HISTÓRIA DA IGREJA



História da Igreja
Curso de Iniciação Teológica
Diocese de Guaxupé - MG



PROGRAMAÇÃO

10/09 – Introdução; Nascimento e expansão do Cristianismo; Presença cristã no Império Romano; Vida interna das comunidades cristãs; Monges e missionários.

17/09 – Oriente e Ocidente: duas cristandades distintas; Vivência da fé, uma realidade contraditória; Introdução à Idade Moderna.

24/09 – Busca de novos caminhos; Descobrimentos marítimos e movimentos missionários.

01/10 – Descobrimentos marítimos e movimentos missionários; Cristandade em questionamento.

08/10 – A Igreja no conflito entre tradição e modernidade; Introdução aos “novos tempos”.

15/10 – A difícil caminhada para os novos tempos; Introdução “Rumo à renovação”.

22/10 – Rumo à renovação do Vaticano II.

29/10 – Rumo à renovação do Vaticano II; A Igreja pós-Vaticano II; Conclusão.

1- NASCIMENTO E EXPANSÃO DO CRISTIANISMO



Jesus, o Cristo, nasce na Palestina, uma região fronteiriça do Império Romano, por volta do ano 748 da era romana. Portanto, pertencia ao povo judeu, cuja cultura integra plenamente.

Após um longo período de convivência familiar com seus pais inicia sua “vida pública”, pregando o Reino de Deus, cuja chegada anuncia. Forma ao redor de si um grupo de discípulos, que iria continuar o anúncio do Reino após a morte de Jesus, sob o impulso do Espírito Santo.

Nasce assim a Igreja, o povo convocado para anunciar e testemunhar a Boa Notícia da Salvação trazida por Cristo. A Ressonância das primeiras pregações é grande e muitos se convertem.

Uma primeira ruptura com o judaísmo acontece quando alguns de seus representantes são perseguidos e expulsos de Jerusalém. Nesse contexto dá-se a morte de Estêvão. Filipe anuncia o Cristo na Samaria e, mais tarde, Pedro recebe do próprio Senhor a ordem de admitir pagãos na Igreja, sem a necessidade de se adotarem os costumes religiosos judeus.

A difusão do Evangelho fora da Palestina encontra em Paulo de Tarso um dos mais entusiastas e competentes missionários. A partir da comunidade cristã de Antioquia, na Síria, ele atingirá principalmente o mundo pagão de cultura grega. Defende ardorosamente a novidade do cristianismo e sua liberdade frente aos judeus.

Seu método de evangelizar é original e eficiente: Paulo dirige-se primeiramente a pagãos que com os judeus da Diáspora mantêm contatos, e somente depois vai para os gentios. No mundo helênico ele apresenta o Cristo como o “Kyrios”, o Senhor.

O anúncio do Salvador é seguido pela fundação de comunidades cristãs, com sua liderança própria. A celebração regular da “Ceia do Senhor” constitui forte vínculo de fé e expressa a unidade fraterna dos irmãos em Cristo.

Originalmente o cristianismo é predominantemente um fenômeno urbano. A divulgação da Boa Nova nas cidades é facilitada pela própria organização do Império Romano: a rede rodoviária, a navegação no Mar Mediterrâneo, a relativa estabilidade política e administrativa, a língua comum.

Também notamos na época uma insatisfação dos romanos letrados em relação à religião politeísta tradicional, que os imperadores tentavam restaurar para fortalecer a ameaçada unidade do império.

Não obstante, cresce entre a população culta o interesse por religiões mistéricas provenientes do Oriente, que prometem a salvação às elites de “iniciados”.

Entre o povo surgem as opiniões mais estranhas sobre os cristãos, vistos como pessoas incrédulas e ingênuas. A essas acusações os cristãos respondem com seu testemunho de vida e defesa de sua fé.

O cristianismo que entra e se consolida no Império Romano constitui uma força questionadora da sociedade e dos valores que esta propaga. Seu próprio estilo de vida reflete uma outra inspiração, na qual fraternidade e justiça se anunciam como concretizações históricas do Reino de Amor pregado por Jesus.

2- A PRESENÇA CRISTÃ NO IMPÉRIO ROMANO



A inserção do cristianismo no Império Romano não se opera sem dificuldades. Já no século I, os seguidores de Jesus enfrentam a oposição do povo e das autoridades civis. Com o imperador Nero começa o período das perseguições que se estende até o início do século IV. Surgem aí muitos mártires.

Medidas oficiais e públicas contra os cristãos, por parte das autoridades romanas, só surgem mais tarde e com hesitações. As perseguições tornam-se mais intensas sob o governo de Marco Aurélio (161-180).

As razões para essa intensificação são diversas e regionalmente determinadas, mas a crise política pela qual passa o Império é, sem dúvida, um dos principais motivos.

As autoridades temem todos os elementos não plenamente integrados no sistema sócio-político do Reino, simbolizado pela pessoa do Imperador. Os cristãos apresentam-se como um fenômeno estranho e uma ameaça potencial para o equilíbrio político. Há tentativas para restabelecer a antiga e tradicional religião politeísta e introduzir o “culto ao imperador”.

O número de mártires neste período de quase três séculos não é excessivamente elevado mas, ao lado desse número, houve numerosíssimos cristãos que sofreram tortura, o exílio e o confisco de seus bens.

Em Roma as catacumbas mantêm vivo, até os dias de hoje, o testemunho de nossos irmãos na fé, que não hesitaram seguir o Cristo até a morte. O martírio será uma forma de constante fecundidade do cristianismo e de revitalização de seus valores evangélicos mais genuínos.

Em 313 o imperador Constantino, que atribui a vitória militar sobre seu rival à intervenção do “Deus dos cristãos”, concede liberdade de culto a todos os habitantes do Reino.

Há agora um processo de inversão: de perseguidos os cristãos são privilegiados e sua presença na sociedade começa a ser vista como um fator positivo. Esta tutela, evidentemente, não era sem perigo, já que facilmente poderia levar à manipulação e intervenção indevida em assuntos internos da comunidade cristã.

Em 380 o cristianismo é proclamado “religião de Estado” e doze anos depois se proíbe a tradicional religião politeísta. A incorporação oficial dos cristãos nas estruturas políticas e sociais teve enormes consequências históricas.

Essa aliança entre os dois poderes “que regem a sociedade” entra na história com o nome de cristandade, modelo que vigorou até tempos recentes.

3- A VIDA INTERNA DAS COMUNIDADES CRISTÃS



Ser cristão, na Igreja Antiga, significa que alguém acolhe a Boa Nova de Jesus e muda de vida. Doravante sua existência está “em Cristo” e isso ele expressa por um comportamento de acordo com as exigências evangélicas e sua adesão à comunidade.

O batismo constitui a entrada nessa novidade de vida. Este sacramento inicial é conferido após longa e acurada preparação (catecumenato) que pode durar anos. Contém um ensinamento dogmático e um ensinamento moral.

Os ritos batismais são diversificados. O tempo preferencial de sua administração é o tríduo pascal, notadamente a vigília da Páscoa.

A Eucaristia, ou “fração do pão”, é celebrada, normalmente, aos domingos. Interessante observar que a ordem ritual não difere muito da nossa missa atual. A Crisma é realizada junto com o batismo.

As diversas funções ou ministérios na Igreja Antiga são vistas como serviços à comunidade cristã. Há diversos modelos de organização eclesial. A comunidade de Jerusalém segue a tradição judaica, tendo à sua frente uma equipe (“colégio”) responsável: os anciãos ou presbíteros. Outros modelos são o do tríplice ministério (Antioquia) ou o de comunidades coordenadas por “epíscopos” (vigilantes) e “diáconos” (servos).

De qualquer forma há uma lenta unificação dos ministérios. Dentro da equipe de ministros (presbíteros) emerge, aos poucos, a figura do “presidente” que começa a usar pessoalmente o nome de “epíscopos” (bispo).

Entre os ritos de ordenação destaca-se a imposição das mãos. Não é exigido o celibato eclesiástico e notamos a presença natural das mulheres em diversos ministérios (diaconisas). No centro do múnus (ministério) está a pregação, ou anúncio do Evangelho.

A penitência era um sacramento muito sério nas comunidades cristãs. Havia bastante rigor no que diz respeito à sua recepção, e a reconciliação era condicionada a severas penitências. Os penitentes não participavam integralmente da celebração eucarística.

No cristianismo dos primeiros séculos há uma preocupação constante com a formulação dogmática da fé. Um dos primeiros problemas surge em torno da divindade de Jesus Cristo. Ário defende a tese de que Jesus não pode ser considerado plenamente como Filho de Deus.

Isso leva o imperador a convocar o 1º Concílio Ecumênico (= geral) da Igreja, em Nicéia (325), onde é solenemente afirmado que Jesus tem a mesma natureza de Deus, e por isso, em tudo é igual ao Pai.

No Concílio de Constantinopla (381) é definido que a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade (o Espírito Santo) é igualmente Deus, como o Pai e o Filho. Surge assim nossa Profissão de Fé.

Outra categoria de problemas refere-se à relação entre as duas naturezas de Cristo. O Concílio de Éfeso (431) pronuncia-se a favor da inseparável união das duas naturezas que, no entanto, conservam sua total integridade: Jesus é totalmente homem e totalmente Deus. Consequentemente, Maria é tanto mãe de Jesus-homem quanto genitora de Cristo-Deus (Theotokos).

Não obstante as definições dogmáticas a respeito de pontos centrais da fé cristã, diversas heresias continuam a se espalhar (ex.: o nestorianismo, que separa as naturezas divina e humana de Cristo).

4- MONGES E MISSIONÁRIOS



O fim do período antigo é marcado pela decadência do Império Romano do Ocidente e a invasão de seus territórios por povos não latinos (“bárbaros”). Na transição para a Idade Média a Igreja tem um papel notável na salvaguarda de valores culturais e humanitários. Dentro dela o monaquismo será neste período uma grande força a serviço de seus ideais mais nobres.

Uma das formas mais antigas de vida consagrada a Deus, na Igreja, é a das virgens. Trata-se de mulheres que se dedicam pessoalmente ao Senhor, levando uma vida de oração intensa e praticando obras de misericórdia.

A origem do monaquismo liga-se ao término das perseguições. Alguns cristãos desejavam viver mais radicalmente seu seguimento de Cristo e ir até as últimas consequências na sua consagração batismal. O deserto torna-se lugar privilegiado de sua experiência religiosa.

Santo Antão († 356) é o pai dos monges eremitas ou anacoretas, enquanto São Pacômio († 346) inicia a vida monástica em comum (cenobítica). Nessa experiência dá-se grande valor à vida interior, à direção espiritual de um mestre e ao trabalho manual.

São Basílio (†379) organiza a vida dos monges no Oriente, dando-lhe uma regra. O modelo do mosteiro é a comunidade cristã primitiva de Jerusalém (Atos). O abade tem por missão principal aplicar as normas do Evangelho à vida cotidiana do grupo.

No Ocidente, o monaquismo é propagado e difundido por São Jerônimo (†420), Santo Agostinho († 430) e São João Cassiano (†c. 432), sendo este último uma espécie de ponte entre os monges do Oriente e do Ocidente.

Será São Bento de Núrsia († 547) quem organizará de forma sistemática o monaquismo ocidental. Ele enfatiza a obediência ao abade e a vivência da humildade. No centro da vida comunitária está a “Opus Dei”, isto é, a oração litúrgica e a celebração eucarística.

No século V o antigo Império Romano do Ocidente assiste à transmigração de povos “bárbaros”, que invadem seus territórios. Roma é saqueada em 410 e novamente em 455. O afastamento do último imperador romano, em 476, marca o término da História Antiga.

Naqueles tempos turbulentos a Igreja aparece como a única instituição capaz de transmitir às populações certa segurança e tranquilidade. Não raras vezes o bispo local ocupa o lugar do governante civil.

O primeiro povo bárbaro-pagão convertido ao cristianismo é o dos Francos, a partir do batismo de seu chefe, Clóvis. Os monges beneditinos terão um papel decisivo na aproximação desses novos povos à religião cristã, como também na conservação da grande tradição cultural do mundo greco-romano.

As iniciativas de evangelização são numerosas e variadas, destacando-se o interesse pelas missões do papa Gregório Magno († 604).

Quando os lombardos ameaçam a sede do Papado, o Pontífice pede auxílio ao rei cristão dos Francos, Pepino, o Breve. É a origem de uma aliança entre os dois poderes da sociedade medieval: o espiritual e o temporal. A cristandade entra numa nova fase, consolidando-se ao longo do período medieval.

Há trocas de favores entre Papa e Imperador. A autoridade civil ganha uma legitimação religiosa, enquanto a Igreja é beneficiada com a proteção do Estado e seus representantes recebem honras civis.

Em 754 o papa torna-se “Senhor territorial” de uma região no centro da Itália, que entra na História com o nome de “Estado Pontifício”.

Carlos Magno († 814), rei dos Francos, faz do cristianismo a grande força unificadora do Estado, impondo-o aos povos vencidos. Também intervém pessoalmente em assuntos internos da Igreja.

A evangelização de povos não latinos, notadamente dos Eslavos, é empreendida pela Igreja do Oriente (Bizâncio). Entre seus missionários salientamos os dois irmãos Cirilo († 869) e Metódio († 885), cujos esforços de inculturação são apoiados pelo papa.

5- ORIENTE E OCIDENTE: DUAS CRISTANDADES DISTINTAS



No período medieval ocorrem grandes mudanças no Oriente. Por volta de 610 Maomé inicia, na Arábia, sua pregação, afirmando ter recebido uma missão celeste: a revelação de um Deus único (Alá), ao qual todo crente (muçulmano) deve submeter-se.

Maomé realiza uma gigantesca obra de unificação religiosa e política, apelando também às forças das armas (“guerra santa”). A divisão interna do mundo cristão no Oriente facilita a penetração do islamismo.

Em 638 Jerusalém cai no poder dos seguidores de Maomé. Há igualmente avanços na Síria, na Pérsia e no norte da África. Em 711 os muçulmanos entram na Península Ibérica.

O maometismo (islamismo) será durante todo o período medieval o grande adversário do cristianismo. Contra ele se organizam expedições religioso-militares, conhecidas como Cruzadas, tanto na Terra Santa (Palestina) como na Península Ibérica (“Reconquista Cristã”).

Há ainda uma outra questão que perturba o oriente cristão: a luta contra ou a favor das imagens religiosas (“ícones”). Surgem acusações no sentido de superstição e desvio teológico.

Alguns imperadores procuram “purificar” a religião, iniciando uma campanha iconoclasta (destruição de imagens). O povo cristão, apoiado pelos monges, reage fortemente. Aos poucos os governantes percebem que é inútil opor-se à vontade do povo.

Apesar de se chegar a um certo consenso a querela (questão) iconoclasta deixou profundas marcas na sociedade.

As cristandades do Oriente e do Ocidente se distanciam cada vez mais uma da outra. Cresce uma mútua desconfiança, cujas causas são múltiplas: motivos políticos, culturais e litúrgico-doutrinais.

Os desentendimentos chegam ao auge quando, em 1054, o delegado do Papa enviado a Constantinopla para tentar uma reconciliação, excomunga Cerulário, Patriarca da Igreja do Oriente. Este, por sua vez, responde com gesto idêntico. Surge assim a separação das duas cristandades e nasce a Igreja Cristã Ortodoxa.

No ocidente encontramos a figura de Carlos Magno († 814). Com sua morte inicia-se a lenta desagregação do imenso Reino Carolíngio que, em 843, é dividido em três partes. Sucessivas invasões provocam instabilidade política e insegurança entre a população.

Nessas circunstâncias reforça-se o poder dos senhores locais que se tornam, na realidade, donos de seus respectivos territórios (feudos). A feudalização da sociedade atinge, igualmente, bispos e abades. O celibato desses eclesiásticos impede que suas terras passem automaticamente em herança familiar.

Comum nessa época é a assim chamada “investidura leiga”, isto é, a nomeação de eclesiásticos por parte do poder civil. Dessa forma o imperador e os senhores feudais mantêm a Igreja sob controle, podendo utilizá-la para os seus interesses.

Alguns vícios se generalizam entre o clero tais como a simonia (a venda de coisas sagradas) e o nicolaísmo (a não observância do celibato eclesiástico. Até o próprio papado não escapa da comum decadência do século X (“Século de Ferro”).

No período seguinte são introduzidas diversas reformas, a fim de pôr termo às constantes intervenções do poder temporal em assuntos internos da Igreja. Paulatinamente o papa retoma em suas mãos a nomeação de bispos e a disciplina do clero.

Neste seu empenho pela liberdade da Igreja esbarra com a resistência dos imperadores. Assim, Henrique IV, do Sacro Império Romano Germânico, desafia abertamente as ordens do papa Gregório VII (c. 1077).

Com a figura de Inocêncio III (1198-1216) chegamos ao ponto alto do prestígio político dos pontífices romanos. O papa torna-se praticamente um senhor absoluto, diante de quem reis e príncipes se curvam em sinal de submissão.

A Igreja como instituição dita as normas para a sociedade e não permite divergências sobre seus pontos de vista. O preço pago por esta excessiva politização da Igreja é alto e compromete diretamente sua mensagem evangélica.

Há protestos contra essa situação. Pessoas e grupos se posicionam em sentido contrário, reclamando por uma “volta ao Evangelho”. Podemos mencionar aqui o grande movimento de reforma monástica, a partir de Cluny (na França), seguido pela renovação de Cister, onde se destaca a figura de Bernardo de Claraval († 1153).

Uma benéfica influência de reforma parte, igualmente, da “Grande Cartuxa”, fundada por São Bruno († 1101), singular experiência monástica de eremitas com traços de vida cenobítica.

Também leigos se movimentam em prol de uma maior simplicidade evangélica e retorno às origens do cristianismo, como os Valdenses ou “Pobres de Lião” do sul da França e do norte da Itália. A Igreja oficial os marginaliza e eles acabam como “hereges”.

Joaquim de Fiore (1130-1202) prega o início de uma “nova era” pra o cristianismo, caracterizada pela vinda do Espírito que inaugura um Reino definitivo de justiça e fraternidade.

No sul da França encontramos outro grupo de “evangelismo”: os cátaros e albigenses que com seu estilo austero de vida atraem muitos. Pregam um dualismo, dizendo que toda a existência cristã é uma luta aguerrida entre os poderes do bem e do mal. Com seu modo de ser a agir contestam um clero preguiçoso, relaxado e avarento.

O santo mais popular da Idade Média é Francisco de Assis, nascido por volta de 1181. Seu único desejo é viver integralmente, e com simplicidade, o ideal evangélico, na alegria da fraternidade. Critica a Igreja de seu tempo não com verbosidade, mas com o exemplo da própria vida.

A vida de Francisco atrai rapidamente numerosos seguidores. Surge a fraternidade dos “Frades (irmãos) Menores”. Em Clara, Francisco encontra uma companheira fiel, ainda mais radical do que ele mesmo na vivência irradiante da pobreza evangélica.

Domingos († 1221), espanhol, une o ideal sacerdotal ao de frade mendicante. Valoriza particularmente os estudos a fim de poder servir melhor a Igreja no combate às heresias. Com Domingos de Gusmão surge a Ordem dos Frades Pregadores (dominicanos), aprovada pelo papa em 1216.

6- VIVÊNCIA DA FÉ, UMA REALIDADE CONTRADITÓRIA



Na compreensão da vivência religiosa na Idade Média é indispensável termos em mente a cosmovisão da época. Para o homem medieval tudo se orienta para Deus e depende diretamente dele.

A terra é uma região de passagem, um exílio “longe do Senhor”. A verdadeira pátria do cristão encontra-se no além. Enquanto caminha aqui “em baixo”, deve enfrentar duas forças que atuam em sentido contrário: a do bem (Deus) e a do mal (Diabo).

Na vivência da fé as relíquias ocupam um lugar de destaque. Desenvolve-se, assim, um verdadeiro comércio em torno das relíquias, cuja procedência frequentemente é duvidosa, onde coisas absurdas são expostas à devoção dos fiéis.

A mais cobiçada relíquia de toda a cristandade medieval é a Terra Santa, a região onde Jesus nasceu, viveu, sofreu e morreu. Lá tudo é sagrado, porque diretamente tocado pelo próprio Filho de Deus.

Para recuperar esta relíquia por excelência, que caíra nas mãos dos muçulmanos, organizam-se as Cruzadas. Nem sempre estas expedições paramilitares atendem aos seus objetivos religiosos originários.

A frequência sacramental na Idade Média varia conforme a época e o lugar. Em geral podemos dizer que a confissão goza de grande estima, porque o medieval tem uma viva consciência de seu estado pecador.

A comunhão eucarística é pouco comum. Mesmo pessoas piedosas raramente se aproximam do sacramento do altar. Por outro lado, percebemos uma notável evolução do culto eucarístico. Há gente que se contenta com a elevação da hóstia, após a consagração na Missa. A festa de “Corpus Christi”, oficializada em 1246, é altamente apreciada.

As peregrinações medievais atraem multidões. Os três locais preferidos são: a Terra Santa (Palestina), Roma e São Tiago de Compostela, na Espanha. As viagens, muitas vezes, assumem um caráter penitencial ou realizam-se em cumprimento de uma promessa. São caminhadas longas e perigosas.

O culto medieval à Virgem Mãe conhece uma notável evolução. Numerosos são os santuários marianos. A oração à Mãe de Deus se populariza com a composição final da Ave-Maria (séc. XII) e a devoção do rosário (séc. XV).

Nem tudo na religiosidade do homem medieval é edificante. Muitas vezes a autenticidade da fé se mistura com elementos mágicos e supersticiosos. Antigos costumes pagãos sobrevivem sob a capa de práticas cristãs. No fundo o povo procura uma religião concreta, próxima da realidade do dia-a-dia.

Na arte em fins da Idade média aparece a temática da “dança macabra”, expressão do medo da morte e da certeza de igualdade social para todos os mortais.

A reflexão sobre a fé atinge seu pleno desenvolvimento, neste período, com as contribuições teológicas e filosóficas de competentes mestres, entre os quais se destacam Santo Alberto Magno († 1280) e seu célebre discípulo Santo Tomás de Aquino († 1274).

Eles chegam a elaborar grandiosas sínteses (“Sumas”) de fé, em que buscam harmonizar os dados da Revelação cristã com as conquistas do pensamento humano. Intimamente ligadas ao desenvolvimento teológico estão as Universidades medievais, que nascem sob a proteção do papa.

A arte na Idade Média é quase exclusivamente sacral. Entre suas múltiplas expressões destacam-se as Catedrais. Estes templos funcionam ao mesmo tempo como Casa de Deus e Casa do Povo, onde os simples e iletrados são instruídos mediante as esculturas, pinturas e vitrais.

A cristandade medieval se considera como uma manifestação unitária da verdadeira fé. Vozes dissonantes ou gestos de contestação são sistematicamente reprimidos. A ortodoxia e sua expressão institucional eclesiástica são defendidas com intransigência.

No funcionamento dos tribunais, encarregados da procura e punição dos hereges, colaboram intimamente o poder espiritual (a Igreja) e o poder temporal (o Estado). Progressivamente essas atividades começam a ser coordenadas pela Santa Sé que, em 1233, cria a Inquisição pontifícia.

A Inquisição foi confiada aos Frades Dominicanos. O emprego da tortura é autorizado em 1252. A execução das penas, particularmente a morte na fogueira, cabe ao poder secular.

A fase final da Idade Média é assinalada por uma crise na concepção do secular sistema de cristandade. Diversos movimentos reivindicam a independência do estado frente à Igreja. Consolida-se na sociedade o espírito leigo, e cresce a convicção de que todos os batizados fazem parte ativa da Igreja.

Uma manifestação histórica desta nova mentalidade é o conflito entre Filipe, o Belo, rei da França e o papa Bonifácio VIII († 1303). Trata-se, no fundo, de uma questão de liderança política ou rivalidade de poder.

Com Clemente V († 1305) começa o que se convencionou chamar de “Cativeiro Babilônico dos Papas”, que se estende até 1377. O Pontífice fixa residência em Avinhão, no sul da França, dando a impressão de ser serviçal ao rei daquele país.

Quando, finalmente, o papa resolve retornar à Cidade Eterna, instaura-se uma disputa de poder na Igreja, que é a origem do “Cisma do Ocidente”, com dois papas governando simultaneamente, um em Roma e outro em Avinhão. A cristandade divide-se em dois blocos.

Em 1409 a confusão chega ao cume com a eleição de um terceiro papa que se estabelece na cidade de Pisa. O Concílio de Constança, em 1417, põe fim ao escândalo com a eleição de um único papa, Martinho V. É também nessa assembleia que se afirma a superioridade de um Concílio sobre o papa (“teoria conciliarista”).

7- BUSCA DE NOVOS CAMINHOS



Os últimos tempos da Idade Média são marcados por diversos movimentos que expressam um profundo desejo de renovação da vida espiritual dentro da própria Igreja. Destaca-se a chamada “Devoção Moderna”, onde cristãos leigos buscam viver mais intensamente a “Imitação de Cristo”.

Grandes mudanças assinalam a chegada de uma nova época histórica. Fala-se de um “Renascimento”, fenômeno que atinge particularmente as classes letradas e os artistas e manifesta um saudosismo da cultura greco-romana.

Pensadores cristãos preocupam-se com uma melhor fundamentação da religião, valorizando as fontes do cristianismo, especialmente a Bíblia e os Santos Padres.

São fortemente criticados os vícios do clero e as falhas da Igreja. Erasmo de Rotterdam († 1536) lança invectivas contra a hierarquia eclesiástica e convida a repensar a presença cristã na sociedade.

Cientistas revolucionam as concepções tradicionais sobre o planeta Terra e o lugar do homem nele. Assim, Galileu Galilei († 1642) sustenta a tese do heliocentrismo, causando com suas ideias renovadoras grande perturbação em meios eclesiásticos.

Também no campo religioso anunciam-se crises que abalarão profundamente o cristianismo. A única Igreja cristã é questionada em pontos centrais de sua doutrina e em sua manifestação histórica.

As críticas ressoam primeiramente dentro da própria Igreja, tomando corpo em movimentos de reforma, tanto na base do povo cristão, quanto entre religiosos e clero.

Em 31 de outubro de 1517, um frei agostiniano da Alemanha, Martinho Lutero (1483-1546), divulga 95 teses contendo uma crítica aberta contra o comércio das indulgências, por parte de representantes do clero.

Acende-se o fogo de uma revolução dentro do cristianismo, que a História convencionou chamar de “Reforma Protestante”. A questão central da problemática levantada refere-se à relação entre fé e obras.

Lutero defende ardorosamente o princípio de que a salvação do homem é um dom de Deus, inteiramente gratuito. Ninguém pode, por conta própria, “merecer” a redenção, praticando as “boas obras”.

A crítica do lucrativo negócio das indulgências provoca a ira das autoridades eclesiásticas envolvidas no caso. Inicia-se um processo contra Lutero.

Em 1520 chega a Bula papal que o coloca sob suspeita e, no ano seguinte, é excomungado. Quando é convocado à Assembleia (Dieta) de Worms, reafirma solenemente suas posições diante do Imperador Carlos V e dos príncipes aí reunidos.

Ao lado de Martinho Lutero encontramos vários outros reformadores, entre os quais salientamos João Calvino (1509-1564), francês de origem. Ele atua principalmente na Suíça, fazendo da cidade de Genebra o centro de sua reforma religiosa.

A preocupação de Calvino dirige-se especialmente para a doutrina e a organização da comunidade reformada. Famoso é o princípio da predestinação defendido por ele.

Na Inglaterra, a obra da Reforma entrará paulatinamente através do cisma, iniciado com o rei Henrique VIII (†1547). Em 1534 ele se autoproclama “chefe supremo da Igreja anglicana”. Muitos fiéis católicos são perseguidos e executados. Durante os governos subsequentes, a Igreja inglesa recebe cada vez mais influência do calvinismo.

A antiga Igreja-Mãe (doravante chamada com exclusividade “Católica”) divide-se, desde o século XVI, em numerosas denominações cristãs que se combatem mutuamente. Intermináveis guerras religiosas caracterizarão, por longo tempo, a fisionomia política da velha Europa.

Frente a essa situação a Igreja Católica não fica inerte. Em meados do século XVI uma clara tomada de posição torna-se imperativa.

Após inúmeras dificuldades é convocado o Concílio de Trento (1545). Durante dezoito anos há reuniões de bispos e são elaborados importantes decretos sobre a doutrina católica e a disciplina eclesiástica.

Trento realiza uma obra notável, definindo a “identidade católica” no conjunto do cristianismo. O caráter antiprotestante de sua orientação afirma-se, de modo intransigente, no período pós-tridentino e fez com que este Concílio entrasse na História como uma manifestação da “Contra Reforma”.

Na aplicação dos decretos reformadores deste Concílio tiveram papel notável as novas Ordens Religiosas surgidas na época, especialmente a Companhia de Jesus, fundada por Inácio de Loyola (†1556). Os jesuítas serão o grande “exército” a serviço do papa na defesa e divulgação da fé católica.

8- DESCOBRIMENTOS MARÍTIMOS E MOVIMENTOS MISSIONÁRIOS



No decorrer dos séculos XV e XVI os europeus alargaram consideravelmente seus horizontes geográficos. A expansão marítima é fortemente estimulada por interesses comerciais, e novas terras são descobertas com o objetivo de apropriar-se de suas riquezas.

Os países ibéricos (Espanha e Portugal) lideram inicialmente esse movimento marítimo. Suas intenções econômicas vêm, normalmente, camufladas em motivações religiosas.

Não há como negar que a evangelização quase sempre anda de mãos dadas com a conquista e ocupação das terras descobertas. Existia na época uma convicção entre portugueses e espanhóis de ele serem um “povo messiânico”.

Os próprios papas confirmam os monarcas ibéricos nesta crença e lhes concedem direitos específicos sobre a missão religiosa. Surge assim o regime do padroado, isto é, a tutela do Estado sobre a Igreja. Misturam-se aí interesses políticos, econômicos e religiosos, com evidente prejuízo para a evangelização dos povos.

Entre os invasores/colonizadores havia alguns que reconheciam a iniquidade cometida aos habitantes originais das terras ocupadas. Notável é a atitude profética dos freis dominicanos da Ilha então chamada Hispañiola, hoje Santo Domingo.

Diante dos fatos ocorridos e denunciados, o papa Paulo III publica a Bula “Sublimis Deus” em que defende uma evangelização respeitosa e pacífica.

Quem mais se destaca na luta pela liberdade dos índios nas terras americanas, invadidas pelos espanhóis, é Frei Bartolomeu de Las Casas OP, que empreende numerosas viagens à Espanha para levar pessoalmente suas queixas ao rei.

Também é importante a atuação dos Frades Menores, ou franciscanos, na evangelização inicial das Américas, onde pensam poder criar um cristianismo “espiritual” com fisionomia indígena.

É triste constatar quem em relação aos negros, transportados da África como escravos, não houve o mesmo interesse e empenho dos missionários.

O choque entre culturas diferentes que verificamos na América, com a imposição da fé cristã a partir do modelo europeu, também teve lugar em outros continentes.

Na Índia encontramos o jesuíta Francisco Xavier (1506-1552). Na primeira fase de seu trabalho missionário, ele se limita à sacramentalização. Mas é no Japão, para onde se dirige posteriormente, que toma consciência de que “cristianizar” não é “impor a fé”, mas sim anunciar a Boa-Nova de Jesus a partir da cultura do povo.

Nas terras de missões onde atuam Espanha e Portugal, enfrentamos dois sistemas diferentes: o padroado, ou seja, uma evangelização que depende diretamente do poder colonial, e de outro a “Propaganda Fide”, uma evangelização promovida e coordenada pela Santa Sé, tendo como objetivo subtrai-la aos interesses dos colonizadores.

Infelizmente as tentativas de traduzir a fé cristã em termos chineses ou indianos quase sempre fracassaram, por causa da incompreensão e oposição de missionários “nacionalistas” e das próprias autoridades eclesiásticas.

9- A CRISTANDADE EM QUESTIONAMENTO



Intermináveis lutas religiosas, que opõem católicos e protestantes, marcam profundamente o século que segue à Reforma Protestante e ao Concílio de Trento. Por toda parte espalha-se um clima de hostilidade e intolerância.

Neste mesmo século XVII consolida-se cada vez mais a autoridade absoluta dos reis, inclusive com seus supostos direitos sobre a Igreja. Estado civil e pessoa do monarca se fundem numa só realidade.

A figura do rei apresenta-se como onipotente e a Igreja institucional, frequentes vezes, torna-se aliada deste poder autocrático e, consequentemente, participa de sua sorte. A submissão da religião ao Estado é conhecida na História com o nome de galicanismo.

Temos aqui uma modalidade de cristandade em que predominam quase por completo os interesses políticos, em detrimento da missão religiosa da Igreja. O galicanismo, nas suas diversas formas, tem uma vida longa com ampla divulgação nos países católicos.

Os papas desta época são fracos e, em geral, pouco expressivos. Cedem facilmente diante das pressões dos monarcas.

Já no século XVI, com o Renascimento, houve uma notável valorização do homem (antropocentrismo) e de suas capacidades intelectuais, científicas e artísticas. Cresce um desejo de liberdade e de maior independência também no que diz respeito às normas da Igreja.

O século XVIII conclui este movimento com reinvindicações de total autonomia do homem frente a qualquer imposição de fora. Rejeitam-se as respostas elaboradas a partir dos argumentos da autoridade.

Falamos neste contexto de uma “secularização” da sociedade, onde a razão humana ocupa um primeiro plano. Ciência e fé se distanciam e se opõem. O homem começa a ter confiança ilimitada na sua própria capacidade intelectual.

A fé cristã e a Igreja são contempladas com desconfiança e certo desprezo. A instituição eclesiástica é alvo de ferrenhas críticas e considerada como instrumento do autoritarismo, do atraso cultural e da intolerância.

São ridicularizadas as querelas religiosas da época e propaga-se uma espécie de “religião natural”, onde todos possam encontrar-se numa “fraternidade universal”.

Um incontido desejo de tolerância se apodera dos espíritos mais esclarecidos. Com tudo isso o cristianismo é enfraquecido no seu conteúdo central: a revelação divina. Criticam-se a riqueza da Igreja e a ganância de seus representantes oficiais, denunciando sua desenfreada busca de prestígio social e sua prepotência.

A Revolução Francesa de 1789 desfraldará a bandeira da “Liberdade”, com reivindicação de “Igualdade” pra todos, a fim de que se estabeleça a “Fraternidade” do gênero humano. Acende-se uma nova esperança para o povo, com promessas que não se cumprirão.

A Igreja encontra-se numa situação extremamente delicada. Aliada dos antigos dominadores e defensora da autoridade absoluta do rei, á atacada de todos os lados. Os mais exaltados revolucionários querem eliminá-la.

Voltaire († 1778) lança abertamente suas zombarias contra a instituição eclesiástica e contra o clero. Inicia-se a campanha de “descristianização” da sociedade. É promovido o “Culto da Razão” com a exaltação da Liberdade, em substituição das “supersticiosas e antiquadas” cerimônias religiosas cristãs.

Apesar do profundo abalo que a Igreja sofre nas ondas revolucionárias ela não sucumbe. As próprias circunstâncias adversas a conduzem a um sério questionamento sobre suas estruturas e instituições, até então presas a formas medievais, pouco condizentes com nos novos tempos.

É verdade que na época relativamente poucos católicos perceberam os “sinais dos tempos” e souberam tirar lições dos acontecimentos. Muito pesou a tradição, mormente o ideal de cristandade que, séculos afins, modelou a presença da Igreja na sociedade.

10 – A IGREJA NO CONFLITO ENTRE TRADIÇÃO E MODERNIDADE



O Congresso de Viena (1815) é ponto de partida de um processo de restauração política que procura refazer o mapa da Europa de acordo com a situação antes da Revolução Francesa (1789). Seus efeitos fazem sentir-se, igualmente, no campo religioso.

A maioria dos católicos da época aprova semelhante evolução. Veem na revolução uma “obra do demônio”. Exaltam, ao contrário, a tradição com os “eternos valores do passado”, entre os quais se destacam a obediência e submissão às autoridades constituídas, a ordem e a disciplina na organização social e eclesiástica.

Inicia-se na Igreja uma intensa campanha de recristianização das massas, mediante “missões populares”. Particular atenção é dispensada à formação do futuro clero, com a organização de seminários dentro das normas do Concílio de Trento.

Numerosas Congregações Religiosas são fundadas nesse período, tendo em vista necessidades locais muito concretas. Nem sempre a espiritualidade desses novos Institutos tem um fundamento sólido. Em não poucos predomina quase inteiramente a preocupação com as “obras de caridade’, em detrimento da formação humano-espiritual dos próprios religiosos e religiosas.

Entre as elites intelectuais e as classes sociais melhor situadas encontramos um ambiente nitidamente a-religioso, marcado por indiferentismo e um espírito anticlerical. Criticam abertamente o conluio da Igreja com o “caduco regime monárquico” e rejeitam as tentativas de restaurar o passado em moldes de cristandade.

Na Igreja europeia do século XIX percebemos duas forças opostas que se combatem mutuamente:

- de um lado, aqueles católicos que aceitam os avanços obtidos com a Revolução, sobretudo os ideais de liberdade e de democracia. Propõem uma “modernização” da Igreja, a fim de colocá-la em sintonia com as aspirações da época. Trata-se de uma minoria no conjunto do catolicismo.

- a outra força dentro do catolicismo da época é formada por aqueles que militam a favor da restauração, ou seja, da conservação do modelo de cristandade, tipo medieval. Seus adeptos constituem a grande maioria da Igreja de então. Tomam posições intransigentes frente às novidades e declaram seu ódio à Revolução.

A autoridade do papa é reforçada e começa a desenvolver-se um verdadeiro culto ao Romano Pontífice, que entrou na História com o nome de ultramontanismo. No fundo, esses católicos conservadores querem construir uma sociedade “inteiramente religiosa”, paralela à sociedade civil.

Muitos sustentam a simples resignação e a passividade em relação à ordem social em vigor, com seus gritantes contrastes. Aos operários são recomendadas submissão aos patrões e conformidade com as regras econômicas estabelecidas.

O Concílio Vaticano I (1869-1870) será o coroamento do movimento ultramontanista em curso. O dogma do primado e da infalibilidade do papa, consolidará a autoridade e o prestígio do Bispo de Roma, como Pastor Universal. Ao mesmo tempo dará incremento ao centralismo da Santa Sé, em detrimento das Igrejas Particulares.

No Brasil o século XIX coincide com o Império. Em geral, não foi um período de prosperidade para a Igreja em nossa pátria. Apesar de o catolicismo ser oficialmente a “religião do Estado”, a Igreja encontrava-se numa situação de total dependência do poder civil.

Ao imperador cabia a nomeação de bispos e o controle da correspondência entre o episcopado e a Santa Sé, entre outras ações. Tudo isso resulta numa perda de liberdade por parte da Igreja e de seus representantes.

Contra tal situação surge, em meados do século, um movimento de libertação da tutela imperial liderado por alguns bispos, entre os quais se destaca Dom Antônio Ferreira Viçoso. Esses “bispos reformadores” procuram uma maior aproximação de Roma e a aplicação efetiva dos decretos disciplinares do Concílio de Trento.

Dom Viçoso assume a reforma do antigo clero. Junto ás autoridades civis luta pela liberdade espiritual da Igreja, criticando as constantes intervenções do governo imperial em assuntos eclesiásticos internos.

O bispo cria em torno de si um grupo de bispos e sacerdotes que atuam na mesma linha. Sua ação reformadora segue minuciosamente as diretrizes romanas do pontificado de Pio IX (1846-1878). É por isso que alguns falam de “romanização” da Igreja no Brasil.

11- A DIFÍCIL CAMINHADA PARA NOVOS TEMPOS



Quase toda a segunda metade do século XIX coincide com ao pontificado de Pio IX (1846-1878). Após um brevíssimo período de abertura, este Pontífice, adota uma orientação conservadora.

Além de aspectos muito positivos, sobretudo seu empenho em unir as forças católicas e dinamizar a vivência cristã no interior da Igreja, Pio IX confronta-se com a modernidade, cujos princípios reprova publicamente, em 1864, com sua Encíclica “Quanta Cura”.

As atitudes nitidamente antiliberais do Pontífice explicam-se em boa parte pela situação política da Itália. A partir de 1860 o papa perde sucessivamente suas terras (Estados Pontifícios) na região central da Península. Roma é tomada em 1870, iniciando-se a chamada Questão Romana.

Contrabalançando a perda de seu poder temporal, a autoridade espiritual do Pontífice Romano recebe grande impulso com a declaração do Primado do Papa no Concílio Vaticano I (1870) que, igualmente, define a Infalibilidade do Sucessor de Pedro.

Com a morte de Pio IX é eleito Leão XIII, personagem notavelmente diferente. Mostra-se mais sensível às novas realidades sociais, profundamente alteradas em decorrência do capitalismo em ascensão.

A crescente industrialização tendo como consequência a exploração em massa dos operários, não o deixa indiferente. Pressionado por diversos grupos e pessoas, atuantes no campo social, publica, em 1891, sua Encíclica “Rerum Novarum”, na qual toma abertamente a defesa dos trabalhadores.

Leão XIII percebeu com maior clareza o conflito existente entre a fé tradicional e as novas conquistas nos campos da ciência, da cultura, do pensamento e da política. Em várias nações europeias crescia a campanha anticlerical, com posições contra a Igreja e suas instituições.

A transição do século XIX para o XX é um momento delicado para o catolicismo. Pio X, que assume o governo da Igreja em 1903, procura ser, antes de tudo, um verdadeiro Pastor, preocupado com a qualidade de vida católica.

Ele toma iniciativas inovadoras na catequese, na liturgia, na formação dos seminaristas. Sua bondade natural e simplicidade encantadora são reconhecidas e apreciadas entre os fiéis.

No campo doutrinal e político as atitudes de Pio X são rígidas e intransigentes, como revelam a condenação do modernismo (1907) e o apoio dado ao movimento antidemocrático (1910).

A Igreja no Brasil recebeu nítidos reflexos da situação da Igreja Universal. Passa também por momentos decisivos. A 7 de janeiro de 1890 a separação entre Igreja e Estado é sancionada oficialmente e depois incorporada na primeira Constituição Republicana (24/02/1891).

Inicialmente o episcopado nacional e os fiéis em geral manifestam-se a favor do novo regime, que libertou a religião de uma incômoda e sufocadora tutela governamental. Após alguns anos, no entanto, começam a ecoar os saudosismos.

A hierarquia eclesiástica lamenta o abandono da “harmonia benéfica” entre Igreja e Estado. A laicização da República é apontada como a origem de todos os males sociais. Desde os últimos anos do século XIX desencadeia-se uma campanha para “recuperar o prestígio político e social do catolicismo”.

Simultaneamente assistimos nesse período á florescência da militância católica que suscita novas forças na Igreja do nosso país, dinamizando, sobretudo o laicato, com notáveis engajamentos nos campos do ensino, da imprensa, da assistência social, do pensamento e da política.

12- RUMO À RENOVAÇÃO DO VATICANO II



A Primeira Guerra Mundial (1914-1918) desfaz o mito do progresso liderado pela onipotência da razão. Muda-se substancialmente o quadro político e econômico do mundo ocidental e novas forças sociais fazem sua entrada.

Em 1922, Pio XI assume a suprema direção da Igreja, iniciando amplo programa de recristianização da sociedade. Convoca particularmente os leigos a assumirem sue papel nesta militância.

Nasce assim a Ação Católica, que terá grande importância na igreja, no período entre 1930 e 1960. Muitos fiéis descobrem, através deste Movimento, sua vocação cristã e decidem emprenhar-se nos diversos campos apostólicos.

A especialização da Ação Católica, sobretudo na área da juventude, proporcionará um vigor extraordinário a esta organização católica de leigos.

Durante o pontificado de Pio XI é resolvida a Questão Romana, com a criação do Estado do Vaticano (1929).

Tenso será o relacionamento de Pio IX com os regimes totalitários em ascensão, no período entre as duas Guerras Mundiais: o fascismo, na Itália, e o nazismo na Alemanha, não obstante as tentativas de alianças (Concordatas) para garantir a liberdade de ação da Igreja nesses países.

Quando correm risco os princípios fundamentais, o papa não hesita em tomar posições ousadas, condenando os excessos dessas ideologias totalitárias.

Pio XI dá continuidade à Doutrina Social da Igreja, iniciada pelo seu antecessor. Cresce nele a consciência de que a questão social não é algo acidental, mas o resultado de uma injusta organização da sociedade no seu todo.

No campo do diálogo com outras confissões cristãs (Ecumenismo) o papa é reservado e até desestimula iniciativas de aproximação com não católicos.

As missões ad gentes recebem grande apoio por parte do Pontífice. Pio XI critica o exacerbado nacionalismo de não poucos missionários. Uma verdadeira evangelização em terras não europeias resulta necessariamente na criação de Igrejas locais autônomas com clero e vida consagradas autóctones.

Pio XII (1939-1958) é eleito às vésperas da Segunda Guerra Mundial. Após a sua morte surgiram as críticas a respeito da neutralidade do papa e a falta de posições mais proféticas frente ao nazismo. Ninguém pode duvidar da autenticidade das atitudes deste papa, mas sua excessiva prudência incomoda nossa consciência humana e cristã hoje.

No governo do Papa Pacelli já se faz pressentir o esgotamento do modelo de neocristandade. A concepção de Igreja como sociedade perfeita, com acento nas estruturas jurídico-sociais, é colocada em questionamento.

Aparecem indícios de uma nova maneira de pensar a Igreja, na direção de um organismo vivo, o Corpo Místico de Cristo, ou o Povo de Deus, vivendo em comunhão com o Senhor e entre si.

Os anos 50 assinalam grandes tensões entre uma sociedade ocidental pós-guerra e uma Igreja pouco preparada para os novos desafios culturais.

Em 1950 Pio XII proclama solenemente o dogma da Assunção de Maria ao céu. Ele também não descuidou da ação missionária, privilegiando no seu pontificado o continente africano. Também apoiou os estudos bíblicos e incentivou a renovação litúrgica e pastoral, mas sempre numa linha de grande cautela.

No seu governo a consciência dos leigos como corresponsáveis pela missão evangelizadora da Igreja cresce notavelmente. Também a presença do catolicismo num mundo cada vez mais secularizado e afastado da Igreja oficial é preocupação do pontífice e de setores eclesiásticos mais abertos.

Quando morre Pio XII, uma profunda renovação da igreja no seu todo se apresenta como inadiável. Está em jogo a questão de identidade e de presença evangelizadora num mundo novo.

João XXIII (1958-1963), o sucessor do Papa Pacelli, preocupa-se, antes de tudo, com a missão pastoral da Igreja. Esta deve ser portadora de uma boa nova para o homem de hoje. A fim de realizar esses intentos convoca a 25/01/1959, o Concílio Vaticano II, que inicia seus trabalhos em outubro de 1962.

As reuniões dos bispos se estendem por quatro anos de intensos trabalhos. Após a primeira sessão falece o “Papa Bom”. Sua autenticidade, bondade, transparência e simplicidade contagiaram não apenas os fiéis da Igreja Católica, mas lograram igualmente a estima e admiração de muitos homens e mulheres fora de seus quadros.

O Concílio tem sua continuidade com o papa Paulo VI, que guiará a Igreja nos caminhos de renovação, abertos pelo Vaticano II. Prudência e coragem caracterizam sua atuação pastoral.

No início tudo indicava que uma nova primavera tivesse começado para o catolicismo O entusiasmo da primeira hora logo cedeu lugar a um maior realismo. O ritmo das reformas tinha que ser necessariamente lento. As crises tornaram-se inevitáveis e abalaram muitos setores da Igreja.

A Igreja apresentava-se agora como mais universal e menos romana. Encetava um diálogo aberto com o mundo moderno e com cristãos de outras denominações. Houve entendimentos com religiões não cristãs e com as grandes correntes do pensamento moderno.

O ano de 1968 marca o início de um período particularmente crítico na cultura ocidental e na própria Igreja. Por toda parte alastram-se as contestações. Progressistas e conservadores endurecem nas suas respectivas posições.

As respostas tradicionais da Igreja em questões vitais são fortemente questionadas nos terrenos da moral, da disciplina, da doutrina, da autoridade e do serviço ministerial. Muitos presbíteros e religiosos abandonam sua função ou deixam seu estilo de vida.

As inovações litúrgicas e experiências pastorais custam a serem assimiladas em maior profundidade. As grandes inspirações do Concílio só lentamente atingem as bases da Igreja.

Na América Latina, o Concílio Vaticano II é introduzido, de fato, com a Segunda Conferência Episcopal, em Medellín (1968). Esta constitui o ponto de partida de uma nova consciência eclesial latino-americana, de uma Igreja com fisionomia própria e formas originais de viver a fé.

A Teologia da Libertação e o fenômeno das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) são dois aspectos importantes da nova caminhada. Puebla (1979) e Santo Domingo (1992) prosseguem a obra de Medellín com contribuições próprias.

A Igreja no Brasil enfrenta o difícil período da ditadura militar de 1964 a 1985. Ela é um dos poucos espaços ainda abertos de conscientização e ação concreta em favor dos direitos humanos. A Conferência dos Bispos do Brasil (CNBB) torna-se o porta-voz dos profundos anseios do povo brasileiro.

Cada vez mais os objetivos pastorais concentram o episcopado nacional numa ação conjunta, deixando para trás as antigas alianças de cristandade. A corresponsabilidade de evangelizar é enfatizada na Exortação Apostólica de Paulo VI (1975), sobre “A evangelização no Mundo Contemporâneo”.

Grandes desafios caracterizam a caminhada da Igreja no último quartel do século XX, tais como: a crescente urbanização e secularização da sociedade, a pobreza endêmica e estrutural de boa parte da população latino-americana, etc.

Durante longos anos a Igreja do Silêncio – perseguida e marginalizada nos regimes comunistas – tem sido uma realidade dolorosa com inúmeros mártires anônimos. A queda do comunismo, a partir de 1989 fez revelar as riquezas espirituais armazenadas ao longo dos anos de repressão religiosa nos países do antigo bloco soviético.

O avanço do Islã e o aumento constante de seus adeptos também colocam novas questões para a evangelização, ao lado da premente necessidade de inculturar a Boa-Nova nos continentes da África, Ásia e América Latina.

Um grande pluralismo caracteriza o catolicismo de nossos dias. As Igrejas Particulares conscientizaram-se da necessidade de ter um rosto próprio e de responder criativamente às exigências que a própria realidade local apresenta.

As viagens apostólicas do papa João Paulo II contribuíram para manter viva a comunhão eclesial e a catolicidade da missão apostólica: anunciar a todos os povos o Evangelho, como Boa Nova.

13- A IGREJA HOJE



BENTO XVI (Abril 2005 – Fevereiro 2013).



Sua primeira Encíclica, Deus caritas est (Deus é amor) praticamente delineava os rumos que pretendia dar ao seu pontificado. Este documento foi publicado em 25/12/2005 e enviava uma mensagem de paz ao mundo.

Bento XVI deu continuidade aos encontros com a juventude iniciados por seu antecessor João Paulo II. Nesse setor demonstrou capacidade de mobilizar multidões.

Em 2005 aprovou um documento eclesiástico segundo o qual a Igreja não poderá admitir no seminário e nas ordens sagradas aqueles que praticam a homossexualidade. Tal proibição não afeta os sacerdotes homossexuais já ordenados.

Em 2007 reiterou a condenação da eutanásia, criticando a “mentalidade eficientista” que considera o enfermo como sendo “um peso e um problema para a sociedade”. Neste pronunciamento insistiu em que as famílias se encarreguem “com afeto” dos anciãos enfermos de modo que possam preparar a morte em “um clima de calor familiar”.

Em 2008 o papa discursou lembrando os 40 anos do documento do magistério da Igreja que condenou os métodos contraceptivos, a encíclica Humanae vitae do papa Paulo VI. O Pontífice reiterou a proibição da Igreja a métodos de controle e natalidade.



Ainda neste ano declarou que os novos problemas relacionados com a manipulação de embriões humanos mostram claramente que com a fecundação artificial extra corpórea rompeu-se a barreira da defesa da dignidade humana.

Em 2011, durante o Congresso Eucarístico Nacional Italiano, dirigiu uma mensagem aos jovens e namorados, incentivando-os a se abrirem para a maravilha do encontro, vivendo-o com intensidade, gradualidade e verdade.

Em seu pontificado o Vaticano publicou uma lista em que atualiza comportamentos considerados pecaminosos. Drogas, poluição e manipulação genética bem como injustiças sociais e econômicas como sendo áreas de comportamento que são considerados pecados.

Além disso, considerou que ainda resta um longo caminho a ser percorrido para o pleno respeito aos ideais previstos na Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Também se efetivou um esforço por incrementar o diálogo inter-religioso iniciado por seus antecessores, e para isso enviou esforços para manter encontros com personalidades de todas as religiões do mundo.



FRANCISCO (13/03/2013...)

É o primeiro jesuíta a ser eleito papa, o primeiro papa do continente americano do Hemisfério Sul e o primeiro não europeu investido como Bispo de Roma em mais de 1200 anos.