A COMUNIDADE DE TESSALÔNICA



Tessalônica era a capital da província romana da Macedônia. Era uma cidade tipicamente grega. Ali havia varias religiões e crenças nos deuses e heróis da mitologia; ali também morava bom numero de judeus, pois eles estavam por toda a parte, especialmente nas grandes cidades.

Como começou a comunidade cristã?
Paulo esteve em Tessalônica. Arrumou um emprego e ai ficou por um bom tempo, trabalhando firme para se manter (1Ts 2,9). Aos companheiros de trabalho falou de Jesus Cristo e daí começou a organizar uma comunidade cristã nesta grande cidade.

Quem fazia parte da comunidade?
Eram todos trabalhadores, gente da labuta, do suor, do cansaço, da obra, da produção. Essas palavras são empregadas por ele com freqüência na carta que escreveu aos tessalonicenses (1Ts 1,3; 2,9; 3,5; 4,11; 5,12-13; 2Ts 3,8.10-12).

Houve problemas?
Não correu tudo às mil maravilhas. Paulo foi perseguido e teve de sair correndo, sem acabar de organizar a comunidade. Ficou sozinho em Atenas e mandou seu companheiro Timóteo voltar lá, para ver se a comunidade continuava firme. Timóteo voltou para encontrá-lo. As notícias eram tão boas, que Paulo escreveu um bilhete que se encontra copiado (1Ts 2,17-3,13) dentro da outra carta mais longa que escreveu pouco tempo depois.

O pessoal já tinha fé? Tinha alguma esperança?
Entre os "Santos" ou heróis mitológicos mais populares em Tessalônica havia um, chamado Cabiros. Defensor dos pobres, ele foi assassinado e humilhado por seus irmãos, mas voltaria para realizar a libertação definitiva dos pobres. O culto a Cabiros, por ser tão popular, era patrocinado pelas autoridades. Era agora o padroeiro de Tessalônica, sua imagem estava em todas as repartições públicas. Não era mais só o herói e esperança dos pobres.

Como os trabalhadores de Tessalônica acolheram a pregação sobre Jesus?
O Jesus que Paulo pregou em Tessalônica, amigo dos pequenos, condenado à cruz pelos seus irmãos judeus, mas agora vivo e pronto a voltar e realizar em plenitude o Reinado de Deus parecia Cabiros. Para aqueles trabalhadores humildes de Tessalônica, o Messias Jesus vem devolver o sonho que lhes tinham tirado. Aceitaram, então, a pregação de Paulo na maior alegria e entusiasmo, prontos a resistir a qualquer perseguição. Paulo vê nesse entusiasmo e nessa coragem um sinal da escolha de Deus, o carimbo da verdadeira comunidade cristã (1Ts 1,4-10; 2,13-14).

Havia outros problemas no lugar?
Nas grandes cidades gregas a moral sexual era muito relaxada. O casamento nem sempre era respeitado, a desordem era grande. Paulo insiste, então, nessa questão, porque, se não houver respeito aí, como é que as pessoas poderão confiar umas nas outras, como é que a comunidade vai viver em harmonia? (1Ts 4,2-5).

Outras orientações de Paulo
União, trabalho e independência é que fazem uma comunidade forte (1Ts 4,9-12).
O entusiasmo com a volta de Jesus, o verdadeiro Cabiros, era tão grande que o pessoal começava a se preocupar com os que morreram. Achava que eles não iriam ver a volta de Cristo e a realização de todas as esperanças dos pobres. Um sonho tão bonito só poderia ser para logo, logo, achavam eles. Paulo deve esclarecer a questão (1Ts 4,13-18).

Organização da comunidade
Quanto à organização da comunidade, apesar de Paulo não ter tido tempo de terminar sua evangelização (3,10), mesmo assim, já havia algumas pessoas encarregadas de animar, encorajar e orientar a comunidade. Não era preciso ficar sempre esperando que Paulo mandasse novas ordens (1Ts 4, 12-13).


A COMUNIDADE DE FILIPOS



Filipos era a segunda cidade em importância na província romana da Macedônia. A primeira é Tessalônica. Colônia de militares aposentados, tinha gente de todos os cantos do mundo.

Como começou a comunidade cristã?
Paulo, Silvano e Timóteo passaram uma temporada pregando na cidade, mas foram muito perseguidos (At 16,22-23; 1Ts 2,2). De acordo com os Atos dos Apóstolos, Lídia, uma negociante de púrpura (tinta vermelha para tecidos finos), hospedou os na sua casa (At 16,14-15).

Como eram os membros desta comunidade?
Na comunidade muitos eram pequenos negociantes, tanto que, quando lhes escreve, Paulo usa com freqüência os termos próprios do comercio: lucro, prejuízo, dívida, crédito, conta, débito etc. (4,10-20). Eram muito pobres, porém animados, alegres e generosos (2Cor 8,1-6 e 9,1-5).

Organização
Havia um grupo de animadores, ou conselho da comunidade, chamados epíscopos (em algumas traduções: bispos), que significa “os que olham por”, e havia também ministros ou diáconos. Quer dizer que havia uma equipe de animação e coordenação (ninguém era “o coordenador” da comunidade) e havia distribuição de tarefas ou ministérios (Fl 1,1).

Valores da comunidade
Generosidade apesar da pobreza (2Cor 8,2-4); firmeza na fé em meio às perseguições (2Cor 8,1-3), capacidade de se sacrificarem uns pelos outros e humildade para caminharem juntos (Fl 2,1-4), participação na luta pelo Reino e fidelidade ao Evangelho sem preocupação de agradar os poderosos (Fl 1,27-30 // 1,12-27), bondade, serenidade, segurança (Fl 4,2-9), alegria, palavra que percorre toda a Carta.

A correspondência de Paulo com os filipenses
Na Bíblia há uma Carta aos Filipenses. Mas Policarpo de Esmina, 50 anos depois de Paulo, falava de “cartas” de Paulo aos filipenses. Podemos ver 3 cartas copiadas em uma só. Seria assim:
A- Paulo estava em Éfeso, animando a comunidade. As autoridades romanas mandaram prendê-lo. Por que? De certo dizia coisas de que os poderosos não gostavam, pois outros também falavam de Cristo sem criar problemas (Fl 1,12-18). Ao ficar sabendo que Paulo estava preso e passando falta, a comunidade juntou um dinheirinho e mandou Epafrodito ir a Éfeso levar a ajuda a Paulo. Ele enviou, então, um bilhete de agradecimento.
Está em Fl 4,10 a 20. Notar como 4,9 se liga direto a 4,21.

B- Epafrodito ficou em Éfeso dando ajuda a Paulo em nome da comunidade. Mas ficou doente, passou mal, por fim melhorou. Paulo, então, junto com Timóteo, escreveu outra carta, dando notícias de Epafrodito (2,19-30). Falou do que estava acontecendo com o próprio Paulo (1,12-26) e comentou a missão (2,12-17) e as dificuldades dos cristãos no mundo (2,27-30), tudo apoiado no modo de viver diferente que acontece dentro da comunidade (2,1-4), seguindo o caminho aberto por Jesus Cristo (2,5-11). Apesar da situação de Paulo (preso e ainda vendo outros falarem de Cristo só para insultá-lo) esta carta é muito bonita e só fala de alegria e no final dá bons conselhos para melhorar a comunidade (4,1-9).
Está do começo até o capitulo 3,1; depois continua de 4,1 até 4,9 e, depois, 4,21-23.

C- Mais tarde, porém, já fora da prisão, Paulo ficou sabendo de problemas sérios que tinham surgido em Filipos: O pessoal da comunidade vinha de religiões pagãs e não seguia a religião dos judeus, que exigia a circuncisão, guardar o sábado, não comer carne de porco, não comer isso, não comer aquilo, muita regrinha a respeito de comida. Paulo não tinha ensinado nada disso. Aí apareceram alguns dizendo que Paulo estava errado, que antes de se tornar cristã, a pessoa teria de entrar para a religião dos judeus e obedecer todas as normas daquela religião. Paulo ficou uma arara!
Vejam a carta ou trecho da carta que escreveu então, em Fl 3,2-21. Observar a mudança de tom entre 3,1 e 3,2.




A COMUNIDADE DE CORINTO



Corinto é uma grande cidade do sul da Grécia. Fica junto ao istmo (estreita faixa de terra, 6 km) que liga a península da Acaia ao continente. Tem dois portos (Lequeo do lado da Itália e Cencréia do lado da Palestina) muito movimentados, pois, passando as mercadorias de um porto para o outro cortam 300 quilômetros de viagem de barco. Em Corinto havia de tudo: gente de todas as partes, movimentos, religiões para todos os gostos, deuses de todo tipo, até da embriaguez e da prostituição. Ali tudo era permitido. Corria dinheiro. Havia muitos ricos. Dois terços da população eram de escravos, mais de 300 mil em menos de 500 mil habitantes. Aproveitar a vida, no pior dos sentidos, era o que se fazia em Corinto. "Corintiar" era o mesmo que “cair na gandaia”.

Como começou a comunidade em Corinto?
Paulo, perseguido, tinha saído às pressas de Tessalônica. Seu companheiro Timóteo voltou lá para saber como ia a comunidade. Paulo ficou sozinho em Atenas onde tentou pregar o Evangelho sem muito sucesso. Daí foi para Corinto, onde arrumou emprego na oficina de Áquila e Prisca ou Priscila. Falava do Messias Jesus aos companheiros de trabalho e fregueses, mas parecia um tanto sem ânimo. Ganhou nova vida quando Timóteo chegou trazendo boas noticias da comunidade de Tessalônica (1Tess 3,1-8). Paulo falou com muita humildade, sem discursos bonitos, testemunhando a força da fraqueza da Cruz de Jesus (1Cor 1,l7-25 e 2,1-5).

Como era a Comunidade que se formou em Corinto?
Numerosa, animada e até agitada. A maioria era de gente humilde (1Cor 1,26-30). O grupo dos "fortes" (os sábios, poderosos e nobres de 1Cor 1,26) era menor, mas tinha muita influência. Tentava criar tipos de fãs-clubes em torno dos nomes dos pregadores do Evangelho, como era moda na sociedade de Corinto (1Cor 1,10-13). Achavam-se muito sábios e, como gostavam de oratória, viviam discutindo quem falava mais bonito (1Cor 3,1-7). Apoiavam certas coisas erradas como o sujeito ficar com a mulher do próprio pai (1Cor 5). Em vez de resolver as questões econômicas entre irmãos, recorriam à justiça contra os próprios companheiros (1Cor 6). Eram muito "espirituais", só cuidavam da alma, por isso, uns eram contra o casamento, simples concessão à natureza (1Cor 7,1-5), enquanto que outros achavam que, sendo tão “espirituais", podiam bagunçar à vontade, nada poderia atrapalhar sua comunhão com Deus (1Cor 6,12-20). Os “fortes” desprezavam os "fracos", que achavam pecado comer carne numa refeição dos devotos de algum deus deles ou de animal sacrificado no culto aos ídolos (1Cor 8,1-13; 10,19-22). A Eucaristia ou Ceia do Senhor era numa refeição comum. Os "fortes" (espirituais, ricos e importantes) preparavam comidas boas e gostosas, mas comiam tudo antes de chegarem os pobres, os escravos ou empregados, que ficavam de lado e acabavam passando fome (1Cor 11,20-22.33). Uns se achavam tão “espirituais”, que não davam valor ao corpo e à ressurreição, imaginando que a passagem pela morte nada iria acrescentar à sua união com Deus (1Cor 15). Paulo sempre defende os "fracos".

Os carismáticos em Corinto
No movimento carismático de Corinto entrou também o espírito de competição dos "fortes". Parece que alguns desprezavam até o Jesus, pobre trabalhador morto na cruz. Achavam importante somente o Senhor, o Cristo ressuscitado, divinizado. Chegavam a dizer "Maldito Jesus!" (1Cor 12,3). A tentação era cada um achar-se melhor e mais importante do que o outro, achar que, tendo um dom que outro não tem, como falar em línguas, poderia desprezar os outros. Aí Paulo faz a comparação: um membro do corpo não tem ciúmes do outro, nem se acha melhor do que ele (1Cor 12). Depois fala do amor como caminho totalmente acima dos dons carismáticos e sem nenhum dos defeitos, como o espírito de competição, que podem acompanhar os "dons" (1Cor l3). O dom das línguas merece um tratamento especial (1Cor 14). O trecho de 14,33b a 35 não parece ter sido ditado por Paulo. Deve ter sido escrito mais tarde. Notar como, deixando de lado esse trecho, o pensamento de Paulo segue até com mais clareza. Não devem achar que, iluminados pelo Espírito Santo, estão dispensados de seguir qualquer outra orientação.


EM CORINTO: Problema serio: o Ministério de Paulo



Depois de l8 meses em Corinto Paulo saiu novamente visitando suas comunidades. Ficou 3 anos em Éfeso. Dai mandou uma primeira carta que ficou perdida, só se sabe que ele dizia para ninguém se juntar com quem se comporta mal (1Cor 5,9) (estaria em 2Cor 6,14-7,1). Mandaram-lhe, então, uma carta com grande numero de perguntas (1Cor 7,1 ss.) e pediram, inclusive, esclarecimento sobre uma carta mais antiga, esclarecimento que Paulo dá em 1Cor 5,9-13.
A 2Cor parece uma colcha de retalhos de diferentes cartas. Tentamos descobrir os cortes e as emendas de cada carta. Para começar, a carta anterior a 1Cor poderia estar em 2Cor 6,14-7,1.
Seguindo a ordem dos acontecimentos: Um grande problema surgiu em Corinto quando certas pessoas foram lá dizer que Paulo fazia tudo errado. Ele não obedecia, por exemplo, ao que Jesus mandou, que o missionário deve viver da ajuda do povo. Trabalhava para se sustentar, certamente estava querendo enganar o pessoal. Diziam que ele não era apóstolo coisa nenhuma (1Cor 9,2.12-19)! Outros diziam: Ele é muito fraquinho para falar; Apolo é que sabe falar bonito! Ele não foi companheiro de Jesus, não viveu com ele, Cefas (ou Pedro) sim!(1Cor 3,22-23; 4,1-13)
Preocupado com os falatórios, antes ainda de ditar a 1Cor, Paulo mandou de Éfeso seu companheiro Timóteo ir a Corinto por terra (final do inverno, difícil viajar de navio) para conversar com a comunidade. Na carta, que, no começo da primavera, mandou por mar, ele promete ir lá de novo (1Cor 4,14-21), mas pede que Timóteo volte logo com as noticias da comunidade (1Cor 16,10).
A coisa estava fervendo. As notícias, nada boas. Paulo escreveu uma outra carta (2Cor 2,14 - 6,13 + 7,2-4) só para defender o seu ministério, com muita firmeza, mas também com muito carinho.
Piorou! Agora já havia gente dizendo que Paulo só é bom mesmo para escrever, de longe. De perto, é medroso e não sabe falar. Não é capaz de enfrentar as situações (2Cor 10,1). Paulo foi, então, pessoalmente a Corinto. Foi duro! Um membro da comunidade, que dizia seguir uns "superapóstolos", enfrentou Paulo em público. Foi difícil ver aquela discussão (2Cor 13,1-2).
De volta a Éfeso, Paulo ditou uma outra carta, como ele disse, "entre lagrimas" (2Cor 2,4). A gente encontra uma essa carta em 2Cor, capítulos 10-13. Mas ficou tão preocupado, que nem esperou Tito, o portador da carta, voltar de Corinto; saiu de Éfeso e foi evangelizar em Trôade, esperando aí encontrar Tito, mas como ele demorasse, atravessou o mar para a Macedônia, ansioso por saber a repercussão dessa carta escrita "entre lagrimas" (2Cor 2,12-13; 7,5-7).
As noticias eram boas. Tudo tinha se acalmado: o pessoal resolveu deixar de ouvir os "superapóstolos" e continuar seguindo as orientações de Paulo. Ele, então, escreveu uma carta alegre, comemorando a reconciliação da comunidade. Essa carta se encontra em 2Cor 1,3 - 2,13 + 7,5-16.

A ajuda aos "Santos"
Paulo nunca pediu nada para si mesmo, mas fez uma campanha nas suas comunidades, para ajudar os irmãos da Judéia, os "santos", que eram muito pobres. Era um jeito de suas comunidades ficarem unidas às comunidades da Judéia (Gl 2,10). Ele mandou Tito a Corinto e às outras comunidades da Acaia, para organizar essa campanha. Deu-lhe duas cartas de apresentação uma para Corinto (2Cor c. 8) e outra para os vizinhos da Acaia (2Cor c. 9).





RESUMINDO: 2Cor 6,14-7,1: Carta antiga, anterior a 1Cor
Carta dos Coríntios a Paulo
1Cor: Respostas aos problemas levados oralmente e por escrito
2Cor 2,14-6,13 + 7,2-4: Carta defendendo a validade do seu ministério
Piorou. Visita intermediária.
2Cor capítulos 10 a 13: Carta "entre lágrimas"
Resolveu
2Cor 1,1-2,13 + 7,5-16: Carta de reconciliação com os coríntios
2Cor 8: Carta de recomendação para Tito recolher a Coleta em Corinto
2Cor 9: " " " " " " " na Acaia

O TEXTO ATUAL DE 2COR: 1,1 até 2,13 da Carta de reconciliação, 2,14 até 6,13 da defesa do seu ministério, 6,14 a 7,1 da Carta anterior, 7,2-4 da defesa do seu ministério, 7,5-16 da Carta de reconciliação, 8 e 9 Cartas de recomendação, 10 a 13 a Carta “entre lágrimas”.




AS COMUNIDADES DA GALÁCIA



Galácia ou região gálata era um território que ficava na atual Turquia. Só havia pequenas cidades. A população era composta de gente vinda da Gália, região da Europa que inclui boa parte da França atual. Era gente que gostava muito de saber novidades, mas também muito pronta para ajudar as pessoas. Entusiasmavam-se com facilidade. Era também gente amiga da liberdade, difícil de subjugar.

Como começaram as comunidades na Galácia?
Paulo passava pela região quando pegou uma doença séria nos olhos. O pessoal cuidou dele com o maior carinho. E ele aproveitou para falar de Jesus Cristo. A população nada conhecia da religião judaica e Paulo nada ensinou de suas observâncias e práticas (Gálatas 4,8-15).

Vida e organização da comunidade
Paulo não impôs aos gálatas as práticas do judaísmo como circuncisão, guardar o sábado, não comer carne de porco, não comer sangue, etc.. Só ensinou a seguir o Messias Jesus, a ser uma nova criação, começo de uma nova sociedade, matar essa sociedade injusta e morrer para ela junto com Cristo (Gl 6,14-16), viver de acordo com o Espírito e não conforme a "carne" (Gl 5,13-25). Deixou, porém, algumas pessoas encarregadas de animar e de esclarecer na fé (Gl 6,6), mas todos são incentivados a ajudar uns aos outros (Gl 6,1-10).

Problema sério
Chegaram à Galácia pessoas vindas de Jerusalém dizendo que era preciso primeiro entrar para a religião judaica através da circuncisão, aprender a seguir os costumes religiosos do judaísmo para, depois, tornar se cristão e salvar se. Diziam até que Paulo não era apóstolo de verdade e, então, deveriam seguir as orientações que eles traziam de Jerusalém, não as de Paulo. E o pior é que muitos foram nessa conversa!
Ao ficar sabendo disso, Paulo descarregou em cima dos gálatas uma carta... Chama-os de sem miolo e alucinados (Gl 3,1). Excomunga os que foram lá perturbar a comunidade querendo impor os esquemas da religião antiga, o judaísmo (Gl 1,6-9) "roga pragas" neles (Gl 5,10) e deseja que de tanto insistir em circuncisão eles acabem se castrando (5,12). Paulo fica até sem saber como falar sobre o assunto (Gl 4,18-20).

Valores
Paulo aprendeu dos gálatas e a todos ensina uma coisa importantíssima: o valor da liberdade! Ele tinha perseguido as comunidades cristãs por zelo pelo judaísmo. Ao se converter, descobriu que Jesus estava acima e fora daquilo tudo. Mas ele era fariseu fervoroso. O que ele aprendeu desde criança ainda pesava um pouco. Vendo os gálatas, contudo, pagãos sem nenhum compromisso com o judaísmo, aceitar o Evangelho com tanto entusiasmo e, sentindo também o seu espírito de liberdade, entendeu que devia ser mais livre ainda. Os gálatas, de certo modo, lhe ensinaram a liberdade (Gl 4,12). Cristo é liberdade, as práticas da religião antiga são escravidão (5,1-6). Batizados, somos filhos, não escravos (Gl 4,6-7), somos os verdadeiros descendentes de Abraão sem qualquer desigualdade (Gl 3,26-29).




AS COMUNIDADES DE ROMA



Roma era a capital do mundo. Todas as riquezas e todos os interesses corriam para lá. É evidente também que as novidades que apareciam em qualquer canto do Império logo chegavam a Roma.

COMO E QUANDO CRISTIANISMO CHEGOU A ROMA?
Ninguém sabe, porque foi o povo mesmo que levou. Quando, pelo final do ano 50, Paulo chegou a Corinto, encontrou lá um casal cristão, Áquila e Prisca ou Priscila, que tinha sido expulso de Roma pelo Imperador Cláudio.

COMO ERAM AS COMUNIDADES EM ROMA?
Estavam nos bairros judeus, verdadeiras favelas e "zonas". Os judeus de Roma eram muito pobres: os homens, vendedores ambulantes, ou viviam de “bico”, as mulheres olhavam a sorte, mandavam as crianças pedirem esmolas, etc.. Havia judeus e também não-judeus nas comunidades de Roma.

ACONTECIMENTOS IMPORTANTES
No ano 49 os judeus que não eram cidadãos romanos (a grande maioria) foram expulsos da cidade, exatamente por causa da agitação causada pelas discussões em torno de Jesus, o Messias crucificado. O escritor romano Suetônio fala de agitações provocadas por um “Chrestos”. Os “irmãos” que não eram judeus continuaram em Roma e continuaram firmes na caminhada.
Os judeus eram desprezados, não só por serem pobres, mas também pelos seus costumes diferentes, como ter um dia de descanso a cada sete dias, não comer isso, não comer aquilo, e principalmente porque, apesar de tudo, tinham muitos privilégios: o governo respeitava seu sábado, deixava-os praticar o seu culto, não os obrigava ao culto imperial, coisas que nenhuma outra nação conseguia.
Sem os judeus por perto, os cristãos que ficaram em Roma abandonavam práticas da lei judaica que achavam desnecessárias. As comunidades de Roma iam crescendo independentes da religião judaica.
No ano 54 Nero torna-se Imperador e revoga o decreto de Cláudio que tinha expulsado os judeus de Roma. Agora eles começam a voltar. Na Judéia a situação está quente, o povo cada vez mais revoltado, e cresce o movimento para não aceitar nada que signifique submissão ao Império romano, como pagar impostos, por exemplo.

PERIGO!
Os cristãos que ficaram em Roma receberam gente nova nas comunidades, fazendo-as passar apenas pelo Batismo, não pela circuncisão. E de muitas tradições judaicas ninguém mais se lembrava... Por outro lado, os “irmãos” judeus que voltam para Roma, vêm animados de fervor nacionalista, mais agarrados às velhas tradições e a cabeça cheia das idéias de revolução que rolam na sua terra. Os dois grupos (cristãos gentios e cristãos judeus) vão se entender? As comunidades vão rachar? Precisava ter muito cuidado!

A CARTA DE PAULO
Sem nunca ter estado em Roma, Paulo escreveu aos cristãos de Roma, agora na maioria gentios (Rm 1,13), para defender a igualdade entre o judeu e o não-judeu (o gentio) e mostrar que, só num ponto ou outro, um leva vantagem sobre o outro. Mas no fim estão empatados: Todos são pecadores (2,12 e 3,9), todos pela mesma fé em Jesus como Messias (4,17 e 5,1) mergulharam na morte dele através do batismo (6,3-4) e receberam o espírito de filhos de Deus (8,15). Os judeus foram chamados por Deus em primeiro lugar (9,4-5), mas agora, em sua maioria, não quiseram crer em Jesus (9,30-33) - Deus sabe o que faz, um dia eles chegarão à fé (11,25-26). Acima de tudo, porém, Paulo defende a união nas comunidades e cuida para que não criem caso com as autoridades (13,1-7), o jeito melhor de vencer o inimigo é fazer-lhe o bem (12,17-23). Diz que é a fé, não a mentalidade do mundo (12,2), que deve levá-las a encontrar seus caminhos. Isso se acha em toda a carta, mas, de maneira mais direta, nos caps. l2-l5. O capitulo 16 também merece ser lido. Paulo manda muitas lembranças. Observar que as comunidades (igrejas) se reúnem nas casas e que ele cita muitas mulheres como colaboradoras e ministras, coisa rara naquela sociedade machista.


A PRIMEIRA COMUNIDADE, EM JERUSALÉM



Jerusalém era uma cidade cheia de mendigos, biscateiros, desempregados, vendedores ambulantes, etc. pois a situação do povo que mora na Palestina não é nada boa, mas varias vezes ao ano os judeus ricos do mundo inteiro iam a Jerusalém por ocasião das grandes festas. Aí os mendigos e todos os que só conseguiam viver "de bico" se ajuntavam na cidade. Quando os discípulos de Jesus começaram a falar sobre ele, os subempregados e mendigos, foram dos primeiros a aceitar a sua pregação.

Jesus tinha anunciado a chegada do Reino de Deus, uma sociedade nova, sem qualquer discriminação ou desigualdade. Então a comunidade dos seus discípulos, que deve ser uma amostra desse Reino, não poderia ter também qualquer desigualdade.

Daí os três grandes princípios desta primeira comunidade:
1. A nossa força é a fé em Jesus Cristo alimentada pela Palavra de Deus e a oração. (Lado da Fé)
2. Entre nós não pode haver mendigo, ninguém pode passar falta. (Lado da vida comum).
3. Os de fora também precisam de nossa ajuda, a comunidade existe para a humanidade toda. (A tarefa no mundo).

É a seriedade do compromisso com esses três princípios que faz com que muitos se simpatizem com a comunidade e acabem pedindo o Batismo. É assim que a primeira comunidade converte as pessoas e testemunha que Jesus está vivo. A maior prova da ressurreição de Jesus é a coragem com que pessoas humildes como nós vivem o que falam, sem medo de nada e de ninguém.

O livro dos Atos dos Apóstolos três vezes narra como vive a nossa comunidade e a cada vez destaca um dos seus três lados, sem esquecer os outros dois:
1. O lado da fé. A fé recebida dos Apóstolos e alimentada pela Palavra de Deus e pela oração é que nos dá forças para colocarmos tudo em comum e fazer o bem a todos, ganhando a simpatia dos estra-nhos (At 2,42-47).
2. O lado da vida comum. Para que na comunidade ninguém passe falta, os que têm alguma coisa colocam tudo à disposição de todos, confirmando assim a fé na ressurreição do Senhor e sendo uma mensagem de esperança para os de fora (At 4,32-37).
3. O lado da tarefa da comunidade no mundo. O maior problema da região são as doenças, as fraquezas da cabeça (tormento do demônio dizem). A nossa fama, do que fazemos de benefícios para os doentes, é tal que dizem bastar a sombra de Pedro para curar um sofredor. (At 5,12-16).
A comunidade não tem defeitos? Já é o céu aqui na terra? Também não ! O livro dos Atos dos Apóstolos procura apresentar a comunidade de Jerusalém como modelo para todas as comunidades cristãs de todos os lugares e de todos os tempos. Por isso, não fala muito dos problemas e dificuldades.

Só fala de um casal que quis enganar a comunidade. Mas mentir para a comunidade e mentir para o Espírito Santo. Para nós morreu (At 5,1-10).

Fala também de umas briguinhas que começaram a acontecer entre o grupo de cristãos judeus de nascença (os hebreus) e o de cristãos judeus convertidos ou nascidos fora da Palestina (os de origem grega). Foi por causa da distribuição dos alimentos. Pedro não resolveu sozinho, nem só entre ele e os apóstolos. Reuniu a comunidade e a solução foi entregar a tarefa de distribuir os alimentos ao grupo dos que estavam reclamando, os chamados de origem grega (At 6,1-6).


A COMUNIDADE DE ANTIOQUIA



Antioquia é uma grande cidade, a terceira em tamanho em todo o Império. É a capital da província romana da Síria. Dizem que teria 500 mil habitantes. Aqui há gente de todas as partes do mundo.

Como começou a comunidade aqui?
Em Jerusalém começaram a perseguir os cristãos de origem grega, ou seja não originários da Palestina. Um bom grupo deles chegou a Antioquia e começou a falar de Jesus Cristo aqui também. Ao saber que aqui começava uma comunidade cristã nova, a comunidade de Jerusalém mandou para cá Barnabé, homem de confiança dos chefes (Atos 7,54-60.8,1-4. 11,19-24).

As novidades que trouxe esta comunidade
Parece que todos sentiam que estava começando alguma coisa nova. O Evangelho aqui não iria ficar só entre o grupinho dos judeus. Foi aqui que os discípulos começaram a ser chamados de cristãos. Barnabé sentiu que Paulo poderia ajudá-lo e foi buscá-lo em Tarso. Paulo que até então estava sozinho, tinha agora o apoio de uma comunidade. A comunidade crescia muito entre os não-judeus. Era uma grande novidade. Até então os discípulos de Jesus eram todos da religião judaica (At 11,25-26). E um dos primeiros resultados da fé daqueles não-judeus foi desprenderem-se do dinheiro e sentirem-se solidários com os pobres de Jerusalém que lhes tinham mandado a fé (Atos 11,27-30). Paulo acabou convencendo Barnabé e a comunidade de que era preciso levar o Evangelho também para as nações pagãs. E a comunidade de Antioquia foi a primeira a mandar missionários pelo mundo (Atos 13,2-3).

Problemas e dificuldades
Levar o Evangelho aos não-judeus significa não obrigá-los a se tornarem judeus pela circuncisão nem impor-lhes as normas da religião judaica. Significa deixá-los livres para seguir o Cristo e apenas ele. Apareceram, porem, "falsos irmãos" querendo que todos os que quisessem tornar-se cristãos entrassem antes para a religião judaica, primeiro a circuncisão e só depois o batismo. Isso não vinha sendo exigido em Antioquia! Começou uma discórdia. Paulo e Barnabé foram, então, a Jerusalém participar de uma reunião com os "colunas" da Igreja e ficou resolvido que os dois continuariam pregando livremente para os não-judeus. Só foi pedido que não se esquecessem dos pobres da comunidade mãe (de Jerusalém) (Gálatas 2,1-10).

Pedro (ou Cefas) foi a Antioquia. Aqui participava de tudo, inclusive refeições, com os não-judeus (o judeu não come com um não-judeu, por causa das "impurezas"). Quando, porém, chegaram indivíduos do lado de Tiago de Jerusalém, que não admitia de maneira nenhuma essas "misturas", Pedro se afastou dos não-judeus. Paulo, então, chamou-lhe a atenção publicamente (Gálatas 2,11-15).

Paulo e Barnabé saíram juntos em missão mais de uma vez. Depois do episódio de Pedro, contudo, Barnabé e João Marcos, também companheiro de Paulo, começaram a perder coragem de pregar com toda a liberdade aos não-judeus. Paulo se separou deles e arranjou outro compa-nheiro para suas missões (Gálatas 2,l3 e Atos 15,36-40).