CURSO DE INICIAÇÃO TEOLÓGICA
“DOM JOSÉ MAURO PEREIRA BASTOS”
Setor Guaxupé






INTRODUÇÃO À TEOLOGIA



CONCEITO DE TEOLOGIA



1. A origem do termo
O termo teologia compõe-se etimologicamente de dois termos, que lhe definem já grandemente a natureza: Theós + logía = Deus + ciência. No centro está Deus, seu objeto principal. Qualquer reflexão teológica refere-se de alguma maneira a Deus. Teologia tem a ver com “logia”, com palavra, com saber, com ciência. Coloca-se Deus em discurso humano. Etimologicamente, significa um “discurso, um saber, uma palavra, uma ciência de ou sobre Deus”.
Há termos parecidos com “teologia”, que têm também referência fundamental a Deus, mas a partir de outro ponto de vista. Assim “teosofia”, apesar de seus diversos significados, denota determinado tipo de conhecimento de Deus que remonta a uma especulação filosófica de raiz mística, refere-se a estudo especulativo da sabedoria divina e, em sua forma vulgar, a forma de ocultismo relacionado com religiões do Extremo Oriente. Diferentemente da teologia, propugna um saber sobre a divindade, que deriva mais da intuição iluminadora provocada por sentimento religioso que de discurso intelectivo. E, por sua vez, “teodicéia” significa, na acepção de Leibniz, que criou a palavra, a justificativa da bondade divina em resposta ao problema da existência do mal. Depois tomou-se sinônimo de “teologia natural”, que procura — à luz da simples razão humana, isto é, da filosofia — responder às duas questões — se Deus existe — e — qual é a essência de Deus. A etimologia abre suficiente clareira que delimita já o espaço da teologia. Deixa, porém, inúmeras questões abertas, que outras aproximações virão esclarecer.

2. Os diferentes usos do termo na história
A semântica estuda o significado das palavras. A teologia, que no Ocidente se vinculou fundamentalmente à tradição bíblico-cristã, encontra na Bíblia seu nascimento semântico. As Escrituras não usam tal termo. Em seu lugar, está a expressão “Palavra de Deus’. O Novo Testamento conhece os inspirados de Deus — Theô neustos — (2Tm 3,16) —, os aprendizes de Deus — Theodídakto, (lTs 4,9) —, mas não conhece os teólogos. Além disso, o termo “conhecer” na Escritura não tem o sentido de “logia” do mundo grego. Significa, antes de tudo, fazer experiência profunda a ponto de exprimir até as relações íntimas sexuais
Portanto, sem conhecer o termo, a primeira epístola de S. Pedro exorta o cristão, sobretudo aquele que vai aparecer diante do tribunal, que saiba justificar sua fé (lPd 3,15). Essa tarefa implica certo nível de reflexão teórica sobre a própria fé, própria da teologia. Nos sinóticos, há um momento em que Jesus pergunta aos discípulos: “E vós que dizeis que eu sou?” (Mt 16,13). No fundo, a comunidade se faz a pergunta teológica sobre Jesus Cristo. Não se usa, porém, o termo teologia, que naquele momento não viria bem para uma reflexão sobre Jesus Cristo. O termo lança suas raízes no mundo grego pagão. No teatro, havia acima do palco um lugar onde os deuses apareciam: “theologeion”. O verbo “theologêo” significava discursar sobre os deuses ou sobre cosmologia, ou referir-se a uma influência divina.
Na teologia latina cristã antiga, o termo “teologia” conservou o significado pagão de estudo dos deuses, ciência dos deuses. Foi usado também como teodicéia na acepção de estudo da divindade baseado na razão. E finalmente “teologia” significava ciência divina, ou seja, conhecimento do mistério mesmo de Deus, Cristo.
Orígenes, mesmo tendo usado o termo “theologos” no sentido pagão, assume também a acepção cristã de discurso sobre Deus e Cristo. Eusébio contribui para que se adote cristãmente este termo pagão, ao referir-se à teologia sobre Cristo. O uso frequente deste termo termina por fazê-lo aceito. Assim, a partir do século IV, a patrística grega assume o termo para o discurso sobre o Deus verdadeiro, sobre a trindade.

3. A intelecção do termo
O ser humano quer compreender sua fé. Pela fé, ele lança ponte que o liga a Deus. Não quer fazer qualquer estudo de Deus. Mas intenta aprofundar, justificar, esclarecer seu ato de fé nele. Portanto, a teologia define-se como reflexão crítica, sistemática sobre a intelecção de fé. E a fé termina em Deus e não nos enunciados a respeito de Deus, como muito bem explícita Santo Tomás.
O ato do que crê não termina no enunciado, mas na coisa. Nesse sentido, a teologia trata de Deus, mas mediado pela fé, pela acolhida de sua Palavra, que, por sua vez, nos vem comunicada pela revelação transmitida na Tradição da Igreja — escrita, vivida, pregada, celebrada, testemunhada. Evidentemente, poderia parecer muito simples dizer que pela teologia se busca a inteligência da fé, [fé que busca inteligência], na expressão de Santo Anselmo.


NATUREZA DA TEOLOGIA



1. O teólogo e a Igreja
Pode-se partir do teólogo que vai construindo a teologia até chegar a seu objeto fundamental — Deus — ou da fonte mesma da teologia — Deus — até chegar ao teólogo. Assim, há dois esquemas: teólogo, fé transmitida na Igreja + Revelação de Deus. Revelação de Deus - fé transmitida na Igreja - teólogo
Ao olhar-se para esse duplo caminho, percebe-se que nos dois casos a Igreja intermedia os dois parceiros fundamentais: Deus e o teólogo. Numa descrição da teologia, como atividade humana, aparece por primeiro o teólogo preocupado em aprofundar sua fé. Provocado pela vida, por experiências, por questionamentos, intenta dar-se a si mesmo razão e conta de seu crer. Aquela fé, que já tinha recebido na família e/ou na catequese, alimentada nas pregações e vida eclesial, pede maior aprofundamento. O primeiro encontro do nascer da teologia realiza-se entre o teólogo e a sua fé vivida numa comunidade.
Esta fé, porém, não lhe aparece desde o início como posse sua. Antes, recebe-a da Igreja e a vive na Igreja. A Igreja está na origem e no lugar de sua reflexão. Fora dela, não há sentido refletir sobre essa fé que ele tem. Romper com a Igreja seria também romper com essa fé. Justificar esta ruptura já não seria teologia católica, mas contrateologia. A teologia elabora-se no interior da comunidade e em vista de sua fé. O indivíduo nutre-se dela como membro da comunidade.

  • O Magistério
    O magistério vem da palavra magister (professor), exercício da autoridade de ensinar (múnus), ligada ao episcopado e ao papa (pronunciamentos, documentos, orientações, tradição etc). Não há teologia sem fé e magistério, por outro lado, fé e magistério não podem prescindir da teologia. A teologia exerce a função de mediação entre o magistério e a comunidade cristã.

    2. A Igreja e a Teologia
    A Igreja existe em vista do mundo. E a teologia, ao situar-se dentro da Igreja, assume essa vocação de serviço a todos os seres humanos, a fim de oferecer-lhe elementos de verdade em vista de sua libertação. A verdade de Deus liberta (Jo 8,32). A dimensão eclesial da teologia não lhe impõe peias, mas antes a motiva a lançar-se, de maneira responsável e ousada, pensar a revelação no meio das turbulências da história humana.
    Nesse processo de refletir sobre sua fé, o teólogo defronta-se imediatamente com a fonte mesma desta fé, a Palavra de Deus. Esta Palavra lhe foi comunicada na revelação, automanifestação de Deus na história em ações e palavras por causa de nossa salvação, e consignada por escrito na Bíblia.


  • ESTRUTURA TEÓRICA DA TEOLOGIA



    Antes de tudo, a teologia se arroga o direito de ser ciência, mas esta pretensão não se isenta de uma série de dificuldades.

    1. Sabedoria, saber e crítica

    a. Teologia como sabedoria
    No centro da teologia, está Deus, mistério insondável. A Escritura abre aos seres humanos acesso a Deus, uma vez que Deus nelas se revelou.
    Nesses tempos de pós-modernidade, ressurge com vigor essa dimensão da teologia. Cansaço diante da razão instrumental, tão redutora da dimensão humana, pede uma teologia mais sapiencial, simbólica e estética que envolva a totalidade da pessoa no mistério de Deus.

    b. Teologia como saber racional
    A teologia, naturalmente, construiu-se desde o início com os serviços da razão, que acompanharão todo o seu desenrolar até hoje. A teologia sempre terá, como seu momento interno, a razão.

    c. Teologia como crítica
    Ao entrar, porém, a filosofia moderna no cenário teológico, o saber racional adquire nova especificidade. Assume corajosamente o apelo da crítica. Esta, por sua vez, instala-se no coração da teologia a partir de duas fontes distintas. Antes de tudo, a crítica nasce das suspeitas teóricas filosóficas atingindo os próprios pressupostos da teologia. Esta arma-se então de ferrenha apologética para defender-se dos assaltos da razão crítica.
    Em sua esteira, as teologias política, da esperança e sobretudo da libertação entronam a crítica na perspectiva da práxis. Em termos lógicos, a teologia, reflexão sobre a fé, permite-se ser criticada pela idade, pelo agir cristão.

    2. Teologia como ciência
    A teologia e as ciências são realidades históricas. Sua relação ende fundamentalmente do conceito que se tem de ciência e de logia nos diferentes momentos da história. Varia, portanto, segun se desenvolve a consciência humana e se modificam as condições sociais, cosmovisões, ideologias, interesses, em que tal relação se situa.
    Teologia diz-se ciência, não no sentido de ter evidência de seus princípios, a saber, das verdades reveladas, mas enquanto ciência subordinada à ciência de Deus. Os princípios da teologia tornam-se evidentes na ciência mesma de Deus, isto é, na ciência que Deus tem de si. A teologia recebe da ciência de Deus os seus princípios.
    O conceito moderno de ciência é, por conseguinte, outro. Os conhecimentos, que formam o corpo teórico das ciências, adquirem-se por meio de métodos muito precisos de experimentação, nos quais as afirmações se provam imediatamente, podem ser verificadas e por isso admitidas universalmente, desde que se respeitem as condições do experimento. As ciências pretendem ter um controle de todas as proposições pela experimentação. Seus conhecimentos são elaborados e controlados por procedimentos de demonstração e verificação.
    Contudo, enquanto a teologia pode exibir um conjunto de conhecimentos ordenados, com objeto, método, unidade próprios, merece, com direito, o título de Ciência.


    O ENTENDIMENTO DA TEOLOGIA NA HISTÓRIA



    Já no séc. I os primeiros cristãos começaram a refletir sobre a sua fé, interpretando o evento fundamental da vida-morte-ressurreição de Jesus com um enorme esforço para responder:

    - Quem é Jesus para nós?
    - Quem somos nós a partir de Jesus?

    No Novo Testamento. Os dois maiores teólogos dessa época são: Paulo e João Evangelista.
    Paulo em suas cartas:
    “Ele me amou e se entregou por mim” (Gl 2,20).
    “Vivo, mas já não sou eu que vivo: é Cristo que vive em mim” (GI 2,20).
    “Se morremos com Cristo, também viveremos com ele” (Rm 6,8).
    “Quando me sinto fraco, aí é que sou forte” (2Cor 12,10).
    “Nada nos poderá separar do amor de Deus” (Rm 8,35).

    João no seu Evangelho:
    “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus’ ‘ (...) “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,1.14).
    “Estes (sinais) escritos para crerdes que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais a vida em seu nome” (Jo 20,31).
  • Orígenes considerava a teologia como doutrina verdadeira a respeito de Deus.
  • O embate com as heresias estimula e faz avançar a teologia, ao requerer precisão de termos e fidelidade criativa à Escritura. Os diversos Concílios atestam o clima apaixonante da teologia patrística na vida da Igreja.
  • A liturgia é considerada a primeira teologia na patrística, onde nasce essa relação entre pensar e celebrar a fé, os mistérios.
  • No séc. IV entre os Padres orientais, a teologia era o estudo da Trindade. A ação de Deus e seu governo, assim como sua intervenção redentora recebiam o nome de economia.

  • Na Idade Média foi determinante o pensamento de Sto. Agostinho que dizia: “quanto mais eu creio mais eu entendo e quanto mais entendo mais eu creio” . Dele surgiram dois modos de conceber a teologia:
    - No oriente, como a união da alma com Deus através da contemplação;
    - No ocidente, como interpretação da fé, que significava o estudo da Sagrada Escritura e sua exegese.

    O cisma da Igreja em 1054, dividindo-a em oriental e ocidental provoca perda para ambas, a ocidental procura refletir e sistematizar a teologia, enquanto que a oriental conserva o traço contemplativo, simbólico, misterioso, do silencioso da teologia, sustentando que nenhuma definição humana consegue atender de maneira abrangente a transcendência divina.
  • A partir do século XI temos uma maneira estruturada de conceber o ensino chamado de escolástica, utilizando-se a memória, conhecimento das grandes obras do passado, o questionamento de uma afirmação sob a crítica e a discussão livre sobre qualquer espécie de assunto. Era ensinada nas escolas de catedrais e de mosteiros.
  • Do séc. X ao XII a teologia foi impulsionada pelo surgimento das ordens religiosas monásticas, ordens mendicantes e pelo surgimento também das universidades, que buscavam refletir sobre Deus e sua revelação.
  • Santo Tomás de Aquino (séc. XIII -1225 a 1274) define a teologia como um tratado científico sobre Deus, a partir da revelação divina. Ele coloca o crer e o compreender no mesmo nível. No fim da vida o teólogo, ao olhar para sua imensa obra, após mergulhar no mistério insondável de Deus em sua vida mística dos últimos anos diz: “tudo o que escrevi me parece palha em comparação com o que me foi revelado”.
  • No séc. XIII ainda nos deparamos como a teologia do despojamento, do desprendimento, da fé prática e simples de São Francisco de Assis.
  • No séc. XVI, prevalecem os caminhos da espiritualidade cristã, com grandes figuras espirituais notadamente espanhóis, como Santo Inácio de Loyola , São João da Cruz e Sta. Tereza D’Ávila.
  • A partir do séc. XVII, ao enfrentar o racionalismo moderno, a teologia assume cada vez mais um certo rigor científico e cresce a distância da espiritualidade, deixando para segundo plano seu aspecto existencial e celebrativo. Ministrada principalmente nos seminários, isola-se das questões do mundo, tendo mais dificuldade para descobrir os sinais de Deus fora dos muros da Igreja.
  • No séc. XX houve um grande esforço para uma aproximação com a teologia da espiritualidade, através dos dominicanos franceses, carmelitas e beneditinos. A problemática humana passa a ser assunto da teologia, tratando-se da moral familiar, relações entre estado e Igreja, o progresso, com grande avanço na doutrina social da Igreja. Avanço também da teologia querigmática, gerando renovação do ensino e busca da questão existencial na pregação com uma volta às fontes da Escritura e dos Santos Padres.
  • Teologia da Libertação (latino-americana) – Nasce de um contexto histórico de sofrimento, dependência, pobreza e opressão, num capitalismo que subordina tudo ao mercado, fim último de todas as coisas. Faz uma reflexão da revelação de Deus diante de situações escandalosas de operários e trabalhadores rurais, com a complacência de uma sociedade e países que aprovam tal brutalidade com seu silêncio e acomodação.
    O centro de toda a teologia é o evento Jesus Cristo, plenitude histórica da revelação de Deus “Sim, Deus amou tanto o mundo, que lhe deu seu Filho amado, para que todo homem que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Pois Deus não enviou seu Filho para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele” (Jo 3,16-18).


  • CARACTERÍSTICAS DA TEOLOGIA



    1. Teoria e prática
    A teologia procura discernir os sinais dos tempos, a realidade da comunidade cristã, as orientações que o Espírito Santo suscita no povo de Deus.
    O teólogo Leonardo Boff diz que a teologia se faz com a Bíblia numa mão, o jornal do dia na outra e de joelhos.
    É uma ciência teórica e prática.

    Teórica: Pois visa conhecer e penetrar o mistério divino e a contemplação de Deus.
    Prática: Pois aquece a piedade e estimula a vontade de se aproximar cada vez mais de Deus.

    Diz São Boaventura:
    “Que ninguém creia que lhe basta a ciência sem a unção,
    a especulação sem a devoção,
    a investigação sem a admiração,
    a circunspeção sem a exultação,
    o trabalho sem a piedade,
    a ciência sem a caridade,
    a inteligência sem a humildade,
    o zelo sem a graça divina e o brilho sem a inspiração divina.”

    2. Quanto ao método
    Teologia histórica (positiva): É o processo de levantamento de dados, recolhe e organiza o conteúdo do dado revelado.
    Teologia sistemática (especulativa): A partir do dado revelado organizado, a teologia sistemática (especulativa) faz uma reflexão aprofundada do dado coletado. E a partir de deduções consegue trazer inovações para a compreensão da revelação.
    Teologia dedutiva: Parte em sua reflexão desde os princípios ou verdades universais da fé e por dedução aplica-os a outras realidades, como uma luz sobre regiões escuras. Ex.: Jesus é verdadeiro homem (Conc. Calcedônia), ora, um verdadeiro homem tem uma liberdade e consciência humanas (verdade filosófica), logo Jesus tem uma liberdade e consciência humanas.

    Teologia Indutiva
    Parte de perguntas que emergem da vida e experiência humana, da realidade e que devem ser respondidas à luz da revelação. A raiz está na pergunta pelo sentido da experiência existencial e a pergunta pelo sentido da prática (práxis) da fé.

    A Questão Hermenêutica
    A Hermenêutica reinterpreta e organiza os dados revelados, vividos e compreendidos pela comunidade em diferentes contextos socioculturais e histórico, atualizando essas experiências para a realidade que enfrentamos hoje.

    As áreas de estudo da teologia podem ser apresentadas no esquema abaixo:
    Fundamental: Introdução à teologia
    Revelação, fé, tradição
    Bíblica: Línguas bíblicas; Livros do AT (várias disciplinas); Livros do NT (várias disciplinas)
    Moral: Fundamental; Específica: da pessoa, social, ecológica
    Dogmática: Trindade, cristologia, eclesiologia, antropologia teológica, escatologia, mariologia
    Direito canônico: Fundamental; Específico: sacramental, matrimonial, vida religiosa
    Liturgia/Espiritualidade:
    História da Igreja: Antiga, medieval, moderna, contemporânea na América Latina, no Brasil.
    Prática: Pastoral, religiosidade popular, aconselhamento pastoral
    Outras disciplinas: Patrística, ecumenismo, missiologia.


    CONTEXTO ATUAL PARA A TEOLOGIA



    O cristão leigo, até então dependente das explicações dos teólogos, em sua quase totalidade pertencentes ao clero, começa agora a buscar inteligibilidade mais profunda para sua fé. Os embates do mundo moderno com filosofias alheias ao pensar cristão, com valorização excessiva da subjetividade individualista, com afã praxístico, com mentalidade histórica, com pluralismo religioso e de valores, estão a exigir do cristão atitude mais crítica e reflexiva a respeito de sua fé. Esta nova conjuntura desperta-lhe o desejo de estudos teológicos mais profundos que os catecismos aprendidos na infância e adolescência.
    O cristão sente-se hoje, mais do que nunca, companheiro de muitos homens e mulheres que já não partilham de sua fé. Cabe-lhe dar razão para si e para outros, que o interrogam, de sua crença cristã. A vida veste-se de aventura, tecida de crises, dificuldades e perguntas, que, em determinado nível, esperam da teologia alguma palavra de esclarecimento.
    A complexidade e dificuldades dos problemas assinalam situações cada vez mais problemáticas para a fé do cristão. Sem avançar nos estudos de sua fé, ele se sentirá cada vez menos capaz para dar conta desse novo contexto cultural.

    1. No reino do pluralismo
    Até algum tempo atrás a religião católica cumprira a função de norma e integração social de todos os membros da Cristandade. Ela oferecia carta de cidadania e referência de valor e ação para todos. Com a irrupção da Sociedade liberal, as diferentes esferas culturais rompem com a religião católica que as tinha coberto com seus ramos. Translada-se para a consciência pessoal a decisão livre no campo religioso Ela se dava até esse momento no interior de uma tradição garantida pela cultura e autoridade religiosa dominante. Surge, portanto, o fato de possíveis decisões pessoais religiosas a configurar o novo pluralismo religioso.

    2. No reino do ecumenismo e do diálogo inter-religioso
    De fato, ultimamente o pluralismo tem-se deslocado para outros quadros e tradições culturais estranhas à versão ocidental. Rompe-se, pela primeira vez, na história da teologia a possibilidade de verdadeiras teologias não ocidentais de consistência que respondam a outras tradições culturais e religiosas, tais como as teologias indiana, africana, afro-ameríndia. Elas navegam nas mesmas águas do pluralismo teológico. Desafio e esperança para tantos cristãos e para o diálogo inter-religioso.
    Este novo pluralismo surge não simplesmente do ecumenismo em sua forma tradicional intercristã, mas também do macroecumenismo com religiões e tradições não cristãs. Visto de outro ângulo, defrontamo-nos aqui com a exigência de inculturação da fé e da teologia.

    3. Uma pastoral mais exigente
    A complexidade do cenário religioso e as transformações sociais do capitalismo industrial avançado sob a forma neoliberal estão a provocar situações novas e desafiantes à pastoral. Destarte, a busca da teologia surge da necessidade de lucidez em tal contexto. Exige-se do cristão maior preparo intelectual, antes de tudo, a respeito de sua própria fé.
    O contexto de percepção das maiores demandas intelectuais dera-se em nosso continente no momento em que se passou de uma sociedade tradicional, fechada, agrária para uma sociedade industrial, urbana, moderna.
    Com muito maior gravidade impõe-se a situação atual da terceira onda que faz poucas décadas minar a civilização industrial, gestando nova civilização altamente tecnológica. As relações e métodos de poder, o modo de vida, o código de comportamento, o papel do Estado-nação, o tipo de economia, o universo da informação, os meios de comunicação de massa e inúmeros outros fatores na sociedade modificam-se profundamente. Nesse contexto, a pastoral toma-se ainda muito mais exigente para responder à enorme presença da mídia, como espaço novo para pensar e realizar a evangelização, em vista da qual se faz teologia.


    FUNÇÕES DO “TEOLOGANTE”



    1. Aprender teologia: A teologia ilumina a inteligência, povoa-a de conhecimentos importantes para a vida do cristão.

    2. Fazer teologia: Acontece em duplo nível. No nível do discurso religioso e espontâneo, todo cristão, ao dar razão de sua fé a si mesmo e aos outros, envolve-se com a tarefa de fazer teologia. A vida em suas mais diversas manifestações oferece o lugar de fazer teologia. Faz-se teologia ao produzir novas formas de expressão da revelação, da tradição viva da Igreja. Isto acontece quando a pessoa se vê provocada pelas perguntas levantadas pela realidade e existência. Processo sempre vivo, interminável, sujeito às novidades da vida. A prática pastoral arvora-se hoje em lugar privilegiado de apresentar as novas perguntas e, portanto, de desencadear o processo de fazer teologia.

    3. Aprender a fazer teologia: Significa, antes de tudo, entrar na própria mecânica teológica. Inicia-se com longa e atenta visita à fábrica da teologia, não para comprar o produto feito mas para, em contato com os operários, técnicos e engenheiros aprender como se fabrica o produto desejado. O fato de aprender teologia com a intenção crítica de conhecer-lhe as entranhas prepara o aluno para fazer teologia no sentido técnico do termo.

    4. Celebrar e rezar a teologia: implica situá-la em seu verdadeiro lugar. Ela nasce da fé da comunidade e orienta-se para a fé. No centro da teologia está o mistério de Deus. E o acesso mais profundo a ele se faz pelo coração, pela conversão, pela vida. Sem essa percepção o estudo pode ficar preso no departamento da inteligência, seco e até mesmo estéril. No fundo, entra em jogo a experiência mística. O teólogo, mais que um ativo perscrutador de Deus, é alguém que se sente capturado por Ele.





    Referências:


    Teosofia: Conjunto de conhecimentos que sintetiza Filosofia+Religião+Ciência.

    Teodicéia: Parte da filosofia que pretende demonstrar RACIONALMENTE a existência e atributos de Deus.
    Veja também: Leibniz - Teodicéia

    Patrística: Filosofia cristã dos primeiros 7 séculos , elaborada pelos padres da igreja.
    Não separava a religião da filosofia (Séculos de II a VII). Período entre o NÉOTESTAMENTÁRIO e a ESCOLÁSTICA.


    Exegese: Estudo das escrituras.

    Teologia Querigmática:Relativo ao primeiro anúncio da Boa Nova.Interesse pelo "primeiro anúncio", por aquilo que é fundante na fé,pela proclamação da boa notícia da Salvação.