ENTREVISTANDO PAULO



Pergunta: O livro dos Atos dos Apóstolos diz que você tinha o nome de Saulo e é um judeu de Tarso na Cilícia, que hoje fica na Turquia, junto à fronteira com a Síria, é ver-dade?
Paulo: Nunca mais usei esse nome, mas ele lembra a minha origem. Sou mesmo de fa-mília judaica tradicional, da tribo de Benjamim. Por isso, deram-me o nome de Saul, o grande herói da nossa tribo. O ambiente cultural de Tarso ajudou muito na minha for-mação acadêmica.

Pergunta: Você perseguiu mesmo os cristãos como dizem os Atos dos Apóstolos? Por quê?
Paulo: Persegui, sim, exageradamente. Como fariseu dos mais fanáticos eu entendia que Jesus era um maldito de Deus. Está no capítulo 21 do Deuteronômio, versículos 22 e 23: morrer pendurado é maldição de Deus. Que absurdo, que loucura dizer que um crucifi-cado é a salvação que Deus enviou ao mundo! Precisa acabar com isso! Assim eu pen-sava. Por isso, por amor à Lei, às minhas convicções, eu perseguia desbragadamente es-ses nazarenos.

Pergunta: Como foi a sua conversão?
Paulo: Acho que eu estava exagerando na perseguição. Eu fui esticando, esticando o e-lástico até que um dia ele arrebentou. Deus já me havia escolhido, ele revelou em mim o seu Filho, "caiu a ficha", como vocês dizem hoje, os nazarenos estavam certos e eu, er-rado. Virei-me pelo avesso. De fariseu perseguidor, passei a ser missionário entre os gentios. Por estar agarrado demais à Lei, morri para ela. Tudo aquilo que eu havia a-prendido no judaísmo e no farisaísmo, tudo o que eu mais valorizava, virou lixo, virou entulho a ser jogado fora.

Pergunta: Os Atos dos Apóstolos dizem que foi perto de Damasco e que você ficou cego com a luz que viu, é verdade?
Paulo: Claro que fiquei cego, fiquei totalmente desorientado por alguns dias. Depois de um clarão desses não era para menos. Não há ser humano que agüente passar por uma mudança dessas sem um período de escuridão total. Tive de me recolher em oração por uns dias em Damasco até poder enxergar claro.

Pergunta: Os Atos dos Apóstolos dizem que de Damasco você foi diretamente para Jerusalém, é verdade?
Paulo: Lucas tem razão em centralizar tudo em Jerusalém, porque andaram dizendo que nossas comunidades gentias, negavam a própria origem. É verdade que briguei muito com aqueles que queriam impor os costumes dos judeus a todos, mas nunca neguei a o-rigem judaica da nossa fé. O próprio Jesus e eu mesmo somos judeus, aprendemos a co-nhecer a Lei de Deus nas sinagogas. Mas, depois do período de escuridão, não fiquei em Damasco nem fui a Jerusalém perguntar alguma coisa a quem quer que fosse. Deus já me havia chamado para ser apóstolo, não precisava de recomendação de ninguém. Ago-ra sou missionário para os gentios. Fui, então, para a Arábia governada por Aretas IV. Lá falei de Jesus por onde pude. O rei sabia bem da questão entre João Batista e Hero-des, pois era sua filha a mulher que Herodes repudiou para ficar com Herodíades, e não queria saber de pregador ousado por perto. Ficou desconfiado com a minha pregação. Eu, então, voltei para Damasco.

Pergunta: Segundo os Atos dos Apóstolos os judeus fecharam as portas de Damasco e para sair da cidade você teve de descer ao longo da muralha pendurado dentro de um cesto. É verdade?
Paulo: Sim, tive de entrar em um cesto e os irmãos me desceram pela janela, pendurado por uma corda. Mas César tinha arrendado a cidade de Damasco ao rei Aretas e quem quis me pegar mesmo foi o administrador da cidade a mando de Aretas. Lucas atribui o fato aos judeus, para não colocar os irmãos contra as autoridades do Império.

Pergunta: Você trabalhava mesmo para se manter? Não era a comunidade que o sus-tentava?
Paulo: O trabalho manual é uma honra, dignifica a pessoa, como aprendi dos meus mes-tres fariseus. Não rebaixa como dizem os filósofos gregos. Sei que o Senhor mandou que o pregador do Evangelho vivesse do Evangelho, mas uma coisa são as aldeias da Palestina a poucos quilômetros uma da outra e onde o missionário só fica por alguns di-as. Minha missão é o mundo, as grandes cidades do Império. Trabalho para viver, para poder viajar e para permanecer independente. Os filósofos itinerantes nas cidades gregas não trabalham, mas vivem na dependência de um senhor que os sustenta. Aceito ajuda das comunidades pobres como as da Macedônia, mas de Corinto, por exemplo, onde um grupinho de ricos, sábios e de famílias importantes pretendem mandar na comunidade, nada aceito. Antes morrer que...

Pergunta: O livro dos Atos dos Apóstolos diz que você morou muito tempo em Jeru-salém, que lá estudou com Gamaliel, que fazia parte do grupo que apedrejou Estevão. Você seria, então, muito conhecido em Jerusalém, como, aliás, Lucas faz você dizer em um dos seus discursos nos Atos dos Apóstolos (26,4-5). Ou você tinha alguma rixa com Jerusalém? Parece que você diz outra coisa. Será verdade?
Paulo: É verdade. Na carta que escrevi às comunidades da Galácia disse que quando, três anos depois de me ter tornado discípulo missionário, fui conviver uns dias com Ce-fas ou Pedro, os irmãos de Jerusalém e da Judéia não me conheciam de vista, só de ou-vir falar. A rixa com Jerusalém, se houve, foi porque alguns falsos irmãos chegaram às comunidades da Galácia, dizendo-se enviados de Jerusalém pelo Tiago, parente do Se-nhor, e afirmando que Tiago e o pessoal de Jerusalém é que estavam certos, ao querer subjugar todos os irmãos às normas do judaísmo. Eu sempre havia ensinado o contrário, sempre disse que o compromisso com Jesus, o messias crucificado, acaba com esse sis-tema de leis. Não agüentei e disse: "A Jerusalém aqui de baixo é escrava com seus fi-lhos e discípulos" (Gl 4,25).

Pergunta: Isso não lhe causou problemas?
Paulo: Sem dúvida! Mais tarde passaram a dizer que nossas comunidades renegavam sua origem, que "cuspiam no prato de onde haviam comido", como vocês dizem hoje. Para desfazer essa impressão, foi que nosso irmão Lucas insistiu tanto em Jerusalém e disse até que ali eu me criei, ali era muito conhecido e ali perseguia os nazarenos. Quando escrevi aos irmãos gentios de Roma, os judeus, irmãos meus de origem, haviam sido expulsos e agora estavam retornando para a Cidade, em situação de muita inferioridade. Então, eu mesmo reconheci que a nossa fé veio deles, veio de Jerusalém. Disse que foi a partir de Jerusalém que preguei por todo o oriente do Império (Rm 15,19). Mas não menti quando escrevi aos gálatas dizendo que os irmãos de Jerusalém, naquela oportunidade, ainda não me conheciam pessoalmente.

Pergunta: Segundo os Atos dos Apóstolos, houve uma grande reunião em Jerusalém, que resolveu a questão de seguir ou não as normas do judaísmo, não? Ali ficaram encer-radas as diferenças entre você, Tiago, o venerável "irmão do Senhor", e Pedro, ou estou enganado?
Paulo: Meu irmão Lucas não gosta de conflitos. Aliás, quando ele escreveu o livro dos Atos dos Apóstolos já não era momento de estar falando nisso. Eu mesmo, quando es-crevi aos irmãos de Roma, onde, agora, os judeus que retornavam pobres, discriminados e revoltados, eram a parte fraca, só me preocupei em afirmar a igualdade de todos no pecado e na fé e não as diferenças.

Pergunta: Os leitores estão curiosos por saber o que aconteceu entre você e Pedro e entre você e Tiago, a figura mais respeitada da comunidade de Jerusalém.
Paulo: Quando fui a Jerusalém procurar Pedro, Tiago e João, não quis dar a menor atenção aos falsos irmãos que nos queriam escravizar ao judaísmo. Não houve reunião grande. Só falei com os três - não importa se eram galileus de pouca instrução, eram os "colunas" - e eles me apoiaram. Eles ficariam com os irmãos judeus e eu e Barnabé irí-amos aos gentios. Os judeus, muito preocupados com a pureza alimentar, não comem com gentios. Seriam, então, duas Igrejas, sem comunhão na Mesa. O sinal de comunhão seria a ajuda dos irmãos gentios aos irmãos da Judéia que estavam na miséria.

Pergunta: Disso podemos falar depois. Fale do seu desentendimento com Pedro e mesmo com Barnabé. Segundo os Atos dos Apóstolos você e Barnabé se separaram a-penas por causa de João Marcos. Será verdade?
Paulo: Pedro foi comigo para Antioquia. Ali participava normalmente da Ceia do Se-nhor - sempre numa refeição comum - com os irmãos gentios. Chegou, então, uma car-ta de Tiago. Pode ser aquela que Lucas disse ser o resultado da grande reunião de Jeru-salém. A carta falava muito de pureza alimentar. Com medo, Pedro parou de participar da Ceia com os gentios. Barnabé fez o mesmo. Não agüentei: chamei Pedro de hipócrita - hoje vocês diriam "palhaço" - na presença dos irmãos. E Barnabé? Depois de uma dessas, não era possível que continuasse como companheiro meu na evangelização dos gentios.

Pergunta: Suas falas e discursos nos Atos dos Apóstolos são perfeitos. No capítulo 26, v. 28, Herodes Agripa diz que você quase o convence a se tornar cristão. É mesmo?
Paulo: Lucas é muito generoso comigo. Nunca fui grande orador. Não que eu não tives-se conhecimento da oratória grega. Se tentei alguma coisa em Atenas, o fracasso foi to-tal. Desisti da oratória. Achei que a linguagem insegura, simples, humilde, o bate-papo informal, é mais coerente com a grande notícia do salvador, do messias crucificado, um bobo para os gregos e, para os judeus, um maldito. Em Corinto um fulano disse que eu sou muito bom para mandar cartas, mas para falar frente a frente sou medroso e insegu-ro (2Cor 10,10). Concordei e concordo que não tenho jeito de orador (2Cor 11,6). A força de Deus se mostra é mesmo na fraqueza.

Pergunta: Mas você deixou comunidades cristãs espalhadas por todo aquele mundo, não? Conte-nos como foi.
Paulo: Sim, formei uma rede de comunidades que se reúnem pelas casas, algumas só de gente humilde como os trabalhadores braçais de Tessalônica, mascates e camelôs de Fi-lipos, outras, como em Corinto, onde há também alguns ricos, sábios e importantes. Dei a elas o nome de ekklesias ou igrejas. No mundo grego e romano essa palavra lembra a assembléia dos ricos e poderosos que governam as cidades. No mundo judeu lembra a reunião do Povo de Deus. Além da distribuição de tarefas, serviços ou ministérios, os diáconos, deixei em cada uma não um chefe, um manda-chuva que resolve tudo sozinho, mas uma equipe ou conselho, que os Atos dos Apóstolos chamam de presbíteros ou "anciãos" e, no mundo grego como em Filipos, chamo de epíscopoi, de onde vem bispos, os que olham pelo todo da comunidade. Serviços e coordenação-animação coletivas.

Pergunta: Agora fale um pouco da campanha pelos pobres da Judéia.
Paulo: Foi uma de minhas grandes preocupações. Os irmãos da Judéia estavam na mi-séria e a ajuda das comunidades gentias seria o sinal de comunhão nossa com eles. Nu-ma carta que escrevi aos irmãos de Corinto disse para fazerem com eu tinha orientado os irmãos da Galácia: cada domingo ir guardando o que foi possível economizar, para juntar uma quantia maior. Quando estava recolhendo o resultado final para levar à Ju-déia escrevi aos irmãos de Roma e disse que a Macedônia (Tessalônica, Filipos) e a A-caia (região de Corinto) faziam essa campanha. A Galácia ficou de fora, acho que foi por causa daquela carta... Eu estava até com medo de ser mal recebido na Judéia e pedi aos irmãos de Roma que orassem por mim (Rm 15,32). Quando cheguei, eles me pren-deram e tentaram matar-me. Não é isso que Lucas conta nos últimos capítulos dos Atos dos Apóstolos?

Pergunta: Gostaria de deixar uma mensagem final para nossos leitores?
Paulo: Que vocês não tenham medo de remar contra a corrente do deus Mercado, que, na comunidade, aprendam a cada um se considerar o último de todos e a pensar só no interesse dos outros, tendo o mesmo sentir do nosso messias crucificado, para serem fa-róis a iluminar essas trevas de corrupção e perversidade no meio das quais vivemos (Fl 1,27-2,16).