CURSO DE INICIAÇÃO TEOLÓGICA
“DOM JOSÉ MAURO PEREIRA BASTOS”
Setor Guaxupé





COMPREENSÃO TEOLÓGICA DA LITURGIA



01. O QUE É LITURGIA.

Hoje em dia a palavra Liturgia é bastante usada. Todos os cristãos sabem de certo modo por experiência o que é a Liturgia. É o culto da Igreja; é uma vivência de fé, é uma forma especial, de oração. Mas será que sabemos o que realmente é a Liturgia? Façamos inicialmente uma primeira reflexão.
Não faz muito tempo que se usa a palavra Liturgia na Igreja. E mesmo uma reflexão mais profunda sobre o que é a Liturgia só começou a ser feita pelos fins do século XIX e metade do XX. Isso não quer dizer que os cristãos antes não vivessem a Liturgia da Igreja. Ela sempre foi considerada como o culto oficial da Igreja.
A palavra Liturgia vem do grego < leiturguia >, ou seja, leiton-érgon: ação do povo, melhor, ação em favor do povo. Originariamente, toda ação gratuita de pessoas ou grupos em favor do povo em geral, como os jogos olímpicos, jogos públicos, etc., era chamada liturgia.
Mais tarde, o culto oficial dos sacerdotes do Antigo Testamento em favor do Povo foi chamado de Liturgia. Também todo serviço de uma parte em favor do todo, como por exemplo o serviço da mão em favor do corpo, foi chamado de liturgia.
Assim em São Paulo.
Podemos dizer que o culto prestado por Cristo ao Pai a serviço dos homens, toda a obra da salvação, constitui uma liturgia.
Assim, o culto oficial da Igreja que torna presente esse serviço de Cristo em favor dos homens também é chamado Liturgia. São os ritos da Igreja Católica como os Sacramentos. Além disso, temos outros ritos e cerimônias religiosas, como o Ano Litúrgico, a Oração comunitária, as Exéquias, as bênçãos e assim por diante.
Todos os cristãos têm certa experiência do seja Liturgia, pois a vivem desde a infância, mas se perguntarmos o que é mesmo Liturgia, muitas vezes os cristãos mais esclarecidos ficam devendo uma resposta. Por isso, numa série de reflexões queremos aprofundar o que seja a Liturgia da Igreja.



02. O QUE NÃO É A LITURGIA

Antes de aprofundarmos o que seja Liturgia, vejamos o que a Liturgia não é, para não adquirimos uma idéia errada sobre o assunto.
A Liturgia não é simplesmente um conjunto de ritos edificantes que levam os cristãos a rezarem ou a contemplarem melhor. Se considerássemos a Liturgia apenas isso, estaríamos incorrendo num conceito esteticista de Liturgia. Haveria, então, duas coisas paralelas: ritos belos e artísticos de um lado e devoção de outro. Pio XII, na encíclica Mediator Dei, em 1947, já dizia que quem pensa assim tem uma idéia errada de Liturgia. Tal idéia ainda existe hoje em dia na Igreja. Possuem-na aqueles que querem uma Liturgia bonita, com canto gregoriano, textos em Latim, paramentos tradicionais e assim por diante. Não quer dizer que a arte e a estética não tenham sua importância na Liturgia, mas Liturgia não é simplesmente isso.
Outros têm a seguinte idéia sobre Liturgia: Seria o conjunto de normas, leis e orientações promulgadas pela hierarquia da Igreja, que regem o culto oficial da Igreja. Pio XII diz que não erram menos os que pensam dessa forma. Neste grupo encontram-se os legalistas e rubricistas, que põem a Liturgia meramente na observância exata e escrupulosa de todas as normas e regras indicadas nas rubricas dos livros litúrgicos. Não quer dizer que não haja necessidade de normas e leis na Liturgia, mas Liturgia não é apenas isso.



03.LITURGIA DENTRO DE UMA VISÃO TEOLÓGICA

Odo Casel, grande Liturgista, que morreu em 1948, definia a Liturgia como sendo o Mistério do culto de Cristo e da Igreja. Temos aqui um conceito teológico de Liturgia. Aparecem nesta definição quatro elementos importantes: O mistério; veremos mais adiante que sentido. O Culto, que expressa o relacionamento profundo entre Deus e os homens. Cristo; este conceito coloca Jesus Cristo no centro do culto. E, finalmente, a Igreja; a Liturgia é uma expressão cultual da Igreja.
Já vemos que não temos belas cerimônias que despertam a devoção, ou normas que regem o culto, mas a expressão mais profunda do relacionamento do homem com Deus, por Cristo, com Cristo e em Cristo. Cultuar Deus significa cultivar Deus. A conceituação de liturgia deve, portanto, ser situada à luz da vocação última do homem, vocação que se manifesta na História da Salvação.
Como vemos, Liturgia tem a ver com a Teologia e a revelação divina manifestada sobretudo nas Sagradas Escrituras.
Seguindo os quatro elementos apresentados por Odo Casel na definição de Liturgia, vamos aprofundar a sua compreensão.



04.O MISTÉRIO

Pra uma melhor compreensão de Liturgia é importante que antes de tudo reflitamos sobre o que vem a ser mistério.
Falamos muitas vezes de mistério: mistério da Santíssima Trindade, o mistério da encarnação, o mistério da presença real de Jesus Cristo na Eucaristia, o mistério pascal, o mistério do homem, os mistérios do Rosário, o mistério da Igreja e assim por diante. Vemos logo que usamos a palavra mistério em diversos sentidos. Percebemos que é um conceito muito rico em significado.
Segundo Dicionário, mistério é algo incompreensível, algo oculto, impenetrável à razão humana; coisa secreta. Significa também o oculto ritual secreto de religiões pagãs.
Mistério no sentido da Liturgia não tem apenas esta conotação intelectual dada acima, mas é visto sob o aspecto da Economia divina da salvação.
Economia provém da palavra grega oikonomía (oíkos + nómos) que significa a norma da casa, a administração da casa. É o plano de Deus em relação à sua família. Economia divina da salvação significa o plano que Deus tem em relação aos homens de fazê-los participantes de sua vida, de seu amor, de sua felicidade. Este plano se manifesta na História da Salvação.



05.O MISTÉRIO DE DEUS

A Sagrada Escritura, os Santos Padres e a Liturgia usam a palavra mistério em sentidos diversos, mas está sempre presente a idéia fundamental de que no mistério têm lugar o invisível e o visível, o celestes e o terreno, o divino e o humano; a virtude espiritual e a imagem exterior material. A palavra mistério, onde duas realidades separadas se unem em uma só, comporta já uma idéia de núpcias. A comunhão de amor entre Deus e o homem.
O mistério em si é um só e abrange toda a realidade. O mistério, como o entende a Liturgia, certamente não é uma verdade que se descobre simplesmente, ou uma verdade oculta que se revela somente à inteligência humana; mistério é antes uma verdade que se cumpre, um desígnio ou plano de Deus que se realiza. Mistério é a ação de Deus, na qual Ele entra em comunhão com o mundo e os homens. Por um lado, Deus se revela e se comunica ao homem e, por outro, o homem entra em comunhão com Deus.
Deus em si ainda não constitui o mistério, nem o homem em si. Mistério é a gratuidade do amor de Deus comunicado aos homens.
Claro, enquanto existe intercomunhão de amor no próprio Deus, entre as Santíssimas Pessoas divinas, podemos falar também em Mistério de Deus.



06.O MISTÉRIO DE DEUS E A VOCAÇÃO DO HOMEM

A vocação do homem consiste em realizar esse mistério de comunhão de vida, de amor e de felicidade com Deus. É chamado à comunhão eterna com Deus, em harmoniosa união com os outro homens, seus companheiros no amor, abraçando toda a realidade criada, como sacerdote, rei e profeta. Batismo.
Tal vocação vem escrita no primeiro capítulo da Espiritual de São Paulo aos Efésios, onde lemos: < Bendito seja Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. Do alto dos céus ele nos abençoou com toda a bênção espiritual em Cristo, escolhendo-nos nele antes da criação do mundo, para sermos adotados como filhos seus por Jesus Cristo, segundo o desígnio daquele que tudo realiza por um ato deliberado da sua vontade, para servir à celebração de sua glória > (Ef 1, 3-5. 11-12).
Mas o homem é também um ser voltado para o próximo e para toda a natureza criada, como vemos nos primeiros capítulos do Gênesis (Gn 1, 26-27). Um ser chamado não a viver a sós (Gn 2, 18-25), mas para realizar uma comunidade de amor, no nível conjugal, fraterno e social, como reflexo e participação da própria comunidade do Deus uno e trino.
Está vocação do homem de comunhão com Deus diretamente, através do amor ao próximo e através de toda a realidade criada, podemos chamá-la de mistério de Deus, pois o mistério de Deus existe lá, onde Deus e o homem de encontram, onde eles convivem, onde existe o amor.
A primeira manifestação desse mistério de comunhão de vida e de amor vemo-la no paraíso, onde Deus passeava com Adão no jardim, à brisa da tarde.



07.O MISTÉRIO SE DESFAZ COM O PECADO

O pecado se desfaz o mistério de comunhão do homem com Deus. Onde o homem era chamado a ser sacerdote (sacer + dos), dom sagrado, dom de Deus, dom recebido de Deus e dom para Deus, torna-se rebelde; quer apossar-se da vida, quer possuí-la como direito e não como dom. Foge da face de Deus, oculta-se, torna-se errante e peregrino, volta ao pó de onde veio. Deixa de ser filho.
Onde o homem era chamado a ser rei, senhor da criação torna-se escravo. O mundo e as coisas tornam-se hostis ao homem. Deve conseguir o alimento com o suor de seu rosto e sobreviver com dores de parto.
Onde é chamado a ser irmão, e assim manifestar o amor de Deus no mundo, sendo profeta, torna-se tirano. Entra o desequilíbrio na comunidade conjugal. O homem e a mulher deixam de ser companheiros no amor, a mulher torna-se sujeita ao homem, que lhe impõe nome. Caim tira a vida de Abel. A ruptura com Deus estabelece a ruptura com o próximo e a ruptura com o próximo afasta Caim do mistério de Deus. Tudo isso, porque se desfizera o mistério de Deus com o homem.
O homem, na comunidade social, quer atingir a Deus, quer tornar-se igual a Deus. Esta tentativa de subversão da ordem divina é descrita na alegoria da Torre de Babel. O resultado é que, pelo orgulho, o homem desmorona em si mesmo; os homens se dispersam e não mais se entende, porque não mais existe a linguagem do amor entre ele e Deus. O mistério se desfizera.

08.A CONVERSÃO

A conversão é um conceito de máxima importância dentro da compreensão da vocação do homem, do mistério e da Liturgia.
O homem, pela própria criação, é chamado à conversão, é um ser convertido. Por ser criatura, é um ser voltado para Deus como filho, voltado para o próximo como irmão e voltado para a natureza criada como senhor.
Aqui devemos distinguir dois aspectos ou duas etapas na conversão do homem após o pecado. A primeira é a volta do pecado à amizade, a comunhão, necessária após o pecado. A segunda etapa consiste num voltar-se, num dirigir-se mais para Deus, em realizar uma comunhão de vida e de amor sempre mais intensa. Esta etapa jamais terá fim, pois o ideal de perfeição do homem é o próprio Deus: < Sede perfeitos como o vosso Pai do céu é perfeito > (MT 5,48).
Não podemos conceber Liturgia sem uma atitude de conversão que perpasse todo o cultivo de Deus. Sem conversão não pode haver culto que seja agradável a Deus.



09.O MISTÉRIO DO CULTO DOS PAGÃOS

Em todos os povos existem tentativas de se reconstruir o mistério de comunhão com Deus. Como? Através do mistério culto.
A palavra mistério (mystérion) vem do verbo grego myo, que significa: estar fechado, estar cerrado; ou fechar-se, cerrar-se. Usa-se esta palavra apenas para coisas que pode ser abertas que podem ser descerradas.
Assim a palavra mistério conota sempre o aspecto de oculto, de secreto, mas que pode ser revelado, manifestado de alguma forma. Traz também o aspecto de rito ou culto ritual aos deuses.
Para melhor compreendermos o que é o mistério do culto pagão e a partir dele, o mistério do culto cristão, ou Liturgia, vamos descrever aqui um mistério do culto dos pagãos, que se baseia num mito.
Os mitos originariamente tentavam expressar um fenômeno da natureza e, mais tarde, um fenômeno da vida humana. Vejamos o mistério de Elêusis, que se inspira no seguinte mito:
Coré, jovem moça, é raptada por plutão, deus dos abismos, que a faz sua esposa. Demetra, mãe de Core, chorando e clamando, percorre os lugares, vingando a filha roubada, reduzindo a morte tudo quanto toca em sua passagem. Afinal aparece Hermes deus do sol, que no carro de Plutão reconduz Core à terra, restituindo-a à sua mãe. E assim tudo revive. Mas, como Core foi feita esposa de Plutão deverá doravante viver uma terça parte do ano nos abismos, isto é, debaixo da terra e duas terças parte sobre a terra.
Vemos claramente que este mito quer expressar o processo anual da natureza, a sorte da semente. Core significa a semente lançada à terra antes do inverno. Plutão significa a terra que recebe a semente. Demetra, a natureza, manifesta no inverno, nos ventos, na neve e nas chuvas. Hermes significa o sol, ou seja, o tempo da primavera, que com seu calor faz nascer à semente. A volta de Core simboliza o amadurecimento do trigo.
Ora, o rito através do qual este mito é vivencial mente representada chama-se mistério. Mistério era, pois, um culto prestado às divindades, para que protegessem a vida contra as intempéries da natureza. Mais tarde, este mito foi entendido também no sentido antropológico. Os homens descobriram que tal mito podia indicar muito bem o processo de vida e de morte pelo qual passa o homem.
Também os antigos acreditavam que a morte não passava de uma etapa transitória, ao menos para os bons, pois um dia finalmente chegariam a participar da vida e da felicidade dos deuses.
Os mistérios do culto representavam a sorte terrena de uma divindade. Para que eles fossem eficazes para o homem era preciso que ele imitasse, por ritos simbólicos, o que essa divindade havia padecido em outro tempo, num tempo remotíssimo, com a finalidade de tirar do passado aquele tempo primordial e colocá-lo no plano da atualidade.
Assim, aquele que representasse por ritos simbólicos os fatos antigos merecia experimentar em sua vida o que, por exemplo, Core experimentar na vida dela. Aqueles que passassem por tal experiência vital eram chamados mistai, isto é, iniciados. Pela experiência vivida, eles adquiriam a certeza de já estarem de posse da salvação desejada.
Vemos, portanto, também entre os pagãos o desejo de participarem da vida da divindade, ou seja, do mistério de Deus, através do mistério do culto.



10. A PÁSCOA-FATO DO ANTIGO TESTAMENTO

Devido ao pecado, o homem por si só não tem mais o direito à vida. Quem o reintegra em sua vocação é o próprio Deus, sempre voltado, sempre aberto para o homem.
A História da Salvação nos mostra como Deus o readmite à participação do mistério. Primeiramente a Bíblia nos mostra como Abraão respondeu ao chamado de Deus, por um duro processo de conversão. Deus passa por sua vida e ele realiza uma passagem para Deus, tornando-se fonte de bênção para todas as famílias da terra. Mais tarde, Deus chama um povo, onde são feitas as mesmas exigências de conversão e as mesmas promessas de bênçãos, o povo de Israel, narradas no Livro do Êxodo.
Temos aqui um fato, um evento na história de um povo: a páscoa. Páscoa significa passagem. Não, porem qualquer passagem, para uma situação melhor. Passagem de Deus pelo seu povo, passagem do anjo exterminador dos primogênitos dos inimigos, fazendo com que o faraó deixasse partir o povo. Páscoa é também passagem do povo: da escravidão para a liberdade, da terra da opressão do Egito para a terra prometida, onde ocorre leite e mel, o novo paraíso. É a passagem pelo Mar Vermelho a pé enxuto, conduzido pela mão de Deus. Realiza-se a páscoa da libertação e a páscoa da Aliança aos pés do Monte Sinai, onde este povo se torna um povo escolhido, um povo sacerdotal, real e profético.
Páscoa é, portanto, uma passagem para uma situação melhor pela ação de Deus na vida do homem.



11. PÁSCOÁ-RITO OU O MISTÉRIO DO CULTO DO ANTIGO TESTAMENTO

Se no Antigo Testamento descobrimos um fato maravilhoso de intervenção libertadora de Deus na história de um povo, temos também a comemoração ou celebração desse fato, através do rito.
Assim, no Capítulo 12 do Livro de Êxodo se fala da comemoração da passagem libertadora de Deus, através do rito do cordeiro ou dos pães ázimos. E no Capítulo 24 do mesmo livro, vemos como Moisés presidiu o rito da Aliança com Deus, depois que o senhor, do alto da montanha, havia manifestado sua vontade.
Constitui-se aqui uma aliança nupcial entre Deus e o seu povo. Nesta aliança, institui-se um rito pelo qual se conservou através do século uma ação histórica de Deus. Temos o rito que evoca o passado de Israel e introduz as gerações futuras no acontecimento primordial, nas núpcias do Sinai. O povo revive o passado de Deus como uma realidade presente. É um memorial, uma comemoração, ou seja, a celebração, a atualização ritual daquela ação de Deus que em outro tempo fez de Israel povo e esposa de Deus. Neste rito imita-se o que outrora aconteceu historicamente. Graças a esta representação, faz-se de novo presente a maravilhosa salvação realizada por Deus.
Na celebração da Páscoa anual, semanal, da liturgia sabática e diária, da liturgia das horas, fazia-se pois presença e realidade ritual de geração em geração a Aliança com que Deus se desposou de Israel. Deste modo, as aspirações dos pagãos por uma união nupcial com a divindade se realizaram nas celebrações cultuais de Israel, embora se tratasse ainda de uma realização inicial, antecipada, de promessa.



12.JESUS CRISTO, A PÀSCOA VERDADEIRA

A grande iniciativa pascal de Deus, através da qual todos os homens poderiam inserir-se novamente em sua vocação integral, é a encarnação do verbo de Deus, o homem perfeito, o segundo Adão.
Jesus Cristo, Deus feito homem, realizou plenamente a vocação do homem. Ele se manifestou como rei da criação, como aquele que não está sujeito, mas é senhor da natureza. Ele vence o pecado e a morte, ressuscitando dos mortos e recebe do Pai o dom da vida, tornando-se o Kyrios, o Senhor.
Ele se manifesta como sacerdote. Reconhecido como filho de Deus no Jordão, ele é apontado como o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (Cf. Jô 1,29). Manifesta-se como caminho, verdade e vida. O seu sacerdócio se exerce de modo particular em sua obediência até a morte e morte de cruz, pela qual ele se reconhece verdadeiramente homem, sujeito ao seu Criador e Senhor. Ele se humilhou até a morte e morte de cruz. Pelo que Deus o exaltou e lhe deu um nome que está acima de todo o nome (Cf. Fl 2,5-11).
Jesus Cristo sendo rei e sacerdote, anunciou o Reino de Deus pelo exemplo de sua vida e pela pregação. É o grande profeta de Deus neste mundo.
Em Jesus Cristo realizou-se de modo perfeito a comunhão entre Deus e o homem. Em Cristo realizou-se de modo perfeito a comunhão entre Deus e o homem. Em Cristo, Deus e homem se tornaram um só. A natureza divina e a humana em Jesus Cristo são uma só pessoa, Assim, o mistério de Deus, o plano de realizar em Jesus Cristo, chama-se mistério de Cristo. Em Jesus Cristo se dá a verdadeira páscoa, a verdadeira passagem de Deus pelo mundo dos homens e a passagem do homem para a esfera de Deus. Nele toda humanidade estava presente e foi reconciliada. Por meio dele, apesar do pecado, o homem poderá realizar novamente sua vocação integral de comunhão de vida e de amor com Deus.



13.O MISTÉRIO E OS MISTÉRIOS DE CRISTO

Como no Antigo Testamento, também no Novo temos uma Páscoa-fato e uma Páscoa-rito. A esta pode chamar de mistério do culto ou liturgia.
Devemos distinguir entre o mistério de Cristo, enquanto o mistério de Deus se manifesta em Cristo e o mistério do culto, enquanto os homens nele se inserem e dele participam através dos ritos.
Os mistérios de Cristo não são na Liturgia proposições doutrinárias, mas ações, pelas quais se revela e se realiza concretamente em Cristo o plano salvífico de Deus. Mistério são as ações de Jesus Cristo, enquanto revelam e realizam a salvação. Assim, são mistérios de Cristo: a encarnação, a visita a Isabel, o nascimento, a manifestação aos magos, a apresentação ao Templo, o encontro no Templo, a vida oculta de trabalho em Nazaré, o Batismo, o jejum, as tentações, a oração, a pregação, os milagres, as curas, o perdão dado aos pecadores, o chamado e o envio dos discípulos e apóstolo, a transfiguração, a última ceia, o lava-pés; sua Paixão, Morte e Ressurreição, a ascensão, o envio do Espírito Santo; o testemunho dos mártires, a vida dos santos, as virtudes dos cristãos; a própria obra da criação.
Todos estes mistérios são expressões da grande Páscoa de Deus, da Páscoa-fato. Jesus Cristo nos deixou o exemplo para que o imitemos e assim tenhamos acesso ao Pai, realizando a nossa páscoa. E toda essa maravilha da manifestação de Deus no mundo pode ser vivida através de sua celebração, ou seja, no mistério do culto.



14.A IGREJA

O exemplo a segui e os meios que o Cristo nos deixou para realizarmos a vocação integral do homem, normalmente nos são comunicados através da Igreja.
Diz o Concílio Vaticano II: < Assim como Cristo foi enviado pelo Pai, assim também ele enviou os apóstolos, cheios do Espírito Santo, não só para pregarem o evangelho a toda criatura, anunciarem que o Filho de Deus, pela sua morte e ressurreição, nos libertou do poder de Satanás e da morte e nos transferiu para o reino do Pai, mas ainda para levarem a efeito o que anunciavam: a obra da salvação através do Sacrifício e dos Sacramentos, sobre os quais gira toda a vida litúrgica >(SC, nº6).
Os apóstolos recebem a missão de em Cristo congregar a todos na unidade, de estabelecer o reino do amor, onde tudo seja recapitulado em Cristo (Cf. Ef 1,10).
Chegarão ao amor, chegarão a realizar a vocação integral aqueles que crerem em Cristo, aqueles que o imitarem, procurando viver o que ele realizou. Onde houver boa vontade, onde houver amor, aí Deus, está, pois haverá justificação em Cristo.
Assim surgem os dois aspectos da Igreja de Cristo. Primeiro, no sentido amplo, a Igreja como mistério de vida divina no conjunto de todos os que amam a Deus, em todos os que tenham boa vontade, pois aí continua a obra de Cristo: <>. Segundo, a Igreja como comunidade visível do que crêem conscientemente em Cristo e, guiados e servidos pela hierarquia, participa, de seus sacramentos, procurando viver uma vida mais consciente de caridade através da vocação e da missão batismais.
Esta dupla compreensão da Igreja de Cristo é muito importante para compreendermos e apreciarmos as diversas formas e expressões da Liturgia: as expressões da Igreja Católica e todas as outras expressões, seja das Igrejas evangélicas e de todas as comunidades humanas que de boa vontade buscam a Deus. Esta compreensão de Igreja cria em nós uma atitude ecumênica de apreço e respeito por todas as formas de culto, tanto no Cristianismo como fora dele.



15.O MISTÈRIO E OS MISTERIOS DO CULTO

Participamos dos mistérios de Cristo pelos mistérios do culto. O mistério do culto é a representação e a ritualização ritual do mistério de Cristo, que nos permite entrar no Mistério de Cristo. O mistério do culto é, pois. Um meio para que o cristão viva o Mistério de Cristo. Os mistérios do culto são realizações parciais do mistério de Cristo. É a continuação da presença e da ação de Cristo no mundo. Pelos mistérios do culto, isto é por ações que nós realizamos e que Cristo realiza em nós, participamos de modo material-visível, isto é no rito, e ao mesmo tempo de modo espiritual-invisível das ações redentivas de Cristo, de tal maneira que pelo símbolo imitamos a vida de Cristo.
Nos mistérios do culto tornam-se presentes as ações salvíficas de Cristo, ou os mistérios de Cristo. Assim, a Igreja participa dessas ações salvíficas de Cristo primeiramente pelos Sacramentos. O Batismo recorda, torna presente a páscoa de Cristo, a nova vida, realizando-se a Aliança de amor na fé e a inserção na comunidade eclesial. Pela Crisma a Igreja comemora a participa do dom do Espírito de Pentecoste. Tudo quanto podemos dizer de Pentecostes, podemos dizê-lo da Crisma. Na Eucaristia, a Igreja realiza o memorial da Nova Aliança como Sacramento do Sacrifício da Cruz, na forma de banquete fraterno, do amor universal e eterno. Na Eucaristia a Igreja celebra todo o mistério de Cristo, o mistério da fé. A Penitência lembra o Cristo que veio perdoar. Como Ele perdoou, reconciliou em sua vida histórica e mereceu a misericórdia de Deus para todos os homens arrependidos na celebração da Penitência tornam-se presentes a mesma misericórdia e o perdão de Deus manifestado em Cristo. A Unção de Enfermos recorda o Cristo que veio confortar e curar os enfermos e sanar a humanidade inteira do pecado, dando-lhe a esperança da saúde e da salvação eterna. No mistério da Ordem a Igreja celebra o Cristo que veio para servir em ordem à salvação e não para ser servido. Este serviço de salvação de Cristo continua na Igreja pelo Sacramento da Ordem, pelo anúncio da mensagem do Evangelho, pela santificação e o culto e pelo pastoreio do rebanho de Cristo. No Matrimônio a Igreja celebra, no símbolo da união de amor entre o homem e a mulher, a união de amor de Cristo com a Igreja, ou seja, com toda a humanidade.
O mesmo poderia dizer da Profissão religiosa, onde a Igreja celebra a vocação do homem á santidade em Cristo e as núpcias escatológicas entre Cristo e a humanidade, antecipada na vida religiosa.
Depois, temos os outros mistérios do culto, como o Ano Litúrgico, o Domingo, a Oração comunitária da Igreja em sua forma erudita da Liturgia das Horas e nas formas populares como o Rosário, o Ângelus, a Via-Sacra, etc. Finalmente, temos os funerais, as procissões e romarias, as bênçãos, as celebrações da Palavra de Deus, etc.
Ora, todos estes mistérios do culto são expressões da Liturgia Cristã. Agora, podemos compreender melhor a afirmação de Odo Casel, segundo a qual a Liturgia é o mistério do culto de Cristo e da Igreja.



16.DEFINIÇÂO DE LITURGIA À LUZ DO CONCILIO VATICANO II

A partir das considerações feitas, temos agora condições de descrever a Liturgia. À luz da Constituição Litúrgica Sacrosanctum Concilium do Vaticano II, podemos dizer que a Liturgia é uma ação sagrada pela qual através de ritos sensíveis se exerce, no Espírito Santo, o múnus sacerdotal de Cristo, na Igreja e pela Igreja, para a santificação do homem e a glorificação de Deus (Cf. SC, nº7).´
Cada elemento é importante: 1. É uma ação sagrada. A Liturgia não existe em livros, mas na ação de uma comunidade que é a Igreja. Nesta ação age Jesus Cristo. A ação é sagrada, isto é, comunica com Deus: é uma ação, onde entra a fé e o amor de Deus. 2. Através de ritos sensíveis. Nem tudo é Liturgia e nem a Liturgia esgota toda a comunicação do homem com Deus. Na Liturgia esta comunicação com Deus por Cristo e em Cristo se faz através de ritos sensíveis, isto é, de forma sacramental. A salvação de Deus manifesta-se através de sinais. 3. Se exerce o múnus sacerdotal de Cristo. Na ação sagrada da Liturgia é o próprio Cristo quem age; é ele quem continua a realizar a obra da salvação, de modo que todos os homens possam viver a sua vocação sacerdotal. 4. Na Igreja e pela Igreja. Quando dizemos na Igreja, queremos a realçar que quem age é Cristo, a ação sagrada é de Cristo, é ele o sacerdote principal. Quando dizemos pela Igreja, queremos acentuar que Cristo não age sozinho, mas está presente na e pela ação da Igreja. Quando a Igreja põe a ação sagrada, evocando o sacerdócio de Cristo, é Cristo quem está agindo na Igreja. 5. Para a santificação do homem e a glorificação de Deus. São os dois aspectos, chamados também dois movimentos de cada ação litúrgica; o movimento de Deus para o homem, a santificação, e o movimento do homem para Deus, a glorificação.
Quando numa ação sagrada da comunidade cristã encontrar esses cinco elementos, podemos dizer que estamos diante de uma ação litúrgica. Notemos que deixamos em aberto o conceito de Igreja, conforme expusemos no parágrafo 14 deste capítulo.



17.O SÌMBOLO

Mais atrás, no parágrafo 15 afirmamos que no mistério do culto imitamos pelo símbolo a vida de Cristo. Dissemos também que a Liturgia é o exercício do sacerdócio de Cristo através de ritos sensíveis que significam e realizam a santificação do homem (Cf. SC, nº7).
Aqui convém fazer uma reflexão sobre a imitação simbólica dos mistérios de Cristo. Símbolo aqui é tomado não no sentido moderno de alegórico ou irreal, mas no sentido profundo dos antigos. O símbolo compõe-se de dois elementos. Vem da palavra grega syn-ballo, synbolon, que significa lançar junto, unir.
Conhecemos várias palavras com a raiz ballo: embalo, balanço, balança, baliza, balão bala, balística, ballet, baile, bola, bolo. Temos sempre subjacente um movimento, uma ação.
Quando os comerciantes gregos faziam um contrato, os dois contratantes quebravam um bastão pelo meio, levando cada qual uma parte consigo. Por ocasião do cumprimento do contrato, levavam consigo o respectivo pedaço de bastão e uniam-nos para comprovar que o contrato fora feito entre eles. Esta ação de unir as duas partes do bastão constituía o símbolo. Ora, onde os dois pedaços se unem, a uma figura ou uma forma que é, ao mesmo tempo, igual e diferente. Um pedaço contém o outro, um está no outro, tornam-se dois em um só. Um está no outro, mas em outra forma.
Podemos dizer, então, que símbolo é a mesma coisa, ou a mesma realidade, em outra forma.
Assim também nos mistérios do culto há algo que é igual e algo que é diferente entre o fato histórico ou os mistérios de Cristo – ações salvíficas de Cristo – e o rito. Ora, a ação salvíficas de Cristo é a mesma na sua vida terrena e no rito, mas esta presente de modo diverso, isto é, existe a mesma realidade, mas sob outra forma, ou seja, na forma de rito, simbolicamente, sacramentalmente. Podemos dizer, então, que o símbolo é a linguagem do mistério. Por isso, podemos dizer que na Liturgia todos os sinais são sinais simbólicos, e serão sinais litúrgicos na medida em que forem capazes de ocultar, conter, revelar e comunicar os mistérios de Cristo.



18.VÁRIOS TIPOS DE SÍMBOLOS NA LITURGIA

Há vários tipos de Sinai significativos ou símbolos na Liturgia. Aqui não pretendemos aprofundá-los, mas dar apenas algumas indicações.*
Em primeiro lugar, o sinal pessoa. Temos, então, a assembléia litúrgica, o ministro dos Sacramentos e os demais ministros dos Sacramentos e os demais ministros da Liturgia.
*No nosso livrinho Os Símbolos litúrgicos, 3ª edição, Vozes 1981, procuramos aprofundar os símbolos litúrgicos mais usados.
A palavra é, sem dúvida, um dos meios mais importantes de comunicação entre os homens. Pode ser a Palavra de Deus contida na Sagrada Escritura ou textos formulados pela Igreja.
Depois, temos elementos da natureza que se tornaram símbolos na Liturgia: água, luz, fogo, incenso, pão e vinho, óleo, cinza, etc.
Os objetos também são freqüentemente usados: cálice, patena, alianças, báculo, mitra, livros litúrgicos, etc.
Temos, em seguida, os gestos: Gestos com a mão, como o sinal da cruz, juntar as mãos, erguer as mãos, impor as mãos; gestos com a cabeça, como inclinar a cabeça; gestos com o corpo, como inclinação profunda, o ajoelhar-se, fazer genuflexão. Atitudes do corpo como estar de pé, estar ajoelhado, estar sentado, estar prostrado.
Temos também os movimentos: Procissões, romarias.
O som poderá tornar-se um sinal significativo. Temos então, todo o sentido da arte musical.
A cor como linguagem. Temos a arte plástica, capaz de expressar os diversos mistérios da salvação. Temos aí a pintura e a escultura. Não devemos esquecer o espaço sagrado; sagrado porque capaz de significar uma realidade além da própria experiência do espaço, porque nos revela os mistérios de Cristo como, por exemplo, a Jerusalém celeste, o Templo de Deus.
Não podemos esquecer a veste. Linguagem muito forte, capaz de indicar a realidade do mistério. O tempo pelo qual o homem experimenta o processo de vida e de morte. Por isso, o tempo está na base da vivência anual, semanal e diária do mistério de Cristo. Por fim o próprio silêncio pode ser uma sinal eloqüente, e, por vezes, mais eloqüente do que muitas palavras ou muito barulho.



19.O RITO LITÚGICO

O sinal litúrgico terá sempre um conteúdo sagrado. E na medida em que expressa um conteúdo sagrado é que ele se torna sinal litúrgico.
Esta realidade mais profunda ou divina que o sinal litúrgico contém e revela pode ser a fé, a esperança, a caridade, a adoração, a oração de pedido, de intercessão, de pedido de perdão. Pode ser a admiração pelas maravilhas de Deus.
Podem expressar a bênção, graças sacramentais e a própria presença real de Jesus Cristo em sua Igreja, como no caso especial dos sinais do pão e do vinho na Eucaristia.
O próprio estudo da Liturgia consiste sobretudo em descobrir o sentido dos sinais, sejam eles elementos, gestos, textos ou outros. Iniciar na experiência de Deus pela Liturgia é sobretudo introduzir as pessoas no conteúdo dos sinais, ajudá-los a perceber os mistérios contidos nos símbolos; é adquirir uma dimensão simbólica dos sinais litúrgicos.
Quando falamos em ritos na Liturgia devemos pensar em tudo isso. Não apenas em gestos, em sinais ações, mas todos os sinais tornam-se ritos na medida em que desvelarem e comunicarem o mistério.
Por isso, os ritos na Liturgia não valem pelo que são, pela sua função, pela sua utilidade, mas pelo que significam. Um exemplo: a procissão das oferendas. Se elas forem levadas para o altar apenas para que o sacerdote as tenha, a fim de servirem de matéria para o sacrifício, a procissão ainda não tem sentido nenhum. Ainda não constitui um rito significativo. Seria apenas um gesto utilitário, seria um puro cerimonial. Mas se, ao levá-las, a comunidade quer com este gesto exprimir uma atitude interna de oferecimento, uma disposição de oferecer a própria vida significada pelo pão e o vinho, então a procissão das oferendas se transforma em rito. O mesmo podemos dizer do gesto de o sacerdote lavar as mãos antes de iniciar a Oração Eucarística. Quer significar a pureza do coração necessária para que a ação de graças seja agradável a Deus.



20.AS DIMENSÕES DO SINAL LTÚRGICO

A celebração de um aniversário, por exemplo, revive toda a vida da pessoa, projetando-a para o futuro.
Também na celebração litúrgica os sinais abrangem e significam toda a realidade: o passado, o presente e o futuro.
Eles evocam ou comemoram o passado, ou seja, os mistérios de Cristo. Mas não os lembram pura e simplesmente. Recordando-os, a Liturgia os torna presentes, pois o próprio Cristo quis tornar presente sua ação sacerdotal, quando a Igreja reunida recorda o que ele fez. Os sinais litúrgicos são, portanto, indicativos da realidade presente: tornam presente a ação de Cristo.
Mas os sinais litúrgicos tornam-se também prefigurativos do futuro, da realidade plena futura que sob os véus dos sinais já tem seu início agora. É a dimensão escatológica da Liturgia.
Portanto, a celebração litúrgica abarca todo o tempo, toda a realidade: passada, presente e futura. Pensemos, por um momento, na celebração da Missa. Ela recorda o mistério da Morte e Ressurreição de Cristo, mas, recordando este mistério, ela o torna presente para nós agora, de tal maneira que nós possamos realizar em nossa vida a passagem com cristo deste mundo para o Pai. Mas a presença do mistério da Morte e Ressurreição de Cristo em nossa vida, já é uma prefiguração, uma realidade, embora imperfeita, daquilo que será desvelado e vivido plenamente na eternidade.
Vivendo-se realmente esta três dimensões do sinal litúrgico, transparece claramente uma quarta. Esse sinal litúrgico assim vivido é um sinal empenhativo ou um sinal exigente. Ele exige que conformemos a nossa vida com aquilo que celebramos; ele exige uma atitude de conversão. Vemos que a Liturgia vivida nessa profundidade se torna muito exigente; deixa de ser um mero cerimonial, um formalismo, para tornar-se um rito, que adquire a máxima seriedade de um jogo, de uma festa. Torna-se realmente vida.



21.A PARTICIPAÇÃO ATIVA NA LITURGIA

Para a vivência da Liturgia é importante adquirir uma idéia exata sobre o que seja participação ativa.
O Concílio fala de participação frutuosa. E para se atingir a participação frutuosa, ele fala de participação ativa, consciente e plena (Cf. SC, nº 11 e 14). Facilmente identificamos participação ativa com participação oral ou falada. Esquecemos, então, que se pode participar ativamente de uma celebração também através da audição, isto é, ouvindo. Daí a música, o canto polifônico, etc. A vista é outro meio de participação. O olhar de quem acompanha devotamente o que se desenrola no altar, sabendo que aí se torna presente o Sacrifício da Cruz. Aqui o sentido dos gestos, dos símbolos, da arte, dos paramentos, dos ornamentos, todos eles meios de participação ativa e frutuosa. O próprio olfato é outro sentido pelo qual o homem pode comunicar-se. O uso do incenso pode ser valorizado nesse sentido. Temos ainda o tato, no ósculo do altar, do livro dos Evangelhos, na saudação da paz, etc. Os movimentos, a ação. O próprio silêncio religioso, tão recomendado, pode tornar-se um rito eloqüente e cheio de conteúdo.
Quando se fala em participação consciente, não se deve pensar numa compreensão explícita e plena de cada palavra ou gesto, mas, antes de tudo, na compreensão dos mistérios contidos nas leituras, nas orações, nos símbolos. O mais importante aqui será uma catequese profunda, uma iniciação na fé cristã, para que se possa viver o mistério que é celebrado.
O símbolo nunca se esgota e nunca pode ser compreendido inteiramente. O símbolo que quiser tornar-se compreensível demais, provavelmente perderá sua força de símbolo. O que importa é aprofundar-nos no mistério contido nos símbolos.



22.A LITURGIA E A AUTORIDADE DA IGREJA

Dissemos que a ação sagrada da Liturgia se realiza na Igreja e pela Igreja. A Igreja pode ter dupla expressão: a Igreja de facto e a Igreja de iure, ambas verdadeiras e reais manifestações da Igreja.
Temos uma manifestação da Igreja de facto, quando estiver a assembléia reunida sob a presidência do Bispo, rodeado do presbitérios, os ministros e os fiéis; e será também expressão da Igreja de facto a reunião de dois ou três em nome de Cristo (Cf. MT 18, 20). Estar reunido em nome de Cristo supõe que seja em comunhão com o Bispo.
Temos uma ação da Igreja de iure, quando uma pessoa age em nome da Igreja, ou seja, representa a Igreja; é, por exemplo, o caso de uma Eucaristia celebrada a sós por um sacerdote, que deixa de ser algo de meramente particular, ou a Liturgia das Horas rezadas em particular.
Então qual a função do magistério da Igreja nessas diversas expressões da Liturgia? O magistério tem dupla função. A primeira, quanto ao conteúdo, garantido que se celebre a verdade. Como no campo doutrinal o Magistério garante que algo é revelado ou não, e temos o dogma, a doutrina da fé, no campo da Liturgia, o Magistério tem antes de mais a função de garantir a ortodoxia do culto cristão.
Daí a necessidade da aprovação dos textos das orações e dos cantos, etc.
A segunda função é disciplinar, para que se consiga a necessária unidade de expressão. Toda a vida em comunidade precisa ser regida por leis e normas para seu bom funcionamento. Como em outros campos da vida humana, também no culto não se trata de abolir as fórmulas, as normas, as estruturas, mas de libertar-se delas, assumindo-as. Faremos a renovação, não derrubando as estruturas, mas de libertar-se delas, assumindo-as. Faremos a renovação, não derrubando as estruturas, mas através delas renovando-as e vivificando-as.



23.A LITURGIA E OUTRAS EXPRESSÕES DA VIDA DA IGREJA

Nem tudo é Liturgia na vida da Igreja. Existe também o que precede e o que segue. Toda a vida deverá estar em íntima relação com o momento da celebração do mistério do culto, com rito, mas nem tudo é rito ou Liturgia na vida dos cristãos.
Antes que os homens possam achegar-se da Liturgia, faz-se mister que sejam chamados à fé e à conversão (Cf. SC, nº 9). Existe, pois, a pregação para os que não crêem, e para os que já crêem, a fim de que possam progredir cada vez mais em sua vocação cristã. Tudo isso deve levar a uma comunidade de culto, sendo então Liturgia o ápice da vida cristã para o qual tudo converge. Mas a Liturgia será aos mesmo tempo fonte, onde o cristão se alimenta, a fim de tornar-se no mundo verdadeira luz e glorificar o pai diante dos homens (Cf. SC, nº 9).
Tendo vivido o momento forte do culto ritual, o cristão realiza trabalhos apostólicos: fortificado pela graça, que lhe vem através da celebração, ele vai realizar sua missão na construção do mundo, tornando-se esta missão, em outro plano, um verdadeiro culto a Deus, uma verdadeira hóstia espiritual (Cf. SC, nº 12).



24.AS EXPRESSÕES DA ESPIRITUALIDADE CRISTÃ

Esquematizando um pouco, podemos dizer que a espiritualidade cristã se expressa de uma forma particular ou individual e de uma forma comunitária. Duas formas de oração, de comunicação com Deus, que não se contrapõem, mas se completam. Digo particular e comunitária e não pessoal e comunitária, pois ambas as formas, para serem oração verdadeira, deverão ser pessoais.
O homem manifesta-se religiosa ou cultamente como indivíduo pela oração interior, na meditação, na contemplação, na leitura espiritual, em fórmulas livres ou pré-elaboradas, através de obras de caridade, de seu trabalho na construção do mundo. Em última análise, é ele um indivíduo e, como tal, comunica-se com Deus, como próximo e com a natureza criada.
Mas não é um indivíduo isolado; possui uma vocação eclesial; é chamado a formar uma família, a exemplo do próprio Deus uno e trino. Por isso, é chamado a expressar-se também comunitariamente. Esta sua expressão pessoal comunitária pode ser sacramental, isto é expressa pela celebração de algum dos sete sacramentos, deixados pelo Senhor para o nosso relacionamento com Deus, o próximo e a natureza criada, através de Cristo; e pode ser não sacramental no sentido estrito. Temos, então, as festas, as celebrações da Palavra de Deus, a profissão religiosa, os jubileus, as exéquias, a oração em comum, que pode assumir uma forma erudita, como na Liturgia das Horas, e uma forma popular, como nas devoções do Ângelus, o Rosário, a Via-sacra, novenas, bênçãos do Santíssimo, etc.
As duas formas se completam e se alimentam. A oração particular e a comunitária são dois canais diversos se comunicação com mistério. Uns têm mais facilidade em uma modalidade, outros, na outra. Vivendo estes momentos explícitos de oração, quer comunitária, quer individual, podemos transformar toda a nossa vida de ação, de construção do mundo numa verdadeira oração. Passaremos, então, ao que podemos chamar de oração-atitude, onde tudo quanto fizermos será realizado em espírito de comunhão com Deus, cumprindo as palavras de São Paulo: < Quer comais, ou bebais ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus > (1 Cor 10, 31). Toda a vida do homem será então uma hóstia viva de ação de graças a Deus.



Indicação bibliográfica para consulta:

1. Pio XII, Encíclica Mediator Deis sobre a Sagrada Liturgia, Documentos Pontifícios, nº 54, Vozes.

2. Concílio Vaticano II, Constituição < Sacrosanctum Concilium >, nº 1-13.

3. Hermann Volk, A Liturgia Renovada. Fundamentos Teológicos, Vozes 1968.

4. Luciano Parisse, A Liturgia e o Homem, Vozes 1967.

5. Luciano Parisse, A Liturgia e o Homem, Vozes 1968.

6. Jean Corbon, Liturgia de Fonte, Edições Paulinas 1981.

7. Frei Alberto Beckhäuser, OFM, Símbolos Litúrgicos, Vozes 1981, 3ª Ed.

8. Claude Duchesneau, A Celebração na vida cristã, Edições Paulinas 1977.

9. Humberto Porto, Liturgia Judaica e Liturgia Cristã, Edições Paulinas, 1977.

10. PE. Gregório Lutz, Liturgia. A Família de Deus em Festa, Edições Paulinas, 1978.