AS COMUNIDADES QUE NOS DERAM OS QUATRO EVANGELHOS



O Império Romano explorava aquela região toda. O Imperador era o grande pai, patrono, patrão, salvador ou senhor de todo o mundo, todos os restantes eram clientes, ou dependentes, dele. Ele tinha o direito de fazer o que quisesse e ninguém podia reclamar. Os gerentes dele, os que o ajudavam a explorar o restante da população, eram também exploradores, para aproveitar a oportunidade e para agradar o Chefe.
O Imperador chamado sempre de César era bom, perfeito, santo, augusto, divino, era o deus acessível. Chegaram a colocar a imagem dele num altar, como se fosse um deus, ele era o Senhor e o Salvador do mundo, que lhe trazia PAZ E SEGURNAÇA. A chegada de César ou do poder imperial a um lugar era chamada de Evangelho, ou boa notícia de César. A ele todos deviam a “fides”, palavra latina que quer dizer fidelidade e também fé.
O mundo em torno do mar Mediterrâneo estava submisso ao reinado de César, Jesus trazia o reinado de Deus, em tudo e por tudo diferente. Para aquelas comunidades pobres e exploradas da Palestina a Boa Notícia, o Evangelho, é o reinado de Deus.
Agora, Senhor é Jesus, não o Imperador romano. É bom lembrar que um cidadão romano nunca podia ser crucificado, seria humilhação demais. E para os judeus, um crucificado é um amaldiçoado por Deus (Dt 21,22-23). Jesus, um excluído da cidadania e amaldiçoado pela própria religião, é o único Senhor! Esse o pensamento das comunidades cristãs do início, que afirmavam: “Jesus é o Senhor!”. A ele é que devemos “fides”, fé, fidelidade.


Marcos



A comunidade que nos deu o Evangelho segundo Marcos parece ter vivido na Galiléia, a terra de Jesus, região vista pelo pessoal de Jerusalém e da Judéia, como lugar de gente atrasada, pobre e revoltada e ainda misturada com vizinhos gentios, povo impuro, que não conhece nem cumpre a Lei de Deus.
Muitos sitiantes da Galiléia haviam perdido tudo o que possuíam por causa dos impostos e dos juros altos cobrados pelos poucos judeus ricos que moravam em Jerusalém e faziam parte do Sinédrio. Partiam, então, para o cangaço. Formaram-se grupos de assaltantes, que se escondiam nas grutas e cavernas, assaltavam as caravanas romanas que passavam, e distribuíam nas aldeias pobres e famintas os alimentos arrecadados. Eles eram chamados de lestês, palavra grega em geral traduzida por “bandido”. Jesus, segundo Marcos, foi crucificado entre dois deles, como um “bandido”.
Esses cangaceiros ou “bandidos” da Galiléia estavam aumentando cada vez mais e cada vez mais ameaçavam liderar uma revolta contra a exploração dos ricaços e a dominação romana. No ano 66 (a morte de Jesus aconteceu no ano 30) eles se uniram, foram para Jerusalém, tomaram a cidade, mataram os sumos sacerdotes e outros membros do Sinédrio e queimaram os documentos da hipoteca de suas terras, que lá estavam.
Seus líderes davam a si mesmos o título de Cristo, Ungido ou Messias, Filho de Davi. Queriam encarnar a esperança do povo de ficar livre, tendo um novo Rei Ungido, um Messias, descendente de Davi.
A esperança e também o fanatismo eram grandes, especialmente na Galiléia, de onde saíram os “bandidos” que agora controlavam a cidade de Jerusalém. Mas seus diversos líderes também brigavam entre si. Essa “brincadeira” de tomar o poder de Roma fez com que, quatro anos depois, no ano 70, a cidade de Jerusalém e o seu Templo, centro da religião e da nação judaica, fossem destruídos.
A comunidade que nos deu esse Evangelho viveu no meio dessa fogueira toda, entre o ano 66 e o ano 70, entre a tomada do poder e a destruição de Jerusalém. A dúvida era: a comunidade cristã devia participar da revolução para ser solidária com o seu povo? Ou estavam todos endiabrados (e não é por isso que o Evangelho segundo Marcos fala tanto em possessos pelo demônio?) e os discípulos de Jesus deviam ficar de cabeça fria e pensar não no problema imediato da nação judaica, mas no problema geral, mais profundo e a ser resolvido a longo prazo?
O povo sofria muito, cheio de doenças, depressão, loucuras, tudo causado pela fome. Além de não conseguir pagar todas as taxas e impostos que Roma cobrava – e pobre de quem caía nas mãos de algum agiota! – a cada sete anos a Lei (Lv 23,11) proibia plantar, era o ano sabático. Plantando e colhendo, a miséria já era grande, porque Roma levava boa parte da produção, no ano sabático, então, a miséria era total.
A comunidade tinha fé em Jesus como Filho de Deus, não Filho de Davi. Filho de Deus vem como Deus quer, companheiro do povo. Jesus ajuda o povo a se organizar e não é um ungido “salvador da pátria”, que resolve tudo sozinho. Só ele poderia resolver a situação, sua chegada é a Boa Notícia (Evangelho) do Messias Jesus.
Os mestres de Jerusalém e o fanatismo dos revolucionários achavam que o povo judeu era tudo, que eles deveriam ser uma grande e poderosa nação, os outros não, os outros seriam os cachorrinhos deles. Para a comunidade dos discípulos, não! Jesus veio, não para resolver os problemas atuais do povo judeu, mas a fim de trazer a salvação para a humanidade inteira, para todos e para sempre. E não era preciso se preocupar com aquela “pureza” que o pessoal de Jerusalém exigia. Muitos não judeus entravam para a comunidade, pois também viam a esperança em Jesus.
O mais importante ao ver da comunidade é mudar as cabeças (metanoia), senão nada muda de verdade. As lideranças do judaísmo não aceitaram Jesus, ao contrário, levaram-no à morte. Mesmo na terra de Jesus, no meio da sua família, muitos achavam que era loucura acreditar nele e esperar dele alguma coisa, depois que ele já estava morto. Não entravam para a comunidade. Os que entravam, porém, se reuniam nas casas para crescer no conhecimento com Jesus. Na Galiléia, quando se reunia com os discípulos em casa, Jesus ia formando sua comunidade. Assim é ainda hoje.
Mas a tentação do poder atingiu também algumas lideranças, os que ficaram no lugar dos doze apóstolos. Pensavam no poder político como era exercido pelos romanos e pelos chefes revolucionários ou queriam que a comunidade cristã fosse também organizada do mesmo jeito. Não entenderam nada. Outros parecem uma “torcida”, acham lindo Jesus ser capaz de enfrentar a morte, mas... ficam de fora, batendo palmas. Poucos seguem Jesus de verdade.
Jesus salva, vencendo a arrogância com a humildade, vencendo a ganância com a doação de si mesmo, da própria vida. Ele realiza o que está nos poemas de Isaías (42,1-4; 49,1-6; 50,4-9; 52,13-53,12) que falam de um Servo do Senhor que sofre porque é justo, mas fica firme, vai até o fim e, ao final, os que o faziam sofrer reconhecem que ele estava certo e eles, errados.

A FIGURA DE JESUS Quem é Jesus? é uma pergunta que percorre a primeira parte do Evangelho de Marcos (até o capítulo 8,27). Os possessos (fanáticos) dizem que ele é o Messias-rei, mas ele os manda calar a boca! Pedro (8,27) confessa que ele é o Messias, Filho de Deus. Rei? De agora em diante a pergunta é: Que tipo de Messias é Jesus? Nada de general vitorioso, que toma o poder, organiza novo governo e distribui cargos de primeiro escalão (10, 35-37). A “glória” para Jesus não é o poder, é servir, é dar a vida pelos outros! Jesus é o Servo Sofredor, figura de um inocente, justo, que sofre como um condenado, até que os opressores reconheçam sua injustiça, e quanto o pobre sofredor e oprimido era justo. Essa figura se encontra em 4 poemas do livro de Isaías (42 a 53). Quando Jesus acaba de morrer, o Centurião romano, um gentio, reconhece Jesus como Messias, o Filho de Deus (15,39).
- Descobrir passagens do início até o cap. 8,27 onde Jesus proíbe que digam que ele é o Messias.
- Depois de 8,30 descobrir passagens onde Jesus diz que é um Messias sofredor.


DIANTE DO MUNDO Não é a tomada do poder que vai resolver a situação da humanidade. A mudança para o mundo virá da mudança de mentalidade (metanoia): Em vez de cobiça, competição, poder etc., colocar-se a serviço, dar a vida, sacrificar-se pelos outros. Isso é que é capaz de mudar o mundo. E a Igreja, a comunidade dos discípulos de Jesus, está a serviço não de si mesma, mas do mundo. Deve, com Jesus, aceitar ser condenada pelo mundo para salvar o mundo.
- Encontrar em Mc 6,30-44 a sensibilidade pelos problemas da humanidade, quais são esses problemas, como fazer para ajudar a humanidade a resolvê-los.


Mateus



A comunidade que nos deu o Evangelho segundo Mateus era uma comunidade de cristãos judeus. Vamos pensar nos cristãos de Jerusalém, os primeiros a aceitar a notícia de que o crucificado Jesus estava vivo e era o Senhor e Messias enviado por Deus. Com o tempo, por um motivo ou outro, muitos saíram da cidade, enquanto outros ficaram. Esses seguiram durante anos a orientação de um Tiago, parente de Jesus, conhecido por “Tiago irmão do Senhor”, que morreu apedrejado no ano 62.
Poucos anos depois, em 66, quando os revoltosos tomaram o poder em Jerusalém, os cristãos não aderiram à loucura de fazer guerra contra Roma e saíram de Jerusalém. Saíram até mesmo para fora da Palestina. Andando de um lugar para outro e tentando sobreviver, passaram por muitas dificuldades. Ficavam às vezes na praça da aldeia ou cidade, esperando que algum proprietário do lugar os contratasse para um trabalho temporário. A parábola ou comparação com esse fato só aparece no Evangelho segundo Mateus (Mt 20,1-16), pois nasceu de uma experiência vivida por essa comunidade. Por isso a gente pode dizer que este é o Evangelho dos bóias-frias.
Eles eram judeus e queriam que os outros judeus também se tornassem cristãos. Sempre tentavam convencer as pessoas, insistindo em que Jesus realizou tudo o que estava nas suas Escrituras.
Acontece, porém, que os fariseus eram fortes também. Muitos escribas, homens que explicavam a Escritura nos cultos da Sinagoga, eram fariseus. O mais famoso deles, Johanan Ben Zakai, ficou em Jerusalém. Quando resolveu sair, os revoltosos já controlavam a cidade e não permitiam que ninguém saísse. Dizem que Johanan se fez de morto e os guardas tiveram que abrir os portões para que os discípulos saíssem para enterrar o seu mestre. E assim os fariseus também saíram de Jerusalém. Seria lenda?
O fato é que depois da destruição da cidade e do Templo, Johanan Ben Zakai reuniu na cidade de Jabne (ou Jâmnia) outros escribas fariseus e ali resolveram que, a partir de então, todo judeu tinha que ser fariseu.
O Evangelho segundo Mateus foi escrito nessa ocasião (ano 85), quando se reuniram em Jabne esses escribas fariseus, a fim de decidir que quem não os seguisse, o cristão especialmente, devia ser expulso da religião judaica, da Sinagoga.
Assim ficou a situação: Havia três grupos de judeus, os que seguiam os escribas fariseus, os cristãos e os judeus que não eram cristãos nem fariseus. Os cristãos queriam atrair os outros judeus para a fé em Jesus, Ben Zakai e companheiros queriam obrigar todos a se tornarem fariseus. Os fariseus puxando para um lado e a comunidade dos discípulos de Jesus puxando para o outro, foi assim que nasceu o Evangelho segundo Mateus.
É fácil entender, então, porque ele cita tantas vezes as Escrituras do Primeiro Testamento, porque diz que Jesus não veio abolir essas Escrituras (a Lei e os Profetas) e porque critica tanto os fariseus e os escribas e também porque é tão judeu a ponto de dizer “Reino dos Céus” em vez de ‘Reino de Deus’.
Os essênios formavam um outro Movimento que havia no judaísmo do tempo. Esse Movimento era rival dos fariseus. Gostavam de chamar os fariseus de hipócritas, ou mascarados. Para os essênios o Messias era “O Mestre da Justiça”. Ele viria fazer com que todos observassem corretamente a lei de Deus em tudo. No Evangelho segundo Mateus Jesus é o verdadeiro Mestre da Justiça.


As marcas de Mateus



Assim este Evangelho tem algumas marcas ou características. Vamos tentar lembrar as principais:

ü O seu objetivo principal é confirmar e animar na fé aquela comunidade de cristãos judeus. Por isso, Jesus é a presença de Deus no mundo, o Emanuel, Deus conosco (Mt 1,23). Jesus está presente onde dois ou três se reúnem em nome dele (18,20), está no pobre sofredor que, no fim, vai julgar o que qualquer pessoa fez na vida (25,35 ss.) e estará com os discípulos até o fim dos tempos (28,20).
ü A palavra justiça está presente em todo o Evangelho. Jesus é o verdadeiro Mestre da justiça, ensina a verdadeira Lei de Deus e questiona a justiça do Império Romano.
ü Respeita muito o nome de Deus. Evita o quanto pode repeti-lo e muitas vezes em lugar da palavra Deus, usa a palavra “céus”, do jeito de falar dos judeus. Assim, “Reino dos céus” não tem a ver com o céu, é a mesma coisa que “Reino de Deus”.
ü Usa muito a Bíblia. Tudo o que acontece está realizando uma palavra da Escritura. Jesus é o Messias que os judeus esperavam, ele realizou as suas Escrituras.
ü É o único Evangelho que usa a palavra Igreja ou Comunidade. Os fariseus estavam reorganizando as comunidades judaicas em torno das Sinagogas. Era preciso que os cristãos também se organizassem em Comunidades. O Evangelho é um manual de catequese para as comunidades de cristãos judeus.
ü A comunidade cristã, com todas as suas falhas e limitações, é o “Reino dos céus”. Ai há terreno bom e terreno ruim, planta boa e planta ruim, peixe bom e peixe ruim, é pequeno e grande, fraco e forte, é pitada de fermento e semente de mostarda.
ü A comunidade tem organização e disciplina, pode expulsar quem não vive de acordo com seus princípios (18,15-18). O que a comunidade fizer aqui na terra, Deus aprova.
ü Tem autoridades que agem em nome da comunidade (16,19), mas que devem ser diferentes das autoridades do Império Romano (18,1-4; 20,25-28; 23,9-11).
ü Combate fortemente os fariseus, agora os seus principais inimigos. Critica-os direta e indiretamente. Eles são os culpados de tudo o que aconteceu a Jesus, que sempre desmascarava a hipocrisia deles.
ü Lembra sempre os personagens importantes da tradição judaica: Abraão pai de todos, a começar de Jesus, e Moisés, que deu a Lei no Monte Sinai, além de outros. Agora Jesus é o novo Moisés.
ü Teve dificuldades também com comunidades de cristãos não judeus ou gentios, especialmente as de Paulo que nos deram o Evangelho segundo Lucas. Essas se diziam inspiradas pelo Espírito Santo, rezavam muito, falavam muito em curas, milagres e exorcismos. Ver Mt 6,5-8 comparado com Lc 11,5-13 e Mt 7,21-23 comparado com Lc 13,26-27.

As palavras de Jesus nesse Evangelho estão agrupadas, por isso, nos 5 grandes discursos:
1. A Nova Lei de Jesus, ou seu grande projeto para uma nova sociedade (cap. 5-7).
2. Como divulgar esse projeto (cap. 10)
3. A realidade das comunidades, o Reinado dos Céus (Deus), neste mundo (cap. 13)
4. Que é comunidade? Cargos, união dos membros (cap. 18)
5. E agora, depois desse fim de mundo que foi a destruição de Jerusalém? Para onde vamos? Haverá um fim, um reino definitivo? Como preparamos isso agora? (24-25)




Lucas



Interessa muito pouco ou nada saber se o autor do terceiro Evangelho se chamava Lucas, se era o Lucas que Paulo chama de seu colaborador no final da carta a Filêmon ou se é o “querido médico” do final da carta aos colossenses, escrita por um discípulo de Paulo. O Evangelho foi atribuído a ele, por isso nós o chamamos de Lucas.
O fato é que o Evangelho nasceu em comunidades fundadas por Paulo, em Corinto ou outra, em qualquer hipótese, no ambiente daquelas comunidades. O autor, é verdade, escreve bem e capricha no contar as histórias. Na parábola do pobre Lázaro e do rico banqueteador, por exemplo, enquanto as migalhas não caiam da mesa do rico para o pobre, os cachorros lhe lambiam as feridas, curavam com sua saliva e se alimentavam com o sangue dele. Entre o cachorro e o pobre havia solidariedade.
Gosta de contar os episódios um por um até o fim, sem cruzar um com o outro. Por exemplo, fala da visita de Maria a Isabel, termina com a volta de Maria para casa e só depois fala do nascimento de João. Se Maria foi à casa de Isabel que estava grávida de seis meses e lá ficou por três meses, sem dúvida esperou o nascimento de João, mas Lucas não diz isso, manda Maria de volta para casa, para depois falar do nascimento de João.
As comunidades fundadas por Paulo vieram do mundo gentio, ou não judeu. Por isso ele tem uma visão mais universal. As comunidades paulinas estavam quase sempre nas grandes cidades como Tessalônica, Filipos, Éfeso, Corinto. Nesse mundo a corrupção era grande em todos os sentidos.
Havia muita desigualdade social. Em Corinto dois terços da população eram escravos. Esses sem estudo, sem poder e sem nome, eram a grande maioria na comunidade cristã (1Cor 1,26). Mas a panelinha de sábios, importantes e poderosos queria mandar na comunidade. Quando se reuniam para a Eucaristia, a Ceia do Senhor, esse grupinho levava comidas e bebidas gostosas e cada um comia o seu, sem repartir, e comiam antes que chegassem os pobres, humilhando a comunidade, os mais pobres (1Cor 11,17-22).
A comunidade de Tessalônica era na maioria de trabalhadores braçais. A comunidade de Filipos era de pequenos negociantes, mascates ou camelôs. Todos profundamente pobres, como Paulo diz em 2Cor 8,1-2. É uma característica do Evangelho de Lucas a defesa dos pobres.
Havia muita safadeza de ordem sexual (em Corinto havia o Templo de Afrodite, deusa da fertilidade, do amor ou do sexo, com mais de mil sacerdotisas ou prostitutas sagradas, as “servas da divindade”).
Ao contrário do mundo judeu onde as mulheres eram submissas e tinham de se cobrir, no ambiente onde nasceu este Evangelho as mulheres buscavam sua emancipação, eram mais valorizadas. E isso vai ter influência neste Evangelho.
Nas comunidades de Paulo, além disso, as mulheres tinham papéis importantes, Febe, por exemplo, era diaconisa ou ministra na comunidade de Cencréia (região portuária de Corinto), a mulher podia presidir a oração ou falar dentro da celebração, contanto que estivesse de cabeça coberta. Isso não acontecia no judaísmo, onde as mulheres tinham de se manter caladas. Daí o destaque que o Evangelho de Lucas dá às mulheres.
Paulo, um ex-fariseu, quando se tornou cristão, tornou-se missionário dos não-judeus. Para ele a idéia de esperar a salvação da observância dos 613 Mandamentos, o que, era a vida dele, virou entulho a ser jogado fora (Fl 3,8). Por isso foi pregar para os não judeus ou gentios. E essas comunidades aprenderam de Paulo que para nos guiar na vida como discípulos de Cristo basta um mandamento: o amor ao próximo (Gl 5,14).
Como fariseu ele aprendeu que os outros, especialmente os gentios, todos são pecadores, pois não conhecem nem seguem a Lei de Deus (Gl 2,15). Agora descobriu que todos, judeus ou não, são pecadores (Gl 1,4; Rm 1,18-3,20). Entendeu também que Jesus veio chamar os pecadores e não os justos. Por isso o Evangelho de Lucas é o Evangelho da misericórdia, ou dos pecadores.
O Espírito de Jesus Cristo é a nova Lei (Rm 8,1-2) e onde há o Espírito de Jesus Cristo aí há liberdade (2Cor 3,17). O Espírito Santo é a nova Lei, a lei que vem de dentro, é a grande força do discípulo de Jesus. O Espírito nos ensina a rezar (Rm 8,26) e rezar nos faz receber a força do Espírito. O Espírito Santo está fortemente presente em todo o Evangelho de Lucas.
Mas alguns podem ter levado ao exagero o pensamento de Paulo. Gente de Jerusalém tinha vindo às comunidades que ele havia formado para dizer que Paulo estava errado em não ensinar o sistema religioso dos judeus. Diziam que era preciso a pessoa, primeiro entrar para a religião judaica, para depois se tornar cristã. Paulo ficou muito bravo, disse que Tiago, irmão do Senhor, Pedro e João lhe davam todo apoio (Gl 2,9), mas também disse que a “Jerusalém atual é escrava com os seus filhos” (Gl 4,25) e diz “Expulsa a escrava e seu filho” (Gl 4,30). Será que estava proibindo dar atenção aos Apóstolos que, segundo At 8,1, ficaram em Jerusalém?
As comunidades de Paulo eram acusadas de negar a própria origem, de proibir o próprio judeu de seguir sua religião (At 21.21) esquecendo que sua fé tinha vindo do judaísmo, esquecendo que Jesus era judeu, que Jerusalém, o centro da religião judaica, foi também a fonte do cristianismo, pois foi lá que Jesus morreu e ressuscitou. E certamente foram acusadas também de fazer pouco caso dos Apóstolos.
O Evangelho segundo Lucas começa e termina no Templo de Jerusalém, além de muitas outras referências à cidade, diz que Jesus cumpriu todo o que diz a lei judaica e dá grande destaque aos Apóstolos. Assim ele responde a essas acusações.

FIGURA DE JESUS Jesus mostra o carinho especial de Deus para com todos os excluídos: os pobres, as mulheres, os pecadores discriminados, os samaritanos e os gentios
Jesus é o Salvador universal, veio para toda a humanidade homem de oração, exigente, radical. Mesmo na Paixão, ele não fica tão humilhado como o Jesus de Marcos; está sempre perdoando e salvando a todos. Ele é “o Senhor” ressuscitado que caminha conosco hoje ainda e que ficou com a gente para não deixar escurecer (24,13-35).

Descobrir os traços da figura de Jesus em um ou mais destes episódios que só se encontram em Lucas:

7,11-18; 7,36-50 e 8,1-3: 9,51-62; 10,25-38; 12,13-21; 14,1-12; 15,1-32; 16,19-31; 17,11-19; 19,1-10; 24,13-35


DIANTE DO MUNDO Quando o Evangelho é escrito, o Império romano está decretando que o cristianismo passa a ser religião proibida, inimiga do Império. Para não pôr mais lenha na fogueira, Lucas evita conflitos com o governo, até elogia as autoridades quando possível, mas mostra que alguma coisa tem de ser diferente. Não deve haver exclusão.

O mal da sociedade humana é ser uma sociedade de exclusão, quer dizer, uma sociedade que tem lugar só para quem tem dinheiro e onde a maioria fica de fora. O dinheiro ou Deus! O dinheiro é desumano, Deus é humano. “De repente a nossa vista clareou e descobrimos que o pobre tem valor!” A mulher precisa ser mais valorizada. A religião não é para enquadrar ninguém como pecador. O migrante, o que não é cidadão do lugar, precisa ser mais respeitado. E não deve haver discriminação.

EVANGELHO: - Os políticos: 13,31-33 - Ricos e pobres: 16,19-31 - A conversão do rico: 17,1-10 - Administrar bem é fazer aumentar as riquezas?: 16,1-8 e 9-15 - O que é ter temor de Deus: 18,1-8


João



A comunidade dos discípulos amados começou com judeus que esperavam o Messias como os outros judeus. Eram discípulos de João Batista e passaram a seguir Jesus. Isso pode ser observado no chamamento dos primeiros discípulos (Jo 1,19ss), diferente do que se encontra nos sinóticos. Notar que já não se fala em Filho de Davi nem em Rei dos judeus e, sim, Filho de Deus e Rei de Israel.
O capítulo 2 inicia com o começo dos sinais de Jesus, o começo é a Nova Aliança, a do vinho que anima e dá coragem, bem melhor do que a água sem sabor da antiga lei.
Logo devem ter entrado para a comunidade alguns que criticavam o Templo por causa de toda a exploração que ali havia e por causa da centralização do culto, como se Deus estivesse preso ali dentro. No Evangelho segundo João Jesus denuncia a exploração do Templo logo no começo, no capítulo 2, quando nos outros Evangelhos isso acontece só na última semana de Jesus. Isso tem sentido na história da comunidade, pois logo no começo a influência do grupo que criticava o Templo fez que a comunidade entendesse que o lugar de encontro com Deus não é só um. Jesus agora é o Templo, é nele que a gente se encontra com Deus.
No capítulo 3, Nicodemos, o Mestre de Israel, não entende Jesus. Vai procurá-lo no escuro da noite e no escuro continua.
Tudo isso abriu caminho para a entrada dos samaritanos (capítulo 4), pois eles não aceitavam o Templo de Jerusalém. Esperavam um enviado de Deus que não seria, é claro, o rei ungido (messias), filho de Davi. Esse enviado de Deus, para eles, viria de Deus mesmo, seria um novo Moisés (Dt 18,15), que viria de junto de Deus, trazendo a mensagem de Deus. Na conversa com a samaritana Jesus diz que Ele é esse mensageiro de Deus que eles esperavam. Os samaritanos terminam dizendo que Jesus é o salvador do mundo.
A entrada dos samaritanos fez a comunidade enxergar ainda mais longe. Jesus não é o Messias Judeu, o Filho de Davi, para salvar o povo judeu. Jesus é salvador para o mundo todo. Estava aberto o caminho para receber na comunidade também os gentios, as nações, os não judeus. Em Caná, onde Jesus iniciou os sinais com o vinho da Nova Aliança, ele dá vida ao filho de um gentio, um funcionário do Império Romano. Simboliza os gentios que entram para a comunidade dos discípulos amados.
Os chefes judeus já não devem ter gostado nada disso. Ainda mais que, quando o Evangelho foi escrito, os fariseus começavam a comandar a religião judaica e tinham decidido que quem não fosse fariseu, em primeiro lugar os cristãos, devia ser excluído das sinagogas.
A briga com os fariseus que acabaram dominando o judaísmo (por isso, chamados simplesmente de judeus) foi crescendo. Uma das teimas do judaísmo (como a dos Testemunhas de Jeová) é em defender o monoteísmo, só há um Deus e ninguém pode chegar perto dele. Jesus não passa de um homem comum. Nunca esteve com Deus e dizer que ele é Filho de Deus é perigoso, porque vão achar que ele é igual a Deus e dizer isso é uma blasfêmia contra Deus! Os judeus já dizem isso a partir do capítulo 5. E a comunidade dos discípulos amados finca o pé do outro lado: “Jesus é igual ao Pai, sim! Ele e o Pai são um só!”
Acabaram expulsando os cristãos das sinagogas (comunidades) deles (5,16-18; 9,34-35). Alguns abandonaram Jesus para ficar com os judeus (6,60-69; 12,42-43). A Comunidade foi para fora da Palestina (7,35), mas aí também encontrou dificuldades (15,18-21). O mundo não os aceitou. Teve grandes problemas, mas todos ficaram muito unidos (17,20-23). E descobriram uma coisa: ser discípulo de Jesus é dar a vida pelos outros, é amar do jeito que ele nos amou (15,12-17).
Outros cristãos, até gente importante, ligada aos Doze Apóstolos, inclusive a Pedro, têm certa dificuldade em aceitar isso. Parece que receiam o amor de Jesus, parece que não querem que Jesus dê a vida por eles (13,36-38; 13,6-8). A comunidade se apóia no testemunho de um discípulo que viu Jesus (19,35; 21,24) e que ensinou a não ter medo do amor dele, e não ter medo de ser amado e de amar como ele amou, morrendo com ele em favor dos outros (18,15). É o "Discípulo Amado"!

FIGURA DE JESUS Jesus vem do alto, vem de Deus e mora com Deus. Uma das perguntas que o 4o Evangelho sempre está fazendo é esta: “De onde é Jesus?” “De Nazaré?” “Senhor, onde moras?” - “Vem e vê!” “Felipe, quem me vê, vê o Pai!” Jesus já sabe de tudo, antes que alguém lhe fale. Tudo o que ele faz é sinal, sinal de coisas maiores. As pessoas não entendem Jesus corretamente. Ele fala em nascer de novo, Nicodemos acha que é para voltar ao ventre da mãe. Fala de água que mata a sede definitivamente, a mulher pede dessa água para não precisar mais procurar água. O discípulo de Jesus está com ele. Na Paixão, Jesus é sempre senhor da situação. Dá a vida livremente, porque quer, ninguém lhe tira a vida. Ele dá a vida e retoma novamente. Morrendo na cruz é glorificado. Glória é mostrar o que é amor verdadeiro. Quando pensam que estão condenando Jesus, ele é que está julgando o mundo e pondo para fora “o que manda nesse mundo” (12,31-33).
- Descobrir os traços principais da figura de Jesus em João meditando 9,1 até 10,21

DIANTE DO MUNDO Jesus é o cordeiro que tira o pecado do mundo. O pecado do mundo é um só: cada qual querer “beber o sangue” do outro, é a cobiça de poder e prestígio. A resposta de Jesus é esta: dar o sangue pelos outros. Amar do jeito que ele amou! O mundo está estruturado em cima da competição, da ganância, da exploração, do dinheiro. Esse mundo sempre vai odiar os discípulos de Jesus, pois não entende Jesus nem seus discípulos. Nunca será capaz de entender que a questão é dar a vida pelos outros e não aproveitar-se dos outros o quanto puder. É preciso que todos tenham vida e vida plena. Os que vieram antes de Jesus só vieram para explorar, roubar, matar, ele veio para que todos tenham vida e a vida plena. Ele não veio para condenar o mundo (humanidade) e sim para salvar. O mundo (estruturas de exploração) está condenado, mas o mundo (humanidade) pode se salvar.
- Presença dos discípulos no mundo sem se comprometer com as estruturas de exploração (17,6-19)
- Objetivo da comunidade (Jesus) e de outras instituições religiosas ou não (10,1-10) Nota: “entrar e sair” significa ter liberdade.