OS LUGARES DE PAULO


"Para todos eu me fiz tudo" 1Cor 9,22



Depois de apresentar aos "fortes" (ricos, sábios e nobres) de Corinto o seu exemplo de dedicação gratuita à missão de evangelizar, Paulo diz ter-se feito judeu com os judeus, submisso à Lei com os submissos à Lei, sem a Lei com os que não a tinham, fraco com os fracos, e arremata dizendo ter-se feito tudo por todos.

Em outros termos, procurava sempre estar no lugar de cada um. São esses lugares diversos em que Paulo se situou que vamos buscar entrever nas cartas incontestavelmente suas.

Ninguém coloca seriamente em dúvida que Paulo tenha escrito (ou ditado) a Primeira aos Tessalonicenses, as Primeira e Segunda aos Coríntios, Filipenses, Filemon, Gálatas e Romanos. Nesses escritos vamos tentar identificar os diversos lugares em que Paulo se situa. Vamos notar que ele se coloca exatamente no lugar onde se encontram seus destinatários, quaisquer que sejam eles.

Vamos tentar seguir os textos paulinos por uma ordem cronológica geralmente considerada mais provável (1Ts, 1 e 2Cor, Fl, Fm, Gl e Rm). A mim tem ocorrido a suspeita de que Filipenses e Filêmon possam ser anteriores a 1Cor, pois, quando escreve essa carta, Paulo já não está lutando contra as "feras" que o detinham no pretório em Éfeso (1Cor 15,32). Lembrar que Inácio de Antioquia também chama de "feras" os soldados que o mantinham prisioneiro . Isso, porém, não invalida nossa busca dos lugares de Paulo.

Paulo não se converteu de um sistema fechado de convicções, o farisaísmo , pa-ra outro sistema fechado. Ao contrário, ao converter-se, ele se tornou para sempre aberto a novas revelações ou descobertas, aceitou na prática ser evangelizado pelas novas realidades, especialmente as diferentes realidades culturais. Por isso mesmo, colocou-se sempre no lugar de seus destinatários e falou a sua língua. Paulo jamais teve a postura triunfalista do evangelizador para quem nada é relativo e que se vê senhor da verdade fria, total e absoluta.


Em Tessalônica
O Evangelizador é evangelizado



É tido e sabido que 1Ts é o primeiro escrito do Segundo Testamento. Bons autores consideram esse documento como uma costura de duas cartas de Paulo a essa comunidade. De fato 1Ts 2,17-3,13 deixa-nos uma forte impressão de ser uma carta independente sob todo o ponto de vista, o que não vem ao caso aqui debater. Seria, na hipótese que julgo muitíssimo provável, uma primeira carta, escrita talvez ainda de Atenas, logo que Timóteo ou Timóteo e Silvano chegaram de Tessalônica e foram reencontrá-lo.

Nesse primeiríssimo documento do NT está presente o verbo evangelizar. Já os Setenta haviam traduzido vsr por , evangelizar, trazer boas novas. Aqui (1Ts 3,6), porém, quem é evangelizado, quem recebe as boas novas é Paulo o evangelizador. As boas novas que ele recebe, o evangelho para ele, são as notícias da comunidade, firme na fé e no amor. Este evangelho dá nova vida ao evangelizador (3,8).


O lugar da comunidade



Tessalônica é uma cidade tipicamente grega, capital da província romana da Macedônia. Nesse mundo cultural, a sociedade é semelhante ao corpo humano. Os sábios e os dirigentes são a cabeça, o trabalhador braçal são os pés e as mãos, a serviço da cabeça e totalmente desprezíveis.

Paulo, que exercia um trabalho manual, iniciou uma comunidade cristã em Tessalônica "trabalhando noite e dia para não ser pesado a ninguém" (1Ts 2,9). A partir do mundo do trabalho, ele iniciou ali uma comunidade cristã de trabalhadores braçais, a ralé da sociedade local.

A essa comunidade ele chamou de "ekklesi,a em Deus Pai e no Senhor Jesus Cristo" (1,1). Ekklesia, geralmente traduzida por Igreja, era a assembléia da elite social local, a cabeça que governava a cidade. Pai da Pátria era o Imperador, o patrono universal de todo o Império, aclamado como Senhor (ku,rie ele,hson) ao chegar a qualquer lugar. Essa ekklesia tem Deus por Pai e, por Senhor, o Messias Jesus, trabalhador braçal crucificado.

A estrutura do Império Romano se sustentava no sistema de patronato e cliente-la, proteção e dependência. Todos eram clientes, dependentes. Só o Imperador não era cliente, era o patrono de todo o império, o deus acessível, onipotente e benfeitor. Ele podia tudo e tudo o que vinha dele, vinha por bondade e complacência. Alguns eram clientes dele e patronos de outros inferiores, que tinham também seus clientes. O cliente era fiel em tudo ao patrono, dava-lhe apoio irrestrito em todas as circunstâncias e a proteção que dele recebia tinha a forma de benefícios, que lhe exigiam gratidão e mais fidelidade. As relações sociais eram fundamentalmente desiguais, numa linha vertical de proteção e dependência.


Paulo no lugar



Com uma palavra Paulo muda o sentido das relações interpessoais de vertical para horizontal. Jamais chama os cristãos de Tessalônica de filhos, o que poderia significar discípulos ou até mesmo súditos. Nesse pequeno documento de cinco curtos capítulos ele emprega catorze vezes o termo "irmão". Ele não é o pai ou o patrono da comunidade, ele é irmão. Ele não espera gratidão, dá graças inúmeras vezes a Deus, o único Pai, o único a quem se devem ações de graças. Paulo é irmão, os cristãos são irmãos, nossa relação é horizontal.

Falando a trabalhadores braçais, o vocabulário por ele utilizado em toda a carta é o vocabulário do trabalhador: obra ou produção, cansaço, trabalho ou labuta, firmeza ou resistência.

Assim é que, logo de início (1,3), a primeira referência às três, depois chamadas "virtudes cardeais": Fé, Esperança, Caridade, já as liga aos valores de trabalho: obra ou produção, labuta e resistência. Paulo diz que, em sua oração contínua, faz memória tou/ e;rgou th/j pi,stewj kai, tou/ ko,pou th/j avga,phj kai, th/j u]pomonh/j th/j evlpi,doj: da obra ou produção da fé, da labuta do amor e da resistência ou fortaleza da esperança.

O trabalhador entende então que sua fé ou fidelidade, não ao patrono (patrão), mas ao senhor que é Jesus, é ou tem que ser produtiva, dar resultados práticos. Mais tarde Paulo vai dizer que essa fé ou compromisso com Jesus atua pelo amor (Gl 5,6).

O amor não é fácil, dá trabalho, é uma labuta, exige sacrifício, cansa. O dicionário de grego de Isidoro Ferreira registra a palavra ko,poj como golpe, pena, sofrimento, cansaço. O trabalhador braçal entende.

A esperança no Messias Jesus que Paulo anunciou aos trabalhadores de Tessalônica foi acolhida no maior entusiasmo. Quem sabe o mito de Cabiros , defensor dos pobres, humilhado e morto por seus irmãos, mas que retornaria para fazer justiça aos pobres e sofredores, tenha sido fator decisivo para a aceitação da esperança cristã. Quem espera, tem de esperar, deve ter a fortaleza, a paciência, a perseverança, a resistência do trabalhador braçal.

A esperança (lembro aqui o "Pedro Pedreiro" do Chico Buarque) é também pró-pria do trabalhador sofrido. Baste uma comparação, nos 16 capítulos de 1Cor só duas vezes Paulo fala em esperança, enquanto que nos cinco breves capítulos de 1Ts a palavra ocorre quatro vezes.

Comparando ainda, a palavra ko,poj, labuta, trabalho penoso, ocorre três vezes em 1Ts contra duas em 1Cor duas nos 13 capítulos de 2Cor e nenhuma nos 16 capítulos de Romanos. Além do substantivo, ocorre também o verbo kopia,w, labutar, quando (5,12) Paulo pede consideração pelos que labutam nos encargos de presidir e de chamar à atenção a comunidade.


Em Corinto
O Evangelizador é evangelizado



Os Atos dos Apóstolos, de maneira evidentemente artificial, colocam nos lábios de Paulo um discurso primoroso pronunciado no areópago de Atenas. Nenhum orador ou filósofo grego encontraria qualquer falha ou defeito naquele discurso. O resultado foi o fracasso total: "Volta outro dia, quem sabe..." (At 17,32).

Na Primeira aos Tessalonicenses (3,1) Paulo diz ter ficado em Atenas sozinho. Então, terá mesmo tentado usar os recursos da sabedoria e da oratória grega para conquistar algum filósofo para a fé em Jesus Cristo? Terá sentido o peso do insucesso? O fato é que as boas notícias de Tessalônica lhe deram nova vida (1Ts 3,7-8). Quer dizer que estava morto, desanimado e sentindo o peso das dificuldades.

Se ainda estava em Atenas ou já em Corinto como afirmam os Atos (18,5) pouco importa. O fato é que as desigualdades monstruosas de Corinto ajudaram-no, sem dúvida, a abrir mais os olhos, fizeram com que deixasse de lado qualquer veleidade oratória. Ele era um trabalhador e em Corinto, segundo os Atos, ficou morando e trabalhando na oficina de Áquila e Prisca ou Priscila. Seu mundo era o mundo do trabalho manual, o mais baixo grau na escala social de uma cidade grega. Sua fala em Corinto, sem os artifícios da sabedoria humana (1Cor 2,1-5) tornou-se, então, mais coerente com o anúncio de um messias crucificado, tolice para os gregos e escândalo para os judeus.


O lugar da comunidade



Corinto, segundo muitos pesquisadores, seria uma cidade de 500 mil habitantes, segundo outros, citados por Wayne Meeks , não teria muito mais do que 70 mil. O cálculo depende muito de como se avalia a densidade demográfica de uma metrópole de então. O fato é que era uma grande e importante cidade que, a cada dois anos, abrigava os jogos ístmicos, alternados com os jogos olímpicos em Atenas.

Seus dois portos, Lecaion e Cencréia faziam dela uma cidade cosmopolita, sempre repleta de gente de todas as partes, e um lugar onde corria muito dinheiro, o que fazia o orgulho dos cidadãos de Corinto. As embarcações vindas da Itália chegavam ao porto de Lecaion e os passageiros e as mercadorias se transferiam para Cencréia, a seis quilômetros, onde em outra embarcação seguiam para o lado oriental do Império. O inverso acontecia quando vinham do oriente e tinham por destino a Itália. As mercadorias eram carregadas por escravos, que, quando a embarcação era de menor porte, podiam também empurrá-la por um pequeno canal até o outro porto. Calcula-se que dois terços da população de Corinto eram feitos de escravos. Por outro lado uma minoria movimentava e desfrutava de grandes somas de dinheiro.

Moravam ou transitavam por Corinto pessoas originárias das mais diversas regiões e culturas. Entre os mais deferentes cultos encontrados em Corinto, destacava-se o da prostituição sagrada no templo de Afrodite. Suas hieródulas eram veneradas e tinham lugar reservado no teatro, como atesta uma lapide encontrada em meio às ruínas da cidade.

A comunidade cristã iniciada por Paulo num lugar desses não podia deixar de refletir o ambiente em que se situava. A desigualdade social da cidade estava reproduzida na comunidade: uma grande maioria de pobres, sem saber e sem nome (1Cor 1,26), e um pequeno grupo de ricos, sábios e bem nascidos, que exercia grande influência sobre o todo da comunidade e inclusive parecia caracterizá-la. Esse pequeno grupo, chamado por Paulo de "os fortes", é que lhe escreve uma carta com uma série de questões, que, aliadas a outras, sabidas oralmente, motivaram a Primeira aos Coríntios. Nas suas cartas, por todas as razões, é primeiramente a eles que Paulo se dirige. A tensão entre fortes e fracos é, então, o melhor fio condutor para se interpretar a correspondência de Paulo com os coríntios.


O lugar de Paulo



Paulo sai evidentemente em defesa dos fracos. Alguma vez, porém, ele parece se colocar ao lado dos fortes no conhecimento e na clareza de consciência, "sabemos que no mundo não existe nenhum ídolo" (1Cor 8,4), mas para motivá-los a seguir seu exemplo de respeito aos fracos e à sua débil consciência. "Se um alimento, carne, por exemplo, é motivo de queda para meu irmão, nunca mais comerei carne" (1Cor 8,13).

Seus interlocutores são, em primeiro plano, os sábios, poderosos e bem-nascidos do pequeno grupo influente. Eles lhe enviaram carta (1Cor 7,1), a eles Paulo responde em 1Cor, e a eles tem em mente em tudo o mais que escreve aos coríntios.

A palavra gnw/sij, conhecimento, que veio a caracterizar o gnosticismo, documentado apenas a partir do II sec., Paulo a emprega quase exclusivamente (14 vezes contra apenas 3 em Rm) na correspondência com os coríntios. Sofi,a e sofo,j, sabedoria e sábio, são também duas palavras empregadas largamente em 1Cor, raramen-te em Rm e em nenhum outro texto de Paulo. O oposto, mwri,a e mwro,j, tolice e tolo, são termos exclusivos da correspondência com os coríntios. Evidentemente ele desfaz a sabedoria deste mundo e exalta a tolice da fé.

Riqueza e pobreza, expressivamente, são termos freqüentes em 1 e 2Cor. Já na ação de graças de 1Cor (1,4-9) ele diz: a graça de Deus os enriqueceu de toda palavra e conhecimento, vocês não estão carentes de dom algum. E no capítulo 4,8 não sem alguma ironia, diz: "Vós já estais saciados! Já vos enriquecestes! Sem nós, já começastes a reinar! Oxalá estivésseis mesmo reinando, para nós também reinarmos convosco". E segue mostrando o contraste da situação dos apóstolos: os últimos, condenados à morte, tolos, fracos, desprezados, passando fome, sede e frio, maltratados, sem rumo, obrigados a trabalhar sem descanso, perseguidos, caluniados, o lixo do mundo.

No capítulo 8 da Segunda aos Coríntios, carta de apresentação para Tito recolher nas comunidades de Corinto os resultados das coletas em favor dos pobres da Judéia, após se referir à profunda pobreza dos macedônios aliada à riqueza de sua generosidade ele diz que Jesus, sendo rico, se empobreceu, "para que vós vos enriqueçais da sua pobreza".

Outra expressão significativamente exclusiva da correspondência com os corín-tios, fusiou/n - fusi,wsij, verbo e ato de inchar-se (7 vezes), parece ter em vista o fato de esse pequeno grupo influente ser também de famílias antigas e importantes, o principal critério naquela cultura para se definir o status de uma pessoa . Em 1Cor 8,1 ele diz que o conhecimento incha, o amor é que constrói e em 13,4, o amor não incha.

Outra palavra quase exclusiva da correspondência com os coríntios é avplo,thj, simplicidade, etimologicamente ausência de dobras, de complicações, abertura, portanto, chegando assim a significar também generosidade. Um exemplo: referindo-se aos macedônios (2Cor 8,2) Paulo fala de sua exuberante alegria em meio às muitas tribulações e diz que sua profunda pobreza transbordou em riquezas avplo,thtoj, de simplicidade, abertura ou generosidade.


Em Filipos
O Evangelizador se evangeliza



Os Atos dos Apóstolos, falando das primeiras atividades de Paulo em Filipos, destaca da acolhida que lhe deu Lídia, vendedora de púrpura. Já é uma bela amostra dessa comunidade e daquilo que Paulo encontrou aí. As mulheres logo se tornam discípulas missionárias ao lado de Paulo na pregação do Evangelho (Fl 4,3). A boa acolhida e a insistência para que Paulo aceite a ajuda, aliadas à pobreza e alegre simplicidade, também marcaram o Apóstolo.

Dos ricos coríntios Paulo não aceitava ajuda. Isso ele o diz mais de uma vez: "Antes morrer que... Essa glória ninguém me tira" (1Cor 9,15). "Acaso cometi algum pecado pelo fato de vos ter anunciado gratuitamente o Evangelho?" (Cor 11,7). "Em que ficastes inferiores às outras Igrejas, a não ser no fato de eu, pessoalmente, não vos ter sido pesado?" (2Cor 12,13).

Dos macedônios, especificamente dos filipenses, Paulo aceitou ajuda, sempre que precisou. Isso aconteceu em Tessalônica (Fl 4,16) e também em Corinto (2Cor 11,8-9). A simplicidade (avplo,thj), abertura ou generosidade dos filipenses em sua profunda pobreza provocaram em Paulo igual simplicidade e o fizeram também mais aberto, expansivo, capaz de manifestar claramente seus sentimentos de carinho, de amor, de saudade.


O lugar da comunidade



Segundo os Atos dos Apóstolos Filipos foi a primeira cidade da Europa a ser evangelizada por Paulo. Ela era a segunda cidade em importância na Província da Macedônia. Ficava numa encruzilhada de várias estradas, a mais importante das quais é a Via Egnácia, que fazia a ligação da parte ocidental do Império, em especial da Itália, com o lado oriental.

Os imperadores romanos fizeram dela colônia de militares aposentados, mas a cidade contava também com muitos imigrantes da região. A agricultura nas aldeias que circundavam a cidade foi o principal alicerce de sua economia, mas na cidade o comércio estava também presente. Lá foi encontrada uma inscrição latina dedicando a cidade "à Fortuna e ao Gênio do Mercado".

Já lembramos como a figura de Lídia pode significar a participação das mulheres na evangelização e a acolhida simples, sem dobras, sincera e cordial que Paulo encontrou nessa cidade. Além disso poderia indicar também a atividade da maioria dos mem-bros da comunidade, o comércio, o que não é de admirar, visto que a atividade agrícola era exercida especialmente nas aldeias, enquanto que na cidade mais intenso era o comércio.


O lugar de Paulo



Policarpo, menos de cem anos depois, refere-se a cartas (no plural) que Paulo terá escrito aos filipenses. É um testemunho externo a confirmar o que a maioria dos especialistas vê hoje, três cartas unidas na única canônica.

A carta A (Fl 4,10-20) é praticamente um bilhete de agradecimento pela ajuda que a comunidade de Filipos lhe enviou. A carta B (1,1-3,1.4,1-9.21-23) é a mais ampla e a que traz toda a estrutura literária das cartas paulinas. A carta C supõe uma investida dos judaizantes na comunidade (3,2-21).

Na carta A, agradecendo a ajuda e, mais que a ajuda, os sentimentos de gratidão e de carinho que essa ajuda significava, Paulo usa o vocabulário do comércio: conta, crédito, débito, resultado, lucro, prejuízo, pois falava aos pequenos comerciantes de Filipos. No v. 15 diz que nenhuma outra comunidade abriu com ele uma conta (lo,goj) de crédito (do,sij) e débito (lh/myij). No v. 17 diz que não está procurando donativos, mas o resultado (ka,rpon) de um grande saldo na conta deles.

Mesmo na carta C, onde encara os judaizantes, não esquece que está se dirigindo a comerciantes. Ao falar de sua conversão do farisaísmo à missão entre os gentios, diz que o que lhe parecia lucro (ke,drh) (a dependência da lei) tornou-se prejuízo (zhmi,a) para ele.

Ao olhar mais superficial não escapa a freqüência com que Fl fala em alegria, alegrar, alegrar-se. Paulo está preso, alguns pregando o Cristo de maneira a desafiá-lo (1,17) e a comunidade é extremamente pobre, além de sofrer perseguições ou dificuldades (2Cor 8,3), mesmo assim ele só fala em alegria, alegrar-se. Essa alegria é resultado dos sentimentos que os irmãos de Filipos nutrem por Paulo e ele também lhes manifesta (Fl 1,8). Caberia aqui destacar como a freqüência do verbo fronei/n, sentir, experimentar, saber, nos quatro capítulos de Filipenses (8 vezes) é maior do que nos 16 capítulos de Romanos (6 vezes).


Na Galácia
O Evangelizador é evangelizado



Lagrange, em seu clássico comentário a Gálatas , vê na população da Galácia as mesmas características observadas pelos autores latinos, como César e Tito Lívio, nos gauleses da Europa central, de onde se originou essa população. Uma dessas características era o grande amor à liberdade. Tito Lívio os chama de ingenia indomita, de índole indomável. Podiam estar sentindo o peso da escravidão que significava o domínio romano, mas eram fundamentalmente insubmissos.

A "índole indomável" dos gálatas e sua não vinculação à cultura judaica ajudaram Paulo e entender melhor o Evangelho da liberdade ("Eu me fiz como vós", sem lei e insubmisso: Gl 4,12). Com eles, sem dúvida, apesar de já convertido para o Evangelho sem a Lei (Gl 2,19), ele se despiu mais ainda de sua formação farisaica, tornou-se mais livre das antigas observâncias. Sem lei, ignorando totalmente os mandamentos da Lei de Deus, os gálatas o haviam acolhido, doente, com todo o carinho e cuidado dele como se fosse um enviado do céu (Gl 4,13-15). Isso tudo o marcou.

Por outro lado, porém, a sua "falta de miolo" (3,1.3) sua facilidade em mudar de opinião já anotada por César fez com que Paulo radicalizasse. Para combater o fanatismo da lei ele terá, sem dúvida, apresentado uma caricatura dos cristãos judaizantes e, principalmente, da lei, do judaísmo, e do farisaísmo. Hoje inúmeros autores mostram isso. Mas a clareza do seu pensamento e dos seus sentimentos é inconteste. Isso é fruto da indignação que a volubilidade dos gálatas lhe provocou.


O lugar das comunidades



A carta aos gálatas dirige-se a várias comunidades, pois eram muitas, nas diferentes aldeias da região. Na Galácia não havia grandes cidades, só pequenas aldeias. O propósito de Paulo era lançar a semente do Evangelho nas grandes cidades, o futuro do Império. Talvez não tivesse a intenção de evangelizar a região gálata, onde não havia grandes cidades, mas ele ali se deteve (o que os Atos dos Apóstolos omitem) e evangelizou as aldeias da região, por causa de uma doença como ele mesmo relata em Gl 4,13-15.

Já se foi o tempo em que alguns estudiosos achavam mais provável que essa carta tenha sido dirigida às comunidades da Frígia, Pisídia, Panfília, região que, oficialmente, fazia parte da Província da Galácia e que, segundo os Atos dos Apóstolos, fora evangelizada por Paulo a partir de uma primeira intervenção na sinagoga local. É sabido, porém, que nem os documentos oficiais do Império chamavam essa região de Galácia. Além disso, os gálatas a quem Paulo se dirige não vieram da Sinagoga, são originalmente gentios e idólatras. E assim são os da verdadeira Galácia, mais ao norte.

O gentio, idólatra, pelo simples fato de não ter a lei de Deus era considerado pecador (Gl 2,15), presa "deste mundo mau". Já na saudação inicial de sua carta (1,4) Pau-lo lembra que Jesus "se entregou pelos nossos (de gentios e judeus) pecados, para nos (a gentios e judeus) tirar deste mundo mau". Ele se coloca em pé de igualdade com os gentios.

Os gálatas seguiam religiões cósmicas, religiões que cultuavam os astros e as forças todas da natureza. Para essas religiões a ordem dos astros, chamada de elementos do mundo, em grego stoicei/a, é que governa e dá ordem ao mundo. A vida hu-mana é governada pelos astros, daí a importância dos horóscopos e das datas. O esotérico domina as mentes, a magia, prestidigitação, feitiçaria, faz parte do cotidiano.


O lugar de Paulo



Paulo havia anunciado a eles a boa nova de um messias crucificado. O confiar nele, comprometer-se com ele, a fé, não estava vinculada às observâncias da lei judaica. Agora os gálatas querem se circuncidar e seguir todas aquelas observâncias. Paulo, então, indignado, pergunta aos antigos adeptos da magia: "Quem vos enfeitiçou?" (3,1).

A lei judaica e as religiões cósmicas são semelhantes, ambas tiveram a função do "pedagogo", o escravo a quem os filhos menores estavam sujeitos. Agora, porém chegou a maioridade na ocasião predefinida pelo pai. Todos (judeus e gentios) estávamos submissos aos "elementos do mundo" (4,3), assimilando a ideologia da salvação pela observância da Lei à mentalidade das religiões cósmicas que haviam abandonado.

Mas os gálatas agora querem adotar a Lei judaica, inclusive com seu calendário de dias e festas. Paulo, então, lhes pergunta: "Como é que querem voltar novamente aos fracos e pobres elementos do mundo (stoicei/a tou/ ko,smou) que, antes, vocês adoravam? Estão querendo observar dias, meses, épocas e anos!" (4,9). Pas-sar para o Evangelho com a lei será o mesmo que voltar à idolatria do cosmo.

Já na parte parenética da carta, nos últimos conselhos, por duas vezes Paulo usa o verbo stoikei/n, alinhar-se como os astros, pôr-se em ordem, próprio da linguagem das religiões cósmicas, para falar do comportamento cristão. Tendo falado em guiar-se pelo Espírito (5,18) ele completa no v. 25 pneu/mati stoicw/men, ponhamo-nos em linha pelo Espírito.

Por fim, não em último lugar, antes em primeiro, dirigindo-se aos "indomáveis gálatas", que agora estão tentados a deixar-se dominar, o vocabulário com o tema que percorre toda a carta é o da escravidão e da liberdade sem adjetivos. Basta ler com olhar atento: já na introdução Paulo se diz "escravo do Messias Jesus" (1,10) e quase ao final, na parte parenética (5,13), explica que liberdade não significa libertinagem, mas estar disponíveis para se colocarem como escravos uns dos outros.


Em Roma
O Evangelizador é evangelizado



Paulo ainda não havia estado em Roma, muito menos fora ele o iniciador das comunidades cristãs da capital do Império, delas só havia ouvido falar, só conhecia a boa fama de sua fé (Rm 1,8). A Boa Nova havia chegado a Roma através das pessoas do povo, diríamos, anonimamente, certamente por judeus que, em suas idas à Palestina, haviam aderido à fé no Messias Jesus e a tinham levado para as suas sinagogas na Cidade Eterna. Muitos gentios, a princípio prosélitos e tementes a Deus, haviam se unido a eles na mesma fé. Disso Paulo tinha ouvido falar.

Escrevendo aos romanos, disse não só estar com vontade de explicar-lhes o seu Evangelho, mas antes, em primeiro lugar, esperava ser reanimado pela fé dos romanos (Rm 1,12). Esperava recolher algum fruto entre eles, especialmente os gentios (v.13), dos quais se considerava devedor e aprendiz, assim como também de todos os outros (v.14). Chega a dar a impressão que "anunciar o Evangelho" significa para ele aprender dos evangelizandos (v. 15, em paralelo com 11 e 12).

Além do mais, a fé em Jesus como Messias tinha provocado inúmeras rixas nas sinagogas romanas e, por isso, os judeus foram expulsos de Roma. Agora, com a revogação do decreto de Cláudio, começavam a retornar, mais pobres e mais humilhados do que quando saíram. Se na Galácia os cristãos gentios eram a parte oprimida e os judaizantes os opressores, aqui os judeus estão retornando em grande inferioridade. Isso faz Paulo mudar o seu tom, embora não mude suas idéias.

Novos fatos e novas situações evangelizam o evangelizador. Aqui ele já não chama os judaizantes de escravos (Gl 4,25) ou de cachorros (Fl 3,2), nem deseja que acabem se castrando (Gl 5,12), eliminando-se, assim, do povo de Deus. Muito menos vai dizer que o cristão gentio é livre, é filho da promessa, e deve expulsar o judaizante, o filho da escrava (Gl 4,30)! Romanos é o manifesto da igualdade. Igualdade de todos no conhecimento de Deus e no pecado, igualdade na libertação pelo espírito, igualdade entre cristãos gentios, cristãos judeus e judeus em geral, igualdade a ser vivida na vida cotidiana por todos e especialmente entre fortes e fracos.


O lugar das comunidades



Os judeus de Roma eram extremamente pobres na sua maioria. Segundo o satírico Juvenal, sua mudança consistia apenas em um saco de capim seco. Gozavam, entretanto, de muitos privilégios. Augusto, certa vez, mudou a data de uma distribuição de alimentos, exatamente por causa dos judeus, a fim de que a distribuição não acontecesse num sábado, quando o judeu não pode carregar qualquer objeto pela rua. Isso lhes angariava críticas e ironias da parte dos letrados como Sêneca, Tito Lívio,Ovídio, Juvenal, e antipatia no meio dos outros pobres.

No ano 49 (alguns, como Murphy O'Connor e M. Carrez dizem que pode ter sido no ano 41) Cláudio decretou a expulsão dos judeus de Roma. Eram 20, 40 ou 50 mil, segundo os diferentes autores. O motivo da expulsão, segundo Suetônio, foram as agitações provocadas por certo Chrestos. Certamente, como se diz, "ouviu o galo cantar sem saber onde". Seriam discussões sobre o galileu crucificado, se ele seria ou não o Messias (Cristo).

Sendo esse o motivo, mesmo que nem todos os judeus tenham sido forçados a sair de Roma, os judeus cristãos certamente foram os primeiros. Passaram a migrar por outras partes do Império como o fizeram Áquila e Prisca que em 51 estavam em Corinto (At 18,2), em 54, em Éfeso (1Cor 16,19) e, agora, com a revogação do decreto, voltaram para Roma (Rm 16,3-4).

Como dissemos acima, o Evangelho chegou a Roma pelas mãos dos leigos. Brotou nas sinagogas romanas e as comunidades cristãs floresceram rapidamente pela periferia da Cidade, Trastevere e outros bairros mal afamados, onde moravam os judeus. Com a expulsão dos judeus, ficaram os cristãos gentios, que, até então, gravitavam em torno das sinagogas. Mas, mesmo sem os judeus por perto, eles não deixaram de conquistar outros para a fé no Messias Jesus. Estamos no final do ano 57 e início de 58. Em 54, Nero havia revogado o decreto de expulsão, permitindo a volta dos judeus, que está acontecendo no meio de inúmeras dificuldades.


O lugar de Paulo



Paulo, um pouco desiludido (Rm 15,23), está terminando sua missão na parte oriental do Império. Pretende ir para o extremo ocidental, a Espanha, mas antes quer terminar a campanha de ajuda aos pobres da Judéia, sinal de comunhão das comunidades gentias com a Igreja mãe de Jerusalém (Rm 15,23-25 e Gl 2,10).

A carta aos Gálatas não deixou de provocar forte impacto. Quando escreveu aos coríntios Paulo disse que, na campanha de ajuda aos pobres de Jerusalém, fizessem como ele havia orientado as comunidades da Galácia (1Cor 16,1), agora diz que a Macedônia e a Acaia (Rm 15,26) resolveram promover essa campanha. E a Galácia? Esqueceu? Ou, depois da carta, ficou difícil ir ou mandar alguém ir lá recolher a ajuda? Agora, até a aceitação do dinheiro por parte dos "santos que estão na pobreza" ficou problemática. Paulo pede que rezem para que sua diakoni,a seja bem aceita (Rm 15, 30-31).

Em Roma os cristãos judeus são a parte fraca, eles devem ser defendidos. Como foi dito acima, porém, Paulo não mudou suas idéias, mudou o tom. "Não me envergonho do Evangelho" disse ele ao introduzir o corpo doutrinal de sua carta (Rm 1,16). Outra Boa Nova não há a não ser a do Messias crucificado, com todas as suas conseqüências. Isso não muda. A nova situação o faz mudar o tom e a posição, o lugar onde se coloca.

Em Gl, como os judaizantes se apresentavam como representantes de Tiago de Jerusalém, o famoso "irmão do Senhor", Paulo faz questão de afirmar que, logo após a conversão, não subiu a Jerusalém para se juntar aos outros Apóstolos (Gl 1,17). Em 4,25 chega a dizer que essa Jerusalém de Tiago é escrava com seus filhos. Agora, escre-vendo aos romanos, diz que anunciou a Boa Nova do Messias Jesus a partir de Jerusalém (Rm 15,19).

Romanos como já foi dito é o manifesto da igualdade, especialmente, da igualdade entre o judeu e o gentio, igualdade no pecado, na fé, na graça e na salvação. Essa igualdade não impede que, já na apresentação desse tema (1,16) ele diga que o Evangelho é uma força de Deus em vista da salvação primeiro para o judeu. Esse primeiro para o judeu vai se tornar como que um refrão a ser repetido várias vezes dentro da carta.

Assim, em toda a carta, Paulo demonstra o maior respeito e consideração para com os judeus. Já nos primeiros versículos, quando ele se apresenta, faz questão de dizer que o Evangelho de Deus (não o de César) tem origem judaica, foi anunciado pelos seus profetas, nas suas escrituras sagradas, e realizado em Jesus Cristo, da descendência de Davi (1,1-3).

Em Gl, numa clara alusão aos judaizantes, ele repetia a frase da história de Agar e Sara: "Expulsa a escrava e seu filho!" (4,30). Agora que os judeus são a parte fraca, em total situação de inferioridade, ele exprime o desejo de ser ele eliminado de Cristo ou das comunidades cristãs, se isso for condição para que esses seus irmãos de sangue, os israelitas possam se aproximar (Rm 9,3).

Em 7,1 ele diz claramente ter consciência de se dirigir a pessoas entendidas em leis, como eram os romanos. Não é, pois, de admirar que o vocabulário da lei e da justiça esteja tão presente na carta aos romanos. A palavra no,moj, lei, ocorre também com freqüência em Gl, mas em Rm proporcionalmente com maior freqüência e com significado mais amplo, já que em Gl é muito mais a ideologia da salvação pela observância da lei que está em pauta. Para,ptwma, transgressão, é termo quase exclusivo de Rm. Ocorre apenas uma vez em 2Cor e uma vez em Gl contra 6 vezes em Rm.

O radical dik-, just-, donde justo, justiça, justificar, justificação ocorre também com enorme freqüência em Romanos. Mesmo que algumas dessas palavras ocorram também em outros escritos paulinos como em Gl, aqui elas têm freqüência e significado maiores. Dentre essas, dikai,wma e dikai,wsij, justificação, o efeito e o ato de justificar, são palavras exclusivas de Rm.


Conclusão



Mais se poderia encontrar se mais se pesquisasse. Essas anotações, entretanto, fiquem como amostras do que se pode perceber da postura de Paulo, que sempre se coloca no lugar do destinatário e sempre em defesa não de uma tese ou afirmação doutrinal, mas em defesa de quem no momento é a parte mais fraca e está ou pode estar sendo oprimida.

Paulo jamais pretendeu apresentar um pensamento ou uma doutrina única, absoluta e insofismável, seu objetivo era apenas salvar. O mais lhe era relativo. Eis o que ele diz: "Livre em relação a todos, tornei-me escravo de todos, a fim de ganhar o maior número possível. Com os judeus eu me fiz judeu, para ganhar os judeus. Com os súditos da lei eu me fiz um sem lei - eu que não era sem a lei de Deus, já que estava na lei de Cristo - para ganhar os sem lei. Com os fracos eu me fiz fraco, para ganhar os fracos, para todos eu me fiz tudo, para certamente salvar alguns. Por causa do Evangelho eu faço tudo, para me tornar dele participante." (1Cor 9,19-23).