COMO LER A BÍBLIA



GÊNEROS LITERÁRIOS



Um fato: Cinema cheio, assistindo Love Story. A platéia toda chorando, uma voz grita: “Não precisa chorar, não! É de mentirinha!”. Quem tem razão?

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Você vê na Televisão: Novelas
Filmes
Documentários
Shows musicais
Noticiários
Esportes – futebol, vôlei, corrida de automóveis
Entrevistas
Programas humorísticos
Orações – Missas – Terços - Curas
Propaganda política
Propaganda comercial
Desenhos

É tudo a mesma coisa?

Você vê a novela ou a propaganda da mesma forma como vê um documentário, uma entrevista ou um acontecimento ao vivo? Tudo pretende apenas entreter ou distrair, informar sobre os acontecimentos, fortalecer a fé dos telespectadores?


ASSIM TAMBÉM NA BÍBLIA



Há Novelas
Poemas épicos
Poemas de amor
Estórias de heróis (sagas)
Leis apodícticas (Dt 23,14) e casuísticas (Dt 24,1-4)
Orações em prosa e em verso
Parábolas e alegorias
Narrativas etiológicas
Oráculos
Pregações
Discursos
E outros
Só não há História e Ciência.
A gente lê a Bíblia não para se informar, mas para se preparar para praticar o bem (2Tm 3,17)


A evolução da interpretação da Bíblia



Até os últimos séculos, antes do chamado “Iluminismo”, não havia grande preocupação com a historicidade exata dos fatos. Lia-se a Bíblia mais para meditar, contemplar, encontrar nos textos mensagens e interpretações da vida e dos problemas atuais, sem crítica, com certa ingenuidade até, ao ver da nossa mentalidade atual.
O “Século das Luzes” mudou a mentalidade. Agora é preciso examinar e considerar tudo do ponto de vista científico. Conseqüência disso, surgiu um movimento de estudo crítico da Bíblia. Agora a Bíblia é apenas um livro antigo, escrito por várias mãos e diferentes mentalidades, durante mais de mil anos. Tem que ser cotejada com o conhecimento que temos da história e tem de ser criticada literariamente para se descobrirem as várias mãos e os diferentes modos de pensar que influíram em cada parte do escrito. Daí, o método histórico-crítico.
E a fé? - A fé atrapalha essa crítica literária e histórica. Deve ser posta de lado, respondiam os iniciadores do novo modo de se ler a Bíblia. Será preciso deixar de lado a fé para poder entender a Bíblia. Isso escandalizou católicos e protestantes.
A reação do protestantismo conservador foi criar o chamado fundamentalismo. Os Protestantes conservadores estabeleceram, num congresso realizado em Niagara, Estado de Nova York (EEUU), em 1905, cinco princípios

[1]

fundamentais (daí o nome fundamentalismo) para a interpretação da Bíblia. O primeiro desses princípios é o da interpretação literal, ao pé da letra, como se diz, de cada palavra do texto da Bíblia.
A reação católica, o Papa João Paulo II a descreve com muita clareza no discurso em que apresentou o documento da Pontifícia Comissão Bíblica intitulado A Interpretação da Bíblia na Igreja (23/04/93).
Começou com Leão XIII, em abril de 1893, antes, portanto, do protestantismo conservador. Ele publicou a Encíclica Providentissimus Deus, na qual diz que se podem usar os recursos da ciência moderna, a crítica histórica e literária, na interpretação da Bíblia, mas com cuidado para não negar a fé.
Cinqüenta anos depois a reação da Igreja diante do método histórico-crítico voltou a se manifestar na Encíclica de Pio XII Divino afflante Spiritu. Aí se dá toda a liberdade de pesquisa e para o emprego do método histórico-crítico na interpretação da Bíblia.
Agora, cem anos depois de Leão XIII, o Documento da Pontifícia Comissão Bíblica que o Papa apresentava, diz que, na interpretação da Bíblia, não se pode deixar de utilizar um método científico e sério como o histórico-crítico. Resumindo: Leão XIII: Pode com cuidado, Pio XII Pode com toda a liberdade, João Paulo II: Deve usar.


O DOCUMENTO DA PONTIFÍCIA COMISSÃO BÍBLICA



Publicado em abril de 1993, o documento tem algumas características próprias. Primeiro, não é assinado pelo Papa. Leão XIII e Pio XII pediram, sem dúvida, a ajuda de especialistas para preparar suas Encíclicas sobre a interpretação da Bíblia, mas eles assinaram os documentos, assumindo-os como coisa sua.
João Paulo II apenas apresentou o Documento atual, que é assinado pela equipe de biblistas que assessora oficialmente a Santa Sé. É vantagem, porque assim o Papa reconhece que não sabe tudo, nem é capaz de descer a detalhes técnicos sobre como interpretar a Bíblia. A outra característica do documento é, exatamente, que chega a esses detalhes técnicos e presta-se ao estudo como excelente introdução à interpretação da Bíblia.
O Documento só rejeita a interpretação ingênua e literal da Bíblia. É a sua característica principal, destacada no discurso do Papa. Abrir a Bíblia ao acaso para achar uma frase que venha a solucionar um problema meu pode ser uma atitude “piedosa” e “atraente”, mas é “uma forma de suicídio do pensamento” (A INTERPRETAÇÃO DA BÍBLIA NA IGREJA, Paulinas, São Paulo, 1994, p. 86).

[2]

Essa maneira literal e anticientífica de ler a Bíblia não pode mais ser admitida na Igreja Católica. Nega a verdade da Encarnação, diz o Documento.
E chega a ser uma falta de respeito para com a Palavra de Deus, digo eu. Se você diz “Eu caí das nuvens” e o outro lhe pergunta: “Você estava lá em cima? Não se machucou?” qual a sua reação? Se alguém lhe toma uma frase solta e vem cobrar que você disse aquilo mesmo, sem considerar as circunstâncias e o assunto de que você estava falando, sem levar em conta o restante da conversa, qual a sua reação? A mesma coisa faz com a Palavra de Deus esse modo ingênuo e literal de ler a Bíblia. E isso não é falta de respeito?
Dizer que a interpretação da Bíblia precisa se apoiar em bases científicas, não significa dizer que quem não é um grande historiador, ou um profundo conhecedor de literatura não pode ler a Bíblia. Dona Sebastiana, analfabeta, pedia a uma pessoa alfabetizada que lhe lesse um trecho da Bíblia e ela, analfabeta, explicava. Basta saber bem do que se está falando e ter “malícia” para perceber o que está por trás das palavras, as insinuações, as alusões. O linguajar do povo está cheio disso. Sem sentido duplo não há humor. É preciso uma boa dose de humor para entender a Bíblia.


Métodos e abordagens ou leituras



O Documento da Pontifícia Comissão Bíblica faz uma distinção clara entre métodos e abordagens. Abordagem é o lugar por onde a pessoa entra na Bíblia. É uma preocupação definida, que leva a pessoa a procurar aquele tema ou aquele ponto de vista dentro do texto. Exemplo, abordagem feminista, abordagem doutrinal. Se eu vou procurar na Bíblia afirmações ou situações que mostrem qual doutrina ou ensinamento se encontra neste ou naquele trecho, ou se procuro um tema determinado como a vida depois da morte, estou fazendo uma abordagem doutrinal. Se vou procurar tudo quanto se refere à mulher e ao feminino, estou fazendo uma abordagem feminista. A mulher ou a doutrina serão lados diferentes por onde se aborda a Bíblia.
Abordagens existem muitas. Todas válidas e, muitas vezes, preciosas. Basta - segundo o Documento da Pontifícia Comissão Bíblica - que aquele que procura esta ou aquela abordagem tenha consciência de que toda abordagem é limitada. É impossível entrar num barco por todos os lados. Se eu vou procurar só o que se refere à mulher ou à doutrina, ou ao social, ao político, ao econômico etc., encontrarei muita coisa interessante, mas deixarei de ver muitas outras coisas. Quando focalizo um lado, vejo bem o que está ali, mas o restante fica no escuro.
Primeiro, então, precisa ter consciência do próprio limite. Mas ninguém entra na Bíblia por todos os lados. Ninguém vê tudo o que ali está, de uma vez. Então, sempre é necessário escolher uma abordagem ou ter consciência de qual é a abordagem pela qual estou entrando na Bíblia.
Agora, é indispensável que se use um método sério e correto. Se não, você escolhe só as frases que servem ao que lhe interessa, tomando-as ao pé da letra. Alguém quer, por exemplo, condenar ou aprovar o culto das imagens. Anota, então, todas as frases que falam disso na Bíblia. Não se interessa e recusa-se até a perguntar por que aquilo é dito dessa ou daquela forma e, mais ainda, ignora inteiramente outras afirmações em sentido diferente ou contrário. Isso chega a ser falta de honestidade.
Daí, a necessidade dos métodos. O Documento se fixa em dois: Histórico-crítico e de Análise Literária. Os dois se complementam.
O Histórico-crítico procura entender o porquê da conversa, como e para quê foi escrito aquele texto.
O de Análise literária vai descobrir a “malícia” do texto, o sentido duplo, as ironias, o humor daquelas frases.
O Histórico-crítico desvendou a história de muitos textos da Bíblia, como foram compostos, que outras tradições ou outros documentos o autor daquele texto terá utilizado. Para isso comparou muitos textos. Boa parte da Bíblia acabou dividida em fatias assim: Esta fatia vem daquela tradição, aquela vem de outra, etc.
O de Análise literária considera o texto do jeito que está, como ficou na Bíblia, sem se preocupar se é costura ou não de outros textos ou tradições diferentes. Este é o texto. Vamos descobrir o que ele nos diz!
Tudo isso se pode resumir em duas chaves muito simples:


1. Vidraça versus Espelho



Nenhum escrito da Bíblia é apenas uma janela para o passado. É sempre e muito mais um espelho do que acontecia quando o texto foi escrito. Assim, a pergunta que temos de fazer aos textos da Bíblia não é: Que foi o que aconteceu? Mas deve ser: Que quis dizer o autor ao contar essa estória?
Falando da criação do mundo, contando uma estória dos patriarcas ou um episódio da vida de Jesus, a Bíblia está muito mais interessada em refletir, iluminando o que acontece (ser espelho) do que em mostrar o que aconteceu (ser janela ou vidraça). Lida como espelho do que acontecia quando se escreveu, pode servir de espelho para hoje.
Quanto mais escuro do lado de lá e mais claro do lado de cá, mais a vidraça vira espelho. A Bíblia tem um caráter divino, não como vidraça ou janela para o passado e sim como espelho, não como história ou teses doutrinais, mas como luz para a vida. “Toda Escritura é inspirada por Deus e é útil para ensinar, para argumentar, para corrigir, para educar conforme a justiça. Assim, a pessoa que é de Deus estará capacitada e bem preparada para toda boa obra” (2Tm 3,16-17).


2. Pre-texto, texto e contexto



Pre-texto é o que vem antes do texto, é o motivo ou pretexto pelo qual aquilo foi escrito. O texto da Bíblia não caiu do céu como coleção de verdades eternas ou sem tempo. Cada livro, cada episódio, cada oração, poema, discurso, narrativa de um mito ou de uma tradição tem a sua motivação, o seu objetivo, o seu pre-texto.

[3]

Para saber o pre-texto de um livro, de uma série de escritos ou de uma unidade qualquer da Bíblia, é importante, por exemplo, ler uma boa e atualizada introdução[3]. No método histórico crítico o pre-texto é importantíssimo, é o pesquisar porque e como aquele texto foi escrito. Sem saber a intenção de quem fala ou escreve é impossível entender suas palavras. Por exemplo, na estória de Caim, fundador de cidade, o objetivo é denunciar as perversidades da nova cultura, a civilização industrial e urbana da era do ferro, o pre-texto é a mudança para pior do “progresso” do tempo de Salomão, quando aquela estória foi escrita.
O contexto ajuda a entender o pre-texto. Contexto é o que vem antes e depois do texto que a gente está lendo ou analisando. É covardia tirar uma frase para fora do seu contexto, fora da conversa toda. Por exemplo:
- O carro do João pegou a Maria à porta de sua casa
- Ela se machucou muito? Morreu? Foi parar no Hospital?
- e a levou até a igreja.
Quando fazem isso com a gente, dá briga. Ao interpretar qualquer frase ou episódio da Bíblia é preciso ler o que vem antes e o que vem depois, para saber de que realmente se trata, para entender o que o autor quer mesmo dizer. Não fazer isso é faltar ao respeito.
Voltando ao caso de Caim, é preciso ver que ele era agricultor e Abel era pastor, que ele funda a cidade, que, de seus descendentes um era ferreiro, o outro era músico e assim por diante. É preciso ler a estória completa para interpretar.
O texto é examinado cuidadosamente pelos métodos de análise literária. Aí cada palavra é importante porque pode ter um grande significado. Caim soa como o bater da marreta na bigorna, o nome de seus descendentes corresponde à profissão de cada um e da descendente mulher só se diz o nome, Noema, que significa atraente, agradável, prazerosa...

[4]

Para entender bem o texto é necessário prestar atenção às diversas figuras que aparecem e ao seu percurso para, então, se deduzir o simbolismo de cada detalhe.Tudo tem significado além da estória. Aí é que Deus fala, como diz o Papa Bento XVI (VERBUM DOMINI, 19):

“Quando esmorece em nós a consciência da inspiração, corre-se o
risco de ler a Escritura como objeto de curiosidade histórica e não
como obra do Espírito Santo, na qual podemos ouvir a voz do
Senhor e conhecer a sua presença na história”.

Assim, a pergunta que devemos fazer à Bíblia não é o que foi que aconteceu? Mas é o que é que essa estória quer dizer?

Ainda a estória de Caim: A pergunta que deve ser feita não é “com quem ele se casou?” ou “para quem fundou uma cidade?”. Importa saber Abel, pastor, o que representa, Caim, agricultor, o que representa, a morte do pastor o que representa, a intervenção de Deus o que representa.


Fé e interpretação da Bíblia



Certa vez alguém me perguntou: “A fé ajuda ou atrapalha a entender a Bíblia?” A Fé ajuda. A Bíblia é a herança escrita que muitas comunidades de Fé nos deixaram a nós, herdeiros de sua Fé. A fé com minúscula, a crendice, a credulidade, atrapalha e muito.
É muito próprio da crendice esta frase: “Deus pode tudo!”. Com essa afirmação escapam de qualquer consideração mais séria e pensam poder justificar tudo como se fosse narrativa histórica simplesmente. No caso de Caim, Deus pode arrumar uma esposa para Caim, Deus pode arrumar gente para morar na cidade que ele fundou, Deus pode fazer um neto seu ser ferreiro, antes da idade do ferro. Tudo isso leva ao absurdo, à falta de sentido. E a história pela história é que acaba ficando sem sentido, sem valor, vazia da presença de Deus, como disse Bento XVI.


Gráfico simplificado e ilustrativo



Tentar resumir uma série de conceitos, noções, procedimentos, diversos e diferentes em poucas linhas claras e nítidas traz a vantagem da clareza, mas traz também o perigo de falsear, caricaturizar e deixar na penumbra detalhes importantes. Consciente deste risco, apresento o gráfico abaixo, preocupado apenas com a clareza. Em cima de idéias claras é mais fácil descer a detalhes. Depois de ver a floresta, ficará mais viável observar cada árvore.
Temos três abordagens e um método. A leitura ou abordagem fundamentalista, está muito próxima da abordagem doutrinal praticada na própria Igreja Católica até o Concílio Vaticano II. É possível, todos concordam, uma abordagem doutrinal que utilize um método correto, sem deslizar para o fundamentalismo.
Já o Método Histórico-crítico, no gráfico, inclui também o de Análise literária, pois ambos consideram a Bíblia em primeiro lugar como literatura. A abordagem Pelos 4 lados e qualquer outra abordagem que pretenda ser legítima, deve estar apoiada nos métodos Histórico-crítico e de Análise literária. A ânsia em procurar afirmações que confirmem o que estou querendo que a Bíblia diga pode fazer-me cair no fundamentalismo. É o caso, por exemplo, o culto das imagens, como já dissemos.
Você poderá comparar as diferentes leituras tópico por tópico ou pode analisar cada uma dessas leituras nos diversos itens e verificar sua coerência, verificando também qual combina melhor com sua maneira de pensar.


QUATRO TIPOS DE LEITURA DA BÍBLIA



               
Leitura
FUNDAMENTALISTA
Leitura
DOGMÁTICA Ou Doutrinal
Métodos
HISTÓRICO-CRÍTICO e de Análise literária
Leitura
PELOS 4 LADOS
Sociológica ou da Libertação
TER FÉ
É acreditar que Deus tudo pode e que pode fazer por nós tudo o que quiser.
É aceitar a doutrina correta e sem erros.
É ver Deus presente na História dos homens.
É olhar a vida de hoje com os olhos de Deus.
O TEXTO
BÍBLICO
Caiu do céu! É de Deus e nada mais a perguntar!
É fonte de revelação como a tradição doutrinal referendada pelo Magistério Eclesiástico. As duas fontes devem se integrar e completar.
Texto literário popular antigo, formado de velhas tradições orais que tomaram forma escrita e foram agrupadas em unidades maiores.
Memória subversiva dos pobres animados pela Fé. Releitura das tradições populares para responder a todos os (4) lados dos problemas de cada época e situação, numa visão de fé, em conflito com a ideologia dominante.
CRITÉRIOS
“Vale o que está escrito!” Cada palavra da Bíblia é Palavra de Deus e, como Deus, é infalível e imutável!
A tradição, iluminada e referendada pelo Magistério (sã doutrina) é o critério máximo de interpretação da Bíblia.
Espírito crítico (científico) para analisar a literatura que temos em mãos e as circunstâncias daquilo que foi escrito.
A realidade pelos 4 lados (social, econômico, político e ideológico) ilumina a Bíblia e é iluminada pela Bíblia.
OBJETIVO
A leitura da Bíblia deve levar as pessoas a se converterem, comovendo-se diante do poder de Deus e passando a aceitá-lo em suas vidas.
Interpreta-se a Bíblia para mostrar como as duas fontes (Bíblia e tradição) afirmam a mesma doutrina.
Estuda-se a história e a literatura para descobrir a fé das comunidades onde se originou cada escrito.
Iluminar a nossa vida e a do mundo pelos 4 cantos. A Bíblia é luz e luz deve iluminar, não enfeitar simplesmente.


RESUMINDO E COMPLEMENTANDO



Como se deve fazer para conhecer bem uma cidade? O caso do filme Love Story!


CÂNON, INSPIRAÇÃO, VERDADE DA BÍBLIA



Cânon é a relação dos livros considerados Palavra de Deus, Escritura Sagrada ou inspirados por Deus. Foi-se formando ao longo do tempo. Entre os judeus da Palestina e os judeus do mundo grego já havia divergências, alguns livros aceitos pelos gregos não eram aceitos pelos palestinenses. Lutero ficou com os palestinenses e o Concílio de Trento com os gregos.
Inspiração é a ação de Deus através da ação dos autores dos livros da Bíblia, com todo o respeito pelas condições e limitações dos autores.
Verdade da Bíblia, pelo fato de ser inspirada, a Bíblia não é infalível em termos de verdades teóricas, científicas, históricas etc. Como a TV tem novelas, humor, musicais, noticiários, transmissões ao vivo etc., a Bíblia tem novelas, poesias, estórias de heróis, parábolas ou comparações, ditados populares, só não tem transmissão ao vivo, nem documentários, nem noticiários. Só não tem história e ciência. “Toda Escritura é inspirada por Deus e é útil para ensinar, para argumentar, para corrigir, para educar conforme a justiça. Assim, a pessoa que é de Deus estará capacitada e bem preparada para toda boa obra” (2Tm 3m16-17).


INTERPRETAÇÃO



Exegese significa explicação, desdobramento. A exegese cuida de explicar um texto, dentro das suas circunstâncias e características, de tudo o que possa fazer entender melhor aquele texto.
Hermenêutica significa interpretação, ir para dentro do texto a fim de trazê-lo para a realidade atual. Seu objetivo é trazer o texto para hoje. Para isso procura entendê-lo no seu contexto, para transferi-lo para o contexto atual.
Abordagens são os pontos de vista pelos quais se entra na Bíblia. Pode ser a fundamentalista ou literalista, a teológico-doutrinal, a sociológica, a da libertação, a feminista ou de gênero, a psicológica e tantas outras. Deixando fora a fundamentalista que nega a utilização de um método sério de interpretação, todas as outras são válidas e preciosas, tanto mais quanto melhor utilizam métodos sérios de investigação.
Métodos são caminhos sérios e testados para se chegar a uma interpretação correta, segura. São basicamente dois: a) O método histórico-crítico e b) o de análise literária.
O método histórico-crítico procura estudar de maneira bem crítica o texto, o contexto e o pré-texto, para chegar a uma interpretação correta. O texto nos leva a estudar a língua, a transmissão do texto, a história da formação daquele texto, o que lhe é mais característico em comparação com outros textos semelhantes ou que lhe estão ligados. O contexto nos leva a perguntar sobre o restante do texto, aquilo que o acompanha, que lhe vem antes e depois, para entender melhor o alcance e os limites do significado do texto. O pré-texto pergunta sobre o que está antes do texto, procura resposta para a pergunta: ‘Por que isso foi escrito?’ Essa pergunta vai levar a muitas outras: Quando foi escrito? Qual o pensamento dominante na época? Qual o pensamento dos autores? Como era a vida e quais eram as preocupações dos primeiros leitores daquele texto? Que problemas ou conflitos havia de ordem social, política, econômica, de vivência comunitária?
O método de análise literária pega o texto do jeito que ele está. Preocupa-se apenas em descobrir o que o texto diz por si mesmo. Procura entender como ele foi organizado e como isso ajuda a entender melhor o que está escrito.



[1] Os outros quatro são: A divindade de Cristo, seu nascimento virginal, a Redenção como satisfação vicária (Jesus morreu em nosso lugar) e a ressurreição (futura e física) da carne.

[2] Tomar as palavras da Bíblia ao pé da letra é o mesmo que imaginar que ela caiu do céu, pronta para resolver qualquer problema. É esquecer o lado humano da Bíblia, esquecer que ela pode usar comparações malucas como “passar o camelo pelo buraco da agulha”, que pode dizer coisas que só valiam para a situação e época em que foram escritas como Dt 23,12-13. É o mesmo que negar que Jesus fosse gente, que sentisse fome, cansaço, raiva, ternura, etc..

[3] A Bíblia da CNBB tem as introduções mais atualizadas, simples e claras. A B. Pastoral tem ótimas introduções também bastante atualizadas. A Bíblia de Jerusalém, mais extensa e detalhada, tem uma nova edição atualizada. A Bíblia do Peregrino é também excelente. A TEB completa tem também ótimas introduções. A Bíblia da Ave-Maria faz sua leitura com preocupação meramente doutrinal com base fundamentalista. Parou no tempo e ficou desatualizada. Agora uma nova edição foi revista e atualizada.

[4] Figuras são os personagens, as coisas, os lugares, os momentos, tudo o que entra na estória.