três razões do porque a Igreja pertence a Deus= a) foi desejada por Deus desde a eternidade no seu desígnio do               amor fontal; b) preparada na eleição de Israel; c) o sentido de existir da Igreja é celebrar a glória do Pai.

             3. Agrada a Deus salvar os homens de forma comunitária, por isso Deus quis constituir um povo”. (LG 9)
             4. O desígnio salvífico de Deus abraça a todos, ninguém está excluído” (LG 2)
             5. A Igreja é o Povo de Deus em comunidade de salvação.

    Igreja: Corpo de Cristo
             1. Enquanto Corpo de Cristo, a Igreja adquire uma personificação, um protagonismo maior. Este Corpo designa               aquele setor da humanidade que vive a vida de Cristo e que continua sua missão em meio à humanidade.
             2. Como Corpo de Cristo, a Igreja possui uma dimensão não somente ecumênica e universal, mas também cósmica               e dinâmica.
             3. A Igreja é Corpo de Cristo e Cristo é a cabeça da Igreja. Existe um fluxo vital e salvífico de Cristo sobre a Igreja. Já a               ideia paulina do novo Adão aponta para esta direção.
             4. A soberania de Cristo se manifesta na Igreja. Ela completa o que falta à plenificação de uma unidade já introduzida               por Cristo no mundo antes disperso e sem coerência.
             5. A Igreja é Corpo de Cristo especialmente na celebração Eucarísitica, que é o momento no qual a Igreja mais se               realiza.

    Igreja: Templo do Espírito
             1. A categoria “Templo do Espírito” não foi tão desenvolvida como as outras duas no Concílio Vaticano II e há de ser               situada no contexto do Antigo e do Novo Testamentos.
             2. Antigo Testamento: os santuários eram lugares onde ocorriam teofanias ou revelações divinas.
             3. Templo de Jerusalém: habitação da glória de Deus (2Cor 5,14; Ez 10,18; 11,23).
             4. Jesus: no Verbo Encarnado encontram-se sintetizados todos os aspectos essenciais do templo do AT (lugar               supremo da comunicação com Deus, morada de Deus e de sua glória, culto supremo ao Pai).
             5. Vaticano II: o Espírito mora na Igreja como num templo (LG 4, 17, 41; AG 7; PO 1), porém dá-se maior importância               a sua presença na Igreja.
             6. A Igreja, como conjunto de batizados, é o âmbito pessoal que o Espírito vai abrindo e recriando para que sua               personalidade divina possa ser experimentada em meio ao mundo e a história.
             7. A Igreja pode ser considerada como “sacramento do Espírito”: a Igreja é o âmbito em que o Espírito aparece com               maior clareza.
             8. Para que a edificação da Igreja por meio do Espírito alcance seus objetivos, o Espírito outorga seus dons e               carismas.
             9. Podemos também dizer que o Espírito é a alma da Igreja: principio de vitalidade interior da Igreja desde sua origem               e ao longo de sua edificação.

    05. REFLEXÃO SOBRE O MOMENTO ECLESIAL 7


    Muitos sinais nos sugerem que vivemos momento de transição. Há um cansaço civilizacional. A modernidade avançada tem mostrado sintomas de exaustão. O fenômeno religioso explode tão vigoroso que assusta as instituições religiosas. A Igreja participa dessa situação de perplexidade. Como ele poderá configurar-se no próximo século? Que cenários de Igreja são pensáveis?
    Em vez de uma análise da atual conjuntura, ensaiaremos aqui alguns cenários possíveis para a Igreja nas próximas décadas. Escolhendo determinados elementos fundamentais que se prevêem dominar a situação da Igreja, procurar-se-á ver as possíveis reações da Igreja, configurando assim diferentes cenários. Neles examinaremos a vida interna da Igreja e sua relação com a sociedade.
    Os cenários da Igreja, portanto, procuram descrever como se estruturam a Igreja com todos os seus elementos sob determinada força hegemônica, dominante. Os cenários giram em torno dessas forças capazes de reordenar toda a figura da Igreja. Em cada cenário estão todos os elementos da Igreja, mas organizados diferentemente por causa do predomínio de um deles. Este estrutura todos os outros. Escolhemos quatro elementos estruturantes: a Instituição, o Carisma, a Palavra, a Práxis da libertação. Portanto, teremos quatro cenários.

    A - CENÁRIO DE UMA IGREJA DA INSTITUIÇÃO.
    1. Descrição: Neste cenário, a Igreja reforça o aspecto estritamente institucional nos eus três centros: a cúria romana, a diocese e a paróquia. Valoriza a visibilidade institucional nos seus três centros: a cúria romana, a diocese e a paróquia. Valoriza a visibilidade de sua presença diante das outras dominações religiosas na sociedade. Quer marcar atuação por meio de seu poder. Outrora exercia-o no campo econômico, político e social. No futuro, fá-lo-á no espaço da cultura.
    A Teologia, a serviço do Magistério Oficial, interpretará para o católico médio a doutrina comum da Igreja, expressa em seus documentos. As teologias européias de cunho liberal e as teologias da libertação do Terceiro Mundo sofrerão restrições à medida que se afastem de interpretações consensuais do Magistério, deixando sem resposta perguntas da modernidade, da pós-modernidade e da situação social. Predominará uma teologia oficial. Qualquer outra teologia, diferente da oficial, sofrerá forte pressão da Instituição. Correr-se-á o risco de elaboração de uma teologia paralela que prescindirá da teologia oficial, evitando, porém todo confronto. Ela será ora tolerada, ora contida. O documento da Congregação para a Doutrina da Fé - Instrução sobre a vocação eclesial do teólogo, SP., Paulinas, 1990- serve de prenúncio do que serão as intervenções no campo doutrinal, alertando contra o perigo da dissensão.
    A leitura da Escritura poderá gozar de certa liberdade no campo estritamente científico das Revistas Especializadas. A exegese no campo popular padecerá restrições.
    A Catequese se pautará pelo Catecismo da Igreja Católica para evitar novidades perturbadoras, buscando enquanto possível uma unidade de doutrina até as raias da uniformidade. A Liturgia gozará da liberdade medida pelas atuais Normas e Prescrições. Dir-se-á por terminado o tempo das experiências novas. Fixar-se-ão as formas já vigentes e sancionadas pelos órgãos competentes da Igreja. Viver-se-á um equilíbrio difícil entre o cumprimento das Normas Litúrgicas e a onda Carismática que tende a desbordar dos Ritos e Rubricas tradicionais.
    Os leigos ocuparão presença importante na Igreja por meio dos movimentos de espiritualidade e apostolado, influenciando o clero e a vida religiosa. Esses movimentos cumprirão a função de reforçar a instituição eclesial e dar-lhe vida, usando de suas enormes possibilidades de poder de organização. Eles conferirão à Igreja uma visibilidade desejada e manter-se-ão unidos sob as orientações vindas de seus centros, situados principalmente na Europa e nos Estados Unidos.
    A escolha dos bispos obedecerá também a critérios de fidelidade, obediência servil à Instituição, mesmo à custa de outros valores.
    Será um cenário da unidade, da visibilidade, da autoridade interna na Igreja e de uma presença na sociedade. Para tanto, a Igreja disputará espaços cada vez maiores na publicidade midiática. Nesse contexto, o clero atribuirá mais importância à exterioridade comunicativa, visual e midiática da mensagem do que a seu conteúdo. Formar-se-á mais para suas funções sagradas e institucionais, com maior reconhecimento social e com previsível aumento de vocações. Os seminários se pautarão por tal modelo.
    A Vida Religiosa retomará os pontos centrais da interioridade espiritual e do serviço pastoral nos moldes e orientações das dioceses.
    No campo da moral, haverá maior atenção aos temas relacionados com a moral sexual, familiar e com a problemática da bioética, com menor preocupação pela temática social.
    As forças divergentes presentes terão várias opções, desde o simples silêncio até a construção de uma "Igreja Subterrânea".
    Nesse cenário, prevê-se a saída da Igreja das pessoas mais críticas e o retorno de outras que buscam uma Igreja mais firme nos pontos de referência.
    Na relação com a Sociedade, a Igreja procurará maior entendimento a fim de evitar conflitos do passado. Também insistirá na defesa dos próprios interesses corporativos. Diminuirá sua presença crítica.
    No campo cultural, pelo contrário, assumirá uma posição de resistência, crítica e combativa, diante dos desvalores da modernidade avançada, sobretudo dos que ameaçam a fé, a moral, a estabilidade familiar. Da modernidade, fará uso de suas possibilidades técnicas, especialmente da mídia. Buscará ser uma Igreja visível por meio de presença nos canais de TV, nas rádios, na imprensa.
    Diante do surto religioso, a Instituição terá duas opções básicas. Domesticá-lo ou afastar-se dele. Pela primeira maneira, inseri-lo-á dentro de seu universo institucional, evitando que ele transborde de seus limites. Na segunda, proscrevê-lo-á como abuso ou deturpação do genuíno espírito católico.
    A Igreja se preocupará com os pobres por meio de obras de assistência, mas não na perspectiva crítico-social própria da pastoral da libertação. Suprirá o Estado em suas deficiências. Trabalho de suplência. Poderá até mesmo receber apoio das classes burguesas e empresariais como lenitivo social a fim de evitar alguma turbulência social.
    2. Plausibilidade do Cenário: O Cenário está aí. Tem chance de vingar? Sim, se se considera o jogo das forças presentes vinculadas a um processo crescente de centralização. Pesa a favor de tal cenário a força da longa experiência e tradição da Igreja da Instituição. Não, se se olha para futuro mais distante. A Igreja esbarrará com uma sociedade e cultura cada vez mais avessas a toda imposição autoritarista. Tanto as forças culturais pós-modernas quanto as aspirações religiosas vão na direção de estruturas mais flexíveis e adaptadas às experiências pessoais. Busca-se cada vez mais uma religião individual, subjetiva, confeccionada ao gosto das pessoas. Teologicamente tal cenário não responde a uma eclesiologia articulada com a dimensão pneumatológica.
    Medindo as duas forças antagônicas, fica difícil prever o resultado do embate.

    B - CENÁRIO DE UMA IGREJA DO CARISMA.
    1. Descrição: É um cenário quase oposto ao anterior. É o triunfo do carisma, da espiritualidade, da mística, das experiências pessoais subjetivas. Carisma entende-se em contraposição à instituição, sem que haja oposição entre ambas. É o lado subjetivo da inspiração, de originalidade, de espírito, de vida. A Igreja Católica é duplamente carismática: vive do carisma do Espírito Santo e sua própria Instituição é tocada por essa força do Espírito. Quando se pensa num cenário do carisma, quer-se chamar a atenção tanto para a presença mais acentuada do Espírito quanto para o lado inspirador e espiritual das próprias instituições.
    Nesse cenário, o atual surto religioso, espiritual, místico encontrará incentivo e campo propício para crescer no interior da Igreja.
    A Escritura frequentará as mãos dos fiéis, que encontrarão nela, de maneira imediata e literal, conselhos, consignas de ação, palavras de estímulo e questionamentos. Não se recorrerá aos aparatos científicos, mas à espontaneidade da leitura direta. Ela será lida como um livro de consolo e receitas pessoais a modo dos livros de auto-ajuda com o esforço da autoridade de Deus.
    A teologia visará mais a nutrir o coração, o lado emocional da vida cristã do que a iluminar a inteligência. Em vez, propriamente, de teologia crítica, cultivar-se-á uma de natureza espiritual em vista de nutrir a espiritualidade carismática em expansão.
    A liturgia se transformará na grande festa religiosa e emocional, que se prolongará em ritos alegres e estéticos ao sabor da criatividade da comunidade. A Igreja carismática será fundamentalmente celebrativa.
    Nela os leigos terão muita liberdade no campo da espiritualidade e das celebrações. O clero se formará e exercerá sua missão nutrindo e animando os leigos nessas práticas. O cristocentrismo, que marcara até agora a vida dos cristãos, cede lugar para uma crescente presença e atuação do Espírito Santo, ora de maneira integrada, ora de forma extremada em detrimento do seguimento de Jesus e do compromisso com os pobres.
    A ação pastoral social receberá menos realce em favor da interiorização e privatização da vida cristã. A Igreja vai interessar-se por uma presença espiritual especialmente na mídia, preparando-se melhor para o uso desses instrumentos de comunicação.
    A vida religiosa buscará ser centro irradiador de espiritualidade e não tanto manter obras evangelizadoras e sociais.
    Esse clima espiritual reinante dificultará o envolvimento da Igreja com a sociedade e o mundo. Ela procurará ser um oásis de experiências espirituais, recorrendo a técnicas de espiritualização. Cenário que virá ao encontro do surto religioso atual, sendo alimentado por ele e reforçando-o em toda a sua ambigüidade. Pois o fenômeno religioso poderá ser tanto um campo fértil para o crescimento da fé quanto todo o contrário. Afastará as pessoas do núcleo da fé cristã, centrada no seguimento de Jesus, para uma comunhão emocional, vaga, sem compromisso com o Mistério Sagrado impessoal.
    A Igreja, que terá dificuldades enormes com a cultura pós-moderna, arredia a toda instituição, encontrará uma janela para ela no surto religioso. Investirá nesse fenômeno para marcar presença nele.
    Todas as realidades, que não conseguirem ser redimensionadas nessa perspectiva espiritualista, tenderão a se tornar marginalizada. As próprias atividades sociais se vestirão do toque espiritualista.
    2. Plausibilidade do Cenário: Tal cenário está, no momento, em alta, especialmente neste final de milênio e pós-modernidade. No entanto, vai defrontar-se com os avanços da mentalidade tecnocientífica. São previsíveis conflitos com a Igreja institucional.
    Teologicamente, aparece clara a ambigüidade do fenômeno religioso diante da fé cristã e das exigências de seguimento de Jesus.

    C - CENÁRIO DE UMA IGREJA DA PRÁXIS LIBERTADORA.
    1. Descrição: A Igreja fará as opções básicas do compromisso com a libertação, com os pobres, com as CEBs.
    Nesse cenário, predominará a leitura popular da Escritura nos círculos bíblicos, em que se articulam fé e vida. A teologia seguirá o método desenvolvido na América Latina nas últimas décadas: ver, julgar e agir. A Igreja se estruturará em comunidades de base. Surgirá a figura nova da Assembléia do Povo de Deus, como órgão orientador principal da Igreja local.
    A Catequese, a liturgia, a pastoral assumirão a perspectiva libertadora. Multiplicar-se-ão as celebrações da Palavra sem ministro ordenado. Os movimentos perderão a relevância que tinham adquirido, já que o princípio ordenador da Igreja serão as comunidades eclesiais de base. O leigo assumirá relevância maior na coordenação das comunidades e nos ministérios, redimensionando o papel do clero e, por conseguinte, sua preparação nos seminários. A espiritualidade do seguimento de Jesus na relação com a libertação do pobre alimentará a vida cristã. A Vida Religiosa inserida no meio popular se fortalecerá, influenciando as Congregações na sua espiritualidade e missão. As vocações originar-se-ão, de preferência, dos meios populares ou de grupos sintonizados com eles.
    A presença da Igreja na Sociedade se tornará mais expressiva e crítica, seja por meio de seus ensinamentos sociais, seja mediante práticas pastorais sociais. Em relação aos meios de comunicação social, privilegiar-se-ão as rádios comunitárias, os programas populares, a presença no meio das camadas mais simples da sociedade. Valorizar-se-á o papel da religiosidade popular, seja sob o aspecto de expressão da vida do povo, seja sob as suas possibilidades libertadoras.
    2. Plausibilidade do Cenário: As chances de êxito deste cenário fundam-se na tradição de Medellin e Puebla das últimas três décadas, que conseguiu presença significativa em nosso continente por meio de uma pastoral libertadora, de uma teologia consistente e de um testemunho de vida até o martírio.
    As dificuldades vêm por conta da crise das esquerdas e das militâncias com a queda do Socialismo e com as sucessivas derrotas das forças populares. O clima de pós-modernidade e de neoliberalismo não favorece tal cenário.
    Numa perspectiva teológica, reconhecem-se o caráter evangélico e a importância da experiência iniciada em Medellin e prosseguida nas últimas décadas. Há, porém, um risco de milenarismo.

    CONCLUSÃO
    A história nunca está fechada nem aberta arbitrariamente para nenhuma possibilidade. Nada acontece nela por pura fatalidade. Todo evento, mesmo com dose aleatória, pode ser inserido num universo de significado. Esta é nossa tarefa humana e de cristãos. Esta necessita encontrar pontos de apoio. Se num juízo crítico desejamos um cenário, cabe-nos colocar as condições de sua viabilidade. No momento, parece-me que os dois primeiros cenários gozam de maior probabilidade, embora julgue pessoalmente os dois últimos como mais afinados com a proposta evangélica.
    Portanto, vários cenários são possíveis. Quando configurados, toca-nos viver dentro deles na coerência de nossas opções, mesmo que não favorecidas por eles. Antes de eles imporem-se, cabe-nos, por conseguinte, colocar as condições que favoreçam aquele cenário que julgamos mais consentâneo com nossa visão de Igreja.

    Questionamento:
    1. Em que Cenário você e sua comunidade se encontram? Você sente necessidade de uma maior adequação?
    2. Quais os aspectos do texto que você destacaria como pontos iluminativos para a sua comunidade? Por quê?

    3. BIBLIOGRAFIA PARA APROFUNDAMENTO:
    1- FORTE, B. A Igreja ícone da Trindade. São Paulo: Loyola, 2005.
    2- PIÉ-NINOT, S. Introdução à Eclesiologia. São Paulo: Loyola, 2008.
    3- RATZINGER, J. Compreender a Igreja hoje. Petrópolis: Vozes, 2005.
    4- Constituição Lumen Gentium, Cap. I, in: Compêndio Vaticano II. São Paulo: Paulus, 1997



    1 SCHNEIDER, Theodor (org). Manual de Teologia Dogmática. Vol. II. Petrópolis: Vozes, 2002, p 71-86. Voltar

    2 Cf. J. B. LIBANIO. Palestra proferida aos Bispos do Leste II, em novembro de 2006. Voltar

    3 Lumen Gentium = Compêndio do Vaticano II, Petrópolis: Vozes, 1986. Voltar

    4 CNBB. Missão e Ministérios dos Cristãos Leigos e Leigas = Col. Documento 62. São Paulo: Paulinas, 1999. Voltar

    5 CNBB. Op. Cit., pp. 37ss. Voltar

    6 CNBB. Op. Cit., pp. 47ss. Voltar

    7 J. B. LIBÂNIO. "Cenários da Igreja", Revista Vida Pastoral n. 215 (2000) pp. 2-6. Voltar