CURSO DE INICIAÇÃO TEOLÓGICA
“DOM JOSÉ MAURO PEREIRA BASTOS”
Setor Guaxupé





DISCIPLINA DE CRISTOLOGIA



Assessor: Pe. Henrique Neveston Silva1



Ementa: o estudo pretende oferecer uma visão geral do Jesus histórico ao Cristo da fé, abordando o mundo e o ambiente de Jesus, sua pregação, sua vida pública, bem como a Paixão e Morte, nos aspectos históricos e teológicos; a Ressurreição; a singularidade da Pessoa e da causa de Jesus.

Introdução Geral.



O texto que se segue está dividido em duas grandes partes, a saber:
1ª Parte: A vida de Jesus e 2ª Parte: A Morte e Ressurreição de Jesus. A divisão, contudo, é meramente didática, pois vida, morte e ressurreição se interpenetram e se esclarecem mutuamente.
Entretanto, a primeira parte é resumo da obra Sempre Jesus2 acrescido de reflexões pessoais a partir de estudo teórico e da experiência pastoral de mais de uma década. Para maior clareza e compreensão, iremos seguir o esquema básico oferecido pelo próprio Pe. J. B. Libanio.
A segunda parte é resumo esquemático da obra do Pe. FERRARO, que entendemos uma argumentação bastante atual e com desdobramentos pastorais muito sugestivos.
O desfecho do presente estudo levanta alguns questionamentos oportunos e, um deles, já será levantado aqui: A morte de Jesus foi vista pelos dirigentes “piedosos” como um sacrifício necessário, exigido pela Lei. Hoje, o Mercado continua exigindo sacrifícios através da morte de crianças de rua, sem terra, sem teto, índios, afirmando a necessidade de se purificar a cidade. O que há em comum nestas mortes?

1ª. Parte – A Vida de Jesus.


01. Jesus e a História.

As celebridades, as genialidades, em qualquer campo que seja, atraem os estudiosos. Temos, por exemplo, aqueles que atraíram estudiosos por causa de suas idéias filosóficas: PLATÃO<, ARISTÓTELES, SANTO TOMÁS de AQUINO,HEGEL e outros. Outros por causa de suas qualidades artísticas (música, pintura, arquitetura): BACH,BETHOVEN,LEONARDO da VINCI e outros. Outros pelos dons espirituais e religiosos: fundadores de grandes religiões. O cristianismo, sendo a maior religião mundial, não faz exceção.
Milhões e milhões de pessoas dedicaram e dedicam sua vida a estudar, em profundidade, a vida de JESUS, quer na linha do conhecimento, quer em busca de seguimento mais próximo e fiel. E a primeira pergunta que se levanta imediatamente, gira em torno das fontes históricas da vida de Jesus.

a) A tranqüila historicidade da vida de Jesus.
Num primeiro momento creu-se que tanto os escritores sagrados (PAULO) quanto os escritores judeus (FLÁVIO JOSEFO) ou como escritores romanos (TÁCITO) trataram a vida de Jesus da mesma maneira histórica. O fato é que a gigantesca desproporção informativa entre os livros sagrados e os outros fez com que praticamente não se desse importância a não ser aos autores sagrados.
Considerava-se a natureza histórica dos escritos do Primeiro Testamento igual à da historiografia profana. A Teologia Fundamental Tradicional procurava provar que os quatro evangelhos eram íntegros, históricos, autênticos, fidedignos, verazes, ao relatarem os fatos exatamente como aconteceram. Daí surgiram muitas “vidas de Jesus”. Os autores conciliavam as contradições dos próprios evangelistas por meio de malabarismos interpretativos. Por exemplo, o Sermão das Bem-Aventuranças: segundo Mateus foi feito numa montanha e segundo Lucas foi feito numa planície. Para resolver o impasse foi afirmado que havia dois sermões. Esta e outras contradições, contudo, não abalaram a convicção de que o leitor se defrontava com relatos históricos descritivos da vida de Jesus.
b) A crise da historicidade dos Evangelhos.
As certezas, aparentemente inabaláveis, não resistiram aos impactos da Modernidade. Já no século XVIII, o humanismo e o racionalismo se aproximavam dos evangelhos – não mais como relatos intocáveis, ditados por Deus – mas como documentos históricos da antiguidade, sujeitos às leis da historiografia e da linguagem. Aplicavam a eles os métodos da pesquisa literária, verificando neles um evoluir das tradições, das formas literárias e da própria redação do livro.
Antes que os evangelhos fossem livros, foram pregações. Criaram-se, então, tradições orais, Testemunhas oculares da vida de Jesus, imediatamente depois da sua morte e Ressurreição, sobretudo no círculo dos apóstolos e discípulos, constituíram-se, de certa maneira, os guardiães dessas tradições. Já bem cedo, em vista do anúncio de Jesus, foram sendo traduzidas em grego.
Ao mesmo tempo que se fazia a transmissão oral, outros membros da comunidade primitiva escreviam-nas. Logo se organizaram pequenas coleções de narrações de milagres, de relatos da paixão e das aparições, de parábolas, de sermões, de palavras de Jesus. A mais famosa coleção de ditos de Jesus, provavelmente feita em aramaico, se constituiu fonte para os futuros evangelhos. Por isso, esta coleção é chamada de Q, abreviatura da palavra alemã "Quelle", que significa fonte.
Estas coleções teciam pequenas peças literárias que nasceram em diferentes contextos de vida. O conhecimento dessas “formas literárias” primeiras, que depois serão reestruturadas no conjunto dos evangelhos pelos redatores finais, facilita muito entender-lhes o sentido. É a partir daí que a narração aparentemente descritiva da vida de Jesus é interpretada de maneira mais coerente.
Antes de tudo, os evangelhos, como um todo, pertencem a um gênero literário diferente da mera narração biográfica. São “proclamação de uma Boa Nova” – eu + aggelion. Expressam a fé dos discípulos de Cristo e da Comunidade Primitiva que foi se criando em seguida à sua pregação. São anúncio da ação salvadora de Deus em Jesus Cristo para toda a humanidade.
Dentro desse gênero literário maior, os ditos e atos de Jesus, por sua vez, refletem diferentes momentos da sua vida. São tecidos depois em textos maiores até formar o conjunto dos evangelhos. Uns são ditos proféticos referentes à salvação como em Lc 12,32: “Não temas, pequeno rebanho, pois foi do agrado do vosso Pai dar-vos o Reino”. Outros são mais sapienciais, especialmente em forma de provérbio: Mc 6,4: “Um profeta só é desprezado em sua pátria, entre os seus parentes e em sua casa”. Outros revelam coloração jurídica: Mt 7,6: “Não deis aos cães o que é sagrado, não atireis vossas pérolas aos porcos, não aconteça que eles as calquem aos pés e, virando-se, vos estraçalhem”. Ora Jesus usa comparações, por exemplo, em forma de paradoxo (contradição): Mc 10,25: “É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus”. Em alguns outros momentos, algumas narrações se fazem a modo de paradigma (modelo). Não interessa descrever um acontecimento, mas propô-lo como exemplo a título de lição espiritual. Espécie de estilo edificante. Portanto, o leitor não se encontra diante de fatos acontecidos. Ou mesmo se acontecidos, não narrados nos seus pormenores históricos, mas com as cores de um exemplo contado numa pregação. É o caso da cura do paralítico em Mc 2,1-12. Os dados históricos são vagos. Interessa ilustrar a questão da fé e do perdão dos pecados. Além do mais, os redatores dos evangelhos não se preocuparam com o percurso histórico da vida de Jesus, mas organizaram seus relatos em torno de temas comuns, de palavras-chave, de uma visão teológica central. Assim, Mateus estrutura a vida de Jesus em torno de grandes sermões. Marcos vê na vida de Jesus o caminho da fé do discípulo. Lucas considera Jesus o peregrino para Jerusalém e em volta dessa grande viagem dispõe os outros relatos. E João, mais teólogo ainda, apresenta-nos um Jesus à luz da Transcendência do Ressuscitado, do pré-existente.
A partir daí se vê que os evangelhos são uma fonte histórica da vida de Jesus de modo diferente da nossa atual concepção de história. Numa palavra, foram escritos dentro da estrutura teológica de cada evangelista para proclamar a fé em Jesus Cristo salvador de Deus e chamar-nos a seu seguimento. Daí a pergunta: fora do contexto da fé da Igreja Primitiva haverá alguns documentos que confirmem, pelo menos, alguns dados históricos da vida de Jesus? Certamente que sim. É dado inconcusso da historiografia profana que Jesus tenha realmente existido, morrido na cruz sob PÔNCIO PILATOS. Entretanto, vale insistir que nossa fé não se funda nesses documentos, mas na aceitação da pregação do testemunho da Igreja primitiva. E esta nos é possibilitada, em última análise, pela própria presença de Cristo glorificado que, com sua graça, nos atrai a si.
c) A historicidade profana.
Jesus nasce em pleno apogeu do Império Romano. Seus tentáculos alcançaram os extremos da Europa e chegaram aos rincões perdidos da Palestina. Na cultura romana, a história nutria duas preocupações fundamentais. Registrar a vida dos “varões ilustres” e oferecer às gerações futuras modelos de vida. A história era concebida como uma grande pedagoga, “mestra da vida”, na expressão de Cícero.
Que varão foi mais significativo para a história da humanidade que Jesus Cristo? Dividiu-a em duas grandes eras. Antes e depois de seu nascimento. Que vida mais maravilhosa para servir de exemplo para as gerações futuras?
No entanto, à historiografia romana passaram quase totalmente despercebidos o nascimento e a vida de Jesus nos territórios do Império. Em nenhum anal da história profana romana registra-se diretamente o nascimento de Jesus. Em vão se compulsa o elenco dos “varões ilustres” e se pergunta à história-pedagoga por Jesus Cristo. O silêncio das fontes judaicas sobre Jesus é ainda mais impressionante. Que o Império não se preocupe com uma colônia periférica, entende-se. Mas que os judeus não se refiram a Jesus, surpreende-nos. Acostumados a ler os evangelhos, teríamos a impressão de que a passagem de Jesus produziu gigantesco abalo no mundo judaico. E que os historiadores da época deveriam ter dado enorme espaço a esse personagem singular, posto fosse para rejeitá-lo.
d) A historicidade no mundo judaico.
O historiador judeu JOSÉ BEN MATHIAS, conhecido pelo nome de FLÁVIO JOSEFO, viveu na nossa era entre os anos 37/38 e 100, coincidindo com o período do início do movimento de Jesus. Deixou-nos duas grandes obras: Guerra dos judeus contra os romanos e Antigüidades judaicas.
Este historiador segue também o espírito da historiografia clássica, ao louvar a virtude, estigmatizar o vício e desde sua fé judaica louvar a Deus.
Em algumas de suas versões, essas obras de FLÁVIO JOSEFO mencionam a Jesus. A passagem mais explícita aparece na versão eslavônia da Guerra dos judeus contra os romanos. Contudo, há consenso hoje entre os historiadores de que foi a mão de um cristão que interpolou o trecho referente a Cristo. Por isso não vamos considerá-la.
As outras se encontram em As Antigüidades judaicas. Numa passagem, menos discutida, FLÁVIO JOSEFO refere-se à condenação de Tiago, irmão de Jesus, cognominado o Cristo. Não deixa de ser intrigante para nós que FLÁVIO JOSEFO somente fale de Jesus ao tratar diretamente do sumo sacerdote Ananias que condena à morte alguns inimigos seus, entre eles Tiago. Jesus entra duplamente de passagem. No centro, está o impiedoso saduceu Ananias no meio de uma trama política. Em segundo lugar entra Tiago, condenado ilegalmente. E finalmente e só indiretamente para especificar um nome muito comum, como Tiago (Jacó), ele menciona o irmão mais conhecido dele, isto é, Jesus.
Em outro texto, JOSEFO faz nova menção de Jesus. Chama-o de homem sábio e autor de feitos surpreendentes. Mestre que teve seguidores entre judeus e pessoas de origem grega. Pilatos condenou-o à morte de cruz à base de acusações de homens proeminentes. Mas Jesus continuou sendo amado e uma tribo de cristãos, cujo nome se deve a ele, não desapareceu. Esse núcleo parece remontar autenticamente a Josefo, embora o texto completo tenha interpolações de cristãos.
Essas passagens de FLÁVIO JOSEFO garantem-nos de uma fonte não cristã a existência de Jesus, algo de sua missão, da sua morte na cruz e do seguimento dos discípulos.
O testemunho de JOSEFO é tanto mais importante quanto na ampla e rica literatura religiosa judaica não se encontra nenhuma menção direta sobre Jesus. A descoberta dos documentos da seita de Qumran tinha aberto uma esperança de encontrar conexões com a tradição cristã. Mas nada. Eles não mencionam Jesus, embora ofereçam muitos elementos para conhecer o contexto da vida de Jesus.
As fontes rabínicas mais antigas não se ocupam do Jesus histórico. Textos mais tardios revelam antes reações diante do Cristo proclamado pelo cristianismo que do Jesus de Nazaré. Trata-se, portanto, de referência indireta. O máximo que esta literatura judaica pode oferecer é uma confirmação da existência de Jesus.
e) A historicidade no mundo pagão.
O historiador romano TÁCITO (56/57 a 118 d.C.) cobre a história de Roma entre os anos 14 e 68 em seus Anais. Em princípio tocaria os anos da vida pública e morte de Jesus. Mas infelizmente perderam-se partes da obra, deixando lacuna entre os anos 29 e 32, quando provavelmente Jesus teria morrido.
Ao falar do grande incêndio de Roma no tempo de NERO, menciona que o imperador escolhera os cristãos como bodes expiatórios para evitar a suspeita levantada pelo povo de que ele mesmo provocara o incêndio. E ao referir-se aos cristãos, chama-os um grupo odiado por seus crimes abomináveis. Faz o nome derivar de Cristo que, durante o reinado de TIBÉRIO, tinha sido executado pelo procurador PÔNCIO PILATOS. E esse movimento, que tinha sido sufocado, irrompeu novamente não só na Judéia, onde nascera, mas também em Roma. Cidade tolerante em relação às diversas práticas horrendas e infames de todas as partes do mundo.
É uma passagem considerada genuína pelos historiadores. A própria atitude hostil e difamante em relação aos cristãos abona sua autenticidade, já que não tem sentido de ser interpolação cristã. De novo, a alusão se faz diretamente por causa dos cristãos e não de Jesus mesmo. Mas mesmo assim dados históricos sobre ele, fixando-lhe a morte no tempo do imperador TIBÉRIO e do procônsul PÔNCIO PILATOS, confirmando a narração dos evangelhos.
Sem nenhuma novidade em relação ao testemunho de FLÁVIO JOSEFO, é, no entanto, outra fonte primitiva não-cristã da existência histórica de Jesus. Estabelece-lhe um marco geográfico e histórico. Cita diretamente sua morte. Constata a continuidade do movimento de Jesus, que ele imagina ter já sido desencadeado antes de sua morte.
Outros historiadores romanos como SUETÔNIO, PLÍNIO, o Jovem e LUCIANO também mencionam os cristãos. SUETÔNIO refere-se à expulsão de judeus de Roma por parte do imperador CLÁUDIO por causa de distúrbios que causavam por instigação de “CRESTO”, que certamente se tratava da pessoa de CRISTO. De novo, temos no centro da referência os cristãos e só indiretamente, Cristo. PLÍNIO, o Jovem, por sua vez, relata o modo de o imperador TRAJANO comportar-se com os cristãos. Ao falar dos cristãos, alude a suas práticas de entoar cânticos a “Cristo como a um deus”. E LUCIANO no relato ridicularizante da vida de um convertido ao cristianismo e depois apóstata, alude ao fato de cristãos cultuarem como a um deus alguém que foi crucificado na Palestina.
f) Evangelhos Apócrifos.
Tem-se escrito muito sobre eles. Certos dados curiosos sobre a história de Jesus, que se lançam na grande imprensa, não raro são hauridos desta fonte. Mas para nosso conhecimento de Jesus sua contribuição não é confiável, já que a própria Igreja primitiva não os aceitou por causa de sua forma exagerada e fantasiosa. E toda vez que uma literatura se entrega à imaginação, às vezes desvairada, em vez de ajudar o conhecimento da realidade, termina por deturpá-lo.
g) Sentido profundo do silêncio da história profana sobre Jesus. Esse quase total silêncio da história profana sobre Jesus tem duas facetas. A primeira, perigosa, deixa enorme espaço para fantasias. Assim, ultimamente revistas como Time, Veja, Galileu e outras têm publicado reportagens sobre Jesus Cristo. Lá se lê que Jesus foi à Índia e aprendeu muito da sabedoria oriental. Outros negam que tenha sido crucificado, mas apedrejado. Outros insistem em ter descoberto o corpo de Jesus. E assim somos surpreendidos pelas informações mais contraditórias.
A segunda faceta aborda um sentido muito mais profundo em todo o mistério de Jesus. Antes de tudo, nosso maior acesso a ele se faz realmente pela fé no caminho do seguimento. Jesus não é um objeto qualquer da história. Ele é o Senhor da história que se deixa entender à medida que nosso coração mergulha na sua vida de relação pessoal.
Da parte de Deus, há outra maravilha. Quer mostrar-nos que o caminho escolhido pelo Filho e por ele não é o do triunfo, da exibição, do impacto pelas grandezas mundanas, mas do escondimento do silêncio, da entrega, do amor. Um bom caminho para conhecer mais o mistério de Jesus Cristo é passar pelo escondimento até chegar à luz fulgurante da Ressurreição.

02. O nascimento e a infância de Jesus.

A originalidade histórica de Jesus manifesta-se já desde o seu nascimento. Em muitas situações humanas de guerra, de repressão militar, de desaparecimentos, de migração, sabemos do nascimento, mas ignoramos o fato da morte. É o caso de tantos migrantes nordestinos que partem para São Paulo deixando suas esposas, sem nunca mais darem notícias. Estarão vivos? Já morreram? Sabe-se que nasceram, mas não do seu destino último.
Com Jesus deu-se o contrário. O fato mais bem atestado de que não se tem nenhuma dúvida é o de sua morte na cruz sob o procurador romano Pôncio Pilatos.
Já, porém, sobre seu nascimento pairam incertezas quanto à data, ao lugar, às circunstâncias. Evidentemente, o fato não pode ser questionado, uma vez que só morre quem nasceu. O contrário até seria pensável. Nascer e não morrer. Esta é a lenda que nos conta a Escritura a respeito de Elias, que partiu para o céu num carro de fogo. Sobre Nossa Senhora há piedosa tradição de que teria dormido e sido levada aos céus pelos anjos, sem passar pela morte.
Na interpretação tradicional não se duvidava nem da data, nem do lugar, nem das circunstâncias do nascimento de Jesus. Qualquer criança do “catecismo” responderia que Jesus nasceu no dia 25 de dezembro do início da nossa era, numa gruta em Belém da Judéia, de Maria Virgem.

a) O marco maior de interpretação das narrações da infância.
Os evangelhos da infância na seqüência normal dos acontecimentos se iniciam no trajeto da vida humana de Jesus. As biografias começam por aí. Os escritores investigam os inícios de uma vida para ir conduzindo-a até a morte e suas influências posteriores. Numa perspectiva científica, tanto a infância quanto as demais narrativas da vida gozam da mesma garantia de autenticidade e historicidade.
De novo, no caso de Jesus temos uma inversão e outro traço de sua originalidade única. Tudo começa do fim. A primeira experiência que funda o início de toda a narrativa de Jesus resume-se nesta frase: “Jesus de Nazaré, o crucificado: ele ressuscitou” (Mc 16,6).
Depois, o interesse pela vida de Jesus se alarga para além da paixão do Ressuscitado, como aparece na escolha de Matias, substituto de Judas, no colégio dos Doze. Querem alguém que conviveu com Jesus e com os Apóstolos durante todo o tempo que o Senhor Jesus caminhou entre nós, “a começar pelo batismo de João até o dia em que ele nos foi arrebatado” (At 1,22). É o percurso que o evangelho de Marcos nos relata.
Mais tarde, a reflexão cristã sobre Jesus dá um salto gigantesco. Pergunta-se por sua última origem e ser. Paulo e João, numa retrospectiva da Salvação, ultrapassam o limite da historicidade de Jesus para projetar-se no mistério da preexistência (cf. Fl 2,6-11; Jo 1,1-18).
A vida pública de Jesus, terminada na morte e ressurreição, e a preexistência deixaram em descoberto, como se vê, os longos anos da infância e vida oculta de Cristo. Lc 1,1-4 revela-nos o interesse da comunidade de compor uma narração ordenada e aí inclui o evangelho da infância.
Como coroa do evangelho, estas narrações visam a mostrar que o Menino de Belém e o adolescente e jovem de Nazaré é o Salvador, porque desde o nascimento, como desde sempre, ele é o Deus vivo! Tais narrativas desvelam a identidade de Jesus à luz do evento pascal.
b) Aspectos literários.
Os estudos literários dos textos de Lucas e Mateus sobre o nascimento de Jesus foram revelando-nos facetas até então não percebidas. Um texto só pode ser entendido a partir do gênero literário em que foi escrito. Destarte, procurou-se esclarecer a natureza dos textos sobre a infância no mundo bíblico. Jesus não é o único personagem sobre o qual as escrituras do Primeiro e Segundo Testamento relatam fatos do início da vida. Aí estão Isaac, Jacó, Moisés, Sansão, Samuel, João Batista. Em geral, elas restringem-se à concepção, ao nascimento, à imposição do nome e à rápida alusão ao crescimento da criança. Raramente aludem a algum outro fato.
Os relatos da infância pertencem ao gênero de escritos narrativos MIDRASHIN HAGADÁ. Eles são tecidos com textos bíblicos (do Primeiro Testamento) que visam antes a ensinar que a contar como os eventos aconteceram de fato, embora se apóiem em alguns fatos históricos. Os evangelistas tinham conhecimento de midrashin hagadá em torno da pessoa de Moisés. E ninguém melhor do que ele, personagem central da história do povo escolhido, para oferecer elementos para confeccionar os evangelhos da infância de Jesus. Nestes textos sobre Moisés, fala-se de um sonho do faraó que antevê a futura missão da criança que vai nascer. Para evitar seu nascimento, ele decreta o massacre das crianças hebraicas, usando recurso imaginativo. Os soldados egípcios percorriam as ruas levando com eles uma criancinha egípcia que faziam gritar, de modo que os meninos israelitas ouvindo os gritos, também gritavam e assim podiam ser descobertos. O parto de Moisés foi tão sem dor que as parteiras egípcias não ficaram sabendo.
Evidentemente Mateus não copiou sem mais esses textos sobre Moisés. Eles nos ajudam a compreender a mentalidade com que se escrevia então. Podem-se literariamente perceber os contatos entre esta tradição haggádica e as narrativas evangélicas: os sonhos, o anúncio do anjo, o nome e a missão do Salvador, a presença dos magos, a estrela, as perseguições dos inocentes.
Há uma diferença entre o uso dos midrashin pelos judeus e pelos cristãos. Os judeus usavam os midrashin para entender melhor o texto bíblico sagrado; este era o ponto de referência. Os cristãos fizeram o contrário: no centro não está o texto bíblico, mas JESUS RESSUSCITADO, para cuja intelecção se usam os midrashin. O texto da Escritura serve à intelecção do mistério de Cristo, crucificado e ressuscitado.
c) Nome de Jesus.
Na tradição bíblica, a imposição do nome goza de enorme relevância. Além de servir para designar a pessoa, revela a vocação e missão que ela vai desenvolver. No caso de Jesus, o Primeiro Testamento atribui-lhe importância máxima, como uma antecipação de toda missão de Jesus.
Em Mateus, o anjo do Senhor aparece em sonho a José, explica-lhe a origem misteriosa do Filho de Maria, gerado pelo Espírito Santo, e dá-lhe a ordem de pôr-lhe o nome de Jesus, cujo significado é: ele salvará o seu povo dos seus pecados (cf. Mt 1,18-25). Em Lucas, anjo tem nome. É Gabriel, mensageiro de Deus. A comunicação do nome se faz à mãe. E associa-lhe a realeza do trono de Davi, reinando para sempre sobre a família de Jacó (cf. Lc 1,26-38).
Portanto, o nome de Jesus na leitura dos evangelistas liga-se à salvação e ao reinado definitivo na casa de Davi. Quanto à etimologia, Jesus corresponde à forma hebraica abreviada Yesua do nome do líder de Israel Yehosua – Josué –, sucessor de Moisés e que introduziu o povo na terra prometida. O nome no sentido mais exato significa: “Jeová ajuda, que Jeová ajude”, sendo depois popularmente interpretado “Jeová salva”.
A beleza simbólica do nome de Jesus vem do sentido teológico e da recordação histórica que evocava. No sentido teológico, Jesus revela a ação de “Javé que salva”. Na reminiscência (memória) histórica, Jesus é o novo Josué que introduz a humanidade, o novo povo de Deus, na terra prometida do Reino de Deus.
d) Aspectos históricos.
No que diz respeito à historicidade dos evangelhos da infância, até há pouco tempo, rivalizavam duas posições extremas. A posição tradicional se apoiava na seriedade dos evangelistas, na sua boa documentação. Lucas fala disso expressamente. Além do mais, há afinidades literárias entre Lucas e João. É sabido que João cuidou de Maria. Logo, Lucas terá ouvido de Maria aquilo que ela guardava em seu coração. Por que então duvidar da historicidade de tudo o que se narra nesses evangelhos? Para os problemas do recenseamento de Quirino e para a aparição da estrela, buscava-se provar a presença de Quirino na Síria no tempo de Herodes e apelava-se para os cálculos astronômicos para concluir-se que no ano 07 a.C., quando do nascimento de Jesus, houve uma conjunção de Júpiter e Saturno que explicaria a estrela dos magos.
No extremo oposto, estavam os racionalistas que negavam qualquer realidade transcendental, sobrenatural, reduzindo a mitos e lendas aquilo que se narrava sobre a concepção, nascimento e outros fatos concernentes à pessoa de Jesus.
A exegese foi cavando um caminho difícil entre os acontecimentos e as interpretações de cunho estritamente teológico, que os inseriam no universo religioso da comunidade. Acontecimento e interpretação não podem, porém, ser pensados como dois momentos separáveis, como duas realidades. Pois todo acontecimento se constitui acontecimento, ao ser integrado ao mundo de compreensão pela interpretação.
Os evangelhos da infância, no seu caráter tardio, escritos entre 75 e 85 d.C., refletem a mentalidade das comunidades cristãs desse último quartel do primeiro século. Permitem perceber uma série de dados históricos referentes à maneira de entender Cristo, os inícios da devoção Mariana, certas práticas litúrgicas, o tipo de interpretação dos textos bíblicos que se fazia.
Além disso, o fato de as narrações de Mateus e Lucas sobre a infância não concordarem entre si, em vez de criar problemas, traz enorme vantagem de obrigar-nos a descobrir uma fonte anterior naquilo em que elas convergem, reflexo do pensar das antigas comunidades cristãs.
A concordância dos textos em alguns pontos não revela sem mais o que realmente aconteceu. Pois não encontramos a “historicidade profana” da infância – algo impossível –, já que não há documentos para tal, mas algo fundamentalmente importante para nós: a fé comum das comunidades antigas. E isso serve para alimentar a nossa fé hoje em comunhão com a fé daquelas comunidades.
Entre alguns elementos comuns aos dois evangelhos, podem-se citar: Maria é uma virgem casada com José, filho de Davi; o anúncio do anjo sobre a vinda, nome e missão do menino, como Salvador e filho de Davi; Maria concebeu pela força do Espírito Santo antes de conviver com José; ela deu à luz Jesus, no tempo do rei Herodes; em Belém; isto provocou uma grande alegria; eles vão morar em Nazaré.
e) Aspectos teológicos.
As genealogias de Mateus e Lucas arrancam de pontos de vista teológicos diferentes. Mateus inscreve-a a partir de José e relaciona Jesus com a história de Israel. Jesus aparece como o ponto culminante da história. Mateus retém de Jesus a sua identidade judaica, sua pertença ao messianismo davídico. Jesus é o novo Moisés, que proclama a nova lei e conduz o povo de Deus definitivo.
Lucas, por sua vez, inicia-a em Adão, que é filho de Deus. Portanto, remonta à criação. Insere Jesus na história da humanidade.
Marca a identidade humana de Jesus. Faz dele um personagem envolvido com nossa história a ponto de ter entre seus ancestrais pecadores e pecadoras célebres. Da pureza criativa de Deus sai Adão, os pecadores se intercalam, para tudo terminar no nascimento do Filho verdadeiro de Deus. Jesus é o novo Adão. Os nomes, evidentemente, não pretendem elencar a escala dos ascendentes de Jesus até Adão. Hoje sabemos pelas ciências que entre os primeiros seres humanos e Jesus Cristo há um período de mais de um milhão e meio de anos. Os nomes alistados são simbólicos. Refletem, na história conhecida por Israel, a aventura da existência humana, no jogo de graça e pecado.
A perspectiva teológica de Mateus é apresentar Jesus como Messias davídico, daí a importância de José. Em Cristo, cumprem-se as profecias do Primeiro Testamento. Durante seu evangelho, várias vezes alude a tal cumprimento, citando a Escritura. No anúncio a José, Mateus frisa a filiação davídica de Jesus, ao chamar José de filho de Davi. Relaciona a concepção virginal com a realização da profecia de Isaías (cf. Is 7,14). A esperança de Israel não é o futuro rei Ezequias, filho de Acaz, a que se refere Isaías, mas Jesus, o filho de Maria, como plenitude do Primeiro Testamento. Lá foi um nascimento normal, aqui pela força do Espírito Santo. Lá foi uma esperança passageira, aqui a esperança definitiva.
Mateus seleciona os fatos da infância na perspectiva de mostrar a pessoa de Jesus no coração da história de Israel como realizador de todas as suas promessas, como no Davi, novo Moisés. Assim o nascimento em Belém, a perseguição de Herodes, a fuga para o Egito, o massacre dos inocentes revelam profunda sintonia com a história do povo de Israel que conheceu a perseguição do faraó, o massacre dos filhos egípcios, aqui, os dos judeus. Lá se foge do Egito, aqui se vai ao Egito, lá o povo é perseguido por estrangeiros, aqui Jesus, pelo seu próprio monarca.
No entanto, na passagem dos magos, Mateus abre os horizontes para além de Israel. Mesmo que alguns exegetas vejam também nessa cena alusão ao mago Balaão, vindo do Oriente, prestar homenagem a Israel (cf. Nm 23,7), o sentido profundo revela uma antecipação da missão universal de Cristo, que é reconhecido pelos pagãos, representados pelos magos. Mateus parte da própria vocação universal de Israel para reforçar a de Jesus.
Lucas assume uma perspectiva Mariana. José cede o lugar para Maria. No centro do anúncio do anjo estão duas mulheres: Maria e Izabel. Mas não por elas. Pelos filhos que vão ter: Jesus e João. A velha estéril, com o seu filho, encerra o Primeiro Testamento. A jovem, virgem, abre o Segundo Testamento. Ambas geram pela força de Deus, que faz uma estéril e uma virgem conceberem.
Ainda mais teologicamente falando, o ponto máximo do anúncio é glorificar a ação de Deus, Javé, que interpela, através da história, a humanidade, oferecendo-lhe a salvação. O profeta João Batista é o precursor. Jesus é o realizador. Estas duas crianças trazem a alegria da salvação ao mundo, preparando-a e realizando-a.
E toda essa maravilha dos evangelhos da infância termina no silêncio de Nazaré, onde Jesus durante trinta anos aprende a conviver conosco para romper, adulto, com o anúncio: “cumpriu-se o tempo, e o Reinado de Deus aproximou-se: convertei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1,15).

03. A família de Jesus.

A vida familiar diária é dura, afetivamente desgastante, apesar de seus momentos de enorme gozo e prazer. Reflete a ambivalência de nossa existência humana. A proximidade maior dos que amamos é, ao mesmo tempo, fonte de felicidade como de dor e sofrimento. Lá se vivem os maiores amores e os piores crimes. Jesus viveu em Nazaré as tensões próprias de uma vida de família.

3.1. Relação entre Jesus e José.

José aparece numa luz discreta. José Saramago romanceia-lhe a vida. Morre crucificado, vítima da perseguição romana quando da destruição de Séforis nos anos da adolescência de Jesus.
Sem perder-se em imaginações, os dados do evangelho permitem suspeitar que ele foi um migrante do Sul. Pois, quando do recenseamento, teve de ir inscrever-se em sua terra de origem, Belém da Judéia (cf. Lc 2,4-5).
A vida em Nazaré, região rural, supunha de todos um mínimo de trabalho no campo para a própria subsistência. Além do mais, José exerceu também o ofício de carpinteiro. E Jesus será introduzido em tal arte (cf. Mc 6,3).
As crianças e adolescentes sentem enorme necessidade de valer-se do nome de seu pai para impor-se, para ser reconhecidos. A sua primeira identidade lhes vem dos pais. Daí as idealizações, de um lado, e, de outro, a frustração, quando os pais não correspondem às qualidades sonhadas.
Só lentamente vão aceitando os próprios limites, começando com os dos próprios pais. Jesus não terá sido exceção nesse processo humano. Em termos de qualidades éticas, José foi um varão justo (cf. Mt 1,19). Jesus nunca precisou envergonhar-se dele pelo lado moral. Quantas crianças sofrem, e muito, porque seus pais voltam embriagados para casa, espancam suas mães! Outras os vêem acusados de crimes ou trancafiados em presídios.
Passam a vida em conflito, a fugir interiormente do próprio pai e a buscar reconciliação e perdão com ele. Jesus pôde na sua dupla consciência de filho alimentar seu inconsciente e seu ego com a figura maravilhosa do Pai do céu e do pai da terra. Sem isto, nunca nos teria deixado a oração do Pai-nosso (cf. Lc 11,2-4; Mt 6,9-13), nem a parábola do Pai Misericordioso (cf. Lc 15,11-32), nem um retrato delicado do Pai que veste os lírios do campo, que cuida dos pássaros do céu (cf. Mt 6,26-29).
O menino Jesus, porém, conviveu com crianças com outros critérios de grandeza. Ostentavam imagens de pais poderosos, uns proprietários de glebas rurais, outros fazendo parte da hierarquia religiosa e política da época. Jesus olhava para José e não podia gabar-se de nada. Talvez lá longe houvesse alguma gota de sangue real, da estirpe davídica (cf. Lc 2,5), mas agora não passava de pobre carpinteiro desconhecido. De seu outro Pai, não podia falar nada. Era o mistério dos mistérios. Só o silêncio do arcano e a dor da pobreza sobravam-lhe no cotidiano com os colegas de infância.
Jesus escolheu José, na sua pobreza e simplicidade, como pai da terra, em vez de ter nascido na Grécia da inteligência, na Roma do poder, na Jerusalém do templo, onde teria sido acompanhado por um pai terrestre mestre grego, ou patrício romano, ou sumo sacerdote judeu.
Este é o mistério de José, “varão justo e prudente”, que velou e zelou pelo Menino Deus. Ajudou na sua simplicidade e humildade de títulos e grandezas da terra a povoar o inconsciente de Jesus elementos com que traduzirá na sua pregação o mistério da preferência de Deus Pai pelos mais pobres e marginalizados da terra.

3.2. Relação entre Jesus e Maria, sua mãe.

A piedade popular idealiza Maria. Estabelece gigantesca confusão entre a sublimidade espiritual do mistério de Maria e as glórias de grandezas terrenas. Ela deixa de ser a donzela simples de Nazaré para vestir-se dos mantos reais mais maravilhosos e coroar-se de diademas de fazer inveja à famílias reais de ontem e de hoje.
Lucas, por sua vez, pinta-nos imagem mais matizada da vida de Nazaré. Apresenta um “Jesus que progredia em sabedoria e estatura, em graça diante de deus e dos homens” (Lc 2,52), que era submisso aos pais (cf. Lc 2,51), mas também que desconcertou seus pais, sobretudo Maria, no templo, deixando-os sem compreender (cf. Lc 2,50). Maria precisou ruminar em seu coração as palavras livres de Jesus (cf. Lc 2,51) à busca de luz e compreensão.
A relação filho-mãe não só tem sido objeto de poesias e romantismos, mas também vem sendo estudada pela Psicologia do Profundo a uma luz muito diferente. Salienta-se sua dupla valência, positiva quando estabelecem relações sadias e, às vezes, catastroficamente negativa quando a mãe assume ou uma posição de super-mãe protetora ou não responde às demandas afetivas da criança.
O equilíbrio dessa relação torna-se decisivo para a futura estrutura psíquica da criança. Maria terá também exercido influência sobre Jesus. Viviam num ambiente religioso rural. Aí terá predominado intensa presença da mãe como educadora, como mediadora das regras e costumes cultural-religiosos.
Jesus na idade adulta vai mostrar-se extremamente livre diante dessas regras e conveniências que lhe terão passado nos primeiros anos de vida.

3.3. Relação de Jesus com seus irmãos.

Os evangelhos falam dos irmãos de Jesus. O dogma da virgindade perpétua de Maria exclui qualquer possibilidade de que Jesus tenha tido irmãos pelo lado de Maria. Também nada leva a crer que José tenha tido filhos antes de casar-se com Maria. Portanto, não são irmãos de Jesus no sentido próprio do termo, mas pessoas ligadas a ele por outro parentesco.
A exegese permite os dois sentidos de irmãos. Com efeito, na Escritura, “irmão” significa ora irmão mesmo, ora algum parente próximo (cf. Gn 29,21: versão da LXXJosé Saramago descreve a infância de Jesus povoada de irmãos.
Nada impede encontrar uma solução intermédia plausível. Nas culturas tradicionais, ocorrem com certa freqüência a morte prematura dos pais e a adoção dos órfãos por parentes próximos. É possível que os “irmãos” de Jesus tenham de fato vivido com ele na infância sob o mesmo teto. Maria e José poderiam muito bem ter adotado primos em sua casa. E assim o menino Jesus viveu a experiência humana de conviver com irmãos e irmãs de diferentes idades na sua infância.
Esta proximidade valeu depois a esses irmãos de Jesus um privilégio na Igreja primitiva, tal como Tiago (cf. Gl 1,19). Um simples título de primo talvez não fosse suficiente para tanto prestígio.
É profundamente confortador ver Jesus crescendo ao lado de outros irmãos. Experiência tão humana, importante na construção do caráter, do espírito de partilha, da consciência da sociabilidade, não teria faltado a Jesus. A solidão dos filhos únicos é antes um fruto da modernidade mais recente, enquanto as sociedades tradicionais, e sobretudo a judaica, prezavam muito a família numerosa. Os irmãos aprendem desde cedo a compartilhar entre si espaços da casa, objetos comuns e até pessoais. E a pregação de Jesus vai refletir muito dessa experiência profunda de partilha e despreendimento.

3.4. Jesus e a Escola.

Jesus foi um verdadeiro mestre de enorme sabedoria. Possuía arte maravilhosa dos discursos, dos ditos, das pregações, das histórias, das discussões. Disto não se tem nenhuma dúvida histórica. Pela fé, sabemos, é claro, a última fonte de tão maravilhosa sabedoria. Mas qual terá sido sua formação escolar?
Pessoalmente não escreveu coisa alguma. Nem por isso se deduz que não soubesse ler nem escrever. Passagens do evangelho aludem a Jesus lendo (cf. Lc 4,16-30), escrevendo no chão (cf. Jo 8,6) ou surpreendendo os ouvintes por saber letras sem ter freqüentado as grandes escolas rabínicas da época (cf. Jo 7,15). Apesar dos reparos dos exegetas a respeito destas passagens, é mais provável que Jesus tenha sabido ler e escrever.
Embora no tempo de Jesus a organização e difusão das escolas não fosse o que será mais tarde, no entanto ele terá tido acesso a um tipo de escola em Nazaré, que poderia ter sido a própria sinagoga. Ou, pelo menos, deve ter aprendido do pai ou de algum adulto letrado. Mais dificilmente da mãe. As mulheres, em geral, não tinham acesso ao aprendizado da escritura e leitura. Parece certo, sim, que Jesus não terá freqüentado nenhuma escola de educação superior, regalia das famílias abastadas. Ele era pobre. Daí a surpresa de seus conterrâneos a respeito de seu saber (cf. Mc 6,1).
Jesus extremou-se na arte de pregar. Em que língua teria feito suas pregações? Viveu num universo plurilingüístico. O aramaico era, sem dúvida, a língua mais falada, sobretudo no mundo camponês da Galiléia. Terá sido a sua língua com sotaque do Norte e nela terá normalmente pregado. Alguns discípulos seus, oriundos da mesma região, serão reconhecidos em Jerusalém pela pronúncia (cf. Mt 26,73).
Depois do exílio da Babilônia (499 a.C.), houve queda no uso popular da língua hebraica. O povo falava a língua aramaica e textos da Escritura foram influenciados por ela (Esdras e Daniel, p. ex.). Apesar disto, o hebraico era cultivado por causa da leitura da Tora. Jesus provavelmente terá tido o suficiente domínio desta língua para as leituras bíblicas e até mesmo para discussões com os fariseus e doutores da lei.
Quanto ao grego, Jesus terá adquirido alguns conhecimentos impostos pelo convívio comercial, pelas idas a Jerusalém, pelo defrontar-se com inscrições em grego nas lápides mortuárias até mesmo nos lugares sagrados do templo e das sinagogas. Em Jerusalém e em cidades helenizadas da Palestina era forte a influência da cultura grega e muitos se expressavam em tal língua. Entre os discípulos de Jesus, figuram alguns nomes gregos como ANDRÉ e FELIPE. Terão tido eles alguma formação helenística?
O latim também feriu, pelo menos, os olhos de Jesus. Os dominadores romanos faziam, com enorme desprezo pelos colonizados, suas inscrições em latim. Ninguém pode isentar Jesus da curiosidade normal de ter perguntado pelo sentido delas. Sem nunca ter aprendido tal idioma, certamente terá aprendido algumas palavras isoladas ou te-las-á ouvido de algum soldado romano. A inscrição de sua morte foi redigida nas três línguas: hebraico, grego e latim (cf. Jo 19,20). Dado revelador do mundo plurilingüístico de Jesus e do sentido universal da sua morte, quanto ao mundo da religião (hebraico), da cultura profana (grego) e do poder político-militar (latim).
Jesus, profundamente religioso, conhecia as leis, as tradições, as orações, os comentários da Torá. Mostrou grande familiaridade com esse universo desde criança graças à família, à freqüência da sinagoga e eventualmente da escola.
Aprendeu os hábitos religiosos da oração, do jejum, da esmola, que constituíam a tríade ética de Israel. Essa formação humana permitiu que Jesus pudesse exprimir a si mesmo sua consciência e vocação profunda de Filho de Deus. Estava então preparado para iniciar sua missão!

3.5. Infância e os medos de Jesus.

Jesus adulto teve enorme medo da morte, como atestam, de modo indubitável, os evangelhos. No horto sentiu tristeza mortal, angústia (cf. Mt 37ss), pavor, tédio (cf. Mc 14,33s), agonia e suor de sangue (cf. Lc 22,43).
Mas nada se fala dos medos da infância de Jesus. No entanto, ele, como toda criança, terá sido assaltado por muitos medos. Os contos de fadas estão aí para falar-nos de lobo mau, de bruxas, de pessoas maldosas e assustadoras que as crianças identificam, ao ouvi-los, com os medos que as assaltam.
São os medos da perda, da ausência dos pais. Não sabemos quando Jesus fez a experiência da perda de José. Tudo leva a crer que tenha sido no período de Nazaré, pelo estranho silêncio sobre ele durante a vida pública. Há também os medos dos animais, das tempestades, da escuridão, então muito mais tenebrosa sem as iluminações de hoje.
As crianças captam desde cedo as inseguranças dos pais. A família de Jesus viveu momentos de enorme insegurança. A viagem a Belém nas condições delicadas de Maria grávida, a fuga para o Egito, a volta sob o governo de ARQUELAU na Judéia. É claro, os exegetas consideram estes fatos um MIDRASH, isto é, narrações cujo fundamento pode ser histórico, mas que visam a ensinar uma doutrina. Portanto, não há garantia da sua historicidade factual, mas somente oferecem uma base para reflexão de cunho teológico.
No entanto, a base histórica, e é isto que nos interessa, mostra-nos, sim, uma realidade política ameaçadora, sobretudo para os camponeses pobres. Daí a insegurança da família de Nazaré e os seus medos.
O HERODES do nascimento de Jesus (37-34 a.C.) foi homem violento. Posto que tenha conseguido com sua subserviência a Roma uma certa tranqüilidade, assumiu, contudo, em relação a seu povo atitudes repressoras. Nascer sob o poder de um tirano-capacho não oferecia nenhuma segurança. Seu sucessor, ARQUELAU, será ainda mais violento. Não hesita em massacrar três mil pessoas na praça do templo no dia de sua posse.
É verdade que Jesus vai viver em outra província. Mas as rebeliões se estendiam por todo o território da Palestina. A capital da Galiléia, SÉFORIS, situada a oito quilômetros de Nazaré, é violentamente arrasada pelos romanos e sua população está escravizada. Jesus era adolescente naquela época e dificilmente não terá sabido do fato. É muito provável que tenha tido colegas, conhecidos, filhos de pessoas que foram perseguidas e mortas pelos romanos, especialmente se faziam parte dos zelotas. Quem viveu em tempos de guerra e repressão entende muito bem a circulação de rumores de desaparecidos, torturados e assassinados. ERA O CLIMA DA INFÂNCIA DE JESUS.
Entre os discípulos de Jesus contavam-se zelotas, como SIMÃO, talvez, segundo alguns exegetas, JUDAS ISCARIOTES, PEDRO e JOÃO. Eles estavam por toda a parte. E por toda a parte andava a repressão romana a seu encalço.
Os evangelhos aludem ao morticínio dos “galileus cujo sangue PILATOSmisturava ao dos seus sacrifícios” (Lc 13,1). A violência política atingirá seu clímax no ano 70 com a destruição do templo e da cidade.
Há outros medos. Medo de si mesmo, de sua vocação, de sua originalidade. Medo religioso. Medo da pobreza. Jesus enfrentou todos esses medos. Mas, sem dúvida, no mais profundo de sua consciência de filho e educado numa atmosfera religiosa de respeito e confiança, terá trabalhado positivamente tais medos.
Na idade adulta, não temerá enfrentar a morte, assumindo a subida para Jerusalém, apesar da relutância dos apóstolos. E quando o medo o assaltou no HORTO DAS OLIVEIRAS, venceu-o caminhando corajosamente ao encontro de seus inimigos. Só uma infância bem vivida, uma adolescência em que rompeu com as exterioridades da infância em busca da própria verdade e liberdade permitiu que Jesus adulto realizasse a missão de MESSIAS com destemor, liberdade e sem medo.

04. Jesus pronto para a vida missionária.

A preparação foi longa. Trinta anos na forja de Nazaré. O aço já está bem temperado. Jesus sai de casa deixando atrás de si a mãe e os familiares. É o corte com a família, com o estilo de vida passado. Deixa de ser camponês e artesão de Nazaré. Faz-se missionário andarilho.

a) O Batismo: rito inicial.
Marcos e Mateus narram claramente o batismo administrado por João. Lucas omite o gesto do Batista. O evangelho de João deixa o fato na penumbra, com mera alusão ao descer do Espírito. Apesar disto, a narração de um fato tão embaraçador deve basear-se em algo acontecido. Não passaria pela cabeça de ninguém criar um MIDRASH que antes dificulta que ajuda a teologia de Jesus Senhor, desenvolvida pela primeira comunidade. Os evangelistas reduzem o incômodo fato a seu mínimo real.
A Comunidade Primitiva se sente meio desconfortada em abordar o batismo de Jesus tendo em vista a experiência do Cristo Ressuscitado. Este desconforto vinha tanto da natureza do batismo como da dependência à pessoa de João Batista. O batismo era um sinal de penitência e de conversão dos pecados diante do dramático apelo escatológico de João. Deste modo, Jesus ao enfileirar-se entre os pecadores, não estaria, também, confessando pecador e desejoso de escapar da cólera de Deus? Não estaria, também, se vinculando ao discipulado de João? Que escândalo para a fé no Senhor da Comunidade!
Diante desse duplo escândalo, os evangelistas – teologicamente – trabalham o texto de modos diferentes.
Mateus descarta, logo de início, qualquer possibilidade de inferioridade de Jesus em relação a João. Logo que Jesus se aproximou com a intenção de fazer-se batizar, João afirma categoricamente a inversão da situação. Ele que deve ser batizado por Cristo.
Lucas resolve o problema, relatando o batismo de Jesus depois da prisão de João, tirando-o de cena.
João evangelista vai mais longe. Omite totalmente o batismo. E afirma fortemente a superioridade absoluta de Jesus sobre João, desde o prólogo. João não era a luz, mas simples testemunha da luz. Esta é o Verbo feito carne, Jesus Cristo (cf. Jo 1,9-14).
Posto desta forma, os evangelistas eliminam o problema da inferioridade de Cristo em relação ao Batista. Ficava ainda a questão do fato mesmo do batismo. Os três relatam uma teofania que oferece o sentido teológico do batismo. Três sinais marcam a cena. Os céus se rasgam, uma voz do céu ecoa o Espírito desce em forma de pomba.
Israel vivera longa experiência sem profetas. Os céus pareciam fechados. Alastrava, deste modo, uma literatura sapiencial e apocalíptica em lugar da profecia. A falta de profeta era vista como prova e castigo de Deus (cf. Sl 74,9).
A vinda de João Batista, profeta, já foi maravilhoso sinal de esperança. Mas o interesse do evangelista é mostrar o significado original e superior de Jesus. O rasgar-se dos céus indica a inauguração de uma “nova era”. O mundo dos homens pode comunicar-se com o mundo de Deus, não por meio da pretensão de construir uma torre até os céus, mas pela disposição de os céus descerem até os homens.
O sinal mais significativo, porém, é a voz do céu. Só pode ser de Javé, o Senhor Deus de Israel. Ele pronuncia o versículo 7 do Salmo 2, muito conhecido dos judeus, referente à entronização do rei Davi em Jerusalém. É um salmo de realeza, com perspectiva messiânica, aplicado diretamente a Jesus. Marcos e Mateus ainda acrescentam ao substantivo “filho” o adjetivo “predileto”. Quem sabe uma longínqua alusão a Isaac, o filho predileto de Abraão (cf. Gn 22), numa antevisão do Jesus a caminho da morte?!
Um paradoxo do batismo de Jesus atravessa toda a sua vida: o jogo de humilhação e de glória. Enquanto os sinóticos carregam as tintas na humilhação, o Quarto Evangelho destaca a glória. Na verdade trata-se de uma completude e não de uma contradição dos textos sagrados, já que Jesus é – ao mesmo tempo – o esvaziamento do Divino e a sublimidade do Humano.
b) O teste das tentações.
Jesus foi verdadeiramente tentado na sua vida terrestre a afastar-se do cumprimento de sua missão. Em vários momentos, os evangelhos mostram-nos Jesus colocado em situação em que é provocado a seguir um caminho diferente. O diferente veste-se de ambigüidade para Jesus: ora expressa o Projeto do Pai, ora é real tentação. Aquele que começara livremente a pregar à multidões – diante da recusa de tantos de ouvi-lo, da crescente oposição ferrenha de seus inimigos, do claro plano de mata-lo – passa a dedicar-se ao círculo restrito de seus discípulos. O anúncio do Reino vai se transformando lentamente na preparação da Igreja. Ele estava convicto de restringir-se à pregação e às ações simbólicas do Reino dirigidas unicamente ao povo de Israel. Mas uma mulher Cananéia – duplamente diferente – mulher e pagã, provoca Jesus. Jesus lê este gesto de fé da mulher como sinal de Deus e faz o milagre, mudando sua posição anterior (cf. Mt 15,21-28). A realidade – sacramento da vontade de Deus – vai modificando as atitudes de Jesus. Com relação a Pedro – o discípulo que havia escolhido para chefiar o grupo dos Doze – Jesus identifica a presença da tentação (cf. Mt 16,23): Pedro tenta dissuadir Jesus da Páscoa.
Inúmeras outras vezes, fariseus e outros adversários aproximam-se de Jesus para tentá-lo, colocando-o à prova a respeito da Lei e dos Princípios Morais do Judaísmo. O autor da epístola aos Hebreus resume teologicamente essa dimensão (tentações) da vida de Jesus. Ele é este “sumo sacerdote eminente que atravessou os céus, Jesus, o Filho de Deus”, capaz de compadecer-se de nossas fraquezas porque “foi provado em tudo, sem todavia pecar” (cf. Hb 4,14-15).
Os sinóticos adotaram uma teologia narrativa. Criaram três situações de tentação que traduzem muito bem três propostas messiânicas, presentes na expectativa do povo, mas que entravam em frontal confronto com a perspectiva de Jesus. Moisés dera ao povo o maná no deserto durante anos. O Messias deveria fazer algo ainda maior nesse campo dos bens materiais. Povo pobre, necessitado. O poder dos milagres de Jesus podia transforma-lo num Messias que arrastaria as multidões atrás de si na busca do pão material. Ali estava o verdadeiro demônio a tentar Jesus transformar pedras em pão. Jesus mesmo sente essa solicitação: “Eu vos digo, não é porque vistes sinais que me procurais, mas porque comestes pães à saciedade” (Jo 6,26). Ele promete um pão que dura para a vida eterna. Antes de tudo, sua palavra. Mais tarde, na Ceia, ficará claro o sentido mais profundo do pão de seu corpo. Aí está a tentação a rondar toda a vida de Jesus. Diante da tentação da Glória, a resposta de Jesus é a Páscoa: “Sabendo Jesus que a sua hora tinha chegado, a hora de passar deste mundo para o Pai” (Jo 13,1), “ele, que amara os seus que estavam no mundo, amou-os até o extremo”.
Não poderia ser algo mais glorioso caminhar para a morte na lucidez do amor! A tentação de Jesus consistirá em querer a glória antes do momento da entrega total de amor e sem passar por ela. Antecipação frustrante do mistério pascal. A revelação do esplendor eterno de Jesus não se fará em nenhum Tabor terrestre, mas aos olhos dos que crêem no mistério da morte e Ressurreição.
A tentação do poder: a mais feroz e mais descarada. É o poder na sua face de domínio. Jesus viu-se confrontado com o poder. Diante de Herodes, calou-se. Não se impôs, não advogou sua causa, não quis jogar e brincar com a supersticiosa visão de Herodes, que o julgava o Batista redivivo. Diante de Pilatos, Jesus mostrou o significado profundo de seu poder: não se origina da raiz dominadora das forças do mal, mas de Deus, fonte de amor e liberdade. Poder é serviço, é liberdade, é entrega de si.

05. A pregação do Reino por Jesus.

Depois que João é encarcerado, Jesus inicia sua vida missionária: “Completou-se o tempo. Chegou o Reino de Deus. Convertei-vos e crede no evangelho”.

a) A expectativa do Reino e sua realização.
O Reino de Deus enchia o horizonte do povo de Israel. Encontrava repercussões profundas nas pessoas. Carregado de experiências passadas, significativo para o presente, anunciava sonhos utópicos e escatológicos para o futuro.
O Reino é o poder de Deus em ação; é atividade concreta de Deus, como rei, como soberano último e definitivo de todo o criado e da história.
Jesus proclama em alto e bom som que o Reino está próximo, que já chegou. Os olhos das pessoas brilham ao toque mágico desta palavra. A novidade desse Reino, anunciado por Jesus, manifesta-se de muitas maneiras.
b) As bem-aventuranças do Sermão da Montanha. Fazendo paralelo com Moisés, Mateus descreve as semelhanças e a indiscutível superioridade de Jesus sobre Moisés desde o nascimento. Lá no Egito, as mães judias, sob o jugo do Faraó, tinham obrigação de matar todo filho varão. Moisés é colocado pela mãe nas águas e uma das filhas do Faraó o salva. Em Belém da Judéia, é o iníquo Herodes que decreta a morte de todos os meninos recém-nascidos e a intervenção do anjo salva o Menino Jesus. Quando adulto Moisés trazia escrito numa pedra o decálogo dado por Deus. Não era criação sua. Era simples intermediário. Já Jesus, o Novo Moisés, com sua própria autoridade, cercado de seus discípulos, proclama as bem-aventuranças. Ambos se encontram numa MONTANHA: lugar da intimidade com Deus; lugar da tentação; lá Jesus rezava e apareceu glorioso na Transfiguração.
Lucas cria outro cenário. Na véspera, Jesus se retira à montanha para rezar. Dois acontecimentos o esperam. A escolha dos doze e o sermão das bem-aventuranças. Na montanha escolhe os discípulos e depois, como um grande Mestre, desce, cercado deles, até a planície, onde um grupo maior de discípulos e grande massa de povo se lhe ajuntam. Eis o cenário para o sermão da planície! Os seus horizontes intermináveis simbolizam a universalidade do significado do sermão.
c) A versão de São Lucas.
Em vez de oito como em Mateus, Lucas apresenta quatro. No centro estão os POBRES, os FAMINTOS, os que CHORAM, os PERSEGUIDOS. Em oposição às bem-aventuranças estão as mal-aventuranças, as lamentações no sentido de compaixão e de admoestação, nunca, porém de maldição. Lucas entende os pobres, os famintos, os que choram no sentido bem concreto e material, sem espiritualizações. O seu discurso é feito na segunda pessoa.
Aqui está a concepção do “monarca oriental” que é defensor e justiceiro do pobre; faz-lhe justiça unicamente porque é pobre e ele, rei, generoso. Os ricos sabem e podem defender-se.
d) A versão de São Mateus.
São oito bem-aventuranças. Revelam o olhar de Deus sobre os humanos. Olhar escatológico que manifesta uma atitude atual de Deus e um juízo definitivo que vai para além da história humana.
Como já foi dito acima, Mateus amplia as bem-aventuranças a partir dos ditos de Jesus. Seguindo não o discurso interpelador de Lucas, Mateus coloca as bem-aventuranças na terceira pessoa, a modo de sentenças sapienciais, que brotam do coração do Novo Moisés, Mestre dos mestres: Jesus.
As bem-aventuranças giram, com diferentes nomes, em torno do REINO DE DEUS. Refere-se às pessoas mais abertas interiormente à ação de Deus na história, quer porque Deus se dispõe mais a favorecê-las, quer porque, de sua sorte, elas oferecem mais disposição.
Bem-aventurados os pobres em espírito ou pelo espírito ou de coração! No mais profundo de si (espírito), são pessoas pobres, que, mesmo não tendo as mãos mais limpas, as têm mais vazias. Por isso, são mais receptivas aos dons de Deus. Aí aparece o mais profundo da teologia da graça.
Para ser amados por Deus, não precisamos fazer nada. Não se conquista o amor de Deus. Vem-nos gratuitamente. O que muito tem dificilmente se coloca na posição de gratuidade. Prefere barganhar, comercializar com Deus. Aposta e acredita em suas obras, em seus bens. O pobre nada tem, não pode confiar em si. Mais facilmente confia no outro. Nesse mesmo espírito, Jesus, em outro lugar, dirá que o REINO é das crianças (cf. Mt 18,1-5;19,13-15). Pobres e crianças comungam na mesma atitude básica de dependência radical do dom de Deus com o qual unicamente contam.
Bem-aventurados os mansos! Mansidão e doçura no trato com os pecadores, com os inimigos. Os momentos de cólera e irritação representam exceção de um comportamento predominantemente manso. A doçura é uma “coragem sem violência, uma força sem dureza, um amor sem cólera... É uma paz sempre desprovida de ódio, de dureza, de insensibilidade”. Só a doçura pode “dominar a violência, a cólera, a agressividade”. Esta doçura, mansidão, possuirá a Terra, o Reino, o lugar da felicidade humana, aqui e para além.
Bem-aventurados os que choram e serão consolados! Estes aceitam a sua pequenez, seus limites e suas dores. Não são super-heróis, que tantos filmes constroem e com isso destroem no fundo do coração da juventude a bem-aventurança das lágrimas. Jesus não se poupou esta experiência maravilhosa de chorar junto ao túmulo de Lázaro (cf. Jo 11,35). As lágrimas estão perto dos olhos, mas ativadas pelo coração, pelo desejo, pelo sentimento, pela humanidade que existe em nós.
Bem-aventurados os que têm sede e fome de justiça! Fome e sede refletem desejo intenso. O desejo é a fonte do bem e do mal. É a alma tanto virtude quanto do vício. Por isso, a bem-aventurança especifica a orientação do desejo. E de justiça. Este termo soa-nos hoje bem diferente do tempo de Jesus. Justo era o observante da Lei. Estamos no contexto da nova Lei, portanto da Vida Cristã. Justo é, por conseguinte, o fiel às práticas da vida cristã. A Justiça Social, naturalmente, é uma delas mas não a única.
Bem-aventurados os misericordiosos! A misericórdia na perspectiva do Segundo Testamento relaciona-se com o perdão oferecido a quem nos ofendeu, e recebido de Deus, a quem ofendemos. Lc 15 retrata o coração misericordioso de Deus, simbolizado no pai e a pequenez de nosso coração na figura do irmão mais velho. Perdoar é desejar que o outro que me ofendeu viva e não morra. O desejo não inclui a justificativa e o esquecimento do erro cometido pelo outro, mas antes favorece que ele se converta e assim se reabilite. Não guarda ódio, nem ressentimento, mas oferece nova chance de amor e de vida. Supõe confiar no que a pessoa tem de positivo, de força de regeneração.
Bem-aventurados os puros de coração! São as pessoas sinceras, honestas, leais, transparentes, que evitam os caminhos tortuosos da mentira, do fingimento, da duplicidade, da ambigüidade, da falsidade. O seu sim é SIM, seu não é NÃO (cf. Mt 5,37; Tg 5,12).
Bem-aventurados os construtores da paz! Mateus dirige-se, primeiramente, à vida interna da comunidade; num segundo momento, pensa na relação dos perseguidores e perseguidos e, finalmente, amplia o sentido para toda tarefa pacificadora. A paz é dom e esforço de todos os homens e mulheres. Não é, simplesmente, ausência da “guerra”. Contudo, o círculo da guerra só se suprime na sua radicalidade: um NÃO absoluto à guerra. Dizendo não à guerra, diremos sim à promoção e defesa da vida, alicerçada na Justiça e na Misericórdia.
Bem-aventurados os perseguidos por causa do Reino! Retrato da vida de Jesus e de seus seguidores. É a mais exigente das bem-aventuranças.

As bem-aventuranças têm um lado autobiográfico de Jesus. São traços privilegiados de sua pessoa e vida. Cada uma delas pode ser entendida como descrição do seu agir. Precisamente o caráter cristológico lhes dá o significado último. Os cristãos, ao viverem as atitudes apontadas nas bem-aventuranças, estão, ao mesmo tempo, seguindo a Jesus. Há vinculação profunda entre o seguimento de Cristo e a vivência das bem-aventuranças.

06. Jesus e os Grupos Sociais de seu tempo.

No centro da pregação de Jesus estava o Reino. Anunciou-o em palavras e gestos. As bem-aventuranças foram uma revelação da câmara oculta do coração do filme dos sonhos de Jesus e de sua própria vida.

a) Jesus e os Fariseus, Escribas e Doutores da Lei.
O grupo religioso dos fariseus dedicava-se seriamente ao estudo da Lei Mosaica e das Tradições Orais dos antepassados, a que davam enorme autoridade. Defendia a observância rigorosa de uma interpretação estrita, sobretudo do sábado, da pureza ritual e dos dízimos. Os fariseus originaram-se dos , grupo mencionado em Macabeus. Tanto os termos hassideu como fariseu conotam a idéia de “separados”, i.é., afastados da raia miúda. Além disso, constituíam-se em juízes severos daqueles que não podiam observar a lei ou não o queriam. Apesar dessa distância e do caráter de leigo, gozavam de autoridade junto ao povo por causa do conhecimento da lei que possuíam. Os escribas também eram entendidos nas coisas da Lei. Chamados doutores da Lei ou legisperitos (cf. Lc 5,17; Mt 22,35); recebiam o título honorífico de rabi, mestre, senhor, professor. No judaísmo moderno, fala-se de RABINO. Constituíram verdadeiro poder de guia espiritual do povo em Israel, paralelo ao poder sacerdotal. O silêncio do PROFETISMO permitiu que eles crescessem em importância e assumissem a função de intérpretes oficiais da Escritura.
b) Jesus e os Herodianos.
O projeto herodiano do Reino muito se distancia do de Jesus. Eram os cortesãos de Herodes Antipas, tetrarca da Galiléia e Peréia (4 aC.-39 dC.). Homem sanguinário e frívolo que manda decapitar João Batista para satisfazer o capricho ciumento de Salomé (cf. Mt 14,1-12). Sem o seu apoio o processo contra Jesus não poderia ter sido levado a cabo.
Os herodianos não aparecem no evangelho a não ser simplesmente conspirando a morte de Jesus juntamente com os fariseus (cf. Mc 3,6). É o poder na sua face mais degradante. A única proposta que poderiam fazer a Jesus era de livrá-lo da morte à custa de um gesto cortesão. Jesus, diante de tanta futilidade, simplesmente calou-se, merecendo em troca as galhofas de Herodes e de toda a sua corte (cf. Lc 23,11).
c) Jesus e os Saduceus e os Sacerdotes.
Os saduceus, oriundos da aristocracia sacerdotal, presidiam a liturgia do templo. Apesar de terem divergências teológicas com os fariseus, compartilhavam com eles uma posição conservadora e fundamentalista da Lei. Rejeitavam qualquer inovação. Nesse sentido eram mais conservadores que os fariseus, restringindo-se à Lei, e rejeitando as tradições dos antepassados, certas interpretações tradicionais e a evolução da Lei. Por outro lado, adotavam uma atitude mais livre e mundana tanto diante da cultura helenística como da dominação romana. Eram oportunistas e colaboracionistas com o poder romano.
Homens ligados à ordem política do “arranjo” rejeitavam, por isso, qualquer messianismo como perturbador da ordem. Exerciam influência no sinédrio, detinham muito poder no judaísmo no tempo de Jesus. Nesta época, os sumos sacerdotes saíam do seu meio ou estavam ligados com eles. Foi o sumo sacerdote saduceu http://pt.wikipedia.org/wiki/Caif%C3%A1sCaifás que condenou Jesus à morte.
Com muito mais razão Jesus afastou-se dos saduceus. Além do rigorismo literalista da lei e ritualismo, valiam-se do poder religioso, político e econômico para imporem-se. Jesus assumiu uma posição diametralmente oposta de despojamento e liberdade diante do poder.
O projeto do Reino dos saduceus e sacerdotes girava em torno do culto no templo. Lugar de oração, mas também do poder econômico. Jesus, pelo contrário, diz à samaritana: “Vem a hora, e é agora, na qual os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade...” (Jo 4,23)
d) Jesus e os Essênios.
Um movimento que era uma espécie de “vida monacal religiosa” com tendências ascéticas. Havia um rigor exacerbado com relação à Lei. Davam enorme importância aos ritos de purificação a fim de viverem como “os puros”. Nesse espírito de pureza, opunham-se ao sacerdócio oficial, considerado, por eles, como decadente.
Exerciam forte influência sobre o povo pelo seu poder espiritual. Pensavam-se como “filhos da Luz” em oposição aos “filhos das Trevas”. Afastavam-se do convívio das pessoas comuns e fechavam-se em comunidades religiosas em vida de pobreza e celibato. Este isolamento (segregação) possuía sentido simbólico e escatológico: revelava que os membros da comunidade eram puros e, ao mesmo tempo, anunciava o grande combate final com a vitória dos filhos da luz e a aniquilação definitiva do mal com a restauração do mundo.
Resistiam ao processo de helenização, de mundanização e de colaboração com os romanos. Mais tarde os romanos destruirão o mosteiro essênio de Qumran na guerra contra a Palestina.
Jesus também defendeu a iminência do Reino (cf. Mc 1,15); defendeu uma conversão profunda para entrar no Reino de Deus, comparada – inclusive – com o nascer de novo (cf. Jo 3,3).
Contudo, Jesus afastou-se anos-luz dos essênios. Deus é Pai e não vingador. É misericórdia, perdão e não castigo. A luz e as trevas estão misturadas, como o trigo e o joio. Das trevas nasce a luz e vai vencendo-as ao longo do tempo. A vitória sobre o mal se faz pelo amor, pela graça, e não pela destruição dos pecadores. O pecador é convidado à conversão e não rejeitado. A presença salvífica de Deus está em todas as partes. O Verbo plantou sua tenda entre nós. Não se refugiou em nenhum rincão privilegiado. Jesus está no meio dos pecadores, pobres, doentes, bem misturado com o povo.
e) Jesus e os Zelotas.
No zelo pela autonomia do povo judeu e do território de Israel, os zelotas envolviam-se em ações violentas e armadas contra o poder romano; concebiam o Reino como dominação terrena e política de Javé. Foi a tentação de Jesus na montanha. “Tudo isso te darei, se, prostando-te, me adorares” (cf. Mt 4,9). Jesus não pensa e nem vivencia o Reino como domínio. Para ele o Reino é serviço. “O Filho do Homem veio, não para ser servido, mas para servir” (cf. Mc 10,45). Os zelotas defendiam um nacionalismo estrito; a proposta de Jesus, exceto no início de sua missão (cf. Mt 15,24), é universalista.
f) Jesus e o movimento do Batista.
Jesus reconheceu o valor e santidade de João Batista. Teceu-lhe elogios. Chamou-o de mais que profeta, o mensageiro precursor, o maior entre os nascidos de mulher (cf. Mt 11,9-11). Contudo, a concepção de Reino distancia Jesus de João Batista. A veemência e rudeza profética de João cedeu lugar à misericórdia paciente de Jesus.
Jesus entrou no movimento de João Batista e o levou à plenitude, fazendo-o desaparecer. O movimento do Batista foi “preparação”. Chegando à festa, a preparação cede o lugar para a alegria e gozo dos convivas (cf. Jo 3,29).

07. A pedagogia de Jesus.

a) Homem piedoso e cheio de fé: sua relação com Deus Pai.
Jesus era filho de uma família tradicional e religiosa. José e Maria praticavam a religião nas suas prescrições fundamentais: jejuavam, rezavam, davam esmolas, freqüentavam a sinagoga e iam ao templo. Jesus aprendeu tudo isso em casa. E conservou esses hábitos ao longo de sua vida.
Quanto ao jejum, a atitude de Jesus é paradoxal. Por uma parte, os evangelhos iniciam a vida pública de Jesus com longo jejum no deserto (cf. Mt 4,2). Jejum, aqui, é uma atitude de piedade. Por outra parte, os judeus perceberam a diferença entre os discípulos de Jesus e os de João Batista. Interpelam-nos por que não jejuavam. Jesus os dispensa dessa obrigação no momento de convivência íntima com o Mestre, mas anuncia momentos difíceis para depois de sua morte (cf. Mc 18-22). A palavra jejum, neste contexto, possui o sentido de renúncia e sofrimentos.
Por ter uma vida sóbria, Jesus não precisava fazer jejuns protocolares. Era como raposa sem toca, pássaro sem ninho, passageiro sem pedra para reclinar a cabeça (cf. Mt 8,20). Portanto, praticava mais que o jejum. Muitos exibiam o fato de jejuar, enquanto Jesus preferia a aparência limpa e perfumada, velando os sacrifícios no interior do coração (cf. Mt 6,16-18).
Quanto à oração, os evangelhos fizeram questão frisar. Jesus rezava (cf. Lc 3,21; 5,16). Esta insistência revela uma surpresa admirável dos discípulos de verem Jesus rezando, não pelo fato em si, mas pelo modo, momento e lugar de suas orações.
Os evangelhos mencionam à noite: Jesus passou a noite a rezar (cf. Lc 6,12). Lucas insiste nas longas orações de Jesus antes de grandes decisões. Na noite da escolha dos apóstolos, Jesus teria passado nome por nome, pessoa por pessoa (cf. Lc 6,12). Lá estava Judas entre aqueles por quem rezou. É terrível constatar que até a oração de Jesus não é onipotente à revelia da liberdade humana.
Deus encolheu-se no seu poder com a criação e sobretudo com a do ser humano livre. Ele não se impõe nem a pedido do Filho. Deus se oferece como dom, graça e solicitação. Dito de maneira humana e imperfeita, mas com verdade. Deus parece fraco diante da arrogância do ser humano que não lhe acolhe o dom. Não muda uma realidade que não queremos mudar. Pois, basta conferir. Jesus rezou na Última Ceia para que nós fôssemos UM como ele o Pai o são (cf. Jo 17,21); que aconteceu? Guerras de religião, ódio entre cristãos...
Jesus rezou antes do Sermão da Montanha (cf. Lc 6,12); Jesus rezou antes de ensinar-nos o Pai-Nosso (cf. Lc 11,1); rezou antes das tentações. A sua impecabilidade não era mágica, mas fruto de sua luta contínua, de sua entrega sem limite, de sua confiança no Pai, de suas orações. Ele vai dizer aos apóstolos: “rezai para não cairdes em poder da tentação” (cf. Lc 22,40).
Jesus rezou durante a sua agonia (cf. Mc 14,35): Deus era o seu alimento (cf. Jo 6,34), sua companhia, sua vida.
b) Celibatário comprometido: a causa maior.
Jesus vive uma vida singular: jovem, não se casa. As diferentes fontes do Segundo Testamento convergem para o fato de Jesus ter permanecido, misteriosamente, celibatário. Evidentemente não foi por nenhuma razão de desprezo pela obra de seu pai que pensou na prolongação da vida humana por meio da relação sexual entre homem e mulher. Jesus conhecia o mais profundo do mistério de Deus. Ele só poderia admirar essa sabedoria. O amor conjugal envolve o início de cada vida humana. Este é o plano de Deus.
Entretanto, ele marcou uma dupla exceção. Sua concepção foi diferente. Sua vida celibatária afasta-se na liberdade desse projeto divino. Só pode ser para manifestar uma dimensão dessa mesma realidade e não sua negação. O celibato de Jesus foi seu matrimônio com toda a humanidade. Desposou-a numa fidelidade até a morte. Não se trata de nenhuma universalidade abstrata, mas muito concreta. Cada ser humano, homem e mulher, foi amado por ele com amor apaixonado, como o esposo ama a sua esposa.
c) Homem simples do cotidiano: pequenos prazeres, amizades e sofrimentos.
O cotidiano de Jesus transcorria em pregações, viagens, visitas, conversas, contato com as pessoas, freqüência à sinagoga, subida ao templo nas grandes festas, orações em particular. Num tempo e país machista e patriarcal, a figura de Jesus de um relacionamento livre e amigo com as mulheres causou profundo impacto (cf. Lc 8,1-3). Elas, de sua parte, acompanhando-o com ajudas durante a sua vida de missionário itinerante e na hora trágica da subida ao calvário, morte e sepultamento. Isso só se torna inteligível se a relação de Jesus foi realmente de extraordinária densidade humana e desprovida de preconceitos. No trato com as crianças manifesta outro toque original do seu comportamento (cf. Mc 9,36). Se depois de dois mil anos de caminhada humanizante, ainda vemos no Brasil, país considerado como tolerante, afável e comunicativo, tratamentos violentos contra as crianças até seu extermínio, imaginemos o que deveria ser em tempos antigos. Os evangelhos tocam neste problema ao mostrar a atitude hostil dos apóstolos, enxotando as crianças de Jesus (cf. Lc 18,15). Contudo, os evangelhos fazem questão de mostrar Jesus acolhendo, acariciando e abençoando as crianças (cf. Mc 10,16).
E o tratamento com os pecadores, os pobres e os desprezados deste mundo? Excesso sublime de bondade e acolhimento humano. Em Jesus, o excesso de humanidade não era nenhum contraponto à divindade. Antes sua manifestação. “Tão humano assim só pode ser Deus mesmo” (Leonardo Boff).

2ª. Parte – A Morte e Ressurreição de Jesus.


08. A significação política e teológica da morte de Jesus3.

A morte de Jesus na cruz faz parte de nossa profissão de fé: “padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado”. Para compreender melhor a morte de Jesus vamos analisar os motivos históricos da condenação de Jesus – o “por que matam Jesus?” – e buscar a compreensão dos motivos teológicos – o “por que Jesus morre” – presentes nos textos sagrados.

8.1. Por que matam Jesus?
A morte de Jesus na cruz é o fato mais bem atestado de todo o Segundo Testamento por Tácito, Flávio Josefo, Plínio, o moço, Suetônio. Sua morte é baseada numa acusação política (cf. Lc 23,2-5; Mt 26,63; At 10,34-43), fruto de tensões econômicas, sociais, políticas e religiosas da época (cf. Mc 2,1-3,6). A partir deste fato é possível notar os seguintes pontos significativos: a) Jesus é condenado por Pôncio Pilatos como zelota; b) o caráter judiciário da época não permitia a declaração da sentença de morte pelos judeus (cf. Jo 18,31); c) a morte de Jesus é experimentada como um escândalo a ser superado (cf. 1Cor 1,17-31); d) a Ressurreição dá sentido à morte (cf. At 2,36; Jo 20,30-31).
O próprio contexto da época indica os motivos da condenação. Aspectos importantes deste contexto: a) a liberdade cerceada na Palestina dependente do I século; b) os movimentos populares de resistência (defesa das tradições e da cultura; preocupação social – eliminação do tributo a Roma [cf. Mc 12,13-17; Lc 23,2-5]; destruição das grandes propriedades; decretação da libertação dos escravos e do ano do Jubileu [cf. Lc 4,16-19; Mc 1,4-20]); c) significação essencialmente política de toda e qualquer pretensão messiânica: crime de lesa-majestade (cf. At 5,34-39; Mt 26,61; Mc 14,58; Jo 2,19; cf. Jr 7-8). A questão do titulus que revela os motivos da condenação (cf. Mc15,26; Mt 27,37; Lc 23,38; Jo 19,19); d) o processo que levou Jesus à morte deve ser entendido dentro de um contexto de dependência e dominação: o jurídico é normalmente visto a partir do poder e do prestígio dos dominantes. É algo legal, mas ilegítimo. Neste contexto:
Jesus é visto como profeta e como um líder popular, na continuidade dos profetas: Jeremias, Amós e outros.
Jesus suscita esperanças messiânico-apocalípticas e atrai seguidores: sua prática representa um desafio (cf. Jo 11,43-52) e um perigo para a estabilidade social.
A vida de Jesus é coerente sem se desviar do caminho (cf. Mc 8,22-11,8; Lc 9,51), mesmo sabendo que isto o levaria ao enfrentamento com as autoridades judaicas e romanas.
Não tendo o poder de condenar (cf. Jo 18,31), pois a sentença de morte era reservada a Roma, os judeus são forçados a apelar a Pilatos. Embora julguem Jesus digno de morte (cf. Jo 19,7) pelo fato de ser blasfemo (cf. Mt 26,61; Mc 14,58), os sacerdotes forçam a condenação alegando motivos políticos (cf. Lc 23,2-5; Jo 19, 12b). Esta declaração é a negação da messianidade do povo de Israel! Declaram-se súditos de Roma opressora e decretam a morte de Jesus, caindo na idolatria.
A rejeição da prática e do projeto de Jesus demonstra a não aceitação do Anúncio do Reino.

Motivos que influenciaram os relatos da Paixão.
É sabido que os textos evangélicos são frutos da vivência das comunidades que procuram relançar o QUERIGMA: centro de toda a tradição evangélica. Portanto, estão enraizados nas tradições das primeiras comunidades. Estes textos são fruto da experiência pascal e neles a atmosfera pascal desempenha um papel preponderante, descobrindo a vitória onde só se encontrariam fracasso e escândalo (cf. 1 Cor 1,17-31). Papel especial, para se compreender a morte de Jesus, têm os relatos da paixão com vários motivos aí inseridos. Eis alguns:

01. Dogmático.
Os evangelistas procuram mostrar que a paixão e morte de Jesus são a realização da vontade de Deus. São paixão e morte do Messias. Nos relatos da paixão há uma dupla insistência: procura esconder o caráter trágico do evento (cf. os ultrajes dos soldados romanos: Mt 27,27-30; Mc 15,16-20; Lc 23,11.36; o grito na cruz: Mt 27,46; Mc 15,34; Lc 23,46; Jo 19,30) e, por outro lado, explicita o caráter divino de Jesus. Este caráter divino é manifestado em: a) profissões de fé: Mc 14,61; 15,32; 14,21.41; Mt 26,2; 27,17.22.40.43.53; Lc 22,61; 23,47; Jo 13,13-14.16; b) na presciência de Jesus e seu poder: Mt 26,2-5.53; Jo 18,4-9; Mt 26,20-25; Jo 13,21-30; Lc 22,32; Jo 18,19; c) na entrega livre de Jesus: Mt 26,53; Jo 18,11; Mt 26,26-29; Mc 14,22-25; Lc 22,15-20.

02. Biográfico.
Este motivo procura ressaltar traços da vida de Jesus, mostrando seu enraizamento histórico (cf. Mt 26,1-5; 26,6-13.14-16; 26,48-51).

03. Cúltico e Catequético.
Motivos ligados à vida de oração e do culto, com clara dimensão catequética: Mc 15,1.25.33; Mt 26,26-29; Mc 14,22-25; Lc 22,15-20; 1 Cor 11,23-25.

04. Parenético.
A paixão e morte de Jesus são apresentadas como modelo de sofrimento e morte (Jesus é a testemunha fiel), aceito como realização da vontade de Deus. A partir da morte de Jesus, aplica-se sua forma de enfrentamento a outros personagens: cf. Estevão (At 6,11-15; 7,55-56.59-60); negação de Pedro (Mt 26,69-75, indicando a necessidade de arrependimento, pois se até Pedro pode negar, como não será a situação dos outros); oração de Jesus (Mt 26,36-46, mostrando a importância da oração nos momentos de maior enfrentamento); anúncio da traição (Mt 26,22-25, onde todo seguidor de Jesus deverá se colocar na mesma situação de Judas); cena da crucificação (Mt 27,39-42; Lc 23,39, mostrando a atitude a ser desprezada e evitada e Mc 15,39-40; Lc 23,40-48, indicando atitude a seguir).

05. Apologético.
Fazendo uso das Escrituras como referencial de sua fé e de sua tradição, as comunidades procuram ultrapassar as dificuldades advindas da morte de Jesus, o Messias, na cruz:
Anúncio da traição de Judas: Mc 14,17-21 (Sl 41,10).
Pagamento da traição: Mt 26,15 (Ex 21,32; Gn 37,28).
Fuga dos discípulos: Mt 26,31-35 (Zc 13,7).
Tentativa de desculpar os romanos e culpabilizar os judeus ao mostrar que a incredulidade dos judeus já estava no plano de Deus.A crucificação é apresentada como o resultado final da incredulidade (Mt 23,32.37; Lc 13,33-34). Esta linha apologética chega até a mostrar Pilatos declarando Jesus inocente (cf. Lc 23,4.14.23; Jo 18,38; 19,4.6, embora acabe condenando-o à morte). Também em Lc 23,25-26 e Jo 19,16-17, são os judeus e não os romanos que conduzem Jesus para ser crucificado. Entretanto, há outro corrente, retomando a história, onde se mostra os ultrajes dos soldados romanos (Lc 22,63-65), as atitudes diversificadas das autoridades do povo (Lc 23,35) e a participação dos romanos na prisão de Jesus (Jo 18,3.12).
Os dirigentes judeus confessam sua responsabilidade na morte de Jesus: (Mt 27,25), escolhem Barrabás (Lc 23,25) e declaram César o único rei (Jo 18,39-40; 19,15), negando a messianidade do povo.

8.2. Por que Jesus morre?
A ressurreição coloca Jesus definitivamente na história e mostra que Deus estava com ele (cf. At 10,34-43). A ressurreição recupera a fé no Senhor e mostra a elevação do Justo e sua Entronização no Reino e na Glória. As interpretações a partir da experiência pascal procuram ultrapassar o fracasso da cruz e devem, pois, ser entendidas a partir da fé das comunidades. Segundo L. BOFF estas interpretações contidas nos Evangelhos constituem o resultado final de todo um processo de reflexão da comunidade primitiva sobre o escândalo da sexta-feira santa. A morte vergonhosa de Jesus na cruz (cf. Gl 3,13), que no tempo significava sinal evidente do abandono de Deus e da falsidade do profeta, fora para os primeiros discípulos um grande problema. À luz da ressurreição e da releitura e meditação da Escritura do Primeiro Testamento (cf. Lc 24,13-25), começaram a fazer inteligível aquilo que antes era absurdo.
Não há dúvida de que a morte de Jesus causou uma grande ruptura na comunidade que vivia ao seu redor (cf. 1Cor 1,17-31), embora não se tenha dados documentais que comprovem esta questão. Esta ruptura pode ser sentida através de vários textos dos Evangelhos e que traduzem esta decepção frente à morte de Jesus: a) a fuga dos discípulos (Mc 14,50); b) decepção dos discípulos de Emaús (Lc 24,21); c) medo dos judeus (Jo 20,19).
A ressurreição fez com que os discípulos se constituíssem novamente como grupo, como comunidade e conseguissem superar o fosso cavado pela morte. Entretanto, esta superação se fez através de muita reflexão e fazendo uso das Escrituras. Esta reflexão procurava conciliar a morte de Jesus na cruz, com a ressurreição, vista como sua glorificação e exaltação. Este foi o trabalho das primeiras comunidades: superar o paradoxo entre a morte-maldição de Jesus (Dt 21,23; Gl 3,13) e sua glorificação-ressurreição.
Basicamente, em resumo, existem duas categorias de interpretações sobre o significado teológico da morte de Jesus: a partir da experiência pascal e na tradição teológica.

A-) Interpretações a partir da Experiência Pascal.
A morte de Jesus vista como morte de um profeta: As primeiras comunidades interpretam a morte de Jesus na linha da tradição do martírio dos profetas. Sua morte está diretamente articulada com a morte dos profetas. Um primeiro passo foi considerar a cruz como o destino de um profeta (1 Ts 2,14s; Rm 11,3), explicação que os evangelhos retomarão (Mt 23,37; Mc 12,2s) explicitando a fonte Q que se trata da rejeição de Israel aos profetas (Lc 11,49-50; Mt 23,34s), e acrescentando todos os sinóticos que o profeta rejeitado retornará para julgar seus verdugos (Lc 12,8-9; Mt 10,32-33; Mc 8,38). Ao mesmo tempo, por estarem sendo perseguidas, as comunidades se compreendem no seguimento de Jesus.
A morte de Jesus como morte do Messias crucificado: Esta interpretação, fazendo recorrência ao Primeiro Testamento, procura mostrar que a morte de Jesus se insere dentro da ambigüidade da história e que Deus nunca abandonou seu Filho. Diante da grande expectativa de um Messias glorioso e triunfador, era difícil compreender sua morte na cruz. Como afirma L. BOFF: “Numa dimensão mais profunda, Deus não o abandonou. Estava com ele no sofrimento e na morte; não o abandonou, permaneceu com ele na morte, de tal forma que a ressurreição mostrou a presença de Deus nele. A ressurreição revela o escondido: o que era escandaloso para os outros se iluminou pela ressurreição. As profecias da morte e da ressurreição querem deixar isso bem claro. Começou-se ver tudo a partir de Deus: a atuação de Jesus, sua atividade missionária, sua morte e ressurreição. Deus estava agindo salvificamente em Jesus, no seu caminho, não exclusivamente na morte, mas em tudo o que lhe aconteceu, fez, falou e viveu. Em tudo, mesmo na morte”.
A morte de Jesus como expiação e sacrifício: Há muitos textos do Segundo Testamento que apontam para o sentido da morte de Jesus como expiação dos pecados e do sacrifício para a salvação do gênero humano. Esta interpretação acabou também influenciando os relatos da Ceia (cf. Mc 14,22-25; Mt 26,26-29; Jo 6,51-58; 1 Cor 11,23-26).
A morte de Jesus como ato de solidariedade: Há muitos textos no Segundo Testamento que apontam na direção da morte de Jesus como um ato de solidariedade e criador de solidariedade. Sua morte, livre e solidária, é apontada como dom de si (Jo 3,16; 12,49-50); dom de amor (Jo 10,11.15; 15,13); dom gratuito (1 Jo 3,16). Como acontecimento gerador de solidariedade, a morte de Jesus, a partir desta interpretação, exige o seguimento. Ela nos liberta da Lei e mostra que estamos livres para amar. Liberta-nos da falsa imagem de Deus e do terror paralisante e libertando-nos do político, torna-nos co-responsáveis pela implantação da Justiça no mundo. É neste sentido que se pode compreender a entrega do Espírito que indica a possibilidade de refazermos o caminho de Jesus.

B-) Interpretações na Tradição Teológica.
Teologia na mentalidade grega: A Teologia que se deixa levar pela mentalidade grega acaba concentrando na encarnação todo o peso da salvação, da redenção e da libertação. Para esta mentalidade não interessa tanto o homem concreto Jesus de Nazaré, seu caminho pessoal, o conflito que provocou, mas sim a humanidade universal que ele representa. Esta tradição faz abstração do histórico em Jesus de Nazaré. A encarnação é entendida estaticamente, como o primeiro momento da concepção virginal de Jesus, Deus-Homem.
Teologia na mentalidade romana ético-jurídica: Esta mentalidade, de caráter mais jurídico, considera como ponto central da redenção a paixão e morte de Jesus. Para o pensar romano o mundo é imperfeito não tanto pelo fato ontológico da criação, mas pela presença do pecado e da liberdade abusada do homem. Este ofendeu a Deus e à reta ordem da natureza. Deve reparar o mal causado. Daí ser necessário o mérito, o sacrifício, a conversão e reconciliação. Somente então a ordem antiga será restabelecida e vigorará a tranqüilidade da ordem. Deus vem ao encontro do homem: envia seu próprio Filho para que de forma substitutiva repare com sua morte a ofensa infinita perpetrada pelo homem. Cristo veio para morrer e reparar. A encarnação e a vida de Jesus só possuem valor enquanto preparam e antecipam sua morte. O protagonista não é tanto Deus, mas o homem Jesus que, com sua ação, repara o mal causado. Não se trata de introduzir algo de novo, com a divinização, mas para restaurar a primitiva ordem justa.
Teologia na mentalidade da libertação latino-americana: Nesta mentalidade começa-se a pensar a salvação, redenção e libertação a partir de toda a vida de Jesus. Toda sua vida é libertadora; tudo em Jesus é salvífico e libertador; toda a sua vida é um caminho de solidariedade: nascimento, prática, paixão, morte e ressurreição. Nesse caminho histórico do judeu Jesus de Nazaré ocorreu a máxima comunicação de Deus e máxima revelação da abertura do homem. Esse ponto alto alcançado pela história humana é irreversível e escatológico: representa o termo de chegada do processo humano em direção a Deus. Deu-se a unidade, sem perda de identidade de nenhuma das partes, entre Deus e o homem. Esse ponto ômega significa a máxima hominização e também a plenitude da salvação e da libertação do homem.

Articulação das imagens para exprimir a ação salvadora.
Expiação-sacrifício: Esta imagem é retirada da experiência ritual e cúltica dos sacrifícios do Templo. Com a encarnação de Jesus, Filho de Deus, criou-se a possibilidade de um sacrifício perfeito. Esta imagem aponta para o limite da representação que é a figura de Deus Pai exigindo a morte de seu Filho. E por outro lado, mostra seu valor, na medida em que a vida humana tem uma estrutura sacrificial.
Redenção-resgate-libertação: Esta imagem está ligada ao modo de produção escravocrata. Libertar é alforriar , pagar um resgate, para que a pessoa possa retomar a liberdade. O limite desta representação é tomar a redenção como um drama que se passa entre Deus e o demônio. A pessoa se torna mero expectador. Seu valor reside no fato de que necessitamos, continuamente, ser salvos, pois a libertação acontece no terreno de uma captividade profunda em que se encontra a humanidade.
Satisfação representativa: Esta imagem traduz a visão jurídica do direito romano e tem sua raiz em Tertuliano, Agostinho e Anselmo. Traduz a necessidade irrevogável da encarnação para que a satisfação frente ao pecado possa se realizar. Seu limite está no fato de beber do modo de produção feudal, onde Deus é apresentado como um Senhor Feudal absoluto que quer cobrar a dívida a qualquer custo. Seu valor reside no fato da pessoa ser sempre um ser não-satisfeito.

09. Teologia da Ressurreição.
A ressurreição está no coração do cristianismo. É possível fazer Cristologia por causa da fé pascal, que possibilitou o seguimento de Jesus no Espírito. Esta é a condição indispensável de toda e qualquer Teologia. Nossa fé depende da fé dos primeiros seguidores e seguidoras de Jesus, homens e mulheres que, aceitando sua proposta, acreditaram na sua presença em seu meio. É o encontro com o Ressuscitado que fundamenta a fé dos discípulos e discípulas. Os relatos das aparições são produzidos a partir da fé pascal e não para provar a fé. Estamos diante da atmosfera cultual, procurando mostrar a fé da comunidade que acredita que o crucificado é o ressuscitado. O túmulo vazio ou aberto não fundamenta a ressurreição de Jesus mas, antes, indica o modo do encontro com o ressuscitado, que se deixa encontrar na vida.
Os relatos das aparições fazem parte de um gênero literário próprio. Eles buscam passar o querigma da comunidade. Não são relatos de tipo histórico, mas procuram mostrar a nova forma de presença do ressuscitado. Há nos relatos uma continuidade e uma descontinuidade, revelando que estamos diante de um mistério que somente será captado pela fé. Somente quem tem fé é que pode ver o ressuscitado (cf. 1 Jo 1,1-4).
A ressurreição ratifica o caminho histórico de Jesus e manifesta a aceitação por Deus Pai da sua vida, sua prática e sua morte (Jo 8,14; 14,6). A ressurreição confirma que a morte não tem a última palavra sobre a vida de Jesus. Esta certeza de que Jesus venceu a morte abre a possibilidade de se proclamar o seu senhorio e seu reinado sobre toda a história sobre todo o universo. A ressurreição aponta que toda a humanidade tem um horizonte definido, caminhando para a perspectiva da plenitude onde Deus será tudo em todos (1 Cor 15,24-28). Assumindo a causa do oprimido e aproximando-se dos deserdados e excluídos, o crucificado que é o ressuscitado torna-se a esperança dos que esperam contra toda esperança.

O Evento Bíblico da Ressurreição.
  • O túmulo vazio (Mc 16,1-8; Mt 28,1-8; Lc 24,1-8; Jo 20,1-10) - Estamos diante de textos que são escritos a partir da fé e não para provar a fé. A perspectiva dominante é cultual. Não se está preocupado em provar nada, mas sim mostrar a fé da comunidade que venera o sepulcro vazio de Jesus. SOBRINO prefere o termo sepulcro aberto. O Segundo Testamento nunca fundamenta a ressurreição de Jesus no fato de que o sepulcro estivesse vazio, mas sim, no encontro com o ressurreto. O Catecismo da Igreja Católica no nº 640 diz: “No conjunto dos acontecimentos da Páscoa, o primeiro elemento com que se depara é o sepulcro vazio. Ele não constitui em si uma prova direta. A ausência do corpo de Cristo no túmulo poderia explicar-se de outra forma. Apesar disso, o sepulcro constitui para todos um sinal essencial”.
  • O testemunho das mulheres (Mt 28,1-8; Mc 16,1-8; Lc 24,1-12; Jo 20,1-2.11-18), dos apóstolos (Jo 20,3-10.19-20), dos guardas (Mt 27,62-66;28,4) - Estes relatos mostram a relação da ressurreição de Jesus com sua história. Além de indicar o papel da mulher e dos discípulos na vida de Jesus, manifestam que a páscoa está em relação direta com a vida de Jesus e quem experimenta a experiência pascal são aquelas e aqueles que o seguiram em vida. Segundo SCHILLEBEEKX: “o caminho de vida de Jesus é, com efeito, em si mesmo práxis do reino de Deus e antecipação histórica da ressurreição, e sua morte é parte integrante deste caminho de sua vida”.
    Depois da morte de Jesus, os discípulos se dispersam (cf. Mc 14,27): fogem e têm medo. Estão mais mortos que o próprio Jesus. Afinal, morreu neles a esperança. A experiência da ressurreição aconteceu primeiro para as mulheres e depois aos homens (cf. Mt 28,9-10; Mc 16,9; Lc 24,4-11.23; Jo 20,13-16). Estes textos retratam que a “esperança venceu o medo”. Eles mesmos ressuscitaram.
    A ressurreição de Jesus é a confirmação de que, para Deus, a última palavra não é a morte. Jesus, que sempre defendeu a vida, foi morto pelos poderes deste mundo, mas Deus o ressuscitou. Vida vivida como Jesus viveu, em obediência ao Pai e a serviço do povo, é vida vitoriosa. Deus a ressuscita. Esta é a mensagem central do Evangelho em torno do qual surgiram as comunidades.

    Em resumo, pode-se afirmar que crer na ressurreição é:
    Voltar para Jerusalém, de noite, reunir a comunidade e partilhar as experiências, sem medo dos judeus e dos romanos (cf. Lc 24,33-35).
    Receber a força do Espírito Santo, abrir as portas e anunciar a Boa Nova à multidão (cf. At 2,4).
    Ter coragem de dizer: “É preciso obedecer antes a Deus que aos homens” (At 5,29).
    Reconhecer o erro e voltar para a casa do Pai (cf. Lc 15,32).
    Sentir a mão de Jesus ressuscitado que, nas horas difíceis, nos diz: “Não tenha medo! Eu sou o Primeiro e o Último. Sou o Vivente. Estive morto, mas eis que estou vivo para sempre. Tenho as chaves da morte e da morada dos mortos” (cf. Ap 1,17s).

    Questões para pensar e trocar idéias.

    01. A morte de Jesus não foi da vontade de Deus Pai. A morte de Jesus foi a conseqüência de sua vida – plena adesão ao Reino.
    02. “De tão humano assim, só poderia ser divino” (F. Pessoa e L. Boff). Refletir sobre a verdade de fé que diz: Jesus é verdadeiramente humano e verdadeiramente divino.
    03. Como falar da Cruz como “penhor de salvação” sem se cair em fatalismo ou masoquismo religioso?
    04. A morte de Jesus foi vista pelos dirigentes “piedosos” como um sacrifício necessário, exigido pela Lei. Hoje, o Mercado continua exigindo sacrifícios através da morte de crianças de rua, sem terra, sem teto, índios, afirmando a necessidade de se purificar a cidade. O que há em comum nestas mortes?
    05. O que dizer do filme “Paixão” de M. Gibson. Você o recomenda a seus amigos? Porquê?
    06. O que dizer de Maria, a mãe de Jesus?


    A Ressurreição de Jesus4.
    Até hoje a ressurreição acontece. Ela nos faz experimentar a presença de Jesus na comunidade, no cotidiano e nos leva a cantar: “quem nos separará, quem vai nos separar, do amor de Cristo, quem nos separará? Se ele é por nós, quem será, quem será contra nós? Quem vai nos separar do amor de Cristo, quem será?” (cf. Rm 8,23). Nada, ninguém, autoridade alguma é capaz de neutralizar o impulso criador da Ressurreição (Rm 8,38-39). A experiência da Ressurreição ilumina a cruz e a transforma em sinal de vida (cf. Lc 24,25-27). Abre os olhos para entendermos o significado das Sagradas Escrituras (cf. Lc 24,44-48) e ajuda a entendermos as palavras e os gestos do próprio Jesus (cf. Jo 2,21-22; 5,39;14,26).
    Com a força que vem da fé na ressurreição, as comunidades enfrentam hoje a ameaça do caos e da morte e contribuem para que o mundo seja um lugar favorável à vida. Uma comunidade que quiser ser testemunho fiel da Boa Nova da Ressurreição deve ser sinal de vida, deve lutar pela vida contra as ameaças de morte.
    Não é fácil seguir Jesus e andar com ele na contramão da sociedade. Ele exige muito. Pede que a gente esteja disposta a perder a vida por amor a ele e ao Evangelho (cf. Mc 8,35). O Evangelho de Marcos, escrito no ano 70 d.C., é escrito para uma comunidade que corria o perigo de desanimar e queria saber como seguir Jesus naquela situação difícil. Marcos responde apresentando a caminhada dos primeiros discípulos de Jesus, como um espelho para todo aquele que deseja seguir Jesus. Vejamos. No início da caminhada o entusiasmo era grande, aos poucos aparecem as falhas. Muitas vezes os discípulos não entendiam nada (cf. Mc 4,13.41). Jesus teve muita paciência com eles (cf. Mc 9,19). No fim, Judas o traiu, Pedro o negou (cf. Mc 14,37-39.45.68-72), e todos o abandonaram (cf. Mc 14,50). Fugiram. Romperam com Jesus.
    Mas Jesus não rompeu com eles. Continuou acreditando neles. Depois da ressurreição pediu que fossem reencontrá-lo na Galiléia (cf. Mc 16,7). Os discípulos tinham desanimado de seguir Jesus. Jesus não desanima de chamá-los de novo. Se isto não estivesse escrito, não daria para a gente acreditar. Ora, a mesma atitude, Jesus a conserva para conosco. Ele nos manda o mesmo recado. Jesus continua esperando por nós à beira do lago. Tem esperança.

    E o Verbo se fez carne
    No ventre de Maria
    Deus se fez homem.
    Mas na oficina de José
    Deus também se fez classe.

    E o verbo se fez índio
    O Verbo se fez carne
    O Verbo se fez pobre
    O Verbo se faz índio...
    Planta em nós
    A sua maloca.
    (Dom Pedro Casaldáliga)

    10. Bibliografia.
    1. LIBANIO, João Batista. Sempre Jesus. A caminho do Novo Milênio. São Paulo: Paulinas, 1998. Existe, também, a versão vídeo-texto exposta pelo próprio autor.
    2. FERRARO, Benedito. Cristologia. Petrópolis: Vozes, 2004.
    3. FELLER, Vitor Galdino. Jesus de Nazaré. Homem que é Deus. Petrópolis: Vozes, 2004.
    4. MESTERS, Carlos. Com Jesus na contramão. São Paulo: Paulinas, 1995.
    5. BOFF, Leonardo. Paixão de Cristo, paixão do mundo. Petrópolis: Vozes, 1977.
    6. ______________. Jesus Cristo Libertador. Petrópolis: Vozes, 1972.
    7. SOBRINHO, João. A fé em Jesus Cristo – Ensaio a partir das vítimas. Petrópolis: Vozes, 2000.
    8. SEGUNDO, Juan Luiz. A História perdida e recuperada de Jesus de Nazaré. São Paulo: Paulus, 1997.
    9. CNBB. Caminhamos na Estrada de Jesus. São Paulo: Paulinas, 1996.
    10. DIOCESE DE GUAXUPÉ. Tempo de Ver. Tempo de Crer e amar! Módulo II. Guaxupé, 2003.



    1 hneveston@yahoo.com.br . Pároco da Matriz Nossa Senhora da Assunção de Cabo Verde - MG. Voltar

    2 LIBANIO, João Batista. Sempre Jesus. A caminho do Novo Milênio. São Paulo: Paulinas, 1998. Voltar

    3 Faremos uso do texto de FERRARO, Benedito Cristologia. Petrópolis: Vozes, 2004, pp. 121-159. Como no texto de LIBÂNIO, faremos um resumo seguindo a divisão sugerida pelo próprio autor. Voltar

    4 DIOCESE DE GUAXUPÉ. Tempo de Ver. Tempo de Crer e amar! Módulo II. Guaxupé, 2003, pp. 103s. Voltar