TEXTO: Relatos de Martírios



Curso breve de História da Igreja Antiga
Curso de Iniciação Teológica
Diocese de Guaxupé - MG



A PERSEGUIÇÃO DE NERO



Estamos no ano 64 d.E.C. Um incêndio devasta Roma, a capital do Império. A opinião pública aponta o próprio Imperador Nero como autor da catástrofe. É necessário achar um bode expiatório e para isso servem os cristãos! Segundo o historiador romano Tácito (55-120 d.E.C.), nos seus "Anais", foram presos, em primeiro lugar, os que se confessavam. Seguiu-se o aprisionamento de uma multidão enorme, entregue aos suplícios inventados pela crueldade de Nero. "Os cárceres se encheram de heróis da fé e os carrascos os submeteram à tortura, querendo obrigá-los a confessar um crime que não tinham cometido. Não sendo possível convencê-los do delito que lhes era imputado, foram condenados por causa do 'ódio do gênero humano'. Já não por causa do incêndio, mas pelo nome cristão sofreram o martírio. Grande parte foi destinada aos combates de feras, outros foram crucificados, muitos outros, ao cair da tarde, vestidos de túnicas com óleos, pez e resinas, foram atados a postes de madeira, que os algozes incendiaram atrozmente, para iluminar a noite...".


Provavelmente os apóstolos são Pedro e são Paulo estão entre os mártires da perseguição desencadeada por Nero. A tradição fixa sua morte no ano 64.



A CARTA DE PLÍNIO, O MOÇO, AO IMPERADOR TRAJANO



Plínio, o Moço, era governador da Bitínia, província romana da Ásia Menor, de 111 a 113 d.E.C. Ele tem dúvidas a respeito da atitude a ser tomada em relação aos cristãos e pede conselho ao Imperador de Roma.

Eis alguns trechos da correspondência entre as duas autoridades:

"Adotei, senhor, como regra inviolável recorrer às vossas luzes em todas as minhas dúvidas, pois quem mais apto a remover os meus escrúpulos ou a guiar-me nas minhas incertezas. Nunca tendo assistido aos julgamentos de cristãos, ignoro o método e os limites a serem observados no processo e na punição deles. Se, por exemplo, alguma diferença deve ser feita com respeito à idade, ou ao contrário, nenhuma distinção se observe entre o jovem e o adulto. Se o arrependimento admite perdão; se a um indivíduo, que foi cristão, aproveitar retratar-se; se é punível a mera confissão de cristianismo, ainda que sem nenhum ato criminoso, ou se só é punível o crime a ela associado. Em todos esses pontos tenho grandes dúvidas.

Por enquanto o procedimento seguido por mim para com aqueles que me foram denunciados como cristãos é este: pergunto-lhes se são cristãos. Se confessam, repito duas vezes a pergunta, acrescentando uma ameaça de pena capital. Se perseveram, mando executá-los , pois estou convencido de que, qualquer que seja a natureza de seu credo, uma teimosia grande e inflexível certamente merece castigo. Outros fanáticos dessa espécie me têm sido trazidos mas, por serem cidadãos romanos, remeti-os para Roma.

Essas acusações, pelo simples fato de estar sendo o assunto investigado, começaram a estender-se e várias formas do mal vieram à luz. Aqueles que negaram ser ou ter sido cristãos, que repetiram comigo uma invocação aos deuses e praticaram os ritos religiosos com vinho e incenso perante a vossa estátua - a qual para esse propósito mandei buscar, juntamente com a dos deuses - e, finalmente, amaldiçoam o nome de Cristo (o que não se pode arrancar de nenhum verdadeiro cristão), julguei acertado absolver. Outros que foram denunciados pelo informante, confessaram-se a princípio cristãos, mas depois o negaram. De fato, haviam sido cristãos, mas abandonaram a crença (uns faz três anos, outros há muito mais tempo, sendo que alguns há cerca de 25 anos). Todos prestaram culto à vossa estátua e às imagens dos deuses e lançaram maldição ao nome de Cristo.

Afirmaram, contudo, que todo o seu crime ou erro se reduzia a terem-se encontrado em determinado dia, antes de nascer o sol, cantando então um hino a Cristo, como a um Deus. Nesta ocasião teriam prestado também um solene juramento de não cometer más ações, de nunca praticar nenhuma fraude, furto ou adultério. Igualmente teriam prometido de não trair a confiança neles depositada. Depois, como contam, se separaram para, de novo, se reunir a fim de tomar algum alimento, de natureza inocente. Todavia, esta prática haviam abandonado após a publicação do meu Edito pelo qual, de acordo com as vossas ordens, foram proibidas a reuniões políticas. Julguei necessário empregar a tortura para ver se arrancava toda a verdade de duas escravas, chamadas diaconisas. Nada, porém, descobri senão depravada e excessiva superstição.


Achei oportuno adiar qualquer resolução nesta matéria até obter vosso conselho. Porque o assunto merece vossa atenção, especialmente quando levamos em conta o número de pessoas em perigo. Indivíduos de todas as condições e idades, como também de ambos os sexos, estão e serão envolvidos no processo. Pois, esta contagiosa superstição não se limita às cidades apenas, mas espalha-se pelas aldeias e pelos campos. Parece-me, todavia, ainda possível detê-la e curá-la. Os templos pelo menos, que andavam quase desertos, recomeçaram agora a ser frequentados e as solenidades sagradas, após uma longa interrupção, são de novo celebradas. Há geral procura de animais para os sacrifícios, onde, até bem pouco tempo, havia poucos compradores. Por aí é fácil ter uma ideia da quantidade de pessoas que se podem salvar do erro, se deixarmos a porta aberta ao arrependimento".

A resposta do Imperador Trajano (98-117 d.E.C.) qualifica o procedimento de Plínio como "extremamente apropriado". Faz também notar que não se deve aplicar uma regra comum para todos os casos: "Não se promovam buscas para descobrir essa gente. Quando denunciados como cristãos confessarem seus delitos, sejam punidos, com uma restrição porém, e é que, negando o acusado ser cristão e fornecendo a prova pela invocação aos nossos deuses, seja perdoado...".


OS MÁRTIRES DE LIÃO



Entre os mais antigos documentos históricos de mártires está a carta circular da comunidade cristã de Lião (na Gália) endereçada às Igrejas da Ásia e Frigia (no Oriente) sobre a perseguição ocorrida em 177 d.E.C. Citamos algumas das mais significativas passagens:


"A perseguição foi de uma violência tal neste país, a raiva dos pagãos tão grande contra os santos, e nossos bem aventurados mártires sofreram tanto, que nós não saberíamos encontrar as palavras necessárias para vos fazer uma descrição completa do que ocorreu. (...) A graça de Deus lutou por nós, afastando do perigo os tímidos e opondo ao adversário colunas sólidas da fé, capazes de resistir sem vacilar e de fazer voltar contra eles todo o choque do Maligno. Os defensores caminharam para o martírio e tiveram de suportar ultrajes e suplícios, mas não se detiveram por tão pouco, apressaram o passo para o Cristo e revelaram ao mundo que os sofrimentos daqui de baixo nada são em comparação à glória que nos espera lá no alto.

Primeiramente suportaram valentemente as brutalidades da multidão. Foram batidos, insultados, importunados. Seus bens foram pilhados, atiraram-lhe pedras, encarceraram-nos juntos. Eles suportaram tudo que uma população desenfreada quisesse fazer sofrer a odiosos inimigos. (...)

[Entre os mártires destaca-se a figura de Blandina, uma jovem escrava] Por ela, Cristo nos ensinou aquilo que é vil aos olhos dos homens, sem aparência e de pouco preço, é julgado digno de grande glória junto a Deus, quando é animado de amor por ele, amor que não se contenta de fórmulas vãs, mas se prova por atos. Nós todos temíamos por Blandina; e sua senhora segundo a carne, que combatia nas fileiras dos mártires, temia por sua serva, em razão de sua frágil compleição, supondo que lhe faltasse firmeza para confessar a fé. Ora, ela se mostrou tão corajosa, a ponto de cansar e desencorajar os carrascos.

Desde pela manhã tiveram estes que se revesar para torturá-la cada vez mais. À tarde confessaram-se vencidos, pois não tinham mais nada a fazer-lhe. Espantavam-se que ela tivesse ainda um sopro de vida, tanto seu corpo estava despedaçado e transpassado. Afirmavam que um só destes suplícios seria suficiente para causar-lhe a morte. Mas a bem aventurada, como um valoroso atleta, renovava as forças ao confessar a fé. Esta lhe era um conforto em seus sofrimentos; era-lhe um alívio o dizer: Eu sou cristã e entre nós não há nada de mal. (...)

[Junto com os outros mártires ela é levada ao anfiteatro para entrar na luta contra os animais selvagens] Blandina, suspensa a um poste, devia servir de presa às feras desencadeadas. Vendo-a assim, como crucificada e orando em voz alta, os combatentes se sentiram mais valentes. Em plena luta, eles olhavam sua irmã e criam ver nela, com os olhos do corpo, o Cristo crucificado por eles, a fim de assegurar aos crentes que aqueles que sofrem por sua glória viverão para sempre com o Deus vivo.

Entretanto, nenhuma das feras tocou Blandina naquele dia. Tiraram-na do poste e tornaram a levá-la para a prisão. Guardavam-na para outro combate. Suas vitórias repetidas, no decorrer de tantas provações, tornavam assim para a pérfida Serpente um revés sem remédio e para nossos irmãos um aguilhão à bravura. Ela, a pequena, a frágil, a desprezada, mas revestida de Cristo, o grande e invencível Atleta, havia rechaçado várias vezes o Adversário. Ela devia merecer no último combate cingir a coroa da imortalidade. (...)

[Finalmente, a morte da heróica cristã, após incríveis e prolongadas torturas] A bem aventurada Blandina foi a última [a ser morta]. Qual nobre mãe que deu entusiasmo a seus filhos e os enviou vencedores perante o rei, ela sustentou por sua vez os mesmos combates que seus filhos no martírio e apressou-se a reunir-se com eles. Toda contente e na alegria da partida, parecia convidada a um festim de núpcias e não jogada às feras. Após os chicotes, as feras, a grelha, puseram-na numa rede, para ser atirada a um touro. Lançada ao ar por várias vezes pelo animal, não sentia mais nada, toda na esperança das recompensas prometidas, entregue à sua conversa com Cristo. Finalmente degolaram-na, e os próprios pagãos confessaram que jamais, entre eles, mulher alguma padecera tantos e cruéis sofrimentos...".


MARTÍRIO DE SANTO INÁCIO DE ANTIOQUIA



No ano de 107 d.E.C., Trajano, Imperador de Roma, preparou um grandioso espetáculo público, na capital do Império, em que foram mortos gladiadores e homens ilustres em luta contra 11.000 animais selvagens. Entre as vítimas estava Inácio, o idoso bispo de Antioquia, na Síria, a "Igreja-Mãe do Oriente". Durante sua viagem à Roma escreve sete cartas às comunidades cristãs por onde passa. Na Carta aos Romanos faz o elogio do martírio, exaltando seu valor evangélico como sublime testemunho de Cristo morto e ressuscitado.

"... Pedi em meu favor unicamente força exterior e interior, a fim de não apenas falar mas também querer, de não apenas dizer-me cristão, mas de me manifestar como tal. (...) Suplico-vos, não vos transformeis em benevolência inoportuna para mim. [Não intercedais por mim junto às autoridades para afastar a pena máxima] Deixai-me ser comida para as feras, pelas quais me é possível encontrar Deus. Sou trigo de Deus e sou moído pelos dentes das feras, para encontrar-me como pão puro de Cristo [referência à Eucaristia]. Acariciai antes as feras, para que se tornem meu túmulo e não deixem sobrar nada de meu corpo (...).


Então, de fato, serei discípulo de Jesus Cristo (...). Quando tiver padecido, tornar-me-ei alforriado de Jesus Cristo, e ressuscitarei nele, livre. (...) Perdoai-me: sei o que me convém; começo agora a ser discípulo. Coisa alguma visível e invisível me impeça que encontre a Jesus Cristo. Fogo e cruz, manadas de feras, quebraduras de ossos, esquartejamentos, triturações, trituração do corpo todo, os piores flagelos do diabo venham sobre mim, contanto que encontre a Jesus Cristo. (...) Aguarda-me o meu nascimento [a passagem para a vida definitiva em Deus]... Permiti que receba luz pura: quando lá chegar serei homem. Permiti que seja imitador do sofrimento de meu Deus. Meu amor está crucificado e não há em mim fogo para amar a matéria; pelo contrário, água viva, murmurando dentro de mim, falando-me ao interior: Vamos ao Pai!...".


O MARTÍRIO DE PERPÉTUA E FELICIDADE



O martírio destas duas mulheres cristãs se deu em Cartago (norte da África), no ano de 203 d.E.C. Víbia Perpétua, recém-casada, é de família nobre e tem apenas 22 anos. Felicidade é uma escrava, grávida de oito meses. Santo Agostinho (+430), no Sermão 282 "in Perpetuam", disse: "Era necessário que Perpétua fosse unida à Felicidade, para que a união destes dois nomes mantivesse constantemente vivo em nós a recordação de que a felicidade não pode ser verdadeira, senão quando for perpétua!"


A própria Perpétua, encontrando-se na prisão e aguardando o julgamento, nos relata o encontro dramático com seu pai: "E chegou da cidade o meu pai curvado pela dor. Veio até junto de mim para me fazer desistir, dizendo: Minha filha, tem dó de meus cabelos brancos. Tem pena de teu pai, se acaso sou digno deste nome. Se te eduquei com todo o cuidado, com todas as minhas forças até esta idade, se te amei mais do que a todos os teus irmãos, olha para tua mãe, tua tia materna, olha para o filho que deverá morrer contigo, abandona este teu louco propósito, se não queres ver-nos mortos. Ninguém mais entre nós poderá viver honradamente, se tu tiveres de sofrer alguma condenação ignominosa. Falava assim movido pelo seu amor de pai e beijava-me as mãos prostrando-se aos meus pés e, com os olhos cheios de lágrimas, chamava-me não filha, mas senhora. Eu estava angustiada pelo sofrimento seu e magoava-me porque de toda a família só ele não sabia alegrar-se com o meu martírio. Tentei confortá-lo, dizendo: Quando eu for levada ao tribunal, far-se-á a vontade de Deus. Fica sabendo que, efetivamente, já não somos senhores da nossa vida, mas o próprio Deus. Ele, no entanto, afastou-se de mim profundamente magoado.

No dia seguinte, à hora do jantar, fomos inesperadamente levados a caminho do interrogatório. (...) Chegou a minha vez. A esta altura apareceu meu pai, trazendo nos braços o meu menino. Segurando-me, suplicava: Tem piedade desta criança! O procurador Hilarião (...) disse-me: Tem compaixão de teu pai e da tenra idade de teu filho. Oferece um sacrifício pela saúde dos imperadores. Respondi: Não o faço. O tribunal disse: És cristã? Respondi: Sou. (...) Então, Hilarião anunciou a nossa sentença de morte, condenando-nos a sermos devorados pelas feras (...)." ... "Quanto à (escrava) Felicidade, esta recebeu do Senhor uma insigne graça. Estando ela no oitavo mês de gravidez e aproximando-se o dia do espetáculo, encontrava-se consternada pois temia que, por causa da sua condição, a condenação dela fosse adiada, uma vez que a lei não permitia mandar ao suplício gestantes. Também os seus companheiros de martírio se afligiam bastante na dúvida de terem de deixar uma companheira tão valente, que quase lhes serviu de guia no caminho para conseguirem a mesma esperança que os sustentava. Por isso, ao chegar o terceiro dia antes do espetáculo, unânimes, com suspiros e gemidos, fizeram oração aos pés do Senhor. Logo que a oração terminou Felicidade foi acometida das dores. Sem forças, imersa num mar de dores pela natural dificuldade do oitavo mês, um dos vigilantes do cárcere disse-lhe: Ó, tu, que agora sofres tão duramente, que farias se suportasses as dentadas das feras que mostraste desprezar, recusando sacrificar aos ídolos? E ela nobremente respondeu: Agora sou eu só que devo suportar estas estranhas dores, lá, porém, estará comigo um outro que sofrerá comigo, pois também eu estou disposta a sofrer por ele. Assim deu à luz uma menina que foi educada como filha por uma irmã em Cristo...".


O MARTÍRIO DE SÃO CIPRIANO



Cecílio Cipriano era bispo de Cartago, quando foi martirizado em 258, no governo do Imperador Valeriano. De seu processo guardamos um importante documento histórico ("Ata"), proveniente do próprio tribunal civil.


"O procônsul Galério Máximo mandou que trouxessem Cipriano à sua presença. Quando lhe foi apresentado, disse ao bispo: Tu és Táscio Cipriano? Ele respondeu: Sim, sou eu. O procônsul disse: És tu que te apresentas como chefe de uma sacrílega doutrina? Cipriano respondeu: Eu mesmo.

Galério continuou: Os sacratíssimos imperadores ordenaram-te que oferecesses sacrifícios aos deuses. O bispo Cipriano disse: Não o faço. O procônsul insistiu: Reflete bem. Cipriano respondeu: Faz o que te foi mandado; numa questão tão justa, não é preciso refletir mais.

Galério Máximo, depois de consultar os seus assessores, proferiu, com dificuldade e pesar, esta sentença: (...) Foi decidido que Táscio Cipriano seja decapitado. O bispo disse: Graças a Deus...".


Imediatamente o condenado foi conduzido ao lugar do suplício. Despojou-se de seu manto, depois de sua dalmática, que entregou aos diáconos, conservando apenas a túnica de linho. Ajoelhou-se e rezou longamente. Fez dar ao carrasco 25 moedas de ouro. Ele mesmo vedou os olhos com as próprias mãos. Mas como não conseguia atas as pontas do lenço, vieram para o ajudar um presbítero e um diácono. Morreu pelo golpe da espada. Era o dia 14 de setembro de 258.


DOM OSCAR ROMERO, UM MÁRTIR LATINO-AMERICANO DE NOSSOS DIAS





Em 1977 Oscar Romero foi eleito arcebispo de San Salvador, na República El Salvador (América Central). Tomou resolutamente a defesa dos pobres e marginalizados de seu país. Numa missa, na tarde de 24 de março de 1980, comentando e evangelho, dizia entre outras: "Aquele que se entrega aos irmãos por amor de Cristo, este viverá como a semente de trigo, que morre só aparentemente. Se ele não morresse, continuaria só... Esta é a esperança que alenta todos os cristãos. Sabemos que todo o esforço para melhorar uma sociedade, sobretudo quando está enterrada, submersa na injustiça e no pecado, é um esforço abençoado por Deus, que Deus quer, ou melhor, que Deus exige de nós... Suplico a todos, queridos irmãos, que observemos essas coisas a partir do momento histórico, com esperança, com espírito de entrega, de sacrifício... Que possamos dar o nosso corpo e o nosso sangue ao sofrimento e à dor, como cristãos, não para si, mas para criar modelos de justiça e de paz para o nosso povo. Unamo-nos, pois, intimamente na fé e na esperança neste momento de oração".

Neste exato instante um disparo atingiu o peito de Dom Oscar que tombou fulminado, mártir da justiça, vítima da repressão. Dias antes havia declarado em público: "Já é tempo de os homens do exército e da polícia recuperarem a própria consciência e obedecerem antes a ela do que à ordem do pecado.

A Igreja, defensora dos direitos de Deus, da lei de Deus, da dignidade humana, da pessoa humana, não pode ficar calada diante de tanta abominação. Queremos que o governo leve a sério que de nada servem as reformas se são sustentadas com tanto sangue. Em nome de Deus, pois, e em nome deste sofrido povo, cujos lamentos sobem até o céu, cada dia mais tumultuosos, suplico-lhes, rogo-lhes, ordeno-lhes: cessem a repressão"
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O EDITO DE MILÃO



Com Constantino, o Grande, cessam oficialmente as perseguições dos cristãos. Após a vitória sobre Maxêncio, seu adversário, ele declara publicamente a liberdade da religião e de culto para todos os cidadãos do Reino, favorecendo inegavelmente os cristãos.

Eis o teor deste famoso documento que entrou na história com o nome de "Edito de Milão":

"Nós, Constantino e Licínio, Imperadores, encontrando-nos em Milão para conferenciar a respeito do bem e da segurança do Império, decidimos que, entre tantas coisas benéficas à comunidade, o culto divino deve ser a nossa primeira e principal preocupação. Pareceu-nos justo que todos, cristãos inclusive, gozem da liberdade de seguir o culto e a religião de sua preferência. Assim Deus que mora no céu ser-nos-á propício a nós e a todos nossos súditos. Decretamos, portanto, que, não obstante a existência de anteriores instruções relativas aos cristãos, os que optarem pela religião de Cristo sejam autorizados a abraçá-la sem estorvo ou empecilho, e que ninguém absolutamente os impeça ou moleste... Observai, outrossim, que também todos os demais terão garantida, livre e irrestrita prática de suas religiões, pois está de acordo com a estrutura estatal e com a paz vigente que asseguremos a cada cidadão a liberdade de culto, segundo sua consciência e eleição. Não pretendemos negar a consideração que merecem as religiões e seus adeptos. Outrossim, com referência aos cristãos, ampliando normas já estabelecidas sobre os lugares de seus cultos, é-nos grato ordenar, pela presente, que todos que compraram esses locais os restituam aos cristãos sem qualquer pretensão a pagamento... Use-se da máxima diligência no cumprimento das ordenanças a favor dos cristãos e obedeça-se a esta lei com presteza, para se possibilitar a realização de nosso propósito de instaurar a tranquilidade pública. Assim continue o favor divino, já experimentado em empreendimentos importantíssimos, outorgando-nos o sucesso, garantia do bem comum".