PAULO, POLÍTICO CONSERVADOR?



O que se costuma dizer



Pode-se dizer lugar comum o afirmar que Paulo era cidadão romano, que pertencia à elite social e intelectual, que era grande orador, terrivelmente machista, defensor da submissão às autoridades civis e teólogo do poder político. Já ouvi dizer, inclusive, que teria sido oficial graduado do exército romano. Se foi perseguido alguma vez, isso se deu por motivos religiosos, discordância com sua pregação, ou por ciúmes diante do seu desempe-nho oratório e capacidade de convencer as pessoas, sempre em ambientes inteiramente dominados pelos judeus. Movidos principalmente pela inveja, foram esses os seus verda-deiros inimigos e perseguidores. As autoridades do Império Romano sempre protegeram e defenderam Paulo das ameaças dos raivosos judeus.

O nosso escopo



Nosso objetivo neste artigo é abalar algumas dessas "certezas", especialmente no que se refere à posição política de Paulo. Vamos tentar descobrir se ele nunca teve mesmo problemas com as autoridades do Império, se jamais incomodou ou criticou, pelo contrário, sempre defendeu o status quo.

A causa dos mal-entendidos



É inegável que a maior causa de mal-entendidos com relação a Paulo é o livro dos Atos dos Apóstolos. Lucas, o autor do terceiro Evangelho e dos Atos, em termos políticos é extremamente conservador ou mesmo governista [1] . Para ele, jamais uma autoridade civil perseguiu ou criou problemas para Paulo ou qualquer dos Apóstolos. Se o faz alguma vez é por instigação dos judeus. Mesmo quando Agripa mata Tiago irmão de João e manda prender Pedro é para agradar aos judeus. Quando Paulo chega a uma cidade, segundo os Atos, tudo decorre dentro deste esquema: Pregação aos judeus, acolhida entusiástica da parte dos prosélitos e dos tementes a Deus, inveja, ciúmes e perseguição por parte dos líde-res judeus. Inúmeras vezes é uma autoridade do Império quem livra Paulo e seus compa-nheiros das mãos dos judeus. Essa rotina dos Atos dos Apóstolos corresponde mesmo à re-alidade dos fatos, ou poderíamos colher outras informações que modificassem um pouco essa visão?

Nossa busca



Temos outra fonte a nos informar o que Paulo pensava, a maneira como agia e as reações que provocava. É o próprio Paulo, são as cartas escritas ou ditadas por ele. Vamos examiná-las comparando-as com os Atos dos Apóstolos. Assim ficará mais patente a in-tenção do autor de Atos e poderemos corrigir sua visão distorcida, embora justificável, da figura de Paulo.

Este não era um homem impassivelmente objetivo, ao contrário, era um apaixonado a defender com todas as forças os seus princípios. Sem dúvida, em seu ardor, terá exagera-do alguma vez, mas soube também amenizar e reinterpretar as próprias afirmações. Foi o que aconteceu entre Gálatas e Romanos. A distância no tempo, porém, entre suas cartas e os fatos é bem menor do que a distância que tem dos mesmos fatos o livro dos Atos dos Apóstolos, cerca de 30 anos. Quando Paulo dita as cartas, a situação é uma, os problemas estão aí e ele toma posição. Quando os Atos são escritos, aqueles problemas são coisa do passado e a situação é totalmente outra.

Como o próprio Paulo amenizou em Romanos muitas das afirmações e principal-mente a postura radical assumida em Gálatas, assim Lucas parece-me também pretender amenizar as posições críticas e combativas de Paulo que, trinta anos depois, poderiam criar problemas sérios para a caminhada harmoniosa da Igreja. Paulo, em cima dos fatos, com-pra a briga, os Atos, trinta anos depois, procuram conciliar. Aí se justificam as diferenças.

Socorro-me, evidentemente, apenas das cartas incontestavelmente paulinas e na se-qüência que a mim me parece, se não cronologicamente a mais provável, pelo menos a mais pedagógica, ou seja, 1Tessalonicenses, 1 e 2 Coríntios, Filêmon, Filipenses, Gálatas e Romanos. Julgo-a a mais pedagógica, porque essa seqüência ajuda a melhor acompanhar a evolução do conflito de Paulo com os discípulos de Tiago ou os judaizantes. Das outras cartas atribuídas a Paulo, alguma, como Efésios, por exemplo, pode até ter sido escrita por Lucas.

Comparando com Atos



Segundo os Atos, Paulo nasceu em Tarso na Silícia, de família judaica da mais alta posição na pirâmide social, pois detentora do título de cidadania romana, foi educado em Jerusalém aos pés do famoso rabino Gamaliel, era excepcional orador e seguia fielmente os ditames da fé farisaica. De Jerusalém ele sempre partiu, tanto para perseguir os cristãos como para anunciar o Evangelho.

Paulo mesmo jamais se diz cidadão romano. Em Fl 1,25 dá a impressão de ter "uma carta na manga" com a qual tem certeza de que escapará de ser condenado à morte. É mera hipótese imaginar que seja o título de cidadão romano, pode essa "carta na manga" ser até uma fuga com a ajuda de Áquila e Prisca, que, mais tarde, ele diz terem arriscado a vida para salvá-lo (Rm 16,3-4).

Quanto à sua origem de família judaica tradicional e conservadora das tradições dos pais, como também sua fé farisaica, ele confirma tudo em 2Cor 11,22; Fl 3,5-6; Gl 1,14 e Rm 11,1.

Quanto à educação aos pés de Gamaliel em Jerusalém e suas ligações com a cidade, ele nada diz, ao contrário, em Gl 1,22-23 diz-se totalmente desconhecido das comunidades cristãs da Judéia, o que parece negar sua estada em Jerusalém antes da conversão (Gl 1,18). Já Murphy O'Connor, a partir da tese de que não havia fariseus fora de Jerusalém, ameniza as afirmações de Paulo e pende para confirmar o que dizem os Atos.

Quanto à sua brilhante capacidade oratória que provocou a inveja dos judeus, deu um espetáculo em Atenas e por pouco não dobrou Agripa II (At 26,28), tanto ele (1Cor 2,1-5; 2Cor 11,6) quanto seus adversários em Corinto (2Cor 10,10) a negam peremptoria-mente.

Para se manter economicamente, exercia um trabalho manual, penoso, sem dúvida (1Ts 2,9; 1Cor 9,6-18; 2Cor 11,7.23.27. e 12,13-18), o que os Atos não negam.

Segundo os Atos (9,3-30; 22,6-21; 26,13-26), Saulo se converteu nas proximidades de Damasco, ficou breve tempo na cidade e, quando saiu, tomou o caminho de Jerusalém.

Segundo o próprio Paulo (Gl 1,11-21), sua conversão aconteceu realmente em Da-masco ou nas proximidades. Mas logo após a conversão não subiu a Jerusalém para estar com os Apóstolos, primeiro foi para a Arábia, voltou a Damasco e só então, três anos de-pois, foi a Jerusalém para conhecer pessoalmente [2] Cefas.

Segundo os Atos, Paulo sempre foi perseguido pelos judeus ou por instigação deles. Ele não nega ter sido perseguido pelos judeus. Em 2Cor 11,24 diz ter sido cinco vezes a-çoitado nas sinagogas, mas pouco adiante cita também perigos ou ameaças por parte dos gentios, isto é, das autoridades civis.

Um episódio, que pela identidade de muitos detalhes só pode ser o mesmo, deixa clara a diferença entre o autor dos Atos dos Apóstolos e o próprio Paulo. É sua fuga da ci-dade de Damasco dentro de um cesto. Segundo os Atos (9,23-25) os judeus é que vigiavam as portas da cidade para impedir a fuga de Paulo. A perseguição seria por motivos religio-sos. No entanto, segundo o próprio Paulo em 2Cor 11,32-33, foi a autoridade civil, o etnar-ca ou governador, funcionário do rei nabateu Aretas, quem pôs guardas às portas da cidade para impedir a sua fuga. Perseguição política, sem dúvida.

Por que o funcionário do rei Aretas veio a se preocupar com a pregação de Paulo? Terá sido por uma questão religiosa? Qual o interesse dele em se envolver numa questão interna dos judeus? Em que aspectos e como a pregação de Paulo poderia significar uma ameaça para a administração de Aretas, o mais poderoso rei-cliente de Roma?

Sem dúvida o anúncio do Messias-Jesus e da iminente chegada do Reino de Deus devia incomodar os poderosos. Os acontecimentos políticos, como ascensões e quedas das grandes figuras, eram vistos pelo povo sob o olhar da fé. A derrota militar de Herodes An-tipas diante exatamente de Aretas IV e sua caída em desgraça perante o imperador Calígula foram interpretados pelo povo como castigo pelo assassinato de João Batista. Assim tam-bém o anúncio do Reino "pés no chão" feito por Paulo deve ter provocado essas iras [3]. De-talhar mais seria especular muito. O fato é que segundo Paulo quem o perseguiu em Da-masco foi a autoridade política, segundo os Atos foram os homens religiosos, os judeus.

Tessalônica, Esperança versus Promessas



Em Tessalônica Paulo anuncia a esperança dos pobres contra as promessas dos grandes.

"Paz e segurança" era a promessa do Império bem viva na mente dos cristãos de Tessalônica. Paz e segurança é o desejo da elite social e econômica. Mas os neófitos da ca-pital da Macedônia eram gente extremamente pobre (2Cor 8,2), trabalhadores braçais, gen-te da labuta, da produção, da resistência, do cansaço [4]. Para esses, as promessas de paz e segurança pouco diriam.

Paz e segurança segundo K. Wengst[5] era um chavão, um slogan, uma promessa do Império Romano. Assim em 1Ts 5,3 Paulo está se referindo a essa promessa quando diz: "Quando todo o mundo estiver dizendo "Paz e segurança!", então, de repente, cairá sobre eles a ruína como as dores sobre a mulher grávida. E não conseguirão escapar".

Mas os cristãos não estão dormindo embalados por essas promessas, Paulo o segue dizendo nos versículos seguintes. O Império e os que se deixam levar por suas promessas estão grávidos de morte e ruína, só não podem prever a que momento chegam as contra-ções que anunciam o parto...

Os humildes trabalhadores braçais da comunidade cristã de Tessalônica tiveram es-perança - isso sim! - em Cabiros, hoje cooptado pela classe dirigente. O que Paulo anunci-ava, ou seja, o Messias Jesus, o crucificado, hoje Senhor ressuscitado, prestes a vir instau-rar o Reino de Deus, fez que recuperassem a esperança perdida.

Cabiros[6] era o padroeiro de Tessalônica, sua imagem estava em todos os cantos da cidade, especialmente nos locais e repartições públicas. Quem era ele? Tratava-se de um herói ou semideus da mitologia local, amigo e defensor dos pobres, assassinado e humilha-do pelos próprios irmãos. Por ele era grande devoção dos pobres, que esperavam sua volta um dia, para fazer-lhes justiça e realizar-lhes todas as esperanças. Tão grande era a devo-ção por Cabiros que, para cooptá-lo, a classe dirigente tinha feito dele o padroeiro da cida-de de Tessalônica.

A pregação de Paulo, o anúncio de Jesus, pobre galileu crucificado, agora ressusci-tado por Deus e prestes a voltar para instaurar o Reinado de Deus, inculturou-se em Cabi-ros, a esperança, então esmaecida, dos pobres de Tessalônica. Por isso os tessalonicenses abraçaram com tanto entusiasmo a nova fé a ponto de, superando as expectativas de Paulo (1Ts 3,10), tornarem-se tipos ou modelos para outros na Macedônia e na Acaia, antecipan-do-se a fama do seu entusiasmo à própria pregação de Paulo (1Ts 1,8).

Paulo teve de sair às pressas de Tessalônica. Segundo os Atos dos Apóstolos, foram os judeus que açularam alguns maus elementos encontrados na agorá para que denuncias-sem Paulo como subversivo, inimigo do Império, a anunciar um crucificado como Senhor em contraposição ao Imperador.

Perseguido, Paulo saiu da cidade, mas e aqueles que aderiram à sua pregação, tam-bém não terão sido perseguidos? Pelos judeus, como se poderia supor pelos Atos dos A-póstolos? Foram perseguidos, sim, mas por seus próprios concidadãos, os dirigentes civis do lugar, por motivo eminentemente político, então, e não meramente religioso. É o que diz Paulo em 1Ts 2,13-14. Aliás, para Paulo, as "tribulações" de que são vítimas os que acolheram fiel e alegremente o Evangelho é também um sinal de que são escolhidos de Deus (1Ts 1,4-6). Evangelho que não incomoda não é boa notícia.

Corinto, esquina do Império



Corinto fica numa encruzilhada geográfica, no ponto de encontro entre o lado ori-ental e o lado ocidental do Império Romano. Também cultural e ideologicamente tudo o que é mais representativo do poder global e dos globalmente dominados da época, lá se podia encontrar. De outra parte ali ficava a comunidade cristã com quem Paulo manteve o mais intenso intercâmbio epistolar. De nenhuma outra temos tantas informações.

Poder, bom nascimento, sabedoria e "espiritualidade" faziam as grandes diferenças entre "fortes" e "fracos". E tais diferenças são o melhor fio condutor para se entender a correspondência de Paulo com a comunidade cristã dessa esquina do Império. A grande maioria da comunidade não tinha poder, nem nome, nem sabedoria, nem "espiritualidade" (1Cor 1,26). Reproduzindo as estruturas do Império, o grupo menor, de poderosos, nobres, sábios e "espirituais", tinha maior influência, aparecia mais e também criava mais proble-mas.

A primeira questão abordada por Paulo na Primeira aos Coríntios é a dos grupelhos que, dos diversos missionários, queriam fazer senhores e ídolos em competição: "Eu sou de Paulo", "eu sou de Apolo", "eu sou de Cefas". Isso se fundava na cultura e na ideologia estrutural do Império. O espírito de clientelismo presente nos thiasoi ou collegia está sub-jacente à formação dos grupos que se diziam pertencer a este ou àquele evangelizador.

Não cabe aqui discutir, como o faz Wayne Meeks[7] , se o modelo que inspirou a or-ganização das comunidades paulinas foi o do patronato e clientela, o dos collegia, ou ou-tro. Não há dúvida, isso sim, de que a ideologia do Império, ou seja, o princípio da desi-gualdade social, que gera patronos, privilegiados benfeitores, e clientes, submissos servi-çais, que sustenta o pensamento único de espírito de competição e de endeusamento dos lí-deres, emblematicamente representado no culto imperial, teve grande influência na comu-nidade cristã de Corinto e deu vida aos grupos de Paulo, de Apolo, de Cefas etc.. E quem estaria incentivando o fervor e a competição entre os grupos a não ser a minoria poderosa, sábia e "espiritual" da comunidade? Não era ao seu estrelismo que tal mentalidade favore-cia?

A resposta de Paulo é radical. Ele não anunciou uma mensagem dentro dos padrões e critérios do mundo globalizado pelo Império, como pensariam os "fortes". Para a maiori-a, oprimida por esses critérios e ideologia, ele anunciou a boa notícia de um rei ungido, um Messias, que não era o endeusado Imperador, mas Jesus, o pobre galileu crucificado. E ele o fez coerentemente, sem poder e sem sabedoria, sem ceder um mínimo que fosse ao pen-samento dos "fortes". Desenvolve, então, a teologia da cruz que desfaz toda a ideologia imperial de desigualdade social, competição e endeusamento.

Seu raciocínio se desenvolve desde 1,10 até 4,21, mas chega ao ápice quando, em 3,13-23, pede que esses "fortes" deixem a ideologia do Império, a sabedoria do mundo, e assumam a sabedoria de Deus. Segundo essa, não são os fiéis que pertencem aos pregado-res como clientes aos patronos. Os pregadores, missionários ou dirigentes eclesiais é que pertencem ao povo fiel como serviçais. Essa inversão ele a continua desenvolvendo no ca-pítulo 4, que encerra reassumindo sua autoridade paterna (não em função do batismo, mas do anúncio coerente da Boa Nova) na comunidade.

Todas as outras questões abordadas em 1Cor, sejam perguntas levadas por escrito a Paulo sejam problemas dos quais tomou conhecimento através dos emissários da comuni-dade, são dificuldades criadas pela minoria forte e Paulo resolve sempre, colocando-se do lado da maioria fraca, os sem poder, sem nome, sem sabedoria e sem "espiritualidade".

Uma questão, porém, mostra com maior clareza a posição de Paulo com relação às estruturas básicas da sociedade imperial e à ideologia dominante. É a questão da Ceia do Senhor.

Não foi uma pergunta levada por escrito, Paulo obteve a informação oralmente (1Cor 11,18). A reunião para a celebração da Ceia do Senhor estava servindo para se exibi-rem as diferenças sociais, estava reproduzindo a sociedade dividida, repetia o que acontece do lado de fora: Uns empanturrados e bêbados, outros passando fome. Já não é mais a Ceia do Senhor![8]

Pretendendo celebrar assim a Ceia que condena essa sociedade, vocês estão se con-denando com ela, estão comendo a própria condenação. Ao celebrar a morte humilhante do Senhor, a partilha de sua própria pessoa, o deixar tirar pedaços de si, vocês egoisticamente comem cada qual a própria ceia, não partilham e ainda ostentam as diferenças, humilhando os pobres, os que nada possuem. Na celebração que devia antecipar a segunda vinda do Cristo, a instauração do Reinado de Deus, vocês estão mais apegados aos valores do Impé-rio, a desigualdade social, o egoísmo, a competição (1Cor 11,17-34).

Prisioneiro em Éfeso



Os Atos dos Apóstolos não dizem se Paulo esteve preso em Éfeso, falam apenas de uma manifestação de protesto contra ele movida pelos fabricantes de estátuas de Diana, prontamente resolvida por um secretário da cidade. Essa agitação ocasional não justifica as palavras do próprio Paulo em 1Cor 15,32, onde diz que lutou contra as feras em Éfeso, nem 2Cor 1,8-11, onde fala de tribulação sofrida na Ásia, quando chegou a perder a espe-rança de sobreviver. Sem dúvida o grave problema vivido por Paulo em Éfeso (prisão?) não foi conhecido ou não interessou ao autor dos Atos dos Apóstolos.

A geografia também milita a favor de um cativeiro de Paulo em Éfeso. Onésimo, escravo de Filêmon, foge da casa de seu senhor na cidade de Colossas e vai encontrar Pau-lo na prisão. Onde? Em Roma? Em Cesaréia? Tanto para ir a Roma como para ir a Cesa-réia, as duas únicas cidades onde os Atos dos Apóstolos dizem que Paulo ficou encarcera-do, o escravo fugitivo Onésimo deveria tomar um navio, enquanto que para ir de Colossas a Éfeso, o caminho não seria tão logo e seria apenas por terra.

Que autoridades teriam mandado colocar Paulo na prisão? Sem dúvida as do Impé-rio. Em 2Cor 11,26 disse ter corrido perigo não apenas da parte dos compatriotas judeus, que por cinco vezes lhe aplicaram as 39 chibatadas, mas também da parte dos gentios, ou seja, da parte das autoridades civis. Por que Paulo se teria tornado um perigo para a ordem pública do Império? Por causa do anúncio de Jesus como Messias? Essa pregação sempre causa problemas com as autoridades políticas? Ou pode - alguns diriam até deve - ser apo-lítica?

Correspondência com os filipenses



Prisioneiro em Éfeso, ele manteve correspondência com a comunidade que fundara em Filipos na Macedônia. Primeiro, foi um bilhete de agradecimento pela ajuda econômica que a comunidade lhe enviara através de Epafrodito, inserido em Fl 4,10-20. Depois escre-veu uma carta mais longa que consiste na maior parte da canônica Epístola aos Filipenses. Essa merece uma análise mais detalhada à luz de nossa abordagem.

Ela tem o esquema básico da literatura epistolar: a. Apresentação e Saudação; b. Ação de graças; c. Corpo; d. Parênese; e. Saudações finais e assinatura. O Corpo da carta (1,12-2,30) é um todo e tem a estrutura quiástica da retórica semita assim:

A Notícias de Paulo, sua prisão e a pregação do Evangelho (1,12-26)
B Exercer a cidadania no mundo inimigo (Império) (1,27-30)
C Viver na comunidade os valores básicos do Evangelho (2,1-4)
C' O modelo de Cristo para a vivência comunitária (2,5-11)
B' Ser luz no mundo em trevas de corrupção e perversidade (Império) (2,12-16a)
A' Notícias de Paulo, Timóteo e Epafrodito (2,16b-30).

A estrutura como tal manifesta bem a coerência do todo. No centro está a vida em Cristo, a vivência na comunidade cristã, cada qual pensando apenas no outro e consideran-do-se o último de todos (C), a exemplo do Messias Jesus [9] (C'). Antes e depois estão as re-ferências ao mundo. Mundo inimigo destinado à condenação próxima, mas no meio do qual os cristãos são convidados a exercer sua cidadania (politeu,esqe) de maneira digna da Boa Nova do Messias (B). Depois, mundo em trevas, onde devem brilhar como tocha (B').

No início (A) Paulo está preso, vigiado por guardas pretorianos, prisioneiro, portan-to, das autoridades imperiais. Por que está preso? Certamente não foi por agradar aos pro-pósitos de Nero que, segundo Horsley-Silbermann [10], acabava de assumir o poder. Sem dú-vida, sua ação e pregação desagradavam as autoridades imperiais. O pior, porém, não é is-so, o pior é que outros pregadores anunciavam Jesus Cristo sem serem incomodados. E a-inda o faziam de forma a tentar provocar ciúmes ou inveja em Paulo, pensando, com isso, aumentar o peso de suas cadeias. A pregação do Evangelho pode ou não incomodar os de-tentores do poder político. A de Paulo incomodava. E foi por aí, pelas notícias, que ele co-meçou e terminou o Corpo da carta, pois é aí, "pés no chão", que se exerce a força do E-vangelho.

O conflito gálata



Já a canônica Epístola aos Filipenses incluía (3,2-21) trecho de violenta carta de Paulo a prevenir contra os que queriam subjugar o Evangelho ao judaísmo. O ardor com que Paulo os rechaça, chamando-os de cachorros, funcionários do mal, mutiladores, cren-tes da carne etc., revela o quanto, a seus olhos, o incentivo às observâncias judaicas iriam fazer desabar tudo o que construíra nessas comunidades cristãs gentias. A luta interna co-mumente é muito mais ardorosa do que a luta externa. O adversário interno tem melhor audiência do que o externo e é visto como alguém que pode abalar os princípios colocados, desfazer o que já estava feito, demolir o que estava construído.

Que princípios ou fundamentos eram esses, pelos quais Paulo lutou com tanto ar-dor? A carta aos gálatas gira toda em torno dessa luta interna, agora ainda mais aguda e, assim, deixa ver com maior clareza qual o ponto chave. E não há outro, é a LIBERDADE, sem adjetivos.

Falando dos gauleses, ancestrais dos gálatas, Tito Lívio (+ 17 DC) dizia serem in-genia indomita, ou seja de índole indomável, amantes da liberdade acima de tudo. Quando Paulo chegou à Galácia, eles estavam econômica e socialmente subjugados pelo Império, ideológica, cultural e religiosamente dominados pelas religiões cósmicas, os "elementos do mundo". O novo Senhor, o Messias Jesus, que Paulo lhes anunciara, os havia libertado, li-vrado deste mundo perverso (Gl 1,4). "Para a plena liberdade foi que o Cristo nos liber-tou!" (5,1).

A aceitação da Lei vai significar volta à idolatria e à escravidão, o sonho de liber-dade vai, então, morrer (4,8-11). A Lei enfeitiça e escraviza, só a Fé dá o Espírito e liberta (3,1-5). A Lei é a maldição, a Fé é a bênção de Abraão (3,6-14). Esta Jerusalém aí, de onde diziam vir os judaizantes, é escrava e faz escravos os seus discípulos, a Jerusalém do alto, nossa mãe, é livre. Manda embora esses escravos escravizadores! (4,25-31)

A liberdade, porém, mesmo sem adjetivo, tem limites, não é oportunidade para sa-tisfazer meus desejos, não é liberdade para desrespeitar, usar e explorar o outro, pelo con-trário, é fazermo-nos escravos uns dos outros vivendo o amor cristão. A Igreja, como soci-edade alternativa, não pode ter os mesmos valores de rivalidade e competição do Império, senão também nós acabamos nos devorando uns aos outros (5,13-15). Circuncisão ou não circuncisão de nada valem, o que vale é o mundo novo, a nova criação, o Reinado, o Israel de Deus (6,15-16).

Rm 13,1-7: O Corpo Estranho



Esses sete primeiros versículos do capítulo 13 da carta aos Romanos são tão pertur-badores que alguns pensam até em encontrar meio de suprimi-los do texto. Não há como. Nenhum testemunho textual. A alegada interrupção do pensamento entre o final do capítu-lo 12 e 13,8 pode ser facilmente explicada pelo vai-vem da retórica semita ou mera coinci-dência de vocabulário [11]. Como atribuir ao Paulo que vimos tendo tantos problemas com o poder político e certamente criando-lhes também problemas, palavras tão submissas, sub-servientes e até elogiosas a autoridade pública? Muita gente boa, entre os quais Barth, Cul-lmann e outros tentaram interpretar de outra forma o vocabulário de Paulo no texto, mas sem alcançar forte grau de convicção. As soluções não satisfazem.

Epístola ou Carta?



As dificuldades de interpretação da Epístola aos Romanos, desde que, a partir de Lutero ela se fez o divisor de águas entre a teologia protestante e a teologia católica, foram resolvidas com maior facilidade após a mudança de perspectiva com que se passou a lê-la. Deixou de ser lida como Epístola e passou a ser lida como Carta.

A distinção entre um gênero e outro, muitos dizem, não é tão rígida. Mas é ilustra-tiva. Como Epístola, é um documento doutrinal. Como Carta, fala de questões da vida co-tidiana. Como Epístola, as afirmações doutrinais são apodíticas, absolutas e definitivas, são uma tomada de posição em disputa escolástica. Como Carta, as afirmações doutrinais são ocasionais, parciais, nada têm de absolutas, são o foco de luz dirigido para um ponto de-terminado, em vista da questão da vida cotidiana que se quer esclarecer.

É verdade que alguns autores ainda hoje [12] lêem Rm e os outros escritos paulinos to-dos como Epístolas mais do que como Cartas. Assim vêem nesses versículos uma teologia do Estado ou do poder público, com valor absoluto e com conseqüências práticas, como a condenação da oposição política a qualquer governo.

As explicações decorrentes, como expectativa próxima da parusia e outras, não sa-tisfazem. Esse tipo de leitura, meramente doutrinal, leva a debates infindáveis - além de inúteis - em torno de inúmeros temas, como o da justificação pela fé, fé versus obras, e ou-tros, colocando em posições teológicas opostas e inconciliáveis, por exemplo, de um lado Gálatas e Romanos e, do outro Tiago, e até mesmo Gálatas contra Romanos.

O pré-texto



Que problemas concretos eram vividos pelas comunidades cristãs de Roma quando Paulo escreveu-lhes? Paulo teria também motivos pessoais para escrever a comunidades que nem conhecia?

Gálatas não ocasionou reação muito favorável, pelo contrário, depois da explosiva carta, Paulo parece ter perdido força na Galácia. Quando escreve aos coríntios (1Cor 16,1) ele está seguro de que os gálatas estão participando da ação de solidariedade para com os irmãos pobres da Judéia, pois diz tê-los orientado a guardar a cada domingo o que tivessem conseguido economizar durante a semana, a fim de participarem da campanha. Quando, porém, escreve aos romanos (Rm 15,26), só fala da campanha na Macedônia e na Acaia. Esqueceu-se da Galácia? Ou já não tem mais força na região?

Ele está se preparando para ir a Jerusalém levar o resultado da campanha. Depois de ter dito em Gálatas que a Jerusalém cá de baixo (a comunidade cristã de Tiago, irmão do Senhor, sem dúvida) é escrava com seus filhos ou adeptos (4,25), de que forma esses fi-lhos da Jerusalém atual receberão agora das mãos dele e de seus companheiros gentios a ajuda econômica das "ricas" comunidades gentias. Não o poderão entender como um insul-to? No mínimo ele será forçado a explicar melhor muitas das afirmações feitas em Gálatas. Murphy O'Connor acha improvável que Paulo, ao ditar Romanos, estivesse se preparando para falar aos líderes da comunidade de Jerusalém. Esse, certamente, não era o seu objeti-vo, mas creio que a preocupação com o que iria acontecer em Jerusalém não deveria estar ausente do seu horizonte. Outro motivo pessoal de Paulo para escrever aos romanos é seu projeto de ir evangelizar a Espanha. Desiludido com o trabalho na parte oriental do Impé-rio, queria partir para o extremo oeste. Em Roma faria uma parada, Roma seria a Igreja que o enviaria à Espanha.

O cristianismo chegou a Roma trazido, não por missionários "oficiais", mas pelos leigos, judeus romanos que iam a Jerusalém nas grandes festas. Eles é que, sem dúvida, trouxeram de lá a fé no Messias Jesus. O messianismo do crucificado passou a ser a mais ardorosa discussão entre os freqüentadores, incluindo-se aí prosélitos e tementes a Deus, das sinagogas romanas, a ponto de Cláudio, temendo graves agitações, ter expulsado os ju-deus da Cidade.

Os judeus de Roma eram extremamente pobres na sua maioria. Segundo Juvenal sua mudança consistia apenas em um saco de capim seco. Gozavam, todavia, de muitos privilégios. Augusto, certa vez, mudou a data de uma distribuição de alimentos, exatamen-te por causa dos judeus, a fim de que a distribuição não ocorresse num sábado, quando o judeu não pode carregar qualquer objeto pela rua. Isso lhes angariava críticas e ironias da parte dos letrados como Sêneca, Tito Lívio, Ovídio, Juvenal, e antipatia no meio dos pobres.

No ano 49 (alguns dizem que pode ter sido no ano 41) Cláudio fez o decreto de ex-pulsão dos judeus de Roma. Eram 20, 40 ou 50 mil, segundo os diferentes autores. O moti-vo da expulsão, segundo Suetônio, foram as agitações provocadas por um tal de Chrestos. Seriam as discussões sobre o galileu crucificado, se seria ele ou não o Messias (Cristo). Sendo esse o motivo, mesmo que nem todos os judeus tenham sido forçados a sair de Ro-ma, os judeus cristãos certamente foram os primeiros. Passaram a migrar por outras partes do Império como o fizeram Áquila e Prisca que em 51 estavam em Corinto (At 18,2) em 54, em Éfeso (1Cor 16,19) e, com a revogação do decreto, voltaram para Roma (Rm 16,3-4).

Quando Paulo escreve aos romanos, os cristãos judeus expulsos da Cidade estão re-tornando. Nesses anos em que estiveram migrando, os cristãos que ficaram em Roma eram gentios, mesmo se prosélitos ou tementes a Deus. As comunidades cristãs cresceram, mas adquiriram uma cara muito mais gentia. Agora, como esses cristãos gentios estarão rece-bendo os judeus que voltam? Esse o problema fundamental a influir não só na parte pare-nética (não entrar no esquema deste mundo, não se empavonar, respeitar as diferenças, so-lidarizar-se com os "santos", ser acolhedores a qualquer custo, não pagar o mal com o mal) como também no corpo doutrinal da carta (gentios e judeus iguais no pecado, na fé, na jus-tiça, na salvação, primeiro o judeu). Na Galácia os oprimidos eram os cristãos gentios a quem se queria impor o jugo da lei judaica, aqui os judeus é que retornam em situação de inferioridade, eles precisam ser defendidos.

Esse o contexto histórico também dos sete primeiros versículos do capítulo 13. Na Palestina crescia a revolta contra o Império (em menos de 10 anos os "bandidos" tomarão Jerusalém). As idéias de rebelião, que ferviam na Palestina, não poderiam estar sendo le-vadas pelos judeus cristãos que voltavam para Roma? E a posição da maioria gentia da comunidade, a quem Paulo se dirigia (1,5-6)? Além do mais, o massacre dos judeus de A-lexandria ainda estava na memória de todos. Nesse contexto todo, quaisquer palavras de Paulo a respeito da relação do cristão com as autoridades públicas, mesmo sendo Nero o Imperador, só poderiam ser de prudência, jamais algo que incitasse à revolta ou pusesse mais lenha na fogueira.

Texto e contexto



O contexto literário do trecho em pauta não deixa, contudo, de incluir uma leve iro-nia ou, pelo menos, sentir o que se passava na mente de Paulo.

Estamos na parte parenética, o objetivo de Paulo não é dar definições nem fazer te-ologia, é aconselhar, animar. Na introdução (12,1-2) convida os cristãos a fazer de sua vida um sacrifício mental, diríamos espiritual, e não entrar no esquema do eón atual. Depois, com o vocabulário do fronei/n (sentir), pede que ninguém se sinta superior (v. 3), e que en-tendam que todos são, com funções diferentes, o mesmo corpo de Cristo (4-8). Segue, nos versículos de 9 a 12, uma série de conselhos oportunos para a situação e que vão surgindo em concatenação de idéias, como numa tempestade cerebral. A partir do versículo 13, isso se faz mais evidente e os conselhos se sucedem como se dissesse "por falar nisso,".

Assim, para aconselhar a que façam tudo para dar acolhida e hospedagem aos ir-mãos judeus de volta para Roma, manda que persigam a hospitalidade. Falar em perseguir, v. 14: "Falai bem de quem vos persegue!". Depois manda ser companheiros na alegria e na dor, ter os mesmos sentimentos. Volta aí o vocabulário do sentir (fronei/n) (15). Não ali-mentar sentimentos de grandeza, mas de humildade, nem se achar muito sensato (16). Não se vingar do mal, cuidar de estar bem com todos (17-18). Falando em vingança, jamais se vingar, deixar espaço para a Ira (19). Se teu inimigo estiver com fome, alimenta-o, citando Pr 25,21s, assim derramarás brasas sobre a cabeça dele, mas vence o mal com o bem (20-21). Falando nisso, toda pessoa seja submissa às autoridades superiores... (13,1-7). A refe-rência aos inimigos é que fez Paulo lembrar-se das autoridades...

Os sete versículos estão recheados de referências a Deus. Uma demitização do "Di-vino Imperador"? Para ti a autoridade é um diácono de Deus em função do bem. O funcio-nário que porta a espada lembra a vingança e a ira de Deus (4).

Ao final fala em devolver, pagar ou dar a cada qual o que lhe é devido, taxa, tribu-to, imposto, mas também temor e honra. Temor da autoridade (13,3) e honra aos irmãos (12,10). Falando nisso, nada devais uns aos outros a não ser o amor (desse a gente fica sempre devendo alguma coisa), a verdadeira plenitude da lei (8-10).

E a primeira parte da parênese termina com a metáfora da noite e do sono. A noite está terminando, o Império das trevas está sendo vencido... o kairós, a ocasião, está che-gando, o Reinado, a Salvação cada dia mais próxima. É hora de acordar e revestir-se do verdadeiro Senhor, Jesus Cristo.

BIBLIOGRAFIA
MURPHY-O'CONNOR Jerome, Paulo Biografia Crítica, 2000, São Paulo, Loyola
HORSLEY R. A. - SILBERMAN N. A., A Mensagem e o Reino, 2000, São Paulo, Loyola
ELLIOT Neil, Libertando Paulo, 1997, São Paulo, Paulus
PERROT Charles, Epístola aos Romanos, 1993, São Paulo, Ed. Paulinas



[1] Eu diria exageradamente governista, como exageradamente faz tudo ter seu centro em Jerusalém e na pessoa dos Apóstolos. Na medida em que representa uma herança paulina, sou levado a concluir que teme uma interpretação antiimpério assim como parece temer uma interpretação antijudaica das posições de Paulo e seus discípulos. Assim acaba confirmando a tese de que era de crítica a visão de Paulo sobre o Império.

[2] Historein, o verbo utilizado, significa investigar, informar-se, familiarizar-se com.

[3] Cf. HORSLEY-SILBERMANN, A Mensagem e o Reino, Loyola, São Paulo, 2000, p. 136.

[4] É o vocabulário que Paulo mais utiliza em 1Ts, mesmo quando cunha a tríade Fé, Esperança e Caridade, li-gando a Fé à produção (e`,rgon th/j pi,stewj), o Amor ao trabalho duro, à labuta (ko,poj th/j avga,phj) e a Esperança à resistência (u`pomonh/ th/j evlpi,doj).
[5] WENGST Klaus, Pax Romana, Edições Paulinas, São Paulo 1991, p. 113

[6] Veja FERREIRA Joel Antônio, Primeira Epístola aos tessalonicenses, Vozes-Sinodal-Metodista, Petrópolis, 1991 e HORSLEY-SILBERMANN, op. cit. p. 165.

[7] Os Primeiros Cristãos Urbanos, Paulinas, São Paulo, 1992, p. 121 e ss.

[8] Notar a mudança de critérios, hoje o decisivo seria a atuação ou não de um ministro ordenado.
[9] Cf. artigo meu em Estudos Bíblicos 61.

[10] Op. Cit. p. 190

[11] ELLIOT Neil, Libertando Paulo, Paulus, São Paulo, 1997, p.286 a 291 traz um apanhado da discussão.

[12] É o caso das notas de rodapé da Bíblia de Jerusalém e de CRANFIELD C. E. B., Carta aos Romanos, Pau-linas, São Paulo 1992.